O devastador depoimento de Palocci, o bandido preferido da elite brasileira

O surpreendente depoimento de Antônio Palocci ao juiz Sérgio Moro é, nesta semana, o fato de maior impacto político no país, mesmo sendo uma semana repleta de fortes concorrentes. Relembre o que já vimos nessa semana curta de feriado da Independência:

As especulações sobre uma delação do ex-ministro de Dilma e Lula circulam já há algum tempo nos sites com melhores acessos aos bastidores da Lava Jato. Falava-se na possibilidade dele mostrar desde relações com a Rede Globo ao envolvimento da elite do sistema bancário – até aqui, surpreendentemente longe de quaisquer investigações de vulto. Em vez disso, em seu depoimento sobre as investigações que apontam o prédio do Instituto Lula como pagamento de propina pela Odebrecht, Palocci falou tudo o que era imaginado sobre a relação da empresa com o ex-presidente, e foi até além. O termo “pacto de sangue” teve forte impacto e estampou todas as capas de jornais do dia seguinte.

Vejam as reportagens do Jornal Nacional sobre seu depoimento:

Palocci: ‘Lula pediu para que pré-sal financiasse campanha de Dilma’

Palocci diz a Moro que Lula tinha pacto de sangue com a Odebrecht

Há muita especulação sobre os reais motivos dessas revelações. O “italiano” das planilhas da Odebrecht estaria tentando vender ainda mais cara a sua delação premiada, ainda não fechada com o MPF? Ele estaria tentando conquistar a confiança de Sérgio Moro, esperando que sua colaboração seja levada em conta como amenizadora das penas que virão para esta e futuras condenações? Sérgio Moro reduziu significativamente as penas de Léo Pinheiro e Agenor Medeiros no processo em que Lula foi condenado pelo tríplex no Guarujá – os dois forneceram documentos e foram fundamentais para provar a tese do MPF.

Mesmo em poucas horas de depoimento, Palocci conseguiu sintetizar o sistema de pagamento de propinas, mencionou as datas e participantes de reuniões que fechavam os acordos, deu um exemplo cristalino de atuação do governo em consonância com os bandidos da Odebrecht no caso da concessão do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, confirmou que o “italiano” das planilhas só poderia ser ele, embora jamais tenha sido chamado pessoalmente por esse apelido, e confirmou que Lula só poderia ser o “Amigo” daquelas planilhas.

Lula e os petistas ainda não devem ter se recuperado do impacto. Até uma semana atrás, Lula falava bem do aliado e afirmava não temer nenhuma delação dele pelo fato de serem amigos e confidentes de longa data. Diferente dos guerrilheiros Delúbio, Dirceu e Vaccari, Palocci desvinculou seu futuro do de Lula e do PT. Como isso não ocorreu até agora nas figuras de vulto do partido, é um mistério saber o que acontecerá com ele daqui para frente. O PT não está no poder central do país mas conta com inúmeros simpatizantes nas cortes supremas, no Ministério Público e na imprensa… Como este exército de pessoas traídas reagirá?

Se por um lado Palocci se desabrigará do PT, ele terá refúgio tranquilo no restante da elite do país. Para muitos, de FHC aos editorialistas da Veja e do Estadão, ele era o melhor dos petistas. Mesmo após ter feito tudo o que fez contra o caseiro e das surubas com a máfia de Ribeirão Preto, esta gente não cansava de elogiar o que seriam suas qualidades de gestor econômico e promotor de boas práticas no equilíbrio das contas públicas. O que Haddad representa hoje, ou seja, uma possível ponte de união entre a esquerda tucana e o PT, Palocci foi por muitos anos entre os tecnocratas do partido, os grandes bancos e mega-empresários. Era o melhor dos políticos para esta gente e portanto o pior castigo para a população. Para continuar gozando das facilidades deste mundo, é vital que Palocci se mantenha fiel a eles, silenciando sobre o que sabe.

Palocci era um fio de ligação entre dois mundos de criminosos e inimigos do povo:  os burocratas e bilionários do sistema financeiro e dos meios de comunicação de um lado, os revolucionários ideológicos do PT de outro. Ao trair os petistas Palocci fez uma escolha que já lhe rende frutos numa ala mais imoral e imbecilizada do anti-petismo que o tem elogiado. Para que o homem de fala mansa de Ribeirão Preto se redima diante do povo brasileiro ele precisa dar um passo além e cortar o outro fio, denunciando o que sabe das relações inescrupulosas dos meios de comunicação e dos grandes bancos com o dinheiro público.

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