Um hospital referência para odiar

sirio

Situação em uma tribo imaginária de bosquímanos: o grupo mora em dado local na África, sujeito a inundações e ataques de animais. Entre os moradores, um resolve se empenhar e construir sua cabana no alto de uma árvore. Ninguém acha nada, até que vem uma inundação, em que morrem algumas dezenas. O homem da casa na árvore e sua família seguem ilesos, porque, além da casa protegida, ele fez um estoque de víveres.

Passa um tempo, e há uma invasão de feras. Vários habitantes morrem ou ficam feridos, mas o homem da casa na árvore consegue se proteger, a si e a sua família somente, porque não há condições de abrigar os restantes, senão a casa cairia.

O grupo começa a perceber que a casa na árvore pode ser uma boa saída para evitar desgraças naquela sociedade. O chefe espiritual dos bosquímanos resolve reunir a tribo e todos chegam à conclusão de que o homem da casa na árvore deve ensinar os demais a construir suas próprias casas em árvores, e assim terão vantagens em momentos cruciais, mesmo que a construção demande tempo e esforços extras. E assim é feito.

Bonitinha a história, não? Fui eu que inventei. Até porque nunca existiu tribo de bosquímanos com tal grau de aperfeiçoamento. Por isso são… bosquímanos.

O mais provável de acontecer, num caso hipotético como este, seria os demais ficarem com raiva do homem da casa da árvore por ele ser o único a dispor de proteção, e tratarem de destruir sua invenção.

Os protestos recentes em frente ao Hospital Sírio-Libanês são mais ou menos isso. Menos, até.

Não há sentido algum em, sob a alegação de que o SUS é horrendo, desviar o foco da saúde pública e voltar as iras para a saúde particular, justamente para o símbolo torto de sua excelência no Brasil: o Hospital Sírio-Libanês.

O fato de o Sírio-Libanês volta e meia internar figuras malquistas da República (o Senado tem um CONVÊNIO com o Hospital) é irrelevante. (Até porque – pense comigo – talvez o Congresso tenha tentado convênio com o Albert Einstein, o luxo do luxo para essa gente de Brasília, mas o hospital pode ter recusado, já pensou nisso?) O Sírio-Libanês é muito, muito mais que isso. Abriga e trata gente DOENTE. Na maioria das vezes, gente gravemente doente. Muitas vezes gente vinda do SUS, nos casos em que o Estado não tem condições de oferecer ou não tem vaga num exame mais complexo, por exemplo.

Não sei o material de que é feito esse tal de Fórum Popular de Saúde, responsável pela baderna de ontem no Hospital, quando invadiram o pronto-atendimento e quebraram cadeiras e vasos. Acredito até que possa ser composto por alguns médicos do setor público, até porque no SUS é frequente que profissionais da saúde tenham por hábito falar alto e gritar, inclusive durante o trabalho, sem respeito algum pelos pacientes de que dizem cuidar.

Já que “protestam por melhores condições de trabalho e pedem a saída do secretário estadual de Saúde”, seria até interessante dar uma olhada, entre os manifestantes, em suas carteiras funcionais, para saber se de fato são médicos e enfermeiros do SUS. Acho que haveria surpresas dentro de surpresas.

Em sua página no Facebook, dizem que “saúde não é mercadoria”. Claro que não. Mas, ~meu bem~, a luva é mercadoria, o curativo é, o aparelho de ultrassonografia é, a máquina da cintilografia é, os serviços diários de manutenção são, o franguinho light é, o detergente das faxineiras e o papel higiênico também são.

Se o Sírio-Libanês consegue azeitar essa máquina toda, oferecendo serviços de ponta a uma população frequentemente não tão elite assim, é um problema deles, porque é um hospital particular.

