62 mortos e um discursinho abominável

Westgate

No último sábado (21) em Nairobi, no Quênia, militantes do Al-Shabaab invadiram o shopping center de Westgate e fizeram vários reféns. Inicialmente não havia números oficiais dado o tamanho da confusão. As primeiras informações que chegaram já se referiam aos mortos: pouco mais de 30. Nesta segunda (23) o estabelecimento ainda está cercado pelas forças de segurança do governo e houve confirmação oficial de que 62 pessoas perderam a vida.

O grupo terrorista Al-Shabaab assumiu a autoria do atentado e disse que não negociaria sob hipótese alguma. Eles apenas exigiram a retirada de tropas quenianas da Somália. Vale lembrar que o exército do Quênia — cujo efetivo é o mais importante dentro da missão da União Africana — é um dos grandes responsáveis pelas sucessivas derrotas dos terroristas ligados à Al-Qaeda no país (deixaram a capital Mogadíscio em 2011 e Kismayo há cerca de um ano). Os quenianos também apoiaram o atual presidente Hassan Sheikh Mohamud, que venceu as eleições no ano passado.

Os terroristas, usando suas velhas táticas, quiseram responder e atacaram Westgate. Segundo os relatos de testemunhas que conseguiram escapar, eles ordenaram que todos os muçulmanos deixassem o local. Os outros deveriam ficar. Infelizmente isso não é surpresa nenhuma. Se falou que mulheres estavam envolvidas também no ataque mas o ministro do interior queniano negou, dizendo que havia sim homens vestidos com roupas femininas.

O recém-eleito presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, se mostrou enérgico em condenar o ato em sua conta no twitter:

Nós superamos ataques terroristas antes. Nós lutamos corajosamente e os derrotamos dentro e fora de nossas fronteiras. Nós vamos derrotá-los novamente. Terrorismo em si, é a filosofia dos covardes.

Vamos caçar os criminosos onde quer que eles corram. Vamos pegá-los. Vamos puni-los por este crime hediondo.

Nestes últimos dias o Quênia virou o centro das atenções nos noticiários. E isso é algo bastante óbvio dado o tamanho do ataque. Mas, como se o ato já não fosse algo abjeto em si, começaram a aparecer aqueles que culpam o Ocidente, a “mídia” e absolutamente todos — menos os próprios terroristas! — pelo maldito ataque. O pior deles foi Sir Simon Jenkins, no Guardian:

Às vezes devemos parar e perguntar por que os terroristas cometem atrocidades como esta no shopping center de Nairobi. A resposta é sempre sobre as grandes reações Ocidentais de extrema violência. Se o Al-Shabaab subisse apenas uma rua em Mogadíscio, Cameron correria para o Cobra? Assim é, Cameron ajudou a enviá-los para o topo das paradas dos terroristas.

(…)

Não há defesa contra as armas terroristas. Nem em qualquer sociedade, livre ou repressiva, há defesa contra o fanatismo até a morte em busca de uma causa louca ou desesperada.

A melhor defesa é o senso de proporção. A “guerra ao terror” falhou em seus próprios termos. Ela tornou dezenas de países não pacificados, mas apavorados. Ao implantar a violência contra uma sucessão de estados muçulmanos, as principais potências do mundo têm feito seu negócio e convidado a retaliação. Eles não esmagaram a Al-Qaeda mais do que suprimiram o extremismo islâmico. Eles têm revigorado ao invés de diminuído o extremismo, e fizeram o mundo menos seguro como resultado.

Percebem a mentalidade deste senhor? Basicamente os ocidentais são os culpados por aumentarem a “radicalização” dos muçulmanos. Ora, segundo ele então, se não houvesse intervenção o mundo seria um lugar melhor. O próprio Sir Jenkins faz menção ao massacre de cristãos em Peshawar neste fim de semana. Então ele atribui isso também ao Ocidente? Os cristãos são atacados por causa da guerra ao terror, do imperialismo americano etc.

Sir Jenkins só se esqueceu de uma coisa: terroristas não precisam de motivo nenhum para atacar ninguém. Desvincular o Islã desta onda de violência é um erro crasso cometido pela grande maioria dos governos ocidentais. E eles ainda assim são chamados de “islamofóbicos”. Recentemente li um escritorzinho que disse o mesmo que o senhor Jenkins, “a mídia e a guerra ao terror foram os culpados pelo crescimento da Al-Qaeda”. Claro, alguns desgraçados tomam aviões e os jogam contra dois prédios e não querem que falemos disso? Então a Al-Qaeda cresceu exponencialmente depois de ganhar este “crédito”? E outros grupos terroristas que sequer são conhecidos, como ficam? O Boko Haram tem um domínio enorme sobre o norte da Nigéria. No entanto, não vejo a mídia ocidental falar muito dele ou tropas americanas entrando no país. A culpa é de quem então? Dos cristãos que são mortos?

Meditemos ainda um pouco mais sobre o Boko Haram. Seu nome significa “a educação ocidental é pecaminosa”. Mas o que vem a ser esta “educação ocidental”? Para eles, toda e qualquer influência cultural que venha do Ocidente. Desde comida até programas de TV. E sabem quem são os grandes propagadores desta “educação ocidental” dentro da Nigéria? Os cristãos. Sim, os cristãos. Portanto, eles devem ser combatidos como uma “ameaça ao Islã”.

Alguns devem estar se perguntando por que eles têm tanto medo assim da cultura ocidental. Bem, se você vive na Sharia e se te oferecem uma oportunidade para ter liberdade é normal que a agarre com unhas e dentes. Outra questão que surge aí é: por que os Estados Unidos são mais odiados do que a Europa? Atualmente os muçulmanos veem a Europa como uma zona livre de ameça tanto política quanto cultural. As grandes levas de imigrantes na Grã-Bretanha, França e Bélgica deixam isso muito claro. Já com os EUA a história é outra. Sua influência cultural sobre os jovens do Oriente Médio é enorme. E evidentemente uma ameaça à Ummah.

Feitas estas observações voltemos ao Quênia. Como bem colocou Con Coughlin, a pressão criada sobre o Ocidente depois dos conflitos no Iraque e no Afeganistão fez com que as potências parassem de mandar tropas para o combate aos terroristas. A estratégia agora é alimentar países mais próximos que possam fazer isso. Grã-Bretanha e Estados Unidos oferecem material e apoio tático ao Quênia desde 2011. Como resultado o país agora comandado por Kenyatta se tornou um alvo para os terroristas.

4 comentários para “62 mortos e um discursinho abominável

  1. Harlock

    Salve. O Quênia não se tornou um alvo para os terroristas só agora, por conta de sua alegada intervenção na Somália. Além do atentado contra a embaixada americana em Nairóbi, deve-se lembrar que a eleição do católico Mwai Kibaki em 2007 para a presidência do país foi seguida de violência sectária em que os ataques a igrejas e as comunidades cristãs foram corriqueiras. Embora, só para não variar, a mídia só repercutisse as acusações de fraude da oposição e os alegados excessos da repressão governamental.

    Responder
    • Gilmar SiqueiraGilmar Siqueira Posts do autor

      Obrigado pelo comentário, Harlock! Você tem toda a razão. Não é de hoje que o Quênia se tornou um alvo. Mas a intervenção na Somália serviu para piorar ainda mais a situação do país, que correrá riscos cada vez maiores de atentados de grande repercussão internacional como foi este de Westgate.

      E, como se não bastasse tudo isso, não vai ser nada fácil para Grã-Bretanha e outros países seguirem apoiando o Quênia. Os críticos vão cair matando em cima porque Uhuru Kenyatta e seu vice estão sendo acusados de crimes contra a humanidade.

      Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *