O novo queridinho da imprensa americana

Rouhani

Na passada semana, pouco antes do “fechamento” do governo americano, o recém-eleito presidente iraniano Hassan Rouhani ocupou as manchetes da imprensa dos Estados Unidos como um “moderado” que está a buscar o diálogo com o Ocidente. Sua aparente cordialidade no discurso para a Assembleia Geral das Nações Unidos deixou todos muito impressionados e esperançosos.

Ao ver reações tão positivas com respeito ao discurso de Rouhani me veio à mente uma cena muito comum na minha pequena cidade: sempre que caminho pela rua e faço qualquer gesto para o primeiro cão que encontrar, ele logo vem até mim com carinha de feliz e abanando o rabo. Foi exatamente o que aconteceu com a imprensa americana e Rouhani. O “moderado” da vez deu sinal e a cachorrada veio toda com o rabo entre as pernas para lamber a sua mão. Obama quase conseguiu isso, mas se contentou com um “inédito e promissor” telefonema.

Será possível que ainda não aprenderam? O que impressiona é considerarem Hassan Rouhani um “moderado” sem qualquer motivo. Alegam que ele está sofrendo ataques políticos da Guarda Revolucionária e de outros conservadores por causa de sua aproximação com o Ocidente. Essa estratégia iraniana é tão velha quanto andar para frente. A cada eleição temos um novo “moderado”, uma nova “ponta de esperança” etc. Acreditam que até Mahmoud Ahmadinejad foi visto assim?

Transcreverei uma das falas do presidente iraniano que mais me chamou atenção:

(…) Uma tal ameaça imaginária é a ‘ameaça iraniana’, que tem sido utilizada como desculpa para justificar um extenso catálogo de crimes e práticas catastróficas ao longo das últimas três décadas. O armamento químico do regime de Saddan Hussein e o apoio ao Taliban e à Al-Qaeda são apenas dois exemplos de tais catástrofes. Deixe-me dizer com toda a sinceridade diante desta assembleia mundial que, com base em provas irrefutáveis, aqueles que falam sobre a ameaça do Irã ou são uma ameaça contra a paz mundial, ou promovem-se como uma ameaça. O Irã não representa nenhuma ameaça para o mundo ou a região. Na verdade, nos ideias, bem como na prática, o meu país tem sido um prenúncio de uma paz justa e abrangente.

Vejam só quanta sinceridade. O senhor Rouhani abriu seu coração na Assembleia Geral de ONU e teve seus clamores ouvidos pelos mais “esclarecidos” membros da imprensa americana. Que lindo, não? Notem que a “imaginária” (nas palavras do presidente) ameaça iraniana “justificou a realização de práticas catastróficas”. Interessante. Como se financiar terroristas na Palestina e no Líbano não fosse algo “catastrófico”. Isso sem contar, claro, o maldito enriquecimento de urânio.

Outro alardeado mito é que Rouhani, conhecido como “Sheikh Diplomata”, foi o responsável pela evolução das negociações durante a presidência de Mohamed Khatami. O que ele fez, na verdade, foi enrolar as Nações Unidas enquanto o programa nuclear iraniano seguia a todo vapor. Nas palavras de Abdullah Ramezanzadeh, ex-presidente do Parlamento, “estávamos realizando todas as nossas políticas em duas frentes: uma para continuar as negociações de forma aberta mantendo os americanos longe delas, e outra para continuar nossas atividades nucleares em segredo”.

E não é só isso. Rouhani integrou por 16 anos o Conselho Supremo Nacional, sendo homem de confiança do Aiatolá Ali Khamenei. Para piorar a situação, segundo o Washington Times, ele fez parte de uma força-tarefa responsável por planejar o atentado contra a AMIA (Asiciación Mutual Israelita Argentina), em 1994, no qual morreram 85 pessoas. Como bem lembrou Charles Krauthammer, Rouhani foi um dos seis candidatos presidenciais enquanto outros 678 (!) foram desqualificados pelo regime. Simples assim. Currículo de grande moderação, não acham?

Parece que Obama e a imprensa americana acham. Pelo menos essa bagunça não durou muito tempo. O premiê israelense Benjamin Netanyahu, em seu discurso, chamou Rouhani de “lobo em pele de cordeiro” e fez o possível para desmascará-lo em público. Ele sabia do tamanho da responsabilidade que estava em seus ombros e, nas palavras de Isi Leibler, “deixou os israelenses orgulhosos”. Bibi usou sua extraordinária habilidade oratória para deixar as coisas bem claras: “Israel não vai permitir que o Irã tenha armas nucleares”.

“Se Israel for obrigado a ficar sozinho, Israel ficará sozinho”. Esta frase foi, para mim, a mais significativa. Os israelenses sabem que não podem contar com a ajuda de Barack Obama e o primeiro-ministro não quis tapar o sol com a peneira para se proteger politicamente. Tocou direto no ponto crucial. Depois das inúmeras ameaças a Assad quanto a “linha vermelha”, o Irã tem consciência de que precisa apenas ganhar um pouco de tempo. E isso, com a atual administração americana, será uma tarefa bem pouco complicada.

Sou forçado a citar Isi Leibler outra vez:

(…) a diplomacia por si só não é suficiente para impedir os iranianos. Netanyahu pode reivindicar o crédito por ter insistido em um campanha mundial para alertar a todos sobre os perigos de o Irã se tornar uma potência nuclear. Ele não foi belicista, como seus críticos acusaram, mas sim reconheceu a realidade pedindo aos líderes mundiais para impor sanções e ameaça de ação militar a menos que as centrífugas parassem de girar.

(…)

Netanyahu advertiu adequadamente que, a menos que haja uma reviravolta dramática (que Rouhani nunca deu a entender que iria fazer), a estratégia iraniana é de procrastinar as negociações com os Estados Unidos e líderes globais eufóricos proporcionando o tempo necessário para alcançar seus objetivos.

É difícil acreditar que tantos estão a cair nessa conversinha mole de moderação por parte de Hassan Rouhani. Em todas as suas aparições ele negou veementemente que o Irã esteja a enriquecer urânio com fins bélicos e em nenhum momento disse que seu país cederia em algo nas negociações. Ora, as sanções então devem ser aliviadas a troco de nada? Que raio de negociação é esta em que uma parte apenas exige e a outra cede? Parece até Barack Obama “negociando” com os Republicanos em casa.

Loading...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *