São Paulo, esse fim de mundo

Meu prato aqui neste espaço é São Paulo. Pode ser o estado ou a capital, tantufas. O conceito que segue independe das delimitações geográficas.

Quando meus antepassados saíram do Rio para se instalar em São Paulo, a família achou loucura. “Um lugar onde não há nada!” Isso foi lá para 1927, quando São Paulo era não a mais importante, mas já a maior cidade do Brasil. Continuava um ponto estratégico, agora não mais das entradas e bandeiras, mas das saídas do café para o mundo. Não mais como pousada de cavaleiros empoeirados, mas ponto de convergência da até hoje maior malha ferroviária do país.

Minha parentela carioca certamente nunca viu as fotos de Guilherme Gaensly, retratando uma São Paulo do início do século XX já toda bonitinha, urbanizada e organizada – e grande. Foi uma tratorada humana que acabou com o velho e pasmacento Triângulo, mas certamente não chegou aos pés da higienização violenta operada por Pereira Passos no Rio de Janeiro naquela virada de século.

De certa maneira, a falta de informação daquela época vem se reproduzindo em outros contextos e calcando e recalcando lugares-comuns: São Paulo é feia, São Paulo é cinza, São Paulo é poluída, São Paulo é barulhenta, São Paulo é o diabo e São Paulo não tem lugar pra estacionar, e além de tudo tem uma poeirinha aqui na plataforma do Metrô que o governo do estado NÃO VARREU!

Primeiro que não é verdade. Não é verdade um, dois, três, quatro, nada disso é verdade. Não e verdade absoluta, tampouco relativa. São Paulo é apenas o expoente máximo de uma dura realidade nacional, em que a vida no campo se revelou primitiva, ingrata, sem incentivo e sem perspectiva. Todo mundo foi para a cidade grande, mas veio mais para São Paulo.

Daí que a cidade é imensa e parcialmente desorganizada do jeito que é. Mas só parcialmente. Prefiro assim. Já pensou se ao longo dessas décadas rejeitássemos os imigrantes, os migrantes, os mendigos, os alienados e os desempregados com a clássica passagenzinha de volta fornecida pela mentalidade ordeira e superior? Não, né? Primeiro eu não estaria aqui. Nem eu nem quase ninguém. Segundo que São Paulo seria um troço de 20 mil metros quadrados com ruas organizadas e ajardinadas, com fofuras na varanda, recebendo turistas no inverno na base do chocolate. E mais nada.

Não. Prefiro a cidade enlouquecida, com seu trânsito, seus milhões de prédios, a faixa de ar sujo na marginal, as denúncias de bolivianos enclausurados, os turistas de negócios, a 25 de Março entupida em vésperas-chave, a Augusta decadente, a japonesa loura, a “rua dos Periquitos” em Moema, a periferia, o Centro Velho, as ciganas de araque e o publicitário-gênio. Prefiro topar com um monte de meninas indo para o trabalho mal e mal em saltos ambiciosos e terninhos mal cortados, com os carros importados, com os prédios espelhadíssimos, com as portinhas decadentes com cheiro de sabonete ruim, com calçadas sujas e com calçadas bacanas.

Prefiro. Porque, apesar de tudo, temos a melhor estrutura viária urbana, a melhor polícia, o melhor Corpo de Bombeiros, a melhor engenharia de trânsito, a melhor assistência à saúde pública e privada, os melhores negócios e – helás! – um nem sempre bem-sucedido programa de despoluição do Tietê – mas temos, entende? Apesar de tudo, nosso ar tem se revelado muito melhor que o de outras metrópoles, temos mais praças e parques, temos mais arborização, mais controle da violência, mais metrô, mais trens, e o mais importante: mais cafés de máquina e mais deliverys por metro quadrado, porque ninguém é obrigado a passar fome.

