Dawkins e a lógica abortista

Um grande esporte dos usuários da rede social é se indignar. Algumas isãoezes esse sentimento é justificado, em outros, sem sentido. Mas em certas ocasiões as pessoas se indignam com algum comentário polêmico sobre um assunto que elas concordam “em partes”. O caso recente é o do comentário feito por Richard Dawkins sobre o aborto de bebês com síndrome de Down.

Abaixo estão os tweets e as traduções

ss (2014-08-21 at 04.49.25)

– A Irlanda é um país civilizado, exceto em uma área: [link] Você pensaria que a Igreja [Católica] Romana tinha perdido toda sua influência

ss (2014-08-21 at 04.49.36)

– Eu honestamente não sei o que faria se estivesse grávida de uma criança com Síndrome de Down. Verdadeiro dilema ético.

– Aborte e tente novamente. Seria imoral trazer a criança para o mundo se você tivesse escolha

ss (2014-08-21 at 04.49.51)

– Tente novamente e traga um pequeno Adolf [Hitler] para o mundo? Pessoas com Síndrome de Down não fazem mal a ninguém.

– Eu li uma pequena história sobre isso. Sobre a mãe do Hitler quase ter feito um aborto. Eu acho que a história é do Roald Dahl.

Polêmico, não? Richard Dawkins, um dos mais famosos ateus do mundo, dizendo que é imoral deixar um bebê com Down sobreviver, e que o correto seria matá-lo. Naturalmente as pessoas anti-aborto se posicionaram contra esse absurdo. Até mesmo alguns favoráveis ao aborto ficaram bravos com o biólogo, xingando-o dos mais diversos nomes. Só que neste último caso as pessoas se portam como se o argumento pró-aborto, “pró-escolha”, que defendem fosse totalmente oposto à opinião do biólogo.

A pessoa pode ser ignorante da origem das ideias abortistas para não notar que a eugenia é uma das bases da indústria do aborto. A fundadora da rede de clínicas abortistas Panned Parenthood foi Margaret Sanger, que iniciou suas atividades com clínicas para distribuir métodos anticoncepcionais, com a desculpa do “planejamento familiar”. Mas a visão dela sobre eugenia era clara:

On the rights of the handicapped and mentally ill, and racial minorities:
“More children from the fit, less from the unfit — that is the chief aim of birth control.” Birth Control Review, May 1919, p. 12

Sobre os direitos dos aleijados e doentes mentais, e minorias raciais:

Mais crianças dos “melhores”, menos dos “piores” – esse é o principal objetivo dos anticoncepcionais.

Inclusive ela fez parte da American Eugenics Society.

Aborto é o modo mais seguro de terminar uma gravidez. Conheça os fatos sobre a pílula abortiva e o aborto clínico.

“Aborto é o modo mais seguro de terminar uma gravidez. Conheça os fatos sobre a pílula abortiva e o aborto clínico” – Imagem do site do Planned Parenthood

Margaret via o aborto como outro método concepcional, o mais eficiente, com o objetivo de controlar a população dos negros e de outros indesejáveis, na visão dela. Por meio de sua organização, do lobby e do dinheiro de muitas fundações, conseguiu um bom resultado nessa parte, já que o índice de aborto na população negra americana é altíssimo, cinco vezes maior do que de mulheres brancas. Aproximadamente treze milhões de bebês negros foram abortados nos EUA desde a legalização da prática por meio da decisão judicial Roe x Wade.

NYC: mais bebês negros abortados do que nascidos

Muitos podem argumentar que suas opiniões sobre o aborto não têm ligação com as origens da ideia nos EUA, e que só se preocupam com os “direitos das mulheres de decidirem o que fazer com o próprio corpo”. Mal sabem eles que a justificação do aborto foi alterada durante o tempo. Primeiramente, era um caso médico, claramente de controle populacional, como qualquer outro anticoncepcional. Recentemente, virou uma ação ligada ao “direito da mulher de controlar o próprio corpo”, ligada aos grupos feministas. A organização responsável por essa alteração foi o Population Council, fundada e financiada pela Rockefeller Foundation. Inclusive, aquele papo furado do “aborto até os três meses” foi abandonado, só é utilizado por quem quer defender a ideia sem parecer radical.

