O efeito do Powerpoint de Dallagnol

A última pesquisa pra lá de duvidosa divulgada ontem, como já dito no Twitter, tem de ser vista como a declaração de bens de Lula: tem uma boa parte ali que é verdade, mas tem muito que não tá exposto. Do que é mostrado, a mais bizarra interpretação é aquela dada por “anti-petistas” que estão desesperados pelo fato de Lula estar à frente em todos os cenários, e atribuem isso à Lava Jato, vejam só!

Segundo os sábios, a culpa é da Lava Jato por não ter prendido Lula ainda. Quando isso vem de um Reinaldo Azevedo, que virou inimigo das prisões preventivas, o negócio fica muito absurdo. Mas eu não me preocupo com o colunista da Veja, porque já está muito claro para quem o acompanha há bastante tempo qual é a dele. É para pessoas comuns que eventualmente estejam a pensar que Dallagnol e equipe deveriam ter prendido Lula, ou que acham que a apresentação em PowerPoint foi ineficaz, que explicarei uma história ocorrida nas entrelinhas mas vital para entender os desdobramentos da Lava Jato.

Todos sabem, a operação começou em 2014. Naquele mesmo ano foram abertos inúmeros inquéritos no STF para apurar a participação de autoridades. Os anos se passaram e foram realizadas muitas prisões, o leque da investigação se ampliou, ocorreram várias condenações, mas faltava sempre o elemento principal: quem seria o chefe de todo o esquema? Quem seria o motivador, o coordenador, quem daria coesão a uma frente tão ampla de corrupção?

Foi para isso que foi feita a apresentação de Dallagnol. Até ali, as investigações se davam contra operadores financeiros, políticos e empresários. Os operadores financeiros apareciam em transações que lavavam dinheiro e em que transportavam valores. Operadores políticos agiam no Congresso diretamente, apontavam diretores em estatais, recebiam recompensas financeiras e tinham campanhas financiadas. Quanto aos empresários, era fácil mostrar como as empresas financiavam e se beneficiavam. E quanto a Lula?

Como todo chefe de esquema arriscado, Lula não se envolvia diretamente nas transações. Quando muito ajudava na indicação de peças-chave para postos no poder. Porém, como provar isso? As reuniões em que essas coisas ocorriam não eram registradas em agendas, não foram filmadas ou gravadas e tudo o que era possível terceirizar, terceirizado era. E para não deixar nenhuma pista, o usufruto financeiro de Lula se dava por imóveis que não estavam em seu nome (sítio de Atibaia) ou que se tentava dar justificativas plausíveis (o tríplex no Guarujá, a construção do Instituto Lula).

Para provar que Lula foi beneficiado na reforma do apartamento, e que aquilo era compensação por superfaturamentos e favorecimentos do cartel de empreiteiras, era necessário ligar Lula ao esquema. Era preciso mostrar como ele só poderia estar naquele esquema se aparecesse no topo da hierarquia. Mas havia um problema: Se Lula agia junto a autoridades, a maioria ainda hoje com foro, como apontar isto sem Lula estar sendo investigado em nenhum dos inquéritos que corriam no STF?

Até a apresentação do PowerPoint de Dallagnol, apesar de dois anos de investigação e diversos inquéritos contra autoridades, Janot só havia pedido a investigação dele na Lava Jato por ter caído no esquema da compra do silêncio de Cerveró. Apenas por ter tentado obstruir a Justiça, o que não tinha nenhuma relação com o que já estava evidente para a equipe de Curitiba.

Momento histórico: Lula é apresentado como chefe de quadrilha

A denúncia apresentada no dia 14 de setembro foi bombardeada na imprensa, tanto por petistas quanto pelos novos inimigos da Operação. Foram espalhados boatos mentirosos de que Sérgio Moro teria ficado irritado e achado incorreta a apresentação (relembrem aqui). O final de semana após a apresentação da denúncia deve ter sido um dos mais tensos para todos os envolvidos na investigação. Eis que Sérgio Moro no dia 20 acatou integralmente a denúncia da força-tarefa da Lava Jato, que é composta por membros do Ministério Público Federal do Paraná (MPF-PR), agentes e delegados da Polícia Federal e funcionários da Receita Federal. Dali por diante, o caminho estava pronto para apontar outros envolvimentos de Lula, apresentar novas acusações.

