Kermit Gosnell e o debate do aborto

Fui alertado para o tema no dia 11 de abril, quando começaram a correr na minha timeline alguns tweets de jornalistas e blogueiros dos EUA reclamando da “grande mídia” de lá estar ignorando um assunto traumatizante. A princípio ignorei, até porque não passa um dia sem que a direita dos EUA reclame dos grandes veículos de comunicação, em sua maioria hoje com pontos-de-vista mais próximos daqueles do Partido Democrata e extremamente simpáticos ao governo Obama. Foi só após a insistência deles no tema que, enfim, cliquei em um dos links. O que descobri desde então foi a série de crimes mais enojantes já reportada nos últimos anos, talvez a única a fazer par àquela cometida por Josef Fritzl .

O crime todo eu expliquei neste “post” feito para divulgar a história em língua portuguesa: http://kermitgosnell.tumblr.com/ (ALERTA: o TUMBLR foi ‘roubado’ e agora faz propaganda de pílulas abortivas) Nunca antes tinha me revoltado e traumatizado tanto com uma notícia escanteada, ao ponto de resolver eu mesmo divulgá-la como pudesse. O trabalho feito às pressas e que exigiu alguma pesquisa foi recompensador: em menos de uma semana foram centenas de divulgações no Facebook e dezenas de repostagens por toda a internet. Para quem ainda não sabe nada da história tentarei resumir a série de crimes:

– Kermit Gosnell tinha uma clínica de abortos na Filadélfia, era o “médico-chefe” de lá mesmo sendo somente clínico-geral. Não é especializado em obstetrícia nem ginecologia;
– Kermit Gosnell empregava em sua clínica menores de idade e gente incapacitada para ajudá-lo nos abortos;
– Usava medicamentos não autorizados e outros em doses não recomendáveis;
– A lei estadual permite abortos até a 24a semana. A clínica de Kermit burlava esta exigência, assim como outras normas de segurança e higiene existentes para o trabalho de abortos na Pensilvânia;
– Quando as pacientes chegavam à clínica, devido aos medicamentos incorretos, muitas já estavam em trabalho de parto e com os bebês “viáveis”. Com as mães sedadas e os bebês já fora da barriga, Kermit Gosnell assassinava os recém-nascidos perfurando-lhes o pescoço por trás com uma tesoura;
– Relatos de ex-funcionários que, assim como Kermit Gosnell, estão presos e em julgamento neste momento, dão conta de que os assassinatos de bebês ultrapassam o número de 100;
– Não se sabe por qual razão, Kermitt guardava restos dos bebês assassinados e de tantos outros abortados em sua clínica. Quando foi feita a batida policial, encontraram restos de 45 bebês espalhados nos mais diversos recipientes;
– Ele atendia basicamente pessoas pobres, dizia-se que praticava menores preços. Mas quando recebia pacientes com melhores condições financeiras ou “brancas”, havia uma sala separada e mais limpa.

Tudo isto veio à tona com a prisão e indiciamento de Gosnell em 2011. O julgamento iniciou em abril para a responsabilidade nas mortes de uma mulher adulta vítima de overdose de sedativos e pelo assassinato de outros 7 bebês para os quais haviam provas de que nasceram vivos (?) e foram assassinados. O mais impressionante é que há registro de que em 1995 Gosnell foi repreendido pela State Licensing Board por trabalhar com ajudantes não-certificados e MESMO ASSIM a clínica continuou funcionando.

Os argumentos do debate em relação ao aborto já são bastante conhecidos de ambos os lados. De forma resumida, quem é a favor da liberação fala em respeito à autonomia da mulher, que ela deve ter autoridade sobre seu corpo e que o feto não é um ser vivo segundo alguns parâmetros que estabelecem como definidores de um ser humano pronto. Muitos dizem que liberar o aborto é uma questão de saúde pública. Quem é contra a liberação do aborto crê que não há certeza para dizer quando um feto torna-se um ser vivo, acha que o Estado não deve financiar um ato que a maioria da população reprova. Há também uma grande parcela de pessoas contra o aborto por questões religiosas. Pois a série de crimes de Kermit Gosnell deve acrescentar algumas considerações práticas para aqueles que acham que a lei brasileira atual deve ser alterada permitindo o aborto.

