Modelo falido: metade do preço da gasolina é imposto

É fato e a nota fiscal abaixo confirma: praticamente metade do preço do combustível são impostos.

nota_gasolina_impostos

Alguns (geralmente de humanas, não muito afeitos às contas) dirão que isso é bom. Pois bem: é péssimo. O exemplo mais perfeito de incompetência gerencial do estado.

Simples: uma diminuição relativamente significativa (nem precisa ser muito drástica) no consumo de combustíveis repercute diretamente nas receitas do governo que, diante da queda na arrecadação, precisará de dinheiro – implicando em aumento de tributos ou criação de novos, pois não há outra forma da administração pública receber grana.

Há muitos carros no Brasil e, como metade do preço da gasolina são impostos, é NECESSÁRIO e FUNDAMENTAL para o governo que continue havendo uma frota gigante. Não pode diminuir, pois diminui também a arrecadação e assim o governo quebra. Eis a sinuca.

Daí a lógica naqueles descontos de IPI. A compra de automóveis não implica apenas na manutenção dos empregos nesse segmento industrial, mas também e principalmente na sustentação das receitas da administração pública. O governo “perde” ao conceder desconto no IPI, mas recupera tudo na tributação do combustível.

E soma-se a isso o fato de que, no Brasil, os preços dos carros e da gasolina são altíssimos, não apenas pelos impostos, mas também pelo lucro. Procurem os balanços globais de algumas montadoras e verão que nosso país segura as pontas de algumas delas.

Quanto ao lucro, nada contra, pois quem compra um carro antes de tudo aceita seu preço. Mas isso não exime o governo de críticas quando impõe barreiras para montadoras de fora que pretendem vender com menos lucro – ou não permite o efetivo livre mercado nos combustíveis.

O sistema todo, portanto, é falido e até bizarro: muitos carros, muitos tributos, preços altos e inexistência de concorrência efetiva nos setores de automóveis e combustíveis.

Há duas opções: quebrar esse ciclo (antes que o próprio país quebre), permitindo efetiva concorrência nos mercados de gasolina e carros. Ou então manter o modelo atual, com aumento constante na frota e no consumo de combustíveis.

Adivinha qual o governo tem adotado?

9 comentários para “Modelo falido: metade do preço da gasolina é imposto

  1. Bruno

    A racional do texto é perfeita. As montadoras no Brasil só fazem carros capengas, muitos deles nem seriam autorizados a circular em outro “tipo” de países. Mas sem duvida para elas, as tetas da vaca no Brasil podem permitir a elas – montadoras – continuar a viver.

    Vejam aqui quanto custa a Hilux no México (modelo gasolina, com uns 150 cv’s, escolhi a mais cara):

    http://www.toyota.com.mx/veh%C3%ADculos/camionetas/hilux.aspx

    $300.000 pesos mex = +/- $23.500 dólares dos Estados Unidos da América !

    E aqui a comparação dos preços de combustiveis:

    http://www.mytravelcost.com/petrol-prices/

    Sendo o Brasil autosuficiente em petroleo (Lula dixit), está muito à frente de outros grandes produtores mundiais.

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  2. Fabião

    O pior, o combustível já pode ser considerada um insumo básico e ainda sim é absurdamente taxado. A gasolina sobe, o ônibus tem que subir, o frete (que no nosso lindo país é quase 100% rodoviário) de tudo tem que subir, e etc.

    Soma isso ao lucro absurdo das empresas (lembra que em 2008 fiat, chevrolet, peugeot, e mais 200 empresas gigantes seguraram as pontas por causa dos lucros daqui) e ai você vê porque a gente paga caro em tudo.

    PS.: fala pro garotão de exatas defensor do passe livre fazer essa conta ai de diminuir o imposto pra diminuir o preço do transporte pública pra vc ver, a cabeça do mano explode.

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  3. Rodrigo Neves

    Bom texto, e sobre uma questão bastante relevante.

    Não sei se você já participou ou conhece o Dia da Liberdade de Impostos, que o Movimento Endireita Brasil, junto de outras entidades, organiza todo ano justamente pra mostrar o absurdo da carga tributária sobre a gasolina.

    Se tiver um tempo, gostaria de conversar contigo sobre o tema!

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  4. MJ

    No Brasil, a tributação ocorre principalmente no consumo (ICMS, IPI). Nos países mais desenvolvidos, ocorre principalmente no IR, sobre o lucro. Assim quem ganha mais paga mais..

    Outro exemplo de má tributação, é a cobrança de impostos sobre remédios, é o governo lucrando até com a nossa doença.

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  5. Priscila

    Não tenho dados sobre isso, mas me parece que a demanda por combustíveis seja inelástica em relação ao preço. Nesse caso, um aumento na carga tributária leva a um aumento na arrecadação.

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  6. André Bastos

    Transferindo pra cá a discussão do Facebook. O imposto sobre a gasolina é alto pra fazer caixa do governo federal mesmo. A leitura está correta. Quando falamos de trânsito nas grandes cidades, temos que lembrar que isso é um problema de mobilidade urbana, não das cidades médias e da zona rural. Não baixar os impostos pra não inundar as cidades grandes de carros é fazer injustiça com quem usa o carro nas cidades menores. Simples: preço decente na gasolina + pedágio urbano. Cobrar a conta de quem causa o problema: o veículo particular na cidade grande.

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    • Roberto

      Discordo: quem causa o problema não é o “veículo particular na cidade grande”. Seu uso é conseqüência da falta de transporte público abundante e de qualidade. Ver nos veículos a raiz do problema é ignorar o que (não) é feito dos impostos que são com eles arrecadados.

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      • Andre

        Um veículo particular (penso num carro popular) ocupa cerca de 6 a 8 metros quadrados de via (e transporta até cinco pessoas). O transporte coletivo urbano transporta de 30 a 40 pessoas nesse mesmo espaço.

        Isso mostra que são “serviços” muito diferentes e que um não pode concorrer com o outro pelo mesmo espaço de via.

        Quem tem carro, tem porque quer. Voce pode me dizer que tem porque seu trabalho é longe, mas não pode negar que quem vai trabalhar de carro vai com mais conforto e agilidade do que quem espera o ônibus.

        A grande discussão quando se fala em congestionamento é o uso do espaço urbano. Foge muito ao princípio da liberdade defender mais faixas exclusivas para ônibus e pedágio urbano, mas o debate sobre a mobilidade “coletiva x individual” também viola muitas hipóteses da economia “de competição”. Nem todos os indivíduos tem a mesma renda, o trajeto é variável, há economias de escala (é mais barato “per capita” transportar 100 passageiros num ônibus do que em 100 veículos), há externalidades positivas ambientais.

        Não basta o preço da gasolina ser justo ou injusto (aliás, veja meu post acima, em que eu defendo que seja menor). O problema é que o veículo particular polui mais e ocupa mais espaço por passageiro transportado. Debater o preço da gasolina e o pedágio urbano sem levar isso em conta é ingênuo.

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