A utopia citadina: polícia, só pros outros

GCM.Prefeitura

Você notou ontem.

Ainda reflexo da semana anterior, a PM não foi chamada para cobrir a passeata desta terça-feira. Resultado: Haddad foragido, não houve muito o que fazer senão a Guarda Civil Metropolitana, “defesa do patrimônio da cidade”, se encafofar no prédio da Prefeitura e largar o resto do centro ao caos. Tá certo. Não é sua função.

Apenas momentos mais tarde, quando a região ficou entregue aos vândalos, é que a Tropa de Choque da PM teve de ser acionada, e aí as ações repressoras foram não só reclamadas, superbem-vindas.

Me parece que existe entre a população de facebook/mídia certa turbidez no entendimento da atuação das instituições, e sobre seu próprio papel na sociedade.

Para além das considerações de apresentadores de programas populares, a PM está aí para proteger as pessoas… das pessoas. Se o estudante toddynho sair pra protestar, é direito dele. É direito dele inclusive ser protegido do outro estudante toddynho que saiu pra vandalizar e furar bloqueios, mesmo que a mãe do segundo teça uma série de considerações sociais sobre as motivações da cria.

Confesso que já me enchi um pouco dessa ladainha diária de “o movimento foi uma beleza, fora a ação de uns poucos vândalos”. Todo dia tem a ação de “uns poucos vândalos”, e assim as cidades vão sendo paralisadas e destruídas. Por falta de discurso, nos outros estados o bullying contra a polícia é menor ou inexistente, mas em São Paulo, por pressão de certa camada político-ideológica da população, vive-se agora um estado de praticamente não intervenção da PM.

A que o governo estadual anuiu – por estratégia, certamente. Ficou bonito a partir de segunda-feira largar o povo livre pelas vias, sem planejamento, sem bloqueios, sem bandeiras e sem amanhã, não é mesmo?

Deu no que deu: cidade parada e, agora, lojas do centro invadidas, depredadas e saqueadas por uma também população – mas “diferenciada”, né, antropólogas de Perdizes?

(Ai, meu Deus, dá até preguiça de repetir isso toda hora:) Ninguém defende truculência de policial, erasmodiasação dos movimentos, bala de borracha a esmo, etc. E as passeatas devem continuar, claro. Mas a PM deve atuar pra todo mundo, inclusive se seu filhote resolver romper acordos de bloqueio e depois aparecer pras câmeras cheio das explicações e apontando pra barriga deflorada por uma bala de borracha.

Se a PM pode atuar livremente contra vândalos comuns/pobres (como os saqueadores das lojas do Centro), mas acionar o salvo-conduto na hora de lidar com manifestantes classe média que quebram tudo por ~furor cívico~, tá na hora de rever esse conceito igualitário de “passe livre”.

Foto: Fábio Braga/FolhaPress.

PS.: Pra neguinho tentar ler e raciocinar como funciona a PM: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2013/06/1297981-decisao-de-nao-chamar-pm-para-conter-protesto-na-prefeitura-de-sp-foi-conjunta.shtml

16 comentários para “A utopia citadina: polícia, só pros outros

    • LeticiaLeticia Posts do autor

      “… depois que saiu para trabalhar com seu pai numa empresa de transporte”, dava até um sambinha. Daqui a pouco ele estará solto novamente, tal qual o outro que rasgou a folha de votação do Carnaval. Sair às ruas assim, por leis mais duras? Não sei se rola, não, Cátia. Vamos ver se o brasileiro continua o movimento ou fica restrito a seus interesses mais individuais. Obrigada!

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  1. Tomas

    Olá Leticia,
    Você não explorou muito a questão governo estadual vs. governo municipal. O Haddad estava usando a manifestação de bandeira política, para se promover, e o PT estava queimando o Alckmin por causa da repressão da PM à livre manifestação.

    O Alckmin ficou bravíssimo e desde então a PM não faz absolutamente nada (antes de ficar totalmente violento). Você acha que a prefeitura ficou ao léu por causa dessa richa entre os dois?

    Tomás

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    • LeticiaLeticia Posts do autor

      Bem, Tomas, não é esse o tema do post, até porque a “rixa” já é bem explorada há décadas. O Haddad estava com cara de traseiro embutido diante da manifestação, até que a repressão policial “violenta” aos “manifestantes” da última quinta deu ao prefeiteco finalmente uma causa fófis. PM não “tem de” fazer ou deixar de fazer absolutamente porra nenhuma. Ela simplesmente é requisitada ou não. E não foi ontem. Tendeu?

