Sobre o jornalismo político brasileiro

Um comentário da jornalista Eliane Cantanhêde no Twitter me chamou a atenção nesta semana. Vejam abaixo:

 

Eliane Cantanhêde está longe de ser uma dos muitos jornalistas com paixões partidárias, como existem aos montes para defender o PT ou o PSDB. Ela é, inclusive, uma profissional bastante dedicada e competente que, por isso mesmo, já foi muito xingada por petistas. Acontece que me chama atenção neste comentário o distanciamento que ela, como profissional do ramo, se coloca dos fatos agora descobertos.

Eliane Cantanhêde é uma profissional experiente, bem relacionada e com muito conhecimento dos bastidores de Brasília. Como é que Eliane Cantanhêde, entre tantos outros da Veja, IstoÉ, Época, Folha, Estadão e O Globo não percebiam?

As últimas revelações sobre Eike Batista são até motivo de chacota. Há anos estava claro, no sorriso cínico do “grande empreendedor brasileiro” ao lado de políticos petistas e peemedebistas, que ali havia sujeira. A ave tinha pele de urubu, bico de urubu, voava como urubu e comia carniça como urubu, e mesmo assim ninguém a chamava de urubu? Pelo contrário, todas as três grandes revistas brasileiras, e até aquela revista petista com capital em paraíso fiscal o bajularam em capas de suas edições. Cliquem nas imagens abaixo para ampliar as capas em homenagem a Eike Batista:

E o que dizer de Sérgio Cabral? A deferência das Organizações Globo é especialmente vergonhosa pois o grupo tem sua sede ali, ao lado do império bilionário que uma pessoa dedicada honestamente à política jamais conseguiria levantar. E as fortunas de Lula, Palocci e de Guido Mantega, que viajavam o mundo fechando negócios para o partido e levando uma parcela para si próprios? Lembrar das honrarias e elogios recebidos por Palocci ao longo dos anos petistas é o bastante para jamais confiar novamente em quaisquer elogios da Veja e Estadão a homens públicos. Como pode um bandido de tamanha amplitude ter sido, mesmo após flagrantes, elogiado com tanto entusiasmo?

Por anos o mundo vem discutindo o problema da crise no jornalismo. Por aqui mesmo, inúmeras vezes criticamos uma parte relevante que levou a esta situação, que é a do comprometimento ideológico. Porém, há algo além e que é muito mais grave: será que o jornalismo brasileiro não é instrumento de criminosos? Se não o é, estamos então falando de incompetência ou covardia? Foram cegos ou calados por seus editores?

Um império criminoso tão largo como o que se revelou nos anos do governo petista só seria possível num país em que todas as instituições estivessem corrompidas, e sua moralidade doente. Os políticos e empresários criminosos só conseguem realizar plenamente seus objetivos quando conseguem a conivência, ou incompetência, dos órgãos de fiscalização oficiais, mas também da imprensa. A auto-crítica que o jornalismo brasileiro precisa fazer neste momento não é o fato de estarem perdendo leitores para sites amadores ou mesmo sua crise financeira. O jornalismo deve se questionar se ele realmente merece alguma credibilidade após descobrirmos, graças a algumas poucas almas honestas e desbravadoras, as verdades que esta gente jamais foi capaz de reportar.

O jornalismo político brasileiro hoje se resume a ter bons contatos na Polícia Federal, no Ministério Público e em outros órgãos oficiais de investigação. É pouco demais para justificar a existência dessas empresas. E enquanto essa gente continuar a mentir e fazer de conta que não são culpados da crise de confiança em que se meteram, mais difícil será percebermos para quê mesmo que essas empresas foram úteis algum dia.

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

 

 

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7 comentários para “Sobre o jornalismo político brasileiro

  1. Marcos

    Acompanhava O Globo na época do mandato Cabral e posso atestar que o jornal era praticamente uma agência da marketing do governo dele. Mesmo diante das operações mais estranhas e escrachadas, os “jornalistas” não mexiam um dedo para investigar, como no caso óbvio da mulher dele ser advogada das empresas de trem e metrô. As ligações de Cabral com Cavendish também eram evidentes. Mas tudo o que existia na época era boatos bem superficiais e relatos de alguns gatos pingados que circulavam pela internet ou por conversas, sem nunca termos uma investigação sólida, que seria o papel da imprensa.

    Se o Rio está como está, boa parte da culpa é das organizações Globo, que sempre estiveram do lado de Cabral.

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  2. Rodrigo Senzo

    Fingimento da sra Eliane Cantanhêde. Cinismo mesmo. No Brasil, nas grandes corporações midiáticas, não existe jornalista; existe embelezadores de “notícias” quando muito. No mais das vezes, o que vemos é gente a acobertar e pôr panos quentes. Gente ávida por atacar qualquer coisa que represente o oposto à sua “ideologia” (ou ao estereótipo dominante).
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    Verdade é uma palavra prostituída na boca desses cretinos. O que mais se vê é fingimento, gente sem fibra, incapaz de ir contra a corrente… poucos se salvam… e os que se salvam só o conseguem fazer porque mantém uma postura BASTANTE comedida, contida, mantendo a linguagem EXTREMAMENTE respeitosa, cavalheiresca, eufemística. Alguém que bata de frente e chame ladrão de ladrão, bandido de bandido e descreva a realidade da penosa situação do país, etc logo é limado. Veja por exemplo o caso Rachel Sheherazade (que nem era lá tudo isso); logo foi calada.
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    Às vezes, acho que um sujeito como o Ratinho é mais jornalista do que esse bando. Ele, muitas vezes, fala na lata o que outros, que deveriam informar, se recusam a fazer.
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    Veja que nenhum jornalista da grande mídia se sente culpado pela situação do país. NENHUM. Aí já dá pra ver o nível moral deles (falta de auto avaliação do seu papel na sociedade). Quando a verdade é que não fosse eles, o país JAMAIS chegaria no nível de esgoto em que está.
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    Graças a Deus existe sites como http://www.reaconaria.org, http://www.oreacionario.blog.br/, http://www.midiasemmascara.org entre outros e canais do Youtube.

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  3. José Carlos

    Jornalistas são usualmente crentes zelosos que ao invés de informar preferem doutrinar, mesmo que seu evangelho marxista seja uma coleção de cretinices que não têm nada a ver com a realidade. Em países culturalmente atrasados e retrógrados com o nosso isso é ainda mais evidente.

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    • Pedro Rocha

      Se bem que os EUA sob Hussein se esforçaram bastante para se equiparar a nós e conseguiram até nos superar.

      Pelo menos aqui AINDA não há imposição estatal de banheiros “livres de discriminação”.

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  4. Pedro Rocha

    Sou petroleiro e bastaria um jornalista investigativo ir à Macaé entrevistar alguns empregados da Petrobras para saber o mundo de ilusões que era a OGX. O próprio Eike deveria ter feito isso antes de contratar certos executivos da própria Petrobras que fizeram com ele o que faziam com o povo brasileiro na estatal: fingir capacidade técnica para enganar e levar vantagem!

    Mas o mundo da Bolsa vive de especulações e enquanto os tubarões estão ganhando dinheiro com isso não importa se é ou não verdade. Em maior escala, é o que a China faz com o mundo todo e não deve ser coincidência a proximidade de Eike tanto com os comunistas daqui quanto com os chineses.

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  5. Rogerio

    Texto perfeito. Observamos que é sempre mais fácil mostrar surpresa e indignação e esquecer o resto.
    Esqueceu também de mencionar outros grandes peixes do mar de lama. Lágrimas, só das vitimas.

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