E se Hillary Clinton tivesse vencido as eleições dos EUA?

A vitória de Donald Trump na eleição presidencial dos EUA, por ter tantos aspectos elucidativos de certas doenças do nosso tempo, ainda precisa ser mais esmiuçada. Do meu ponto de vista, o mais interessante é ainda tratar da imprensa. Vendo o desenrolar das notícias nos últimos dias após o choque inicial que sofreram com a derrota, me veio à cabeça um exercício: imaginar o que teria dito a classe jornalística caso Hillary fosse a vencedora.

Antes de mais nada, é interessante ressaltar que, aqui no Brasil, com as recentes derrotas humilhantes sofridas pela esquerda, jamais se deu tanto espaço e desculpa esfarrapada para os derrotados. Haddad em São Paulo e Freixo no Rio de Janeiro perderam no voto popular mas em espaço na imprensa e paixão dos jornalistas eles seguem sendo campeões unânimes, o que só ressalta o já tão falado universo paralelo em que vivem esses profissionais da mentira. Encerradas as eleições, ambos deram longas entrevistas aos jornais e foram tratados sem nenhum perversidade, nenhuma ironia ou gracinha que seria de esperar caso os derrotados fossem os outros. Uma rápida busca nos arquivos da internet permite comprovar este aspecto comparando reações no portal UOL em 2012 e 2016. Vejam abaixo:

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“Haddad cresceu na reta final” – Imprensa paulistana buscando um consolo

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Ao noticiar derrotado de 2012, UOL fez graça com Serra

Ressaltado este conforto oferecido ao derrotado quando benquisto, desnecessário dizer que isto não teria muito sentido em relação a um candidato de outro país. Não há a proximidade, a relação interpessoal entre jornalista e político que reforça ainda mais os laços ideológicos já pré-existentes. É por isso que não se viu por aqui grande esforço em tratar do futuro de Hillary, de suas qualidades na derrota, de tentar mostrar para o povo que deveriam tê-la escolhido por ser melhor.

Tivesse Hillary Clinton vencido a eleição, o humor do jornalismo seria bem outro. Porém, seriam inevitáveis certas abordagens apocalípticas quanto ao risco representado pelo derrotado e sua expressiva votação – os presidenciáveis dos dois grandes partidos dos EUA sempre têm votação expressiva, afinal de contas. Hillary derrotada, o grande risco para quem mentiu é que seu público, tendo acesso aos fatos como serão, percebam o quanto foram enganados com as análises que mostravam Trump e os republicanos como fascistas ou nazistas – cabendo aqui destacar o papel vulgar da VEJA nesta mentira espalhada.

Mais fácil do que mentir ao seu público sobre o que é inacessível pela distância é mentir sobre o que não aconteceu e jamais ocorrerá. E então diriam que Trump deportaria milhões de latinos, ilegais ou não. E diriam que os muçulmanos seriam marcados, tal como os nazistas fizeram com os judeus. Poderiam dizer que os negros seriam perseguidos, que as mulheres perderiam direitos e que os homossexuais seriam párias na estrutura legal do país. Diriam que Trump escolheria para a Suprema Corte algum juiz “supremacista branco”. Que Trump criaria barