Nada do que estamos vivendo é normal

Como permitiram que as coisas chegassem a esse ponto? Por que ninguém se levantou? Por que caminharam tão passivamente para a morte? Por que aceitaram como normais tamanha desumanidade?

Todas essas perguntas poderão ser feitas no futuro caso o Brasil deixe de ser este lugar inóspito em que se assassinam mais de 58 mil pessoas por ano. Todas essas perguntas podem ser feitas em relação ao Brasil pela maioria absoluta dos seres humanos que vivem hoje em outros países.

Caso houvesse interesse em registrar nossa excepcionalidade, pesquisadores poderiam investigar quanto pagamos por viver num ambiente de altíssima criminalidade. A princípio poderiam ser levantados os gastos, já que aparentemente a grande causa do “projeto brasileiro” é mesmo possuir dinheiro. Muros altos, grades em todas as janelas, sistemas de câmera, cercas elétricas, vigias noturnos… Para que os números fiquem mais impressionantes o próximo passo seria levantar quanto as empresas gastam. Além dos itens de segurança “comuns” a pessoas, elas gastam com segurança patrimonial, segurança dos transportes, sistemas de controle de entrada e saída de funcionários (para evitar os furtos dos próprios empregados). Obviamente estes custos não pesam sobre as empresas, são repassados aos consumidores –  e assim seria possível reforçar o ponto que mais abala os brasileiros falando “Veja quanto você paga no preço final dos produtos por conta dos gastos com segurança”.

Mas o impacto da criminalidade em nossas vidas é muito mais severo do que uma análise econômica poderia captar. Devido à violência em nossas ruas somos educados num sistema de valores vergonhoso que é perpetuado por bordões que, de certa forma, naturalizam o desumano. Por exemplo, quando se tem a notícia da prisão de alguém que cometeu um crime grave, o consolo de muitas pessoas é saber que bandidos assim serão estuprados sem piedade por outros bandidos ou serão assassinados. Quando um bandido é executado, seja por outro bandido ou por um policial, celebramos por ver o mal eliminando outro mal. Diz-se com naturalidade que se conhece esse ou aquele bandido. Falam até da benesse que alguns bandidos fazem em suas favelas. Não vemos como grande absurdo celebridades serem próximas a marginais, ou mesmo marginais virarem celebridades. Repetem por aqui que os bandidos “não roubam gente do mesmo bairro”, como se isso representasse algum mérito, piedade ou benevolência dos marginais. Falam de um bandido morto que era um bom pai de família ou amigo como se aos bandidos fosse reservado uma condição superior de existência que os desobrigaria de serem bons nos atos mais sublimemente humanos. Dá-se pouco destaque ao fato de bandidos roubarem até mesmo hospitais públicos.

O embrutecimento moral gera um código de posturas. As pessoas mudam seus caminhos para o trabalho e escola para evitar assaltos. Pais combinam hábitos especiais de segurança para proteger seus filhos. Mesmo o consumo, razão final da alegria da maioria das pessoas, é ponderado conforme o risco de assalto. Cidadãos evitam atos simples como passear ou sair de casa para evitar assaltos. Escolas e empregos são trocados para evitar o contato com marginais. Desde cedo nossas crianças são ensinadas a andar de cabeça baixa diante de bandidos, a nem mesmo olharem quando estiverem próximos a atos suspeitos. Somos educados a ignorar crimes que ocorram à nossa frente, a nem mesmo prestarmos solidariedade para evitar que sejamos vítimas. Jornalistas reportam assaltos seguidos de morte  justificando com naturalidade o assassinato pois a vítima ‘reagiu’, como se fosse possível permanecer imóvel diante dum ato de violência repentino. Quando uma pessoa foge desse nosso código de condutas, a chamamos de louca. Telejornalistas estufam o peito em suas responsabilidades ao ensinar os miseráveis telespectadores que não se deve reagir durante os assaltos e que é até ideal acalmar os bandidos. Quem mora em favelas e tenta educar seus filhos com bons valores deve fazer malabarismos para explicar a “normalidade” de marginais armados consumindo e vendendo drogas ao ar livre. Pessoas assaltadas raramente fazem o registro do crime por saberem que ele não será investigado, que o processo de registro de B.O. é demorado e por, temor dos temores, haver a possibilidade de terem que reconhecer pessoalmente o marginal quando ele eventualmente acabar preso.

Nosso ambiente é o paraíso dos criminosos. E, como aos homens de ação sempre se sobrepõem os homens da razão, o Brasil é o campeão mundial dos defensores de bandidos. Não os defensores de bandidos no sentido legal, pois advogados são necessários e, quando defendem um criminoso, o fazem para que as punições sejam feitas de forma justa e sobre provas irrefutáveis… Estou falando dos criminosos intelectuais da esquerda. Nas páginas dos principais jornais e nos bancos acadêmicos, não faltam pensadores que seguem uma já consolidada tradição intelectual de encontrar justificativas sociais, raciais e agora até mesmo sexuais para as infrações. Todos são culpados pelos mais diversos crimes, mesmo quando o próprio marginal admite que faz suas maldades porque gosta. O crime intelectual tenta a vitória final ao normalizar a opinião de que errado é odiar o crime. Se um cidadão comum odeia criminosos, quer vê-los presos ou mortos, o intelectual de esquerda brasileiro deseja que este cidadão sim seja preso ou morto. Na hierarquia da esquerda brasileira o crime de opinião é muito mais grave que o crime de ação, sendo opinião criminosa tudo aquilo que uma pessoa normal pensa de bandidos.

