“As potências mundiais reconheceram o direito nuclear do Irã”

US Secretary of State Kerry hugs European Union foreign policy chief Ashton after she delivered a statement during a ceremony at the United Nations in Geneva

Com essas palavras o presidente iraniano Hassan Rouhani se manifestou acerca do acordo “provisório” celebrado entre P5+1 e a república islâmica ainda nas primeiras horas de domingo. O líder supremo Ali Khamenei seguiu a mesma linha e agradeceu a Allah pelo acordo. O presidente americano Barack Obama, tentando claramente mandar um recado para Israel e Arábia Saudita, disse que se o Irã não honrar seu compromisso as sanções serão novamente apertadas.

Dentre os pontos do acordo destaque para:

– O enriquecimento acima de 5% será parado e as conexões técnicas necessárias para fazê-lo serão desmontadas;

– O progresso na capacidade de enriquecimento será contido através de: nenhuma nova instalação de centrífugas, a inoperabilidade de metade das centrífugas de Natanz e três quartos das de Fordow e limitação da produção de centrífugas apenas para substituir as danificadas;

– O reator de Arak não será alimentado, comissionado, testado, abastecido e nem haverá possibilidade de construção de um local visando reprocessamento, sem o qual o Irã não terá capacidade para separar o plutônio do combustível irradiado;

– O Irã deverá fornecer à AIEA: acesso diário para os inspetores em Natanz e Fordow, permitindo visualização das imagens do sistema de segurança; acesso às instalações de montagem de centrífuga; acesso às minas de urânio e moinhos; informações do projeto para o reator de Arak; e  acesso mais frequente para o reator de Arak.

O Irã, caso cumpra com os pontos elencados acima, terá os seguintes benefícios:

– Nada de novas sanções pelos próximos seis meses;

– Suspensão de certas sanções de exportação a metais preciosos, setor automotivo e petroquímico, fornecendo ao Irã aproximadamente US$ 1,5 bilhão em receitas;

– Permissão para transferir US$ 400 milhões de auxílio governamental em contas restritas para estudantes iranianos em outros países;

– Nos próximos seis meses a venda de petróleo bruto do Irã não pode aumentar. Apenas as sanções deste setor resultarão em US$30 bilhões em receitas perdidas, comparando o que o país ganhou em 2011 também num período de 6 meses. Enquanto US$ 15 bilhões em receitas serão mantidas em contas restritas no exterior, a república islâmica terá acesso a US$4,2 bilhões.

Mas Israel alerta para as muitas lacunas contidas no acordo. A primeira delas gira em torno da suspensão de enriquecimento a 20%, coisa que estava a ocorrer desde o famoso discurso da “linha vermelha” feito por Netanyahu. Ademais, dizer que Arak não pode operar em seis meses é uma piada! Ora, o reator ainda levará pelo menos 12 meses para ser construído.

As perspectivas de Washington e Israel sobre Genebra são completamente diferentes. Enquanto Kerry ficou todo feliz e deu até um abraço em Catherine Ashton depois de o acordo ser concluído, Netanyahu disse que “foi um erro histórico”. Os americanos tratam este como apenas o primeiro passo para um “acordo maior” que envolve “objetivos maiores”. Confesso que essa visão futurista não me é demasiado animadora. Possíveis abstrações e fantasias para o que poderá vir não são formas sérias de se pensar. Em sua coluna no Israel Hayom, David Weinberg disse algo parecido. Reiterou a ideia de que o Irã será a nova Coreia do Norte. Também pudera, o homem que esteve por trás de muitas das negociações com o país asiático é o mesmo que trata do problema do Irã, o subsecretário de Estado para Assuntos Políticos Wendy Sherman.

Como dito logo após a primeira rodada de negociações, tudo tende a piorar quando as ambições políticas superam todas as outras. E politicamente falando esta alternativa é a “menos pior” para a administração Obama. Primeiro porque afasta a possibilidade de um novo conflito para os Estados Unidos (vimos qual foi a resposta do povo americano para a interferência na Síria), além de melhorar a imagem do presidente que está muito arranhada. Em segundo lugar, isolar Benjamin Netanyahu nunca é um mau negócio para Obama, principalmente agora que Isaac Herzog, um baba-ovo de Democratas, foi eleito novo líder do Partido Trabalhista de Israel.

Curioso é que alguns setores da imprensa tratem como positivo o comentário do aiatolá Ali Khamenei endossando o acordo poucos dias depois de ele ter chamado os Estados Unidos de “Grande Satã” e ter dito que “a entidade sionista entrará em colapso”. Mas Khamenei também sabe fazer política. Ele não poderia romper com anos de demonização do Ocidente em virtude apenas de um acordo que o favorece. A AP indicou que mesmo antes da eleição de Rouhani estavam a ocorrer negociações secretas entre representantes dos EUA e do Irã. A posse do “Sheikh Diplomata” serviu para reforçar este estreitamento de laços entre as duas nações.

Segundo a AP, o premiê israelense soube das conversações um dia antes de seu discurso na Assembleia Geral da ONU, quando chamou Rouhani de “lobo em pele de cordeiro”. A partir daí começou sua campanha desesperada para alertar a todos sobre o perigo de um Irã nuclear. Agora só nos resta esperar e torcer para que o acordo não seja inútil, isto é, as esperanças são quase nulas.

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