RETROSPECTIVA 2016 – A internet política neste ano

O ano de 2016 consolidou o novo modelo do mercado de notícias políticas em que importa muito menos o conteúdo do que a intenção passada. De preferência no título e com uma imagem chamativa, favorecendo as “páginas de Facebook”.

Parte disto se deve a uma mudança da forma como as pessoas lidam com as notícias. Com as redes sociais e o amplo acesso a todo tipo de veículo, elas são repassadas também como forma de afirmação pessoal: a pessoa que quer passar uma imagem, mostrar ou reforçar sua preferência por alguns ideais compartilha o link de notícias e páginas que reforçam ou afagam essas certezas.

A imprensa também é responsável por essa mudança, graças à queda crescente de sua credibilidade. Os leitores acreditam que um veículo tem determinada tendência e por isso evitam acessá-lo ou divulgá-lo, acessando as mesmas notícias por outros canais. Como a maior parte das reportagens políticas no país hoje se originam de materiais produzidos por órgãos estatais de investigação, jornais e revistas disputam para ver quem tem melhores acessos ao Ministério Público, à Polícia Federal ou à Receita. A escolha sobre qual link ler depende mais da leitura que os veículos farão da mesma fonte primária da notícia. É daí que então que há mais compartilhamentos da interpretações desses materiais em sites (em que podemos incluir o nosso) do que no link do primeiro veículo que teve acesso ao material bruto produzido pelos órgãos oficiais.

No campo da disputa entre PT contra oposição, ou esquerda contra a direita, progressistas contra conservadores, podemos dizer que os segundos se saíram bem melhor. Talvez o exemplo mais caricato dessa nova realidade seja a comparação entre a página Caneta Desesquerdizadora, anti-esquerdista, que em pouco tempo superou a original “Caneta Desmanipuladora” , que defende o PT e os bandidos do petrolão.

Outra evidência interessante é notar que as páginas de tendência claramente de esquerda precisam se escorar em eufemismos, não são mais afirmativas, evitam dizer que são esquerdistas e petistas. Nesse caso, a esquerda tem duas poderosas páginas: Quebrando o Tabu ( 6 milhões de seguidores no Facebook) e Catraca Livre (quase 8 milhões de seguidores no Facebook), ambas financiadas por grandes empresas, institutos de extrema-esquerda e, eventualmente, dinheiro público. Além disso, elas misturam conteúdo claramente militante contra a família, em defesa de bandidos e de defesa das drogas com receitas, vídeos de bichinhos e divulgação de shows.

No lado oposto, a mobilização de direita se dá por sites de grupos de protesto como o Movimento Brasil Livre (1,750 milhão de seguidores), que neste ano cresceu, se profissionalizou e se tornou o maior em número de seguidores. Há ainda a destacar o Vem Pra Rua (1,475 milhão de seguidores), principal organizador da grande manifestação em favor da Lava Jato no final do ano e o NasRuas ( 374 mil seguidores no Facebook), que com um grupo de pessoas muito menor é um dos melhores geradores de conteúdo em cima dos acontecimentos no Congresso e no STF. Ainda falando de páginas mobilizadoras, embora não ligadas a movimentos de rua, destacam-se a “Movimento Contra a Corrupção”  (3,075 milhão de seguidores) e a “Avança Brasil Maçons”  (765 mil). A página Revoltados Online (2 milhões de inscritos) foi derrubada do Facebook.

Embora as páginas de esquerda destacadas acima tenham um público muito maior, elas não representam ações espontâneas. Ao contrário das páginas de movimentos e de combate ao PT, elas são profissionais, têm múltiplos financiadores ligados ao meio político e existirão enquanto houver dinheiro. Não representam grupos populacionais proporcionais aos seus seguidores pois boa parte deles é conquistada com seus posts apolíticos, e a intenção é justamente essa, conquistá-los sorrateiramente, doutriná-los aos poucos.

A grande fragmentação existente no Facebook também se vê nas páginas normais de internet. Neste ano, o Instituto Liberal de São Paulo, o Terça Livre, o site JornaLivre e o Senso Incomum surgiram, ou aumentaram muito o volume de produção. Para nós, que há alguns anos surgimos com este nome diferente marcando posição em 2013 quando Dilma tinha elevados índices e parecíamos condenados a não termos outro partido no poder, é uma satisfação enorme viver essa mudança.

Por fim, num país com nossos índices de criminalidade e cuja intelectualidade ensina a ser leniente com bandidos, é salutar ver o crescimento de influenciadores de internet focados no problema que, para mim, é o maior do Brasil: o excesso de drogas (que então resulta em tráfico que se realiza com enorme cadeia de crimes).

As páginas de policiais são um fenômeno que ainda não foi devidamente notado pelo jornalismo, por exemplo, justamente pela bolha em que vivem. Vídeos em que bandidos se dão mal, muitas vezes morrendo em tentativas de crime,  são rotina nas timelines e grupos de WhatsApp. Para desespero da esquerda brasileira  há muitas páginas assim, o que torna impossível ações delinquentes do jornalismo ou mesmo dos controladores de  redes sociais para resolver o problema. Páginas como Amigos da Rota (938k seguidores no Facebook), Sargento Fahur (que chegou a mais de 1,5 milhão até ser tirada do ar), Coronel Telhada (937k)Tenente Derrite (909k), Sargento Alexandre (736k), Apoio Policial (512k). Junte-se a eles as páginas de Jair Bolsonaro (3,6 milhões) e seu filho Eduardo Bolsonaro (1,1 milhão) deixam claro o potencial de influência que uma candidatura presidencial focada em combate a bandidos terá, além de já ser perceptível o efeito da opinião pública em relação a temas como pena de morte, combate às drogas e fim do estatuto do desarmamento.

Quanto ao futuro, é bastante incerto. As recentes notícias dos planos de Facebook, Google e Twitter de instituírem uma forma de controle das publicações ainda maior, marcando determinadas páginas como propagadoras de mentira, pode representar uma forma de censura com eficiência enorme – e, além de tudo, fará água da teoria de que mais liberdade de mercado resulta em maior liberdade de opiniões, ou de que apenas o Estado é quem censura. Some-se a isto a nossa nova realidade, em que o centro de todos os debates políticos dos últimos 14 anos não está mais na presidência do país.

Quanto a nós, do Reaçonaria, seguiremos nosso caminho enquanto ainda houver tempo, disposição e, especialmente, tantos amigos leitores que comentam, compartilham, criticam e nos estimulam. Não vai ser fácil, o desgaste e o desgraçamento da cabeça continuarão sendo granded, mas a recompensa que sentimos ao incomodar filhos da puta continua sendo um pagamento mais do que justo.

A internet política escapa ao campo de ação estatal e dos grandes grupos de comunicação

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

 

 

2 comentários para “RETROSPECTIVA 2016 – A internet política neste ano

  1. Fabio

    Claro que é contra evangélicos, o canalha da uol , falou que o grupo é contra os líderes.
    Falcatruas tem em todos os lugares.
    Faz reportagem contra eles e não contra a religião.

    Por que não fala das outras regiões que estão cheias de picaretas , advinhos e pedófilos?

    Responder

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