PSDB: Para vossa fantasia, mui estreita é essa barca

O PT é o partido mais rico do Brasil e que domina os meios culturais e acadêmicos. O segundo maior partido nestes termos é o PSDB. O curioso é que, em meio à ruína petista, o PSDB não assuma a posição de restaurador do país. Falta-lhe firmeza, caráter e valores, além de em muitos aspectos possuir a mesma visão política do PT.

Enquanto os dirigentes do PT se aproximam da cadeia, os líderes tucanos enfrentam um inferno que não os permite vislumbrar grandes futuros. Aécio vê seu aliado Azeredo correr risco de prisão e é xingado por eleitores quando alivia a situação do PT. FHC teve seu nome manchado pelas denúncias de uma ex-amante. Serra entrou no rolo por empregar uma irmã dessa amante de FHC. Já Alckmin vê seu aliado e presidente da Assembleia Legislativa ser envolvido num caso de desvios de recursos para compra de merenda escolar.

Estupefatos, os tucanos não conseguem entender porque motivos aquelas pessoas que criticam o PT, que querem ver o fim do PT, não os ajudam nesses momentos constrangedores. Uma boa forma de explicar a eles é trazer trechos do Auto da Barca do Inferno, de 1517, escrita por Gil Vicente. Reler esta peça é ainda mais importante agora que o MEC petista quer retirar do currículo de formação de nossos estudantes o estudo da literatura portuguesa. Abaixo os trechos especialmente selecionados para os tucanos e, mais adiante, toda a cena I e II, em que participa o Fidalgo:

Fidalgos não entendem porque não embarcaram na Barca rumo ao Paraíso

Fidalgos não entendem porque não embarcaram rumo ao Paraíso – Ilustração por Gabriel Artie*

Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:

FIDALGO Esta barca onde vai ora,
que assi está apercebida?
DIABO Vai para a ilha perdida,
e há-de partir logo ess’ora.
FIDALGO Pera lá vai a senhora?
DIABO Senhor, a vosso serviço.
FIDALGO Parece-me isso cortiço…
DIABO Porque a vedes lá de fora.

(…)

FIDALGO Não há aqui outro navio?
DIABO Não, senhor, que este fretastes,
e primeiro que expirastes
me destes logo sinal.
FIDALGO Que sinal foi esse tal?
DIABO Do que vós vos contentastes.

(…)

ANJO Que querês?
FIDALGO Que me digais,
pois parti tão sem aviso, se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
ANJO Esta é; que demandais?
FIDALGO Que me leixês embarcar.
Sou fidalgo de solar,
é bem que me recolhais.

ANJO Não se embarca tirania
neste batel divinal.
FIDALGO Não sei porque haveis por mal
que entre a minha senhoria…
ANJO Pera vossa fantesia
mui estreita é esta barca.
FIDALGO Pera senhor de tal marca
nom há aqui mais cortesia?

Venha a prancha e atavio!
Levai-me desta ribeira!
ANJO Não vindes vós de maneira
pera entrar neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.

Ireis lá mais espaçoso,
vós e vossa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso.
E porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso.

(…)

FIDALGO Ao Inferno, todavia!
Inferno há i pera mi?
Oh triste! Enquanto vivi
não cuidei que o i havia:
Tive que era fantesia!
Folgava ser adorado,
confiei em meu estado
e não vi que me perdia.
Venha essa prancha! Veremos
esta barca de tristura.

(…)

Entrai, meu senhor, entrai:
Ei la prancha! Ponde o pé…
FIDALGO Entremos, pois que assi é.
DIABO Ora, senhor, descansai,
passeai e suspirai.
Em tanto virá mais gente.
FIDALGO Ó barca, como és ardente!
Maldito quem em ti vai!

*Conheçam o trabalho de Gabriel Artie em suas páginas:

 

 

                                              O AUTO DA BARCA DO INFERNO

Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:

FIDALGO Esta barca onde vai ora,
que assi está apercebida?
DIABO Vai pera a ilha perdida,
e há-de partir logo ess’ora.
FIDALGO Pera lá vai a senhora?
DIABO Senhor, a vosso serviço.
FIDALGO Parece-me isso cortiço…
DIABO Porque a vedes lá de fora.

