Me engana que eu gosto

Bibi

Na última semana foram retomadas as negociações em Genebra visando ao menos paralisar o programa nuclear iraniano. Como das últimas vezes a euforia na imprensa internacional é enorme. O rótulo de “moderado” (seja lá o que isso for) dado a Hassan Rouhani pegou de tal modo que o pensamento de muitos está a girar em torno de um “agora vai”. Enquanto isso o ranzinza do Netanyahu segue esbravejando em Israel.

Seria bonito se tudo pudesse dar certo assim, num passe de mágica. Mas não dará. Vemos o Ocidente mais uma vez caindo no jogo de cartas marcadas do Irã. Como disse o tenente-coronel Ralph Peters, “estamos oferecendo a eles uma Ferrari e ganhando em troca uma bicicleta com pneus furados”. A “Ferrari” seria o alívio nas sanções que realmente estão a prejudicar o Irã. A proposta inicial refere-se a uma paralisação no enriquecimento de urânio a 20% (passando a 3,5%) e a suspensão dos trabalhos nas centrífugas IR-2. Sem contar, é claro, os preparativos para a operação de Arak, reator de plutônio que deve começar a trabalhar a partir de 2014.

A proposta pode, inicialmente, parecer um tanto razoável. Ora, atrapalhar o processo de enriquecimento de urânio do Irã daria ao Ocidente mais tempo para pensar em alguma atitude enérgica e efetiva. Contudo, não é o que vai acontecer na prática. O governo iraniano, aliás, receberá uma oxigenação das potências para diminuir a pressão interna enquanto terá a oportunidade de seguir com seu aparato nuclear a todo vapor. Foi exatamente assim que aconteceu quando Rouhani estava à frente das negociações. As ameaças ocidentais e a aparente concessão iraniana serviu para dar continuidade ao projeto. Estratégia simplista que pode dar certo novamente.

A intransigência iraniana fica muito clara nas palavras de seu Ministro das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif: “O Irã suspendeu todo o seu programa de enriquecimento de 2003 a 2005. Então nós já testamos isso. E não produziu efeitos positivos. Nós não vamos testar isso de novo”. O mesmo ministro foi quem, em viagem à França, disse que por vezes o país é mais “duro” do que os Estados Unidos nas negociações. Isso enquanto jantava com empresários franceses que praticamente se atropelaram para trocar algumas palavras com o iraniano “esclarecido”.

Uma dúvida natural que pode surgir é a seguinte: se as propostas parecem melhores para o Irã do que para o Ocidente, e se isso é mesmo tão óbvio, por que o P5+1 insiste tanto nelas? Por puro e simples ímpeto político. Não é fácil ser pressionado em casa por parlamentares e populares enquanto o Irã tem a possibilidade de desenvolver uma bomba atômica. Assim sendo, uma medida para mascarar a situação é bem mais simples do que algo efetivo e contundente. Ou acaso acham que Rússia e China — principalmente depois da resolução acerca da Síria — permitiriam uma intervenção no Irã?

Vale lembrar também que as negociações foram retomadas em um momento extremamente complicado para Netanyahu, pressionado dentro e fora de Israel. Há poucos dias aconteceu a libertação da segunda remessa de terroristas que estavam presos no país (a grande maioria por crimes hediondos praticados contra israelenses) o que gerou, mais uma vez, grande insatisfação. Desta feita não foram só os parentes de vítimas que protestaram, mas também membros da coalizão de Netanyahu (Naftali Benett, do Habaiyt Hayehudi, foi o mais inflamado) e até de seu partido Likud-Beytenu. O possível corte de verba para o IDF, defendido tanto por Bibi quanto por Moshe Yaalon, também não foi nada animador para o atual governo.

E justamente nesse ínterim é que recomeçaram as negociações com o Irã. Se não deram ouvidos a Netanyahu desde o início, muito provavelmente não o farão agora. Parece que o discurso de Rouhani na Assembleia Geral da ONU ainda está a ressoar nos ouvidos de muitos por aí. O premiê israelense, durante reunião com John Kerry, tentou deixar as coisas ainda mais claras:

Lembrei a ele quando disse que acordo nenhum é melhor do que um mau negócio. E o negócio que está sendo discutido agora em Genebra é ruim. É um negócio muito ruim. O Irã não é obrigado a desmontar sequer uma centrífuga. Mas a comunidade internacional está a aliviar sanções pela primeira vez depois de muitos anos. Irã recebe tudo o que queria nesta fase e não paga nada. E isso quando está sob forte pressão. Exorto o Secretário Kerry a não se apressar para assinar, a  parar, reconsiderar, para obter um bom negócio. Mas este é um mau negócio, muito, muito mau negócio. É o negócio do século para o Irã, é um negócio muito perigoso e ruim para a paz da comunidade internacional.

As palavras de Bibi dirigidas a Kerry e a todos os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU soam com muita força. Em inúmeros momentos ele faz questão de enfatizar o quão ruim é este negócio. Ele sabe do que está a falar, e todos deveriam saber não fosse esta aparente estupidez mesclada com o que Rick Moran chamou de “Acordo Pôncio Pilatos”:

Ninguém no Ocidente quer atacar o Irã. Eles querem lavar as mãos de todo o assunto e deixar Israel decidir o que fazer. As negociações fracassadas nos últimos 5 anos confirmaram que o Irã não está interessado em ceder coisa alguma para o Ocidente em relação ao que eles veem como ‘direito’ soberano de enriquecer urânio. Portanto, os contornos deste negócio que pode ser assinado tão cedo quando hoje, não incluirão a paralisação do enriquecimento de urânio por parte dos iranianos a qualquer nível. Esta tem sido a posição negociadora dos Estados Unidos por mais de uma década.

Israel tenta de todas as maneiras pressionar a comunidade internacional e alertar sobre o perigo de um Irã nuclear mas nunca obtém resoluções satisfatórias. O Ocidente segue pelo mesmo caminho de antes. Essa hipótese levantada por Moran de isolar ainda mais os israelenses passa a fazer todo o sentido. Não é possível se cometer o mesmo estúpido erro por duas vezes inocentemente.

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