Mas o efeito mais notável da apresentação de Dallagnol não se deu na Justiça Federal de primeira instância e sim na Procuradoria-Geral da República. A contundente denúncia e o aceite integral por Sérgio Moro obrigaram Rodrigo Janot a se mover. E na semana seguinte, Lula finalmente foi envolvido no inquérito principal da Lava Jato pela PGR, agora fatiado, pedido que foi aceito por Teori Zavascki no dia 6 de outubro. Para que entendam melhor, segue abaixo o cronograma dessa série de acontecimentos decisivos:

  • 17/03/2014 – Tem início a Operação Lava Jato
  • 29/07/2016 – Lula vira réu no STF por tentar obstruir a operação;
  • 14/09/2016 – Força-tarefa da Lava Jato inclui Lula em denúncia por favorecimento ilegal: foi o dia da apresentação em PowerPoint de Deltan Dallagnol
  • 20/09/2016 – Sérgio Moro aceita integralmente a denúncia apresentada pela força-tarefa da Lava Jato;
  • 28/09/2016 – Finalmente Rodrigo Janot envolve Lula entre os investigados no inquérito conduzido contra as pessoas que têm foro privilegiado;
  • 06/10/2016 – Teori Zavascki aceita a inclusão de Lula na investigação. A esta altura das investigações, o ministro estava praticamente incluindo Lula no banco dos réus também ali no Supremo Tribunal Federal

Os desdobramentos da Operação Lava Jato têm levado uma categoria de pessoas a falar de uma suposta falta de inteligência que poderia levar o PT de volta ao poder. Oras, não cabe a investigadores fazerem cálculo político. Além do mais, a inteligência não é uma qualidade que se sobreponha à honestidade. De que adianta se dizer inteligente e agir de forma canalha, majoritariamente defendendo bandidos por estes serem de um outro campo político? O que se exalta como própria inteligência é muito mais safadeza do que qualquer outra coisa.

Para nossa sorte, as investigações seguem sem motivações políticas e em busca do que é certo. E quando investigações são corretas com o verdadeiro intuito de punir ladrões vêm acompanhadas de estratégias inteligentes e eficientes, o trabalho é ainda mais admirável.

 

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

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2 comentários para “O efeito do Powerpoint de Dallagnol

  1. eunice

    Nao parece obvio que o sertanojo Joesley é bandido mandado pelo proprio Lulla? Que o PMDB foi base de apoio para um partideco nazifascista manter o poder por tanto tempo, assim como servira de base para um possivel governo PSDBosta?? Parem com lero-lero, vamos direto ao assunto: O mainstream politico nacional esta dominado pelos fascistas do PT, PSDB, PMDB, PSOL, PSTU, PCdoB e outros grupos fascistas!!! E se preciso vaum matar e mandar matar para manter o poder!!!

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  2. Pedro Rocha

    Isso é porque certos “legalistas” acham que a Lei tem que ser usada para afastar o perigo bolivariano e colocar o País novamente no trilho socialista fabiano preconizado pela “constituição bandida” de Ulisses Guimarães.

    Ficou claro desde a primeira grande manifestação popular, aquela que vaiou tucanos e tinha inclusive intervencionistas, que a revolta da parte politicamente atuante do povo brasileiro era com o establishment, não apenas contra o bolivarianismo, surgindo então nacionalmente a figura de Jair Messias Bolsonaro, o conservador incorruptível!

    Quando o establishment percebeu que o pão (melhora da Economia) e o circo (impeachment de Dilma apenas para dar satisfação) não eram suficiente, começaram a se unir contra o povo. A mídia inventou “líderes populares” para serem cooptados e desmoralizar as manifestações (que só minguaram em vez de crescerem depois disso), o Revoltados Online foi boicotado e escondido pela imprensa (a despeito de ser o primeiro e maior grupo de manifestantes pró-impeachment e o MBL ser sua dissidência à esquerda), Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro passaram a ser perseguidos judicialmente e a aliança PT-PMDB-PSDB e respectivas linhas auxiliares levou Rodrigo Maia à presidência da Câmara, controlando o núcleo menos esquerdista dos Poderes da “república”.

    Como resultado de tudo isso, a mídia tucana se alinhou com a rede bolivariana contra a operação Lava Jato – a maior ameaça ao establishment da “nova república” já vista desde a Revolta da PMMG de 1997 – e às forças conservadoras representadas por Jair Bolsonaro, passando ambas à mais pura pistolagem político-jornalística, sendo Reinaldo Azevedo o maior exemplo dessa decadência intelectual: alguém que outrora elogiava Bento XVI hoje se delinquindo intelectualmente como um bolivariano!

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