O NOSSO problema é um SUS que – veja você! – lida com mercadorias também: compra (superfaturado) papel higiênico, curativo, luvas, coisinhas com que, vá lá, sabe lidar razoavelmente. E eventualmente compra ou recebe em doação (desses hospitais mercantilistas) aparelhos de raios X ou ultrassom, e em boa parte dos casos esquece de outras mercadorias: técnicos para ensinar o funcionamento e outros técnicos para fazer a manutenção de tais aparelhos. As máquinas ficam lá, apodrecendo na embalagem, enquanto o hospital manda pacientes para exames em… hospitais particulares como o Sírio.

Hospitais do SUS também têm com símbolo algo visível a qualquer bosquímano: o total sucateamento de seu patrimônio (mercadoria?…), já que não consegue manter em ordem por mais de seis meses a mais reles cadeira de espera: todas invariavelmente enferrujadas, quebradas; leitos com pintura lascada, paredes arrebentadas na altura das macas, janelas que não funcionam. Além, é claro, de corredores, enfermarias e salas de médicos que mais parecem um galinheiro (opa, isso não depende de dinheiro, não é mercadoria!)

Clamo aos céus!!!! que nem eu nem algum dos leitores vá parar em algum hospital público onde atuem “profissionais da saúde” que protestam dessa maneira, nessa visão de vida.

Porque, além da barulheira que não têm vergonha de fazer, é perigoso ficar nas mãos de gente que pensa o mundo do modo expresso nessa tal notinha do “Fórum Popular de Saúde”.

Imagina o que vão achar de algum paciente diabético? E a distribuição social de açúcar no sangue pelo mundo, como fica, afinal?

  • Foto: (Nelson Antoine/Fotoarena/Folhapress): aquele jovenzinho atrás do principal; aquele mesmo, o loiro dos cachinhos: é médico ou enfermeiro?
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13 comentários para “Um hospital referência para odiar

  1. HMS Astute

    Letícia, acabei de descobrir o blog e fiquei impressionado! Parabéns, muito bem escrito, coeso e fundamentado.

    Eis aqui, mais uma fonte de informação – e argumentação – contra os idiotas úteis!

    Parabéns!

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  2. Alvaro Risso

    Letícia,
    corre há muito uma história sobre o ex-sindicalista e ex-presidente, não sei se é verídica, que numa exposição na Alemanha, convidado pelos sociais-democratas de lá, que ele apresentou um “plano econômico de governo”, onde em 4 anos ele “eliminaria” os ricos no Brasil. Os socialistas alemães estupefactos, respondem que lá eles queriam era acabar com os pobres.
    Esta história parece bem com essa manifestação no Sírio-libanês.

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  3. Marcel

    Por que “tratamento de saúde” não pode ser mercadoria? Se eu quero comprar e tem alguém pra vender o que os outros tem a ver com isso? O que essa gente tem a ver com os que estão pagando para se tratar no Sírio-Libanês? Por que querem obrigar os outros a não poderem escolher onde vão se tratar? O que se essa gente ama é o estado absolutista, o estado em todos os lugares, nada fora do estado, nada contra o o estado, como diria o duce, o que são movidos é por inveja mesmo, querem que todo mundo esteja no corredor do Sus e não que todo mundo tenha um padrão Sírio-Líbanês, porque não é o mesmo que impossibilita um bom padrão de hospitais públicos, sério, o Brasil atinge um grau de anomalia moral, uma indigência moral e ética sem limites, se souberem de algum lugar que protestaram contra um hospital particular por causa da saúde pública me avisem, mas a verdade é que não estão preocupados com saúde de ninguém é só raivinha classista dos que estão no hospital elitista.

