O incrível mundo dos micheleiros

Tenho tentado acompanhar nas redes sociais algumas opiniões dos micheleiros. Para quem não conhece o termo, se refere às pessoas que se interessam por política e acreditam que nosso atual presidente é digno de confiança. Embora seja praticamente impossível encontrar quem veja em Michel Temer grandes virtudes, essas pessoas justificam o súbito amor pelo fato de Temer evitar o PT, ou ao menos não ser o PT.

Em se tratando de política brasileira, o primeiro fator a ser levado em conta é a criminalidade. Ou seja, onde está o roubo e o bandido nessa história? Dos que acompanho e interajo, não creio que algum deles seja pago para tal militância, embora alguns de meus amigos não tenham dúvidas que um outro estejam sim recebendo dinheiro do PMDB ou do governo para se rebaixarem dessa forma – em lugar dos “blogueiros progressistas” da época do PT estaríamos vendo agora os “twitteiros de resultados econômicos”.

Pulando os aspectos meramente criminosos, que repito não ter elementos para apontá-los, é preciso citar a questão do estilo. Alguns o fazem de forma franca, o que é algo bem honesto. Encontram conforto em suas próprias consciências ao dizerem que o país está caminhando bem economicamente, que os rumos foram corrigidos, que as contas estão se reequilibrando e o desemprego diminuiu.

Há um grande número de micheleiros discretos. Em vez da defesa aberta, a fazem cirurgicamente. Abraçam a agenda de defesa de Michel Temer: não tratam das qualidades pessoais e condições que envolvem diretamente o Presidente em atos vergonhosos, mas atacam quem seria interessante apresentar como antagonista dele. Não se trataria da honra de quem ocupa o cargo mais importante do país, importante mesmo seria falar de quem o está incriminando. Joesley Batista? Um bandido. Janot? Um petista. Todas as notícias que fortaleceriam essas impressões são comentadas com doses de ironia.

Há por fim os micheleiros de resultados. Diante de tantas incertezas do cenário e pensando em sua própria recolocação profissional do que sobrar de estrutura política do país, fazem do silêncio a grande sacada. Embora comentem as minúcias de um fato ocorrido em cidades do interior dos EUA com menos de 20 mil habitantes, alegam que ainda é muito precipitado emitir juízos sobre tudo que está acontecendo. Aproveitando o já bem estabelecido mercado de críticas ao PT, suas opiniões são extremamente corajosas contra quem já não está mais no poder, como Dilma, Lula e seus ministros. Exposição de números do estrago petista realizado até pouco tempo atrás é sempre usado como contraponto aos resultados ruins de agora, embora a competição de grandeza das incompetências não seja declarada, ficando a cargo dos leitores complementarem o raciocínio ajeitado para mostrar que Temer é bom pois melhor que o PT.

Trecho da conversa comprometedora de Joesley que os micheleiros fingem ter existido

Desde a revelação de áudios comprometedores contra os dirigentes da JBS, os micheleiros fazem de conta que alguma das novas informações inocenta Temer de qualquer uma das muitas acusações que recaem sobre ele. Embora nenhuma tenha participação de Janot, usam o fato também contra o Procurador-Geral. Quando criticam Janot, não o fazem pelo que Janot fez de errado, ou seja, sua lentidão para investigar os petistas. Cínicos, atacam Janot por ter sido com Temer o que deveria ter sido com todos: rápido, eficaz e distante de acertos de bastidores. Torcem para que todas as informações fornecidas pela JBS sejam invalidadas, o que aliviaria a vida de diversos bandidos políticos – não importa, salvar Temer é a ordem do dia.

Não ouso argumentar com a maior parte dos micheleiros, embora o faça com alguns. Certa classe dessa gente, que desfila regiamente por Brasília ou empina as narinas (cansadas) mesmo sob ventos frios, não vale qualquer bate papo por serem mercadoras de opinião. Foram assim em campanhas de Alckmin, Serra, Aécio e agora entregam o serviço para Temer. É nítido o desconforto daqueles que incomodo quanto tento tratar da pessoa de Michel Temer e seus atos. Nenhum comenta o papel dele, de cúmplice e apoiador de todos os roubos e desmandos do PT. Também não elaboram nenhuma justificativa para o encontro com Joesley, mesmo xingando o dono da JBS de pior bandido do mundo. Acham natural que a pessoa que defendem tenha tido um relacionamento tão próximo com tantos que eles gastam energia para xingar. Não falam sobre Temer ter preenchido 1/5 de seu ministério com gente que também foi ministro dos governos petistas.  Se distinguem de Reinaldo Azevedo, maior fonte de seus próprios argumentos, porque não são profissionais do descaramento, não recebem ligações nem visitas, quem sabe o quê mais, do Presidente. Ao contrário da maior parte das pessoas que quer ver políticos que roubaram presos, essas pessoas se calam diante das ações atípicas de Gilmar Mendes e até mesmo tentam elogiá-lo de vez em quando. Há até quem diga que algumas personalidades importantes desse novo nicho econômico do anti-petismo estudam na “empresa” de Gilmar Mendes.

Evitando juízos mais severos, que tratariam das pessoas verdadeiramente bandidas e canalhas a serviço de outros bandidos, a verdade é que os micheleiros criaram sua identidade política na internet dos últimos anos tendo como norte a crítica à roubalheira do PT. Odiar bandidos é uma reação espontânea e natural de pessoas comuns, e foi assim que boa parte desses se consagrou ao canalizar um sentimento que estava disperso por aí. Caído o PT e desde que o partido deixou de ser, ainda que momentaneamente, o maior predador público do país, essas pessoas ficaram sem rumo. A existência do PT como ameaça os tornou dependentes. Sendo sua essência caracterizada pela negação de algo, vêem ameaçadas a própria continuidade em um mundo em que não tenham um PT para sustentar os personagens que criaram. O tempo de combate aos vícios do PT não os levou, ainda, a perceberem que há um problema acima da ideologia ou da filosofia econômica, e que na maioria das vezes utiliza esses domínios como arma: a criminalidade, a imoralidade geral de quem acha que tudo lhe é permitido. Não percebem que o objetivo de um povo na história humana não pode ser enriquecer ou seguir essa ou aquela ideologia, mas respeitar a dignidade e os costumes de seus cidadãos, promover os bons atos e reprimir os vícios.

Pensando serem inteligentes e mais sabidos que as raposas da política, os micheleiros são corrompidos cada dia mais, correndo o risco de fazerem um buraco do qual jamais conseguirão sair, o da corrupção da alma em nome de projetos políticos. É muito provável que estejam manifestando agora os mesmos sintomas que algumas décadas atrás atacaram os petistas, com a diferença que sem redes sociais, a metamorfose se dava no escuro.

 

 

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2 comentários para “O incrível mundo dos micheleiros

  1. Alex

    Nossa, por um momento pensei que estivesse falando de alguns jornalistas da Globonews, depois pensei, é o Ricardo Noblat, em determinado momento me vi com o Marco Antonio Villa ou o Reinaldo, mas ele foi mencionado nominalmente, então vi que não podia ser ele, mas no fim vi que pelas entrelinhas estava falando do MBL.

    Posso estar errado, talvez seja melhor que eu esteja completamente errado.

    Responder

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