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  2. Lucio

    No Blog do Reinaldo Azevedo, há um ótimo artigo da Professora Janaína Paschoal sobre a relação entre a “geração toddynho” e as manifestações (http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/exclusivo-relato-de-uma-uspiana-muito-estranha-ou-o-territorio-livre-se-encontra-com-o-construtivismo-na-terra-do-nunca/). O que estamos testemunhando nestes dias é o resultado da soma do conceito que de esta Geração Y pode tudo (menos ser contrariada), com um modelo educacional amparado em teorias falidas e esquerdopatas como as de Vigotski, Emília Ferreiro, Piaget e a famigerada “pedagogia do oprimido” de Paulo Freire. Um amigo educador, que é contra estes modelos educacionais fossilizados, já dizia com ironia:”Precisamos de mais Pinochet e menos Piaget”. É lógico que isto é um exagero, mas é uma maneira de clamar por mais disciplina e respeito às leis e regras nas escolas e que o direito de uns não pode avançar sobre o direito de todos. Ainda confunde-se liberdade com libertinagem, bem como política com politicagem…

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    • LeticiaLeticia Posts do autor

      Eu li, Lucio. E o Pendura/Peruada, se você pensar bem, é o Olimpo desse pensamento “certa classe pode tudo, aos outros a lei”. Movimentos pseudoigualitários escondem o mais do mesmo humano: a simples manutenção dos estamentos, de que falava Raimundo Faoro. Chego a pensar que povinho que protesta está mesmo é com inveja da mulher do bolsa-família. Quer só entrar na folia dos subsídios.

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  3. LeticiaLeticia Posts do autor

    Ô, “revisor”! Volta lá e vê se consegue entender algum parágrafo de manual decente de revisão => , etc. Depois, volte pra mamãe, única namoradinha que perdoa o diminuto tamanho do seu bilau.

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    • Alexandre

      Na semana que vem, quando alguma amiga sua da USP/Jardins apanhar, aposto que você vai protestar contra o machismo e ainda vai usar uma saia contra as divisões de gênero.

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        • Arthur

          Também sou revisor, então vou dar uma ajudinha aí pro nosso colega de profissão: http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/05/13/pontuacao-do-etc/

          Parabéns pelo texto, Letícia. Eu fiquei entre a clássica dúvida de rir ou chorar ontem a noite, olhando o Facebook: todos os meus conhecidos (de esquerda, claro) que a princípío diziam que a manifestação era apartidária e popular agora reclamavam que a manifestação havia sido roubada e que a pauta real era só a questão dos 20 centavos. Que qualquer outro protesto, seja contra corrupção ou o que for, era de reacionários malvados da direita que querem acabar com as lutas sociais. E a cereja do bolo, que “revolução popular não implica em participação do povo” (seriously, WTF?!). E vi também um monte choramingando que a polícia de São Paulo é do mal, perguntando o por que do Choque não estar lá protegendo eles contra os “vândalos malvados infiltrados que não nos representam”, sendo que eles mesmos haviam postado anteriormente “jenialidades” como “protesto pacífico só ocorre sem polícia” e etc.

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          • LeticiaLeticia Posts do autor

            Obrigada, Arthur. E obrigada pela aulinha ao “colega” aí. (Diferencinha de nada entre revisor de fato e revisor que se cata na esquina.)

            Esses momentos são “prenhes” de análises sociológicas bem divertidas. Agora que a passagem “baixou”, aguardemos o povo. Minha aposta é que tudo vai meio que se perder.

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            • Arthur

              A minha também. Mais do que aposta, é minha esperança. Como o Rodrigo Constantino comentou, turbas podem ser perigosas. Mas eu tenho a impressão de que tudo vai se perder em manifestações difusas, confusas e contraditórias.

              Quanto a resposta que você deu ao Roberto sobre o “colega de profissão”, não é desculpa pra esse comportamento imbecil. Eu levei foras aos montes na adolescência e nem por isso virei um imbecil. Mas virei revisor e tradutor… será que tem alguma relação?
              hehehe

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    • Roberto

      Olha aqui o “revisor” de merda (para manter o nível do palavreado), tentei te ignorar mas não deu:
      “Tem é que ficar de 4 bem quietinha.”
      Aprendestes com tua mamãe, certo?

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