Críticos contumazes, seja por bairrismo, hábito preguiçoso ou por jogo político, costumam carregar nos estereótipos ruins da cidade e de seus moradores. Lá pra 1931 Mário de Andrade já os detectava e achava graça, não sem apontar as péssimas consequências do que chamou, na conjuntura da época, de “contraste” – gente de todos os cantos do país largando sua formação para vir empreender em São Paulo – com a diferença que, hoje, o elemento – nativo ou não – faz questão de trabalhar aqui, de preferência no doce ofício de achar a cidade uma porcaria.

Então é assim. São Paulo não seria o que é sem sua gente chata achando pelo em ovo. Mas há críticas e críticas. Há as descabeladas, as apaixonadas-ao-contrário e as reclamações simplórias. Vejamos, pois, o que vocês acham das minhas.

8 comentários para “São Paulo, esse fim de mundo

  1. Paulo

    Gostei muito do texto, e certamente vou frequentar assiduamente este espaço. Só uma pequena observação a fazer: em 1927, São Paulo ainda não era a maior cidade do país, o que só veio a acontecer na década de 1950 (o primeiro censo em que São Paulo aparece à frente do Rio de Janeiro é o de 1960).

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    • LeticiaLeticia Posts do autor

      Oi, Paulo, obrigada! É verdade, em termos de população do município. Nessa época, o estado mais populoso do Brasil ainda era Minas Gerais, pra se ter ideia. Tantas mudanças políticas, geográficas, históricas e econômicas, tantas variantes para definir certinho um índice grosseiro, por exemplo, o PIB. Continuando no exemplo, hoje vemos destaque no PIB em cidades de que nunca ouvimos falar. Embora possam embutir distorções, é bom sinal!

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      • Paulo

        Tem razão. Na verdade, os números, isolados, captam uma realidade momentânea, e têm que ser colocados em perspectiva para que se extraia deles um verdadeiro conhecimento. Assim, sua referência à São Paulo de 1927 é correta no sentido de que ela era, se não ainda a mais importante nem a maior, sem dúvida a mais dinâmica cidade do país. Basta ver que entre os censos de 1920 e 1940 (não conheço dados para 1930, ano muito agitado…), São Paulo pulou de 579.033 para 1.326.261 habitantes, salto extraordinário (129%), enquanto o Rio ia de 1.157.873 para 1.764.141 (52,4%) – também um grande crescimento, mas que, na comparação, já prenunciava a ultrapassagem que viria nos anos seguintes.
        Mas reafirmo: muito bom ler alguém que vai escrever sobre (e eventualmente reclamar de) São Paulo com conhecimento e benquerença.

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  2. Leticia

    Luiz Antonio, até nem me importaria com uma entidade que desse uma ajudinha a um arrependido, mas simplesmente mandar de volta não é e jamais foi a personalidade da cidade. Ainda bem que isso ficou no passado malufista.

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  3. Luiz Antonio

    Fiquei arrepiado com essa cronica, me encaixo inteiramente no contexto, inclusive acrescento, no Bairro Jaraguá/Pirituba hoje tem um centro de formação de soldados da Grandiosa Policia Militar de São Paulo, cuja estrutura o Sr. Governador daquela época o “Paulo Malufe” construiu com o proposito de ser um centro de triagem para mandar de volta as origens migrantes menos favorecidos.

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  4. Miguel

    Não sei de onde vem a vontade de muitos paulistanos de abandonar “A Grande Capital”, sempre vejo por ai, na internet, pessoas sonhando em vir para cá, estudar aqui, morar aqui, se tratar ou trabalhar aqui e quem aqui nasce não vê a hora de ir. Eu prefiro aqui, já que aqui nasci é aqui quero ficar.

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    • Leticia

      Miguel, São Paulo sofre do mal de cidade-instrumento-pra-juntar-uns-caraminguás. Ainda bem que está longe de ser a regra dos habitantes. Entre nativos e chegados, a maioria gosta daqui e entende a cidade. O resto, que se vê obrigado a se descolar pra cá por causa de trabalho, o que se há de fazer com suas contrariedades, não é mesmo?

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