O inacreditável Celso Pansera

Quando no futuro alguém fizer um álbum de notáveis figuras que passaram pelo poder na era petista, Celso Pansera deverá ter um bom lugar de destaque. Embora o nome nem seja cogitado entre as figuras mais relevantes dessa época, o ex-ministro será reconhecido por representar o tipo de figuras volúveis e plenamente adaptáveis ao meio que serviram de apoio ao PT.

No plano nacional, Celso Pansera começou a existir quando, numa reunião da CPI da Petrobrás do dia 28 de agosto, Alberto Youssef era inquirido sobre supostas ameaças que estaria recebendo de deputados ligados a Eduardo Cunha. Quando o deputado ordenou ao doleiro que apontasse quem efetivamente o estava ameaçando, ouviu na sua cara: “Olha, é Vossa Excelência!”. Youssef continuou sua resposta dando a entender que o deputado usava as filhas do doleiro nas ameaças: “Vossa Excelência insiste em me intimidar!”

Pouco tempo depois, no dia 2 de outubro, Celso Pansera foi indicado ao ministério da Ciência e Tecnologia do governo Dilma. Aquele que era apontado como um dos cães-de-guarda de Eduardo Cunha, então já o maior inimigo de Dilma, virava a casaca e entrava no governo com a missão de tirar votos do PMDB “de Cunha” pelo impeachment.

Passados dois meses, Pansera mais uma vez ganhava destaque. Desta vez ele era uma das muitas autoridades que foram visitadas por policiais federais que cumpriam mandados da Operação Catilinárias, desdobramento da Lava Jato que corria sob responsabilidade da Procuradoria-Geral da República (PGR) por envolver autoridades. A verdade é que seu nome foi ofuscado na Operação, visto que também foram alvos pessoas como Eduardo Cunha, Edison Lobão, Lúcio Funaro, Sérgio Machado e Henrique Eduardo Alves.

As buscas em sua residência não constrangeram de forma alguma o governo Dilma, que o manteve no ministério. Ele continuaria ali até se licenciar do cargo para poder voltar à Câmara e votar contra o impeachment de Dilma. Como ele não entregou o prometido e a “bancada do Cunha” votou integralmente pelo afastamento da presidente, não voltou mais ao governo.

Apesar de todas essas reviravoltas, Celso Pansera hoje está muito bem. Tão logo saiu do governo, foi nomeado para a  presidência do conselho de administração da SOFTEX, que o próprio Ministério da Ciência e Tecnologia incumbiu de gerir o “Programa para Promoção da Excelência do Software Brasileiro – Programa SOFTEX”. Segundo o site da SOFTEX, “a entidade beneficia mais de 2 mil empresas em todo o território nacional através de uma rede formada por 20 Agentes regionais. Esse Sistema Softex garante um eficiente auxílio nas áreas operacional, de financiamento e de capacitação das empresas associadas por meio de uma ampla e sólida articulação de parceiros da iniciativa privada, governo e academia.” Sua nomeação para o cargo só foi possível graças à saída de Walter Pinheiro, senador do PT que assumiu a secretaria da Educação no governo na Bahia.

Apesar de ter agido contra o PMDB ao votar contra o impeachment, além de ter permanecido no ministério de Dilma, Celso Pansera não corre riscos de ser expulso do partido. As comissões internas decidiram que votarão primeiro pela saída de Kátia Abreu, alegando para isto que ela não só se manteve no governo e votou contra o impeachment como tem, até hoje, adotado postura favorável a Dilma e contra o governo Temer.

Celso Pansera já se adaptou. Hoje ele faz parte da base de Michel Temer e é provável que esteja por aí, visitando ministérios, nomeando conhecidos para cargos no governo. Paralelamente, consegue algumas notinhas favoráveis no site Vermelho.org, que lhe tem em boa estima (1, 2, 3, 4, 5 citações amigas em 2016). Talvez porque o pessoal mais comunista saiba perdoar os bons filhos: embora tenha passado pelo PSB de Eduardo Campos antes de virar soldado de Cunha no PMDB, Celso Pansera pertenceu ao PT até 1992, quando saiu para ajudar a fundar o PSTU.

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Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

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