PCC-rebeliao

Maior quadrilha de tráfico de drogas do Brasil tem lemas que a esquerda brasileira adotaria sem problemas. Não é por acaso.

É um bom negócio ser bandido no Brasil. Somam-se à aposta na impunidade uma população amedrontada, doutrinada a conviver com eles e uma elite a justificá-los. O número de 58 mil pessoas que tiveram suas vidas interrompidas por atos de violência em 2014 foi pouco repercutido e em nada alterará nossa realidade. Ainda mais, esses 58 mil não incluem a quantidade enorme de pessoas tidas por desaparecidas. Vivemos agora a maior agitação política em muitos anos por conta de crimes cometidos por políticos mas isto só desperta a fúria de toda a nação porque esses crimes geraram uma crise econômica. Ao fim desse processo de “purificação” política, que poderia trazer um resgate de valores necessários para uma vida digna e com sentido, a chance de nossa miséria cotidiana virar prioridade política é diminuta. E falaremos de corrupção novamente, falaremos muito da crise econômica, talvez falemos dos problemas na área da saúde ou da nossa vergonha na educação. Segurança será sempre marginalizado como tema proibido ou de extremistas.

Não é normal nada disso do que estamos vivendo. 58 mil assassinatos é inaceitável. Justificar bandidos é inaceitável. Acostumar-se tanto com crimes ao ponto de nem mesmo nos abalarmos quando ocorrem não é normal. Intelectuais especialistas em defender esse ambiente de criminalidade é inaceitável. Quando quebraremos esse pacto macabro? Quando o impulso primordial para o nosso convívio em grupos humanos, que é a segurança para preservação da vida, será notado como aquele em que o Brasil mais gravemente falhou?

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

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9 comentários para “Nada do que estamos vivendo é normal

  1. Carvalho

    Excelente texto Da Cia. E tem esse aspecto terrível que é o silêncio total sobre o assunto.

    Embora vivamos todos presos em nossas casas, reféns de bandidos, falamos muito pouco sobre COMBATER o crime. O que fazemos é nos PROTEGER.

    Combate é assunto proibido. Proteção é assunto obrigatório.

    Outro dia meu médico comentou que é contra a liberação do porte de armas, que ele prefere se proteger morando em um lugar bacana, em condomínio, e frequentando somente lugares seguros. E se eu falo alguma coisa sou considerado “extremista”….

    Da Cia, que tal fazer uma outra postagem falando dos filmes, novelas e séries que alimentam isso tudo? Pois os especialistas justificam, isso é verdade, mas o que alimenta mesmo a impunidade é a cultura. Cinema, teatro, revistas – todo o imaginário popular está podre há uns 50 anos…

    Abs

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    • Da CiaDa Cia Posts do autor

      Seria um trabalho enorme catalogar algo assim, que já está tão absorvido pelo nosso imaginário. Mas seria bem útil mesmo, quem sabe se eu começar a juntar tudo eu consiga ter uma boa lista.

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  2. Tiago José Galvão Moreira

    Um texto perfeito e irrepreensível, Da Cia.

    Tornamo-nos uma nação de covardes, intimidados por criminosos das mais diferentes estirpes. Nossos intelectuais muito falam de direitos humanos, mas ignoram propositadamente que as vítimas e cidadões honestos são humanos sem direitos. Ou, melhor dizendo, têm apenas o direito de ficar calados.

    Apontar crimes se tornou pecado. Exigir justiça virou fardo. Faltam-nos heróis: até na ficção, exaltam-se os malandros, cafajestes e vilões, enquanto os mocinhos são acovardados, insossos ou tão amorais quanto seus adversários.

    Tudo é julgado em nome de “causas”. Matar, roubar e arruinar vidas se torna justificável se o criminosos o faz pela causa “certa”. Arruaceiros se tornam apenas pessoas injustiçadas buscando aceitação diante dos “intolerantes”. As vítimas, obviamente, são os reais culpados.

    Os homens de valor estão em extinção, sufocados por esse ambiente politicamente “correto” que trata violência e traição como virtudes.

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      • Carvalho

        Tiago, percebo algo parecido, especialmente nisso de idolatrar bandidos.

        Tenho 3 jovens crescendo perto de mim, o menino tem 13 anos e ele e seus amigos imitam os trejeitos de malandros. Boné pra trás, cueca aparecendo, gírias de maloqueiro, desrespeito total pelos pais, professores, etc.

        Acho que isso vem de longa data, é a tal da “Guerra Cultural”. Lembro quando criança do filme Pixote que já navegava nessas bandas. São anos de filmes, séries, novelas onde o malandro se dá bem, é divertido, irreverente. Nos programas de crianças os adultos são idiotas, basta ver um Disney Channel ou algo do tipo.

        Abs

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