FIDALGO Porém, a que terra passais?
DIABO Pera o inferno, senhor.
FIDALGO Terra é bem sem-sabor.
DIABO Quê?… E também cá zombais?
FIDALGO E passageiros achais
pera tal habitação?
DIABO Vejo-vos eu em feição
pera ir ao nosso cais…

FIDALGO Parece-te a ti assi!…
DIABO Em que esperas ter guarida?
FIDALGO Que leixo na outra vida
quem reze sempre por mi.
DIABO Quem reze sempre por ti?!..
Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!…
E tu viveste a teu prazer,
cuidando cá guarecer
por que rezam lá por ti?!…

Embarca – ou embarcai…
que haveis de ir à derradeira!
Mandai meter a cadeira,
que assi passou vosso pai.
FIDALGO Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?!
DIABO Vai ou vem! Embarcai prestes!
Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai.

Pois que já a morte passastes,
haveis de passar o rio.
FIDALGO Não há aqui outro navio?
DIABO Não, senhor, que este fretastes,
e primeiro que expirastes
me destes logo sinal.
FIDALGO Que sinal foi esse tal?
DIABO Do que vós vos contentastes.

FIDALGO A estoutra barca me vou. Hou da barca! Para onde is?
Ah, barqueiros! Não me ouvis? Respondei-me! Houlá! Hou!…
(Pardeus, aviado estou!
Cant’a isto é já pior…)
Oue jericocins, salvanor!
Cuidam cá que são eu grou?

ANJO Que querês?
FIDALGO Que me digais,
pois parti tão sem aviso, se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
ANJO Esta é; que demandais?
FIDALGO Que me leixês embarcar.
Sou fidalgo de solar,
é bem que me recolhais.

ANJO Não se embarca tirania
neste batel divinal.
FIDALGO Não sei porque haveis por mal
que entre a minha senhoria…
ANJO Pera vossa fantesia
mui estreita é esta barca.
FIDALGO Pera senhor de tal marca
nom há aqui mais cortesia?

Venha a prancha e atavio!
Levai-me desta ribeira!
ANJO Não vindes vós de maneira
pera entrar neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.

Ireis lá mais espaçoso,
vós e vossa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso.
E porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso.

DIABO À barca, à barca, senhores!
Oh! que maré tão de prata!
Um ventozinho que mata
e valentes remadores!

Diz, cantando:

Vós me veniredes a la mano,
a la mano me veniredes.

FIDALGO Ao Inferno, todavia!
Inferno há i pera mi?
Oh triste! Enquanto vivi
não cuidei que o i havia:
Tive que era fantesia!
Folgava ser adorado,
confiei em meu estado
e não vi que me perdia.
Venha essa prancha! Veremos
esta barca de tristura.
DIABO Embarque vossa doçura,
que cá nos entenderemos…
Tomarês um par de remos,
veremos como remais,
e, chegando ao nosso cais,
todos bem vos serviremos.

FIDALGO Esperar-me-ês vós aqui,
tornarei à outra vida
ver minha dama querida
que se quer matar por mi.

DIABO Que se quer matar por ti?!…
FIDALGO Isto bem certo o sei eu. DIABO
Ó namorado sandeu,
o maior que nunca vi!…

FIDALGO Como pod’rá isso ser,
que m’escrevia mil dias?
DIABO Quantas mentiras que lias,
e tu… morto de prazer!…
FIDALGO Pera que é escarnecer,
quem nom havia mais no bem?
DIABO Assi vivas tu, amém,
como te tinha querer!

FIDALGO Isto quanto ao que eu conheço…
DIABO Pois estando tu expirando,
se estava ela requebrando
com outro de menos preço.
FIDALGO Dá-me licença, te peço,
que vá ver minha mulher.
DIABO E ela, por não te ver,
despenhar-se-á dum cabeço!

Quanto ela hoje rezou,
antre seus gritos e gritas,
foi dar graças infinitas
a quem a desassombrou.
FIDALGO Cant’a ela, bem chorou!
DIABO Nom há i choro de alegria?..
FIDALGO E as lástimas que dezia?
DIABO Sua mãe lhas ensinou…

Entrai, meu senhor, entrai:
Ei la prancha! Ponde o pé…
FIDALGO Entremos, pois que assi é.
DIABO Ora, senhor, descansai,
passeai e suspirai.
Em tanto virá mais gente.
FIDALGO Ó barca, como és ardente!
Maldito quem em ti vai!

  Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

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