Mesmo conhecendo as origens nefastas da ideia do aborto, e suas consequências, alguns são abortistas por pura covardia e medo. Em um caso não tem coragem de discordar de opiniões politicamente corretas em meios universitários e em grupos feministas. Consequentemente, tem medo de serem taxados de fundamentalistas-direitistas-machistas-retrógrados por esses mesmos grupos.

“Sou a favor do aborto até os três meses, sou a favor da mulher decidir sobre o próprio corpo, mas sou contra o aborto no caso citado pelo Dawkins”, diz o defensor do aborto para se sentir moralmente superior que o biólogo ateu.

Mal sabe essa pessoa que o aborto em caso de bebês com algum tipo deficiência é comum, tanto que já se notou a queda brusca de nascimentos de bebê com a Síndrome de Down nos EUA:

“An estimated 92 percent of all women who receive a prenatal diagnosis of Down syndrome choose to terminate their pregnancies, according to research reviewed by Dr. Brian Skotko, a pediatric geneticist at Children’s Hospital Boston.

“Aproximadamente 92% das mulheres que recebem um diagnóstico pré-natal de Síndrome de Down escolhem terminar a gravidez, de acordo com a pesquisa feito pelo Dr. Bruan Skotko, um geneticista pediatra no Children’s Hospital Boston”

Qual a diferença entre a decisão da mulher de abortar uma criança para não atrapalhar a carreira e de abortar um bebê que pode trazer uma dificuldade maior na criação? Ou, melhor, qual seria o argumento para liberar o aborto pela “decisão da mulher” e não para o caso dela decidir sobre criar ou não um filho com alguma doença?

Só os pró-vida possuem o argumento lógico (e moral) para atacar o absurdo eugênico dito pelo ateu inglês. Além de não ser surpresa nenhuma, visto que quem estuda sobre o tema tem conhecimento dos desdobramentos lógicos da prática.

A opinião do Dawkins nada mais é do que uma consequência da ideia original de controle populacional, e condiz com a realidade da prática do aborto pelo mundo . Só há justificativas morais para condenar a opinião dele. Já pelos argumentos técnicos, práticos e políticos, Dawkins apenas teve a coragem de dizer o que muitos não assumem.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

21 comentários para “Dawkins e a lógica abortista

  1. Retina Democrática

    Não deixa de ser interessante a lógica utilizada pelas partes!
    Vamos abordar os fatos ou abortar os fatos ?
    A igreja?
    Que igreja?
    Muitos se dizem cristãos, mas é só discurso!
    Usar da igreja para justificar a prática do aborto é covardia intelectual
    A igreja não tem jurisprudência na sua relação com Deus !
    A relação é individual !
    O plantio é livre mas, a colheita é obrigatória
    Outros se dizem ateus…
    Vamos encarar os fatos?
    O direito romano tem um banco de dados das maldades humanas e de suas possíveis penas.
    É um trabalho inútil feito por advogados e por juristas, na sua maioria SOFISTAS, uma verdadeira queima monstruosa de fosfatos, quando se sabe que, Roma não conseguiu destruir o cristianismo mas antes, foi convertida por ele! INCRÍVEL !?
    A abordagem do cristianismo é um pouco diferente, contém apenas um item : VIDA !
    Quanto você a ama?
    Os diversos tipos de amor, não podem ser substituídos por produtos menos trabalhosos!
    “Brincar” com a vida, pode dar muito trabalho!
    Se você não quer a obrigação que o prazer natural te traz, não seja covarde, troque de prazer, não de obrigação, até se tornar um adulto e encarar os fatos! Não tem almoço grátis!
    Os fatos são claros, minha liberdade individual não é uma jurisprudência para eu ignorar que a vida dá trabalho, traz prazer, e obrigações! Uma vida devotada apenas aos prazeres é viciosa e alienante !
    Assumir a obra de suas próprias mãos, não depende de uma igreja, ou de um clube de ciências pagão, depende apenas de caráter. Simples não?
    Respire fundo, tome um copo de água e sinta o prazer de estar vivo, antes de “mexer” com o fogo da vida! Está pronto(a) ? Use camisinha ! A SIDA está solta por aí !