Embora tenha acontecido a milhares de quilômetros daqui, este caso assombroso deve ser guardado e estudado para tentativas sazonais de trazer o debate do aborto à sociedade brasileira. Sabemos por aqui que, sempre que jornalistas e formadores de opinião dizem que algo precisa ser debatido a fundo eles querem na verdade dizer é que está na hora do ponto de vista deles ser aceito e posto em prática. Como recentemente o Conselho Federal de Medicina resolveu defender a legalização irrestrita do aborto até a 12a semana, eis então algumas questões para serem lembradas quando este debate recomeçar :

  • Diz-se aqui que milhares de pessoas se submetem a “verdadeiros açougues” que seriam as clínicas ilegais que existem no Brasil. Como visto, a legalização não garante que todas as clínicas com licença para o ato serão confiáveis. Num país como o nosso, onde o serviço de saúde é público e universalizado, é de se imaginar que mesmo na rede pública os pobres estarão expostos aos riscos;
  • Um dos argumentos pró-aborto diz respeito ao fato de que são apenas fetos, não são ainda vidas formadas e nem mesmo sentem dores. Partindo dessas premissas, qual é a data de corte para que deixem de ser fetos? Nos EUA por exemplo, muitos estados permitem aborto até a 24a semana. Qual o critério para escolher entre as 12 semanas recomendadas pelo Conselho Federal Brasileiro de Medicina e as 24 semanas da Pensilvânia, as 20 semanas da Flórida ou o “terceiro trimestre” da Carolina do Sul ?;
  • Para uma Lei brasileira, a decisão do aborto será exclusivamente da gestante? O provável pai ou outros familiares terão que consentir ou será uma decisão “soberana” da mãe?;
  • Na maioria dos estados dos EUA e em muitos países há um período obrigatório a se cumprir entre a decisão de abortar e a realização do procedimento. Qual será este período no Brasil? Se houver tal período e, pelo respeito desta regra, se ultrapassar o limite legal do “agora é vida” e o aborto seguir em frente, o que deve ser feito em relação ao médico ou à Clínica que o fizer?
  • Como garantir a data exata da concepção do bebê para efeito das x semanas que seriam estabelecidas numa legislação brasileira? Nosso país é continental e repleto de desigualdades, como ter certeza de que com uma Lei válida para todo o território, exames feitos em regiões mais pobres serão confiáveis? E mais uma vez, caso ocorram erros ou manipulações nestas estimativas, deve-se punir médico, clínica ou gestante?;
  • O que será feito dos fetos abortados?

Como deve estar bem claro para quem já chegou a este ponto do texto, sou contrário a uma alteração nas regras atuais brasileiras para o aborto. Entendo alguns dos argumentos ideológicos e filosóficos que norteiam muitas das pessoas bem intencionadas que fazem da luta pelo aborto prioridade em suas vidas. Porém, o caso de Kermit Gosnell me trouxe novos pontos de vista que eu jamais considerei na equação do tema. O fortíssimo documentário “3801 Lancaster” mostra organizações de proteção aos negros e pobres apresentando aspectos eugênicos da prática pois quem mais aborta são os mais pobres, negros e latinos, criando impactos demográficos e étnicos. Creio que são pontos-de-vista que aumentam a combustão do tema mas que não podem ser negligenciados.

Há casos em que a lei é imposta à força para nortear a população e trazer ganhos inequívocos. Há inúmeros exemplos históricos em que grandes saltos e medidas ousadas foram tomadas pelo Estado em confronto ao que pensava a população de determinadas épocas e lugares. O aborto, para o Brasil, definitivamente não se encaixa nessas exceções. A maioria absoluta da população brasileira é contra a liberação da prática seja por questões morais, religiosas ou econômicas. Quem quer que faça da luta pela legalização do aborto algo importantíssimo e urgente a se lutar por aqui precisa ter em mãos mais do que o tradicional menosprezo ao inimigo caricato que sempre pintam nesses debates. Precisa responder às perguntas práticas necessárias para uma Lei de tamanho impacto, perguntas que se tornaram mais claras após o caso extremo de Kermit Gosnell .

