Cronologia de um labirinto, não tão místico assim…

haddad

Gravz publicou post no Implicante a respeito do individualíssimo final feliz de um movimento chamado Existe Amor em SP, lançado no dia 21 de outubro de 2012 no Facebook.

[Antes, uma rápida refrescada na cronologia da campanha das eleições a Prefeito em São Paulo no ano passado (vai da minha memória). Principais candidatos no primeiro turno (que se deu em 7 de outubro): José Serra, Celso Russomano, Gabriel Chalita, Soninha e Fernando Haddad, mais ou menos nessa ordem inicial de intenção de votos. Haddad começou bem lá em baixo e custou um pouco a subir. Em agosto, Russomano chegou a empatar e ultrapassar José Serra, enquanto Haddad ia de 6% para 9%. Na véspera do primeiro turno , Haddad alcançava Russomano e Serra, em empate técnico. E foi ao longo desse tempo que a cobra dos fatos fumou.]

Em um longo período anterior, sobreposto e até além desse, percebia-se entre acadêmicos, jornalistas e blogueiros – residentes e confortavelmente domiciliados na cidade que odeiam – um nhé-nhé-nhé crescente, de carona na música “Não existe amor em SP”. Inspirada nas melancolias de Criolo, militantes e distraídos se animavam desde 2011 em mostrar uma cidade oprimida e triste, de per si e principalmente por causa da gestão Kassab/Psdb/protofascista etc. Uma pequena amostra:

[Coletânea]

Adriana Küchler =>  30.07.2011

Xico Sá => 15.04.2011 E 08.09.2012

Marcelo Rubens Paiva => 8.10.2012

Marilena Chauí => 20.10.2012  E aqui

Luis Nassif => 2.11.2012

Vitor Angelo, Blogay – 25.01.2013

Posto isso, e tendo Haddad conseguido subir nas pesquisas, aí a falta de amor geral deu lugar ao epifânico “Existe amor em SP”, uma espécie de “vamos lutar que dá”, ação afirmativa da esperança de que Haddad poderia chegar no segundo turno, como de fato ocorreu. O  objetivo oficial do movimento era o “Fora Russomano” (tá, eu sei, mas de qualquer modo é uma atitude democraticamente duvidosa), mas no fundo, no fundo, parecia querer a exclusão total dos rivais em favor de um só candidato. Abaixo, parte da descrição do ato, ocorrido na então recém-inaugurada Praça Roosevelt, em 6 de outubro de 2012, um dia antes do primeiro turno, quando Serra, Russomano e Haddad estavam tecnicamente empatados nas pesquisas:

Apesar da proposta ser apartidária, a maioria circulava com adesivos de Fernando Haddad (PT) e bandeiras do PT, que tinha um comitê de vereador em frente a praça vendendo acessórios cor-de-rosa. Outros traziam dizeres também contra José Serra (PSDB), em camisetas, entre eles a frase “Se quer amar, não erra: nem Russomanno, nem Serra”. Também foi possível ver militantes tucanos, de Gabriel Chalita (PMDB), de Carlos Giannazi (PSOL) e de Ana Luiza (PSTU). (aqui)

E, uma vez Haddad alçado ao segundo turno, agora era a vez de um festival cor-de-rosa e amoroso. Sempre “apartidário”, “divertido”, que “não levanta bandeira de nenhum partido político” e tals.

E – vejam só a coincidência! – Haddad, em seu discurso de posse, reiterou com propriedade o teatro que o levou à Prefeitura: “existe uma imagem do paulistano, na qual dizem que ‘só há espaço para o egoísmo’. Entretanto, […] “existe amor em São Paulo”.

Voltando a hoje, maio de 2013: a notícia do Estadão de que alguns dos organizadores do “Existe amor em SP” foram convidados a exercer cargos na Prefeitura, gerou reação geral e contrarreação específica das mais bipolares.

Foi ou não foi apartidário? Tinha ou não tinha adesivos e bandeiras de candidato? Tinha ou não tinha movimento contra outros candidatos? Então, repito a pergunta: Era apartidário ou não era?