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  2. Bleargh

    Não há como negar que o comentário do Dawkins é plenamente coerente com o princípio “meu corpo, meus direitos”. Afinal, se você acha que a mulher tem direito irrestrito ao aborto, deve automaticamente defender que uma mulher queira o aborto por motivos de deficiências quaisquer.

    Aliás, você deve também aceitar que uma mulher queira o aborto porque não quer perder aquelas férias já planejadas. O motivo é simples: o direito à “escolha” pressupõe que a mulher possa fazer absolutamente qualquer escolha. Se você repete o mantra “meu corpo, meus direitos” mas fica todo ofendidinho com esses exemplos, você está negando o princípio que diz defender.

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  3. Luis Antonio Ferreira do Nascimento

    Não é tratamento matar o paciente.
    Não podemos decidir pela vida alheia.
    Uma sociedade que não protege os mais fracos é uma sociedade composta por DEFICIENTES MORAIS.
    A pior forma de exclusão social é excluir o deficiente físico ou mental da existência.
    Todos nós podemos nos tornar um dia portador de necessidades especiais. O que será de nós neste dia, se hoje aceitarmos matar pessoas incapazes de se defender, devido a não corresponderem a padrões de excelência? Somos seres humanos e não máquinas para serem descartadas se apresentarem defeitos.
    Temos que construir uma sociedade solidária.
    Somos a razão de ser da sociedade, e não peças da máquina da Sociedade de Consumo, que consome valores e vidas.

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  4. Danilo Geber

    Digamos que nesses estados americanos em que a mulher é livre para fazer o aborto o pai ainda sim queira ter o filho, o que aconteceria? Todos sabemos que a mulher sempre tem mais direito sobre o filho, porém numa situação delicada dessa em que a mulher não quer a criança e o pai quer, o que realmente acontece e o que deveria acontecer?

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    • Luiz

      Obviamente se a base da argumentação é “meu corpo, minhas regras” (e não estou afirmando que essa base é válida, só estou dizendo que partem daí), então o pai não tem direito nenhum de impôr a sua parceira sexual a obrigação de conceber aquela criança. Vai ter que cruelmente se sentir co-culpado de um ato que não pretendeu cometer.

      De modo semelhante, mas com “o sinal trocado”, temos o problema inverso. E se o pai quiser abortar, mas a mãe quiser manter o filho? Ele não tem o direito de impôr a ela o aborto (lembre-se, “meu corpo, minhas regras”). Mas com o nascimento do filho o pai terá a obrigação financeira de cuidar da criança? Por que, se a idéia dele era abortar (e essa idéia é supostamente válida, sem considerar nenhuma moral objetiva)? Não cria-se assim uma falta de isonomia? Será que então teremos que criar o “aborto legal”, um papel que o pai assina abstendo-se de ter qualquer responsabilidade com o filho, pois sugeriu o aborto e a mãe não o aceitou? Seria isso uma justiça e uma sociedade pretendida?

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    • Daniel

      Não, não é a mesma coisa, o neo-ateísmo é um movimento bem delimitado de ateísmo militante moderno, representado inicialmente por Dawkins, Harris, Hitchens e Dennett a partir de influências de ateus considerados “tradicionais” como Sagan, Russell e Rand. O neo-ateísmo é marcado pelo antiteísmo e uma auto-propaganda que coloca o ateísmo e antireligião como uma moral superior à moral da humanidade até aqui, pode ser classificada como uma forma extremada de humanismo secular que culpa a religião pelas mazelas da sociedade, muitas vezes baseando-se em argumentos infundados e apelos emocionais rasteiros.

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  5. Roberto

    É engraçado: os descolados perdem um tempo danado procurando justificativas para o que qualquer pessoa mais ou menos equilibrada denomina assassinato.
    Hoje é “Down”, amanhã é uma deficiência física qualquer, e por aí vai. Mais um pouco e ninguém mais se lembrará de Mengele, isso se não passarem a reverenciá-lo, se é que me entendem…

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  6. Alvaro Risso

    Osmar, as suas palavras no texto, de que “só os pró-vida possuem argumento lógico (e moral) para atacar o absurdo eugênico” explicita sua posição sectária sobre o assunto. Enquanto o aborto for discutido baseado em “paixões” não se chegará a nenhum resultado. Há milênios, o ser humano vem pesquisando e procurando cura para os seus males, resultado, muitos deles, de erros naturais, sem uma causa de ação humana. Todo o avanço tecnológico e científico, vem, na maior parte das vezes, ajudar a humanidade a melhorar sua vida. Então vamos ao seu posicionamento: você acha justo e certo que se faça transfusão de sanguínea num feto para evitar sua morte certa (natural), que se faça uma cirurgia cardíaca nele para, idem, evitar sua morte certa, mas não concorda com a interrupção da gestação de um feto com um erro genético, incurável portanto, através da ciência. Qual a diferença, no seu conceito, entre essas intervenções. Ah, vc dirá, os dois primeiros são para salvar a vida enquanto que o terceiro não. Será? O feto com o problema genético terá uma “vida” como achamos que deva ser uma? Antigamente não tínhamos como saber dessas coisas e só víamos o resultado após o parto. Hoje a ciência nos tirou dessa incerteza. Devemos utilizá-la, ou não? Ou só parcialmente como vc deixa transparecer? O que quero dizer é que este é um problema complexo, religioso-existencial, ético-científico que não dá para aceitar que, como o texto mostra seu pensamento, só o seu seja lógico, moral e o dos outros um absurdo.

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    • Blender Guy

      “O feto com o problema genético terá uma “vida” como achamos que deva ser uma? ”
      Eu acho meio arrogante de nossa parte falar pelo outro se a vida dele será tão boa quanto a de quem não tem síndrome de Down. Isso é uma coisa que vale da pessoa. Esse sujeito, por exemplo, não tem braços nem pernas, mas vive muito bem assim:
      https://www.youtube.com/watch?v=1zeb-k-XzaI

      Claro, vai existir aqueles que vão achar essa vida penosa, e prefeririam morrer (um direito deles, e acho que não há nada de imoral nisso, pessoalmente). Nesse caso, eles poderiam optar pela eutanásia, que é um tipo de liberdade que eu defendo. Basicamente, o que estou dizendo é que argumentos desse tipo são, sem querer ofender, “arrogantes”, pois você se põe no direito de decidir o que o outro vai achar da própria vida. De novo, você pode estar certo, e o outro pode mesmo odiar viver sem uma perna e preferir morrer (eu, por exemplo, odiaria viver com Alzheimer), mas há casos como o do vídeo que eu mostrei.

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    • OsmarOsmar Posts do autor

      Você praticamente respondeu, mas acabou relativizando.

      Um caso é um assassinato, matar um inocente. No outro, é o uso de técnicas médicas para salvar uma vida. Vida não pode ser relativizada, inclusive com o pensamento eugênico de só deixar os “perfeitos” sobreviverem.

      Se você não consegue diferenciar as duas atitudes, matar e salvar, não tem como concordar em nada.

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    • Renan

      Como é que você vai julgar a vida de um bebê se ele ainda nem nasceu? Se vai ser boa ou ruim? O certo é, invariavelmente a preservação da vida de um inocente, mesmo dos miseráveis, pois enquanto houver vida, haverá esperança.

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    • Luiz

      Todo mundo já chamou a atenção, mas vou insistir…quem te condecorou Deus para saber o que é uma vida que “vale a pena ser vivida” ou não?

      Seguindo a mesma lógica, devemos limitar o número de filhos que as famílias devem ter, afinal, a partir de uma dada quantidade de filhos a renda familiar se torna pequena demais para prover uma “vida que val e a pena ser vivida”.

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