P.S.: As associações pró-aborto dos EUA responderam à cobrança dos conservadores dos EUA que reclamavam do caso estar sendo ignorado por trazer mais argumentos às restrições do aborto. Segundo os progressistas de lá, o crime de Kermit Gosnell evidencia que as legislações de aborto devem ser menos restritivas quanto ao período para que as pessoas não precisem ir a clínicas precárias e ilegais como a de Kermit.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

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34 comentários para “Kermit Gosnell e o debate do aborto

  1. Thomas

    Sou contra o aborto,mas um bom argumento de quem é a favor retrata as más condicões que um filho indesejado viverá.Condicoes economicas e afetivas(amor dos pais).
    A culpa é sim dos pais,porem o filho poderá viver sem condicões boas para um vida feliz!
    Eu até concordo em partes com esses argumentos, porem acredito que o feto seja”vida” em todos seus estagios, entao não há diferenças morais de matar um feto,um recem nascido, uma criança ou um adulto!

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    • Priscila Garcia

      Eu não considero que isto seja um “argumento”. Quem o USA provavelmente já pensou em pegar uma metralhadora e sair por aí matando criançs “indesejadas e que vivem em más condições”.

      Ou seja, é uma caterva SÓRDIDA.

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  2. Miguel

    Sou contra o aborto, uma mulher não deve escolhe quando matar alguém, as feministas dizem que estão pensando na mulher, que mentira, a maior parte dos bebês que são abortados são meninas, já que nascem mais mulheres que homens.

    Nunca houve um argumento de um abortista que não se derruba-se com poucas frases.

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  3. Rodrigo

    Defender a legalização do aborto honestamente EXIGE a admissão de que seres humanos inocentes serão mortos. É impossível defender logicamente o argumento de que um feto não é um ser humano. Se o limite é o parto, qual a diferença prática entre um recém-nascido e o mesmo organismo cinco minutos antes? Se o limite é a vigésima quarta semana, qual é a diferença entre um feto com vinte e quatro semanas e um com vinte e três semanas, seis dias, vinte e três horas e cinquenta e cinco minutos?

    A resposta é: praticamente nenhuma.

    Se é impossível diferenciar clara e imediatamente o feto em uma situação do feto na outra, como pode ser possível considerar o feto em uma situação um ser humano com plenos direitos e o feto em outra situação um aglomerado de células que podem ser descartadas ao bel-prazer de quem as carrega?

    A conclusão é óbvia: não é possível. Quem defende a legalização do aborto considera o desconforto temporário de alguns mais ultrajante que o assassinato de outros, e essa é uma posição absurda para qualquer pessoa que declare como princípio o respeito à vida humana.

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  4. Milton Valdameri

    O aborto é um dos temas mais NÃO DEBATIDOS que existe. Seria interessante se fosse possível provomer um debate aqui no site, apresentando um argumento daqueles que defendem o aborto e debatendo especificamente aquele argumento, depois apresentando outro argumento da parte contrária, em outro texto e debatendo específicamente aquele argumento.

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    • Priscila Garcia

      Eu até topo, meu caro – mas abortista nunca teve “argumento”, em lugar nenhum do mundo e em instância alguma – portanto, derrubar na ARGUMENTAÇÃO é um negócio meio complicado, porque o abortista, como eu disse, NÃO POSSUI tal coisa.

      Contudo, se aparecer algum pensando que tem, pode mandar que eu JANTO TODOS, na boa.

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      • Antonio

        Olavo de Carvalho alertou para um fator interessante: Quando se veem discussões como esta e com a retórica de que devem ser postas em debate, não aceite pois, ao entrar na discussão você já caiu na arapuca. Discutir o aborto já é por si só algo absurdo. Deveria-se sim, por um freio e dizer NÃO! Aborto não está em discussão e dar-lhes uma enxovalhada de argumentos e propostas de políticas públicas que podem ser tomadas para prevenção, assistencia psicológica a mulheres que porventura forem vítimas de estupro. Mas não, nunca, colocar o aborto em xeque.

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  5. Rafael

    Até um defensor ferrenho da legalização do aborto como o Peter Singer admite que é impossível afirmar categoricamente que um feto em um período qualquer da gestação não é uma vida humana. Uma defesa coerente da legalização do aborto passa necessariamente pela admissão de que a prática é, sim, eliminação de seres humanos inocentes. É um pensamento desprezível que deve ser combatido, mas, pelo menos, ao contrário da imensa maioria dos defensores da legalização, é intelectualmente honesto.

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  6. Lino

    Sou favorável ao aborto mas entendo que no caso pais que se arrependam de levar adiante a gravidez, esses bebês rejeitados poderiam após o nascimento ser utilizados como doadores para transplante de orgãos de outras crianças.

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  7. Gabriel F.