Não há nada demais em ser partidário, ora, por que não? Mas, apesar da toda a nova conjuntura de comportamento, algumas coisas são e sempre foram feias e antiéticas, e sempre serão. Duvido que se o movimento escancarasse suas preferências haveria tão menos gente aquela noite na Praça Roosevelt a infernizar a vida dos vizinhos. Mas tinha de avisar, Vanderlei. Por que o medinho de se posicionar? Algumas pessoas juram até hoje, com a mãozinha no coração, que aquilo foi uma movimentação legítima do povo. Mas o fato é que não foi bem assim.

Esquizofrenia por esquizofrenia, fiquem aí com o texto de Gilberto Dimenstein (ago. 2012), que em resumo diz bem sobre aquele pensamento de grupo que acabou definindo a eleição: “A gestão Serra/Kassab fez coisas incríveis na cidade, mas foi péssima, eu quero mesmo é “uma coisa nova”.

PS.: Hoje, com Haddad e o PT, moçoilas e moçoilos que não dão nem bom dia no elevador mas que derramaram rios de chorume via Criolo estão em estado de êxtase. Os problemas da cidade acabaram, a periferia sumiu e todo mundo é feliz, cercado de amigos e familiares, com aquele emprego bacana e casbaladatudodigrátis.

  • Foto: Fábio Braga, Folhapress.

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28 comentários para “Cronologia de um labirinto, não tão místico assim…

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  2. negoailso

    acabei lendo o texto do marcelo rubens paiva e lá ele disse que o movimento do Amor em SP – contra RussoMAn foi feito por tucanos e petistas [quarta última frase]. cinismo ou teve tucano ajudando mesmo [e que ficou fora da prefeitura? deve ser, né?] ?

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    • LeticiaLeticia Posts do autor

      Negoailso, já ouviu falar em povo distraído? Eu lá sei se teve tucano nesse movimento? Só posso afirma que no Cansei teve petista também. E DAÍ? As pessoas se misturam, a consciências se misturam, existe posicionamento pra tudo quanto é gosto, mas isso não marca tendências. Seu amiguinho aí está tentando botar panos quentes numa situação que, se na época era claríssima, agora botou o traseiro de fora de vez. Não seja ridículo, deixe isso apenas para os que lucram com isso.

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  3. Bruno

    E o movimento “Cansei”, era neutro politicamente?
    E a marcha pela Família, igualmente neutra?
    A direita usa a mesma estratégia, só não vê quem não quer…

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    • LeticiaLeticia Posts do autor

      Ué! Mas quem disse o contrário, Bruno? Não, o Cansei não era neutro. Não, o Marcha pela Família não era neutro. Aí está a diferença.

      Agora se mobilize a esquerda, como sempre fez na época de Kassab, mas que agora anda bem quieta sobre a a tinta cinza com que cobriram a obra dos Gemeos no Glicério. Ou contra a ineficácia do Bolsa-Família. Ou contra a inflação cujo pulso já se perdeu. Ou contra o aumento visível de mendigos na rua. Ou contra a corrupção geral em obras de infra. Ou contra a remoção dos camelôs da feirinha da madrugada. Ou contra a manutenção da taxa da Controlar. Estou aqui no aguardo, sim?

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    • Bernardo Zirpoli

      Não existe utilidade a alguém da “direita invisível” ou “neutra” na direita. Por que existiriam, então? Você que é muito burro. Não existe menção a isso em lugar nenhum de autor nenhum da direita.

      Agora… se você for um esquerdinha um pouco mais esforçado e já tiver lido Gramsci (nem digo outros autores mais prolixos, que aí é querer demais), você vai ver a utilidade dessa “estratégia” (como você mesmo assumiu) nos regimes de esquerda.

      Aqui não, violão.

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  4. Leonardo

    Eles são notorios apoiadores de partidos de esquerda (os coletivos) alias dizem que o curador da virada fechou a casa dele na Augusta para investir na do Rio com o patrocinio das tres esferas do poder

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  5. LeticiaLeticia Posts do autor

    Certo, Marlos Ápyus. Na verdade a outra data era a do segundo turno. E obrigada à equipe da Reaçonaria pelo “encurtamento” dos links, melhor assim mesmo.

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