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  4. André

    Além disso a mão de obra do médico tem custos, não conheço nenhum que trabalhe de graça.
    Portanto ainda que só existissem hospitais públicos isso não mudaria o fato de que saúde custa dinheiro.
    O problema é que os bosquimanos ao invés de exigirem que o mercado de saúde seja mais livre querem é que o mercado de saúde seja 100% controlado pelo governo, daí eles poderão ganhar altos salários provendo pouquíssimos serviços. Um resultado natural da ausência de competição em qualquer mercado.

    http://americanvision.org/6618/a-canadian-perspective-of-socialized-medicine/#sthash.922mr0Ks.dpbs

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    • LeticiaLeticia Posts do autor

      Exato, André. E há também a péssima gestão, ou seja, colocam gente que não entende chongas de adiministrar $$, tampouco gente. Assim, o governo federal pode mandar todo o dinheiro do governo pra saúde que não haverá solução. O problema é escolher, via concurso ou nomeação, mão de obra desqualificada (da faxineira até o diretor), não $$.

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      • Thiago

        Não querendo mudar o foco, mas o mesmo ocorre com a educação… O problema geral é gestão, e não falta de dinheiro!
        Mas acham que se destinarem um % do PIB para tais áreas o problema se resolve, só espero pelo dia em que chegarem a conclusão de que ocorreram mais desvios e os tais “malfeitos” com o dinheiro e a situação continuar na mesma, ou até piorar…

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  5. Bruno

    O texto estava indo muito bem até entrar nessa onda de demonizar os médicos. Você acha mesmo que um médico, por mais idiota que seja, teria coragem de invadir um hospital, onde ele tem pleno conhecimento de que há muita gente em estado grave internada, e sabe os sérios prejuízos que seu ato iria causar? Seriously?

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    • LeticiaLeticia Posts do autor

      Bruno, me diz onde demonizei a categoria “médicos” no texto. Daí eu sugiro vc ler de novo até entender. Não vi, até agora, nenhuma nota de qualquer representação de médicos (sindicato, federação, nada), dizendo que esse grupo não representa a categoria. Há médicos, sim (muito mais no setor público) que se comportam no trabalho como se estivessem na mais fuleira das delegacias. Isso é mais presente no setor público, onde essa é a cultura e não há ambiente organizacional que reprima tal comportamento. Todo mundo conhece médicos mais ou menos educados, particulares e públicos, mas é questão de estatística: na saúde pública a “liberdade doméstica” dos profissionais corre solta.

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      • Thiago

        Aqui no Rio, para fazer com que as UPAs funcionassem com um certo grau de eficácia e eficiência, fizeram o absurdo de colocar médicos dos Bombeiros, ou seja, se cometerem algum ato ou faltarem, respondem por meio da corporação. Assim disciplinaram os médicos, mas se esqueceram que Bombeiro é para apagar incêndio, a ONU tem indicadores sobre isso, e estes acabam distorcidos, pois no CBMERJ tem um monte de coisas juntas…
        E vale lembrar que algumas das atendentes, sim, atendentes, pois algumas não são nem técnicas em enfermagem ou mesmo enfermeiras, são contratadas… Mas como “resolveram” uma parte dos problemas com as UPAs, ninguém toca nesses absurdos!

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      • Bruno

        “Acredito até que possa ser composto por alguns médicos do setor público, até porque no SUS é frequente que profissionais da saúde tenham por hábito falar alto e gritar, inclusive durante o trabalho, sem respeito algum pelos pacientes de que dizem cuidar.”
        Colocação totalmente fora de contexto. Você aproveitou o tema para puxar o assunto de médicos e fazer uma provocação gratuita.
        Quando vi que a Reaçonaria havia publicado um texto sobre o assunto, eu esperava um nível de argumentação bem mais elevado. Sugiro que defina melhor seus inimigos.

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        • LeticiaLeticia Posts do autor

          Ô, Bruno, se você quer discutir o SUS num “nível de argumentação mais elevado”, talvez deva ouvir os discursos do Padilha. Entretanto, teria uma surpresa de visitasse, por exemplo, a Beneficência Portuguesa de SP e fizesse uma comparação entre suas alas particular e pública. Aí depois vc me conta, num nível elevado, as diferenças que achou.

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