    Pra complementar o comentário anterior, é importante ressaltar o que me parece ser outra falha de argumentação do post: a falta de uma simples pesquisa sobre o tema entre os grupos que defendem a descriminação do aborto com argumentação mais consistente. Se o tivesse feito, você encontraria respostas simples e diretas pra todas as preguntas propostas. É possível que você ainda assim não aceitasse tais posições, mas o que eu estou colocando é que esses questionamentos não estão sendo ignorados ou deliberadamente jogados pra debaixo do tapete durante o debate do tema, por um possível receio de que os argumentos fossem indefensáveis. Não, isso não é verdade. As respostas estão aí, na boca de qualquer feminista bem preparada para a peleja.

    Segue então o que seria o meu ponto de vista em relação aos questionamentos apresentados no texto:

    1.
    Diz-se aqui que milhares de pessoas se submetem a “verdadeiros açougues” que seriam as clínicas ilegais que existem no Brasil. Como visto, a legalização não garante que todas as clínicas com licença para o ato serão confiáveis. Num país como o nosso, onde o serviço de saúde é público e universalizado, é de se imaginar que mesmo na rede pública os pobres estarão expostos aos riscos;

    Essa não faz nem muito sentido na verdade, além de ser falaciosa, por se basear no pior cenário possível. O fato de não garantir que todas clínicas serão confiáveis, não quer dizer não se possa gerar condições para que a maior parte o seja, o que já é bem melhor do que a situação, com os tais “verdadeiros açougues”.

    Para qualquer tipo de legislação que se imaginar, regulamentando qualquer tipo de estabelecimento, sempre haverá aqueles que não comprem as normas e os princípios básicos de qualidade (em estrutura, serviço e especialização dos profissionais), mas nem por isso a normatização se mostra desnecessária. Para ficarmos no âmbito dos crimes midiáticos, temos como exemplo o caso da Boate Kiss, em que o fato de o estabelecimento não atender às normas de segurança, não invalida a necessidade das mesmas, todo o contrário. Tampouco aponta para uma necessidade de proibição do funcionamento de todas a boates do Brasil.

    E qual a solução? Legalizar, normatizar e fiscalizar. Assim como em qualquer clínica ou hospital.

    2.
    Um dos argumentos pró-aborto diz respeito ao fato de que são apenas fetos, não são ainda vidas formadas e nem mesmo sentem dores. Partindo dessas premissas, qual é a data de corte para que deixem de ser fetos? Nos EUA por exemplo, muitos estados permitem aborto até a 24a semana. Qual o critério para escolher entre as 12 semanas recomendadas pelo Conselho Federal Brasileiro de Medicina e as 24 semanas da Pensilvânia, as 20 semanas da Flórida ou o “terceiro trimestre” da Carolina do Sul ?;

    O critério do Conselho Federal de Medicina pode ser encontrado em qualquer reportagem sobre o seu apoio ao aborto. É inclusive o critério que eu sempre adotei para embasar minha opinião e um dos mais comuns elencados por defensores da descriminalização, ao menos nas fontes que já consultei: a senciência. A partir da 12ª semana de gestação, o feto passa a desenvolver um sistema nervoso central, sem o qual não poderia sentir medo, afeto, curiosidade, dor, apreensão… Isto é, antes de se tornar um ser senciente, o feto não passaria de um amontoado de células do corpo da mulher, como a mão, ou os seios – que inclusive algumas mulheres de nascença escolhem remover, quando possuem transtorno de identidade de gênero e desejam se sentir biologicamente como homens.

    Quanto ao critério da Carolina do Sul, da Flórida ou da Pensilvânia, eu não sei, mas se quiser saber, basta uma rápida pesquisa no google, ué. Há diferença entre as legislações dos diversos países (ou estados americanos), seja em relação a qual a pena ideal para o crime de estelionato, ou a partir de que idade alguém poderia ser condenado à pena de morte (12 anos? 10?), ou mesmo se um feto de uma gestante vítima de estupro deve ou não ter os mesmos “direitos” daquele gerido por sexo consensual. Ou seja, legisladores diferentes, critérios diferentes. A existência de leis diferentes sobre o mesmo tema (em lugares diferentes) não invalida nenhuma delas a priori.

