Lewandowski e a defesa do imoralismo

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski teve um artigo publicado hoje na Folha de São Paulo que reforça um ponto de vista que tenho defendido há algum tempo em conversas e redes sociais: o problema brasileiro não é cultural nem burrice, mas moral. O destacado ministro da tropa de choque do petismo, agora aliado ao acordão “salva todos” que também beneficia Aécio e Temer, atacou o moralismo. Não o falso moralismo, mas moralismo mesmo. Um trecho do artigo é reproduzido ao fim desse post.

Lewandowski deve ser capaz de entender, e pode ter estudado, que a vida política de qualquer país saudável institucionalmente sempre apresentou críticas a falsos moralistas, pessoas que pregariam certas virtudes sem praticá-las. De certa forma isto é a projeção natural de um debate que nasceu na filosofia. Como poderia o filósofo, uma pessoa que usa o conhecimento em busca da verdade, apontar algo que vale para os outros mas que não seria válido para si? Verdade conhecida é verdade aceita. Algumas sociedades se desenvolveram com uma organização em que realmente determinados grupos teriam direito a certos privilégios, mas não é o caso daquelas sob a herança das três grandes religiões monoteístas: criados partindo de Adão, todos os homens devem seguir as mesmas regras em honra e gratidão ao Criador e o que determinará os bem-aventurados será aquilo que fizerem respeitando a santidade de sua vida, a de seus semelhantes e a de Deus. Esses são os fundamentos básicos sobre o qual se ergueu a moralidade no mundo.

Sendo o STF um dos mais enojantes símbolos do regime de castas em que se transformou nossa República, não é de surpreender que Lewandowski faça uma crítica ao moralismo em vez do “falso moralismo”. Aceitar que existem valores universais que independem da posição social, política ou profissional levaria uma pessoa de espírito saudável no posto do ministro a perceber todos os dias o quanto é privilegiado e como tais privilégios se fazem necessariamente contra os cidadãos comuns e mais necessitados. Que o dinheiro que sustenta seus passeios, mordomias, bônus e centenas (sim, centenas) de assessores poderia ser usado para comprar remédios ou fornecer água que garantisse uma subsistência mais digna aos muitos miseráveis e mendigos de nosso país ,para ficar em um exemplo rápido.

Não parece ser casual a redução de um termo abrangente ao seu emprego em um ramo restrito como a política feito pelo ministro do Supremo. Seria presunção de minha parte, e também muito provavelmente inocência, dizer que ele escreveu o artigo por ter pouca cultura – falar que nenhum moralista jamais foi absolvido pela posteridade é um absurdo inominável. Muito mais alarmante, porém factível, é perceber que a mediocridade de sua atuação foi agora também exposta em artigo, e ambas dão pistas daquilo que um homem de seu tempo e meio como ele é e representa. O ataque à moralidade é uma prioridade, questão de sobrevivência para os comissários e mantenedores de nossa República de aparências que partem agora para uma nova etapa em que os mais serviçais e descartáveis se apresentam à frente para o serviço mais pesado. Defender a imoralidade foi a parte que lhe coube.

Trecho do artigo de Lewandowski:

“A crônica da humanidade é pródiga em desvelar o trágico fim de moralistas que empolgaram o poder e exercitaram aquilo que consideravam direito a seu talante. Basta lembrar a funesta saga do monge Girolamo Savonarola (1452-1498), o qual, com pregações apocalípticas, extinguiu o virtuoso capítulo do Renascimento florentino. Acabou seus dias ardendo numa fogueira.

Ou a do deputado jacobino Maximilien de Robespierre (1758-1794) que, durante a libertária Revolução Francesa, mandou executar arbitrariamente centenas de opositores reais ou imaginários. Terminou guilhotinado, abrindo caminho para Napoleão Bonaparte (1769-1821).

Quer tenham sobrevivido por mais tempo ou deixado a vida precocemente, os moralistas jamais foram absolvidos pela posteridade.”

 

 

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