A confusão da oposição

Nesta semana Estados Unidos e Grã-Bretanha anunciaram a paralisação temporária de ajuda “não-letal” aos rebeldes sírios. A decisão foi tomada depois que militantes islâmicos tomaram armazéns nos quais o Conselho Militar Supremo (CMS, entidade da Coalizão Nacional responsável pelo Exército Sírio Livre) mantinha os suprimentos e controlava sua distribuição. Os países ocidentais anunciaram que a medida foi tomada tendo em vista o perigo de equipamentos caírem nas mãos de jihadistas. Não se sabe ao certo se havia também armas.

Os primeiros relatos — assim como todos  os que provém da Síria — foram muito confusos. O nome da Brigada Islâmica, da qual falaremos mais adiante, foi mencionado por diversas vezes. No final das contas, em uma coletiva de imprensa, o porta-voz da Coalizão Nacional Khaled Saleh disse que a Brigada Islâmica na verdade veio atender a um pedido de ajuda do chefe do CMS Salim Idriss. Seu papel foi o de expulsar militantes do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (EIIS) que tomaram, praticamente sem resistência, os armazéns situados próximos à fronteira com a Turquia. Surgiu um grande alarde pela  suposta fuga de Idriss para o Qatar, relato que também foi desmentido por Saleh.

Independentemente do esclarecimento da situação por parte de Idriss e da Coalizão Nacional, a fraqueza dos “moderados” apoiados pelos países ocidentais ficou ainda mais clara depois desse episódio — se é que já não estava antes. A ousadia que o EIIS teve para atacar e a ridícula resistência encontrada pela frente foi uma grande vergonha. Como se não bastasse isso, o apelo à Brigada Islâmica é um péssimo sinal. Mostra que o Exército Sírio Livre está ainda pior do que se imaginava.

Apesar do nome, ainda há certas divergências sobre a Brigada Islâmica. Não se sabe exatamente se constitui uma entidade organizada ou apenas um corpo de milicianos tal qual o próprio Exército Sírio Livre — que só existe solidamente na cabeça de gente como John McCain e Barack Obama. A ideia desta “Brigada Islâmica” começou quando Abdelaziz Salame, maior líder político da Brigada Tawhid em Aleppo, emitiu um comunicado no qual falava em nome de 13 distintas facções islâmicas. O conteúdo do comunicado girava em torno do descontentamento de tais grupos com as lideranças rebeldes apoiadas pelo Ocidente. Na tradução de Aaron Lund, Salame dizia que não reconheceriam “governos de exilados”. Ademais, a principal proposta apresentada consistia em considerar a sharia como única fonte de legislação. Estima-se que as facções tenham entre 40 e 50 mil combatentes à disposição. Tal fato não poderia jamais provocar uma resposta dura por parte da Coalizão Nacional, que tentou então apaziguar os ânimos.

A única objeção por parte da CN enquanto tentava manter suas ligações com o Ocidente e não irritar os muçulmanos foi com respeito a participação do Jabaht Al-Nusra no acordo assinado pelas brigadas islâmicas. Mas de nada adiantou bater o pé. A organização classificada como terrorista pelos Estados Unidos segue no grupo.

Quanto ao outro problema, o da unidade da Brigada Islâmica, ainda não existe nenhuma informação concreta. No final de setembro Aaron Lund contactou o porta-voz da brigada Tawhid e disse que não havia qualquer planejamento com o intuito de organizar os grupos em uma única facção. Prova disso é que não há lideranças que se apresentem como tal. A Brigada Tawhid se define apenas como mensageira. No entanto, Lund ressalta que a unificação também não é algo impossível. Tudo depende, segundo ele, da maneira como caminhará o conflito.

O cenário atual para a oposição não é nada bom. Embora as brigadas Tawhid e Liwaa al-Islam tenham conseguido manter com certas dificuldades suas posições em Aleppo e Damasco, respectivamente, as forças do presidente Bashar Al-Assad seguem em ascensão.  Depois de tomar Qusayr há alguns meses, o exército sírio recuperou Deir Attiya e imediatamente rumou para a vizinha Nabak. As duas cidades se localizam em pontos estratégicos do corredor que liga Damasco a Latakia e também gozam de proximidade da fronteira com o Líbano. O norte da Síria ainda está predominantemente nas mãos dos rebeldes.

Vale lembrar que as conversações entre membros da oposição e do governo foram marcadas para o dia 22 de janeiro. Pela primeira vez desde o início do conflito os dois lados concordaram com essa proposta. O problema disso tudo, como bem colocou Con Coughlin, é que a oposição considerada “moderada” não terá qualquer respaldo para decidir alguma coisa. O fortalecimento dos jihadistas, tanto político quanto militar, será o maior empecilho para as negociações. Como mencionado acima, a Brigada Islâmica não reconhece o governo da Coalizão Nacional embora admita lutar lado a lado com o Exército Sírio Livre. Do outro lado, as recentes vitórias impedirão que Assad dê o braço a torcer com facilidade. Sem contar, é claro, o significativo apoio da Rússia.

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