    3.
    Para uma Lei brasileira, a decisão do aborto será exclusivamente da gestante? O provável pai ou outros familiares terão que consentir ou será uma decisão “soberana” da mãe?;

    Seguindo as bases de quem defende o argumento da senciência, a decisão é sim soberana da gestante, uma vez que ela decide sobre o que fazer com as partes do corpo dela.

    É o caso também dos que defendem o aborto até o nono mês de gestação. Para eles a soberania sobre o próprio corpo que teria a mulher, lhe daria o direito de dizer “agora eu não quero mais” a qualquer momento da gestação, e a partir daí seria feita “um parto” e os médicos tentariam manter o feto vivo, ainda que estivéssemos no quinto mês por exemplo, pois a gestante não seria obrigada a manter o seu corpo e seus nutrientes à disposição de ninguém se não quisesse, e uma vez que abrisse mão dessa obrigação, o trabalho de fazer o feto sobreviver seria dos médicos.

    4.
    Na maioria dos estados dos EUA e em muitos países há um período obrigatório a se cumprir entre a decisão de abortar e a realização do procedimento. Qual será este período no Brasil? Se houver tal período e, pelo respeito desta regra, se ultrapassar o limite legal do “agora é vida” e o aborto seguir em frente, o que deve ser feito em relação ao médico ou à Clínica que o fizer?

    Para se definir o tal período de espera deve-se debater com a ajuda especialistas em psicologia e afins, consultar as pesquisar a respeito em outros países, enfim seguir o caminho padrão do processo de elaboração de leis.

    Caso algum médico ou clínica ultrapassem o período previsto em lei, devem ser punidos, ué, a lei está aí para ser cumprida.

    5.
    Como garantir a data exata da concepção do bebê para efeito das x semanas que seriam estabelecidas numa legislação brasileira? Nosso país é continental e repleto de desigualdades, como ter certeza de que com uma Lei válida para todo o território, exames feitos em regiões mais pobres serão confiáveis? E mais uma vez, caso ocorram erros ou manipulações nestas estimativas, deve-se punir médico, clínica ou gestante?;

    Como garantir a data exata da concepção? É sério isso? Cara, existem exames pra isso há décadas.

    E se uma clínica está capacitada para realizar um aborto, que é um procedimento relativamente complexo, certamente ela poderá realizar os exames adequados. Em São Paulo ou em Taquaritinga do Norte. Se em Taquaritinga do Norte não houver clínicas habilitadas a realizar abortos, eles devem ser feitos em outra cidade que as tenha, ué.

    Sim, deve-se punir médicos, clínicas e gestantes que desrespeitarem a lei, por isso se chama lei.

    6.
    O que será feito dos fetos abortados?

    O que é feito de um coração doente após um transplante? Não sei exatamente, mas imagino que os médicos devem usá-los para estudos ou ter os métodos apropriados para descarte. Poderia ser dado às gestantes a chance de decidir, afinal de contas o critério seria que é parte do corpo delas.

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    • Da CiaDa Cia Posts do autor

      Vamos lá:
      1) Quanto ao item 1, por “pesquisa de campo” eu afirmo que a maioria absoluta dos abortos não se dão em clínicas verdadeiros-açougues conforme propagado. Como os métodos para detecção de gravidez já estão bem avançados e não estamos mais nos, sei lá, anos 80, a maioria percebe a gravidez na 3a ou 4a semana. Nestes casos, recorrem aos medicamentos abortivos que hoje estão um pouquinho difíceis de encontrar. Mas só um pouquinho mesmo. O que trago nesta primeira pergunta é mostrar que caso fosse válido o argumento das seguranças das mães, ele não se encerraria com a liberação da prática.

      2) Que o Conselho Federal de Medicina então explique isso claramente. O argumento científico quanto ao desenvolvimento do sistema nervoso central é extremamente controverso, não é ponto pacífico aqui nem no resto do mundo. Recomendo uma busca rápida sobre o tema na internet, a começar pela wikipédia em inglês ( fala que só sente dor após o terceiro semestre ) e que se leve em conta também que o desenvolvimento intra-uterino NÃO É O MESMO EM TODAS AS PESSOAS! O estudo aprofundado do cérebro de um feto é coisa recente e em constante evolução. Afirmar categoricamente, hoje, quando passa a sentir ou ter o cérebro formado tá mais pra bravata argumentativa do que conclusão científica. E deve-se tomar cuidado para que no futuro a coisa não caia no ridículo, como por exemplo a saudosa proibição do uso de celular em postos de gasolina pois supostamente haveria o risco de explosão. Lembra?

