No teatrinho de Kerry, Netanyahu tem tudo para ser o vilão

Aguardando cenas dos próximos capítulos.

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Recentemente o Secretário de Estado americano, John Kerry, veio a público dizer que as negociações entre israelenses e palestinos — congeladas há três anos — estavam prestes a ser retomadas. Os dois lados, depois de certa negação inicial, resolveram corroborar Kerry. Segundo Silvan Shalom, ministro da energia de Israel, as negociações poderiam recomeçar já na próxima semana.

Logicamente os intensos esforços de John Kerry para resolver a questão palestino-israelense deveriam resultar em alguma coisa mais dia menos dia. E aí está. O problema é: até quando vai durar este teatrinho todo e quem será o vilão? A resposta está mais do que clara não apenas pelo título deste post, mas pelas atuais condições geopolíticas da região.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu está isolado. Enquanto era pintado por muitos como “ultraconservador” e detestado pela mainstream media ocidental deu para suportar. Mas agora, com a nova coalizão de governo, as coisas ficaram mais complicadas. Como bem lembrou David Weinberg, as pastas mais importantes no âmbito interno foram para Yair Lapid e Naftali Bennett. No que tange as relações exteriores, o PM nada poderia fazer quanto a Síria e Irã a não ser esperar.

Pressionado pelo imenso setor esquerdista israelense parece que aos poucos ele começa a cair no conto de que “o atual status quo é insustentável” e que “Israel precisa mudar as coisas”. Ademais, ninguém se surpreenderia caso houvesse também uma motivação política por trás disso tudo. Como mencionado acima, a aliança entre Yesh Atid Habaiyt Hayehudi dificultou as coisas para o líder do Likud-Beytenu, de modo que implodi-la e trazer para si os haredim e/ou o  Partido Trabalhista seria uma alternativa para centralização de poder.

Agora passemos a analisar o outro lado. Mahmoud Abbas não demorou muito para vir a público e se mostrar otimista com o possível reinício das negociações. As condições palestinas todos conhecem: fronteiras ao menos próximas às de antes do conflito de 1967, ter Jerusalém Oriental como capital e garantir a volta de refugiados palestinos para seus lugares de origem. Com respeito a isso existe um impasse: os assentamentos israelenses que comportam por volta de 500 mil habitantes. Para os palestinos as expansão deveria parar imediatamente.

Pelo menos por enquanto — felizmente! — Israel não aceitou nenhuma destas exigências. A única atitude que tomará será a de libertar alguns presos. No entanto, não sabemos exatamente quantos serão. Quem confirmou o ato foi o ministro de assuntos estratégicos Yuval Steinitz. Segundo ele esta foi uma exigência dos palestinos a Kerry. Steinitz ainda disse que alguns destes prisioneiros haviam sido condenados por crimes violentos contra israelenses.

Se por um lado Netanyahu sofre tanto uma pressão interna quanto externa, do outro Mahmoud Abbas passa por quase a mesma coisa. Apesar de ser visto pelo Ocidente como um “amigo da paz”, sua influência vem, aos poucos, caindo dentro da Cisjordânia. Escândalos de corrupção e o desempenho do Hamas na última operação israelense empreendida contra a Faixa de Gaza deixaram o grupo chefiado por Khaled Meshal com mais confiança frente aos palestinos. Detalhe: Israel e Hamas concordaram em um cessar-fogo, mas para a propaganda do grupo terrorista foi uma vitória.

Como se não bastasse tudo isso, a União Europeia resolveu dar uma “mãozinha” a causa palestina com um embargo às regiões anexadas por Israel em 1967. A partir de agora, qualquer organização israelense que coopere com a UE deve provar que não tem qualquer relação com Judeia, Samaria, Jerusalém Oriental e as Colinas de Golã. A proibição abrange também financiamento, concessão de bolsas, fundos de pesquisas e até mesmo prêmios para qualquer um que resida nestes lugares.

Veja bem, há cristãos sendo perseguidos em todo o Oriente Médio por motivos religiosos, a Síria está no meio de uma intensa guerra civil na qual mais de 100 mil vidas foram ceifadas, os conflitos sectários no Iraque aumentam a cada dia, o Egito virou palco de uma batalha campal entre pró e anti-Morsi mas o problema mesmo são os habitantes dos assentamentos em Israel. Isso vale da mesma forma para aqueles que bradam a alta voz que, resolvendo o conflito israelense-palestino, o Oriente Médio estará pacificado.

“Ah, mas nesta semana a União Europeia colocou o braço armado do Hezbollah em sua lista de grupos terroristas”. Nossa! Agora vai! Como se esta atitude insignificante fosse dar em alguma coisa. Antes de mais nada, nem o Hezbollah trata a respeito desta divisão. Mais fácil acreditar que ela seja uma abstração que só existe na cabeça dos parlamentares europeus. Além disso, o próprio Sheikh Sayyed Hassan Nasrallah afirmou que esperava por esta decisão.

Os otimistas de plantão podem alegar que, de qualquer forma, as negociações deverão recomeçar. Pois é. Mas vão durar até quando? A prontidão de Abbas em atender Kerry foi criticada pelos Hamas, pela OLP e até mesmo por certos setores do Fattah. Ou seja, as chances de tudo ficar na mesma são enormes: representantes da AP se reunirão com israelenses, farão suas exigências absurdas, tomarão um não e aí o vilão mais uma vez será Netanyahu.

5 comentários para “No teatrinho de Kerry, Netanyahu tem tudo para ser o vilão

  1. Marcos Jr.

    Na verdade as opções que o “Bibi” tem são bastante complicadas (para ele, claro): chamar um partido de centro ou até de centro-esquerda para se manter no poder, ainda que ele tenha que ceder a algumas das exigências absurdas da AP; Ou: agrupar todos os partidos da extrema-direita a ele para não ceder (e mandar o plano de paz para o espaço).

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    • Gilmar SiqueiraGilmar Siqueira Posts do autor

      E aí é que está o problema. Ele já tem dois partidos de “centro” na coalizão (nem conto o Kadima, claro) e um direitista, o Habaiyt Hayehudi, que está mancomunado com Lapid. Então, se ele “explodir” essa coalizão vai ser forçado a incluir o Trabalho na nova também porque apenas com os haredim o número seria insuficiente.

      Uma remota possibilidade seria jogar Bennett contra Lapid e ficar com o primeiro no time governista. No entanto, Bibi está mordido com ele por tomar eleitores do Likud-Beytenu nas eleições parlamentares.

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