Videogames, violência e a lição importante disso tudo

abobo

A soma de sensacionalismo e preguiça intelectual geralmente produz imbecilidades perigosas, do tipo de que no calor dos fatos consegue conduzir até mudanças nas leis. E agora, diante da tragédia recente com uma família inteira morta, sobrou para os videogames “violentos”.

Segundo os adeptos dessa tese, quem joga os games mais “violentos” tem chance de tornar-se também violento. As evidências científicas, claro, não existem. Mas isso não impede que programas de TV do tipo “sangue nos olhos” adotem o raciocínio sem demonstrar qualquer vínculo causal concreto.

O simples número de jogadores de videogame contraposto ao número de jovens que cometem crimes violentos é o bastante para desmanchar qualquer especulação que se pretenda minimamente séria. Seria o mesmo que culpar refrigerantes, filmes, masturbação ou qualquer outra atividade praticada pela esmagadora maioria dos jovens.

E daí tiramos uma lição que serve também para outros casos. Da mesma forma que culpam o videogame, há os que jogam a culpa pra cima de fatores outros que não a decisão do próprio indivíduo quanto ao ato violento – ou, em caso de insanidade permanente ou temporária, ser ESSA a causa principal, e não fatores outros sem participação determinante.

Serve de exemplo o triste caso de jovens criminosos (não só os que matam a família em casa ou saem atirando em colégios). Há quem defenda a tese de que isso ocorre por conta da pobreza, pela desigualdade social, enfim, por fatores externos.

Bobagem, também.

A maioria avassaladora de quem joga videogame não é formada por jovens violentos no seu dia-a-dia. E isso vale para o grande e absurda maioria dos jovens de baixa renda, que não é composta de indivíduos violentos ou criminosos. Quem parte para esse caminho é a minoria da minoria da minoria.

Para que um elemento se torne CAUSA ou ao menos tenha alguma influência num fato, é preciso que isso ocorra com um número razoável de indivíduos, uma amostragem minimamente considerável. Em caso contrário, não há relação direta de causa-efeito, mas sim um fator coincidente que NÃO PODE ser usado como algo vinculante – sob pena de revelar burrice ou intenção ideológica ridícula.

Desse modo, não há qualquer relação entre games violentos e jovens criminosos. Como não há também nos casos de situação econômica. Valendo também para desenhos do Pica-Pau, brigas de Tom & Jerry, Gigantes do Ringue, UFC, Os Três Patetas, Bud Spencer e Terence Hill e qualquer outra coisa do gênero.

A prática do crime, especialmente quando violento, é uma decisão do indivíduo. Mesmo se for “louco”, que se culpe a loucura, mas não fatores a que estão submetidos todos os demais que NÃO COMETEM CRIME ALGUM.

Esse é um primeiro passo lógico que certamente ajudará na redução desses casos. Larguem o sensacionalismo e se atenham aos fatos. As tragédias são graves demais para a exploração imbecil que se faz por aí.

14 comentários para “Videogames, violência e a lição importante disso tudo

  1. Luciano

    Como já comentaram antes, a única contraindicação para os jogos é que levam a abstinência sexual., fato que colabora com a redução das DST ( doenças sexualmente transmissíveis). De resto, em particular os chamados “shooters”, os jogos colaboram para a socialização e o respeito a regras pré estabelecidas: trabalhe em grupo, respeite os adversários e nunca trapaceie.

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  2. Arthur Silva de Souza

    “A prática do crime, especialmente quando violento, é uma decisão do indivíduo. Mesmo se for “louco”, que se culpe a loucura, mas não fatores a que estão submetidos todos os demais que NÃO COMETEM CRIME ALGUM.” Gravataí Merengue que é o autor do texto acima acabou com uma discussão que a muito permeia o direito e a psicologia ao dizer tal afirmação. é pra rir ou pra chorar????? juristas, psicologos, psicologos forenses já se deem por satisfeitos ele já tem a resposta para o porquê dos crimes violentos. esqueçam DSM IV e tudo o que aprenderam na faculdade. é cada barbaridade que vou te contar hein………..

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  3. Arthur Silva de Souza

    chamem um especialista em comportamento humano para dizer o que é ou o que não é e parem de ficar “chutando” ou ficar do “achismo” da explicação dos porquês do assunto. esse é um dos grandes problemas, quando surge questões como essa não há uma palavra de alguém que realmente entende do assunto falando, só um bando de leigos com seus achismos.

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  4. Carlos

    Acho que resume melhor: apenas 0,001% dos indivíduos que consomem paracetamol morrem em função de complicações no fígado. Se a tua lógica estivesse correta, graves complicações no fígado não constariam na lista de possíveis efeitos colaterais do consumo de paracetamol.

    Abs!

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  5. Carlos

    Não vou defender nenhuma opinião, apenas indicar um pequeno erro de raciocínio. No texto você confunde um pouco as coisas. Análises estatísticas podem até indicar relações de causa e efeito, mas nunca desqualificá-las, especialmente da forma que você expõe. Vou dar dois exemplos ilustrativos:

    1- Imagine que 90% da população mundial consuma frituras diariamente (suposição apenas, só para ilustrar). Se desse total, 80% não desenvolvem câncer de estômago, isso não quer dizer que aqueles que desenvolveram a doença não a tenham desenvolvido em função do consumo excessivo de frituras, entende?

    2- O mesmo tipo de lógica que você usou é também usada para desqualificar a relação entre consumo de pornografia e índice de estupros. Mesmo que num determinado espaço geográfico o consumo de pornografia tenha aumentado e o índice de estupros diminuído, isso não seria suficiente para PROVAR que os estupros ocorridos não tenham sido praticados por pessoas influenciadas pelo desenfreado consumo de pornografia. Talvez o índice de estupros tenha baixado em função de outras variáveis (menor impunidade, por exemplo). Esse tipo de hipótese só poderia ser validada com algum grau de pesquisa qualitativa, não apenas com a comparação de índices desconexos. Se fosse possível entrevistar cada estuprador (ou pelo menos uma amostra qualificada) contando com perfeita honestidade de suas respostas, aí sim poderíamos dizer se a pornografia é ou não uma possível causa. O mesmo vale para videogames.

    Repito, não estou argumentando em favor de uma relação de causalidade entre videogames e violência, ou entre pornografia e estupros. Estou apenas apontando para um erro lógico na argumentação.

    Abs!

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  6. André Campos

    Se preferem ser simplistas e unidimensionais, é melhor perguntar se esses programas sensacionalistas que vivem de fatos violentos também não influenciam a violência…
    takiopariu. Ótimo texto!

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  7. Fernando AS

    Cara, eu aposto minhas parcas economias que a histeria sensacionalista com os jogos ditos “violentos” ainda será capitalizada de forma oportunista pelo nosso maravilhoso governo com a criação de uma agência reguladora de jogos eletrônicos. Aliás, fico surpreso que até hoje não tenham lançado essa proposta.

    Por isso mesmo fiquei chateado ao ver um cara como o Marco Antonio Villa, que eu respeito bastante, subscrevendo a tese do “videogame gerador de sociopatas”. Mas… todos nós temos direito a falar besteira de vez em quando; o Villa não é exceção.

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  8. Epamimondas

    Se um jovem comete um ato terrível de crueldade e encontram videogames em seu quarto, a culpa do ato são os videogames; mas se acham um crucifixo e uma bíblia… Tudo bem, foi só um momento de infortúnio

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