      3) Uma das coisas mais ditas pelos defensores da legalização do aborto é que a decisão é tendência no mundo todo e que somos atrasados pro não o permitirmos. Pois bem, a tendência mundial não é unânime quanto ao prazo do “é ou não é vida” e também quanto ao “a mãe decide sozinha ou não”.

      4) Acho engraçado o papo de “vamos discutir com especialistas”. Dá-se a entender que as Leis e regulamentações seguem ritos técnicos e científicos. Não é! A decisão para o período é puramente arbitrária, assim como a do tempo de gestação. Há estudos para todos os gostos e o que se diz hoje pode ser contradito amanhã. Imaginar que a Lei seja um resultado de estudos científicos é uma boa utopia pro que se crê.

      5) A data exata? Pelo visto eu moro em um lugar muito atrasado pois tive 3 filhas de 2005 pra cá e em todas as gestações nunca houve nada perto do “foi esse dia aqui ó!”. Aliás, eu tenho aqui todos os exames, toda a série de ultrassons e consultas, é até curioso que até um período da gravidez, cada médico ou exame feito davam uma estimativa de semanas diferentes: 3 semanas Após um exame detectar a gestação em 3 semanas o resultado em outro era de 7 semanas, não 6 ( de 3 + 3 ) e por aí vai. Ainda bem que eu nunca pensei em praticar aborto e que por aqui não é legal, eu corria o risco de, por um erro nos aparelhinhos, matar um ser que, segundo o Conselho Federal de Medicina, já sentiria dor etc. ( P.S.: Tem que levar em conta que moro num dos rincões do Brasil, não é uma área metropolitana central. Moro na Baixada Santista )

      Por fim, espero que as feministas sejam bem claras quanto aos seus argumentos. Que digam que o feto é apenas algo da mulher a ser tirado quando quiser, como uma unha grande por exemplo. Assim como também espero que muita gente “didireita” que é a favor do aborto por questões econômicas por achar que o aborto evitaria que mais pobres nascessem para depender do Estado ( sim, há muitos assim, só que com um pouquinho de pudor para não bradar isto publicamente) . Convicção boa é aquela que a gente mostra em público. As minhas convicções e dúvidas estão todas no post.
      Obrigado pelo comentário. Volte sempre.

      Responder
      • Alberto

        https://www.youtube.com/watch?v=zwhIx-QZkB0

        Gabriel, o sistema nervoso central humano começa a existir na 3ª para a 4ª semana embrionária e passa a funcionar (possui ondas cerebrais mesuráveis por eletroencefalografia) da 5ª para a 6ª semana embrionária. Veja o vídeo e leia a documentação.
        Quanto a dor, não há maneiras de descobrir quando o feto começa a sentir dor (como se isso fosse justificativa para um assassinato), mas garanto para você que o feto ANTES da 12ª semana já sente dor, é só ver o vídeo.

        http://www.ehd.org/resources_bpd_documentation_english.php

        Detalhe que cientistas já sabem disso desde 1955, mas parece que no Brasil os abortistas levaram a desonestidade de usar a falácia do apelo à autoridade a níveis estratosféricos.

        Responder
    • Denise

      De uma lida nos artigos, e terá uma luz sobre o destino que é dado aos fetos abortados. Por isso há um lobby internacional para a aprovação do aborto. O fim de todas as coisas nesse mundão é o dinheiro.

      http://forum.antinovaordemmundial.com/Topico-al%C3%A9m-da-pepsi-lista-de-outros-produtos-que-utilizam-c%C3%A9lulas-de-fetos-humanos?pid=63292#pid63292

      http://www.filhosdeyhwh.com.br/2011/10/grupo-cristao-entra-na-justica-contra.html

      http://lessismor.wordpress.com/2012/03/27/a-pepsi-o-intensificador-de-sabor-e-as-celulas-fetais/

      Responder
    • Eloísa

      Pela sua argumentação tenho certeza de que se trata de uma pessoa muito inteligente e esclarecida.
      Então eu só gostaria que você ou qualquer feminista bem preparada pra peleja me explicasse um ponto que não consigo entender: como é possível que o embrião/feto/bebê seja “[…]um amontoado de células do corpo da mulher, como a mão, ou os seios[…]” considerando o fato de que no instante da formação do zigoto há a constituição de um código genético completamente novo? A mulher se torna instantaneamente uma espécie de quimera, com um corpo com dois códigos genéticos?
      Sou uma mulher e te garanto que meus seios e minhas mãos jamais terão a mesma constituição que qualquer filho que eu possa gerar.

      Responder
  8. Gabriel F.

    Da Cia, antes mais nada, gostaria de dizer que gosto do seu twitter e outros conteúdos seus na interwebs, mas assim como comentou o Milton, acho que esse post se sustenta em uma base muito mais emocional do que racional.

    A princípio porque construções que façam referência a sentimentos do autor em tom dramático, como “enojante”, “revoltado” ou “traumatizado”, não contam muito em prol do argumento defendido. Estas apenas tentam “tocar o coração do leitor”, ao estilo das tão contraproducentes “fotos chocantes do facebook”, que não à toa aparecem no texto como modelo de divulgação válido. Eu menosprezo essa via porque as consequências são a indignação extrema sem a devida reflexão, o que muitas vezes gera uma tomada de posição, uma consolidação de opinião, construídas de forma precipitada e pouco amadurecida.

    Há bons exemplos de como essa dramatização, essa ânsia de comover o interlocutor, podem ser problemáticas no debate de temas polêmicos, como nos discursos de programas ao estilo Datena, que conduzem o público a encarar a justiça sob a ótica da vingança, além de legitimar e estimular a violência policial como parte da punição, indo de encontro ao que se entende por democracia.

    E há ainda o que me parece ser a faceta mais danosa desse tipo de técnica de exposição de ideias, digamos assim, que são lei as debatidas e promulgadas sob o calor do crime midiático da vez, algo tão comum tanto aqui quanto na gringolândia. E obviamente com o impulso muito maior de “dar uma resposta à sociedade indignada” do que promover um aprimoramento da legislação como base nos princípios constitucionais e do direito internacional.

    Responder
    • Da CiaDa Cia Posts do autor

      Obrigado,
      Não fiz construções dramáticas. Relatei um caso ao qual, humanamente, é impossível reportar sem mostrar assombro.
      Eu acho que o “bom” desse caso é que ele realmente não está sendo falado ( por aqui ), não está chocando ninguém, até pelo total ostracismo a que foi submetido. E pode reler o texto, eu falo desta questão de debater no calor das emoções e por isso ressalto que a série de crimes de Kermit Gosnell trazem novos questionamentos importantes ao tema. E, tá lá no texto né: “eis então algumas questões para serem lembradas quando este debate recomeçar :”.

      O Conselho Federal de Medicina está tentando reacender o debate mas a coisa não andou muito. De qualquer forma, quem é a favor do aborto tem um jeito muito normal de lutar pela implantação: Votar em gente que o defenda e tome o tema como prioridade. A Presidente era a favor mas mudou na campanha e nunca mais tocou no assunto. Da próxima vez, votem em candidatos pro executivo e legislativo que achem que aborto é um tema primordial.

      Responder
    • Priscila Garcia

      Olha, meu caro, TODO assassinato de um humano inocente é, sim, revoltante.

      No dia em que as pessoas DEIXAREM de se sentir indignadas com aquilo que naturalmente DEVE provocar indignação, as pessoas terão se DESUMANIZADO e passado a ser ROBÔS – ou símios pelados.

      Por conseguinte, a revolta e a indignação são absoluramente JUSTAS – não apenas diante deste genocídio chamado aborto, como diante de TODOS os assassinatos jamais cometidos contra inocentes indefesos.

      Mas eu a rigor não estou aqui para fazer ESTA argumentação: faço qualquer OUTRA. A minha FAVORITA é a argumentação científica – a que EMBASA a afirmação INEGÁVEL de que o embrião (ou obviamente o feto) é um ser HUMANO e está VIVO.

      Como o fato deste ser humano vivo ser INOCENTE e INDEFESO não precisa de “argumentação”, porque é incontestável, eu em geral me atenho à argumentação que acabo de mencionar, a de que o embrião é HUMANO e a de que está VIVO – por critérios científicos IMPECÁVEIS e IRREFUTÁVEIS. O abortista, seja ele QUEM FOR, vai ter que DEMOLIR a ciência, se quiser “contradizê-la”. NENHUM jamais chegou nem PERTO, evidentemente.

      E eu estou louquinha pra me aparecer alguém pela proa aqui, neste Forum, pra tentar fazer isso, só pelo prazer da DIVERSÃO de vê-lo tentar sem conseguir.

      Responder
  9. Milton

    Ridículo, já passou da hora de legalizar o aborto no Brasil, vocês argumentaram de um jeito mais emocional do que lógico, chega de hipocrisia, deixe quem quer fazer um aborto fazer e quem não quer não fazer, afinal permitir não é obrigar.

    Responder
    • Matheus Magalhães da Silva

      Argumentar de um jeito ideológico é tão afetado quanto de forma emocional. As questões listadas no texto são extremamente lógicas e não há um único indício de “afetação” de ordem moral-religiosa. Ridículo é tratar uma questão destas com esta leviandade toda, passando por cima das evidências que endossam as críticas à posição liberal pró-aborto, bem como a mídia (não existe mídia esquerdista nos EUA, toda a midia mainstream defende a ideologia liberal) fez neste caso. Eu ouvi falar que uma jornalista de lá alegou que não trata de “crimes locais”, dando a entender que o caso citado acima, no máximo, merece uma página na seção policial de algum tablóide. Entretanto, quando o jovem negro Travyon Martin foi assassinado por um hispânico (fato escamoteado na cobertura midiática), a imprensa em massa rapidamente definiu o crime como “racialmente motivado” e usou-se disto para atacar os conservadores de forma massacrante, sob o pretexto de que quem se oporia à teoria levantada por eles, basicamente era fascista e racista.
      Nestes casos dá para perceber com facilidade a forma como as coisas são tratadas naquele país. Por incrível que pareça, por mais partidária que seja nossa grande imprensa, ainda assim não chega nem à 20% da paranóia politicamente correta dos EUA.

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    • Wilson

      O Milton, aí de cima, sem responder a nada do que foi dito no texto, chama o pensamento antiabortista (ou o estado atual da lei, não ficou claro o que é que ele está xingando) de “Ridículo” e cheio de “hipocrisia”, clama que “já passou da hora de legalizar o aborto no Brasil” e que se deve deixar “quem quer fazer um aborto fazer e quem não quer não fazer, afinal permitir não é obrigar.”… e depois vem acusar os outros de argumentar “de um jeito mais emocional do que lógico”? Que palhaçada! Aliás, esse arremate que diz que “afinal permitir não é obrigar” é uma distorção do debate: quem é que está dizendo que a permissão do aborto irá obrigar todo mundo a fazer aborto? Ninguém.

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    • Priscila Garcia

      Ora, ora, ora! Você “acha” que os argumentos são “emocionais”?
      Eu argumento com a máxima frieza, meu chapa: o aborto é o assassinato de um ser humano, obviamente vivo, que é inocente e que está indefeso.

      CONTRA-ARGUMENTE.

      E não me venha com “emocionalidades”: limite-se a REFUTAR qualquer uma das afirmações acima.

      Gostou, meu chapa? Então manda lá a sua “refutação”.

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  10. hereticus

    Partial Birth Abortion
    This is a legal/political term applied to the act of killing a late-term fetus that goes by the medical name “intact dilation and extration” [D&X]. This procedure is one form of infanticide.
    D&X is not really an “abortion” at all. it is more accurate to describe a D&X as an induced premature labor, followed by a partial delivery, and then the killing of the almost-born child.
    During a D&X, the doctor gives the pregnant woman drugs to dilate her cervix prematurely. When the time comes for the induced delivery, the doctor reaches in, turns the baby so it will come feet first, and delivers all but the head, which is left inside the mother’s body. the doctor then pierces the skull with a sharp instrument and suctions out the brain, collapsing the skull so the head can be pulled completely out.
    The American College of Obstetricians and Gynecologists could identify no circumstances where a D&X “would be the only option” to save or preserve the health of the woman.

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  11. Anna Carolina Valente

    Siiiiiimm, ufa, alguem fala sobre aborto com responsabilidade, contextualizando com a realidade brasileira e sem argumentos medíocres como religião ou “liberdade” da mulher (Oi?? Hã??).

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  12. Paula Rosiska

    Claro, bastam as leis serem menos restritivas. É tão fácil resolver questões éticas na canetada. Liberem o aborto para gestantes de até 9 meses, passem a considerar vida somente após o parto e estará resolvido. E o mais importante: continuem lutando para que o sapo-boi azul não seja extinto, pois toda forma de vida é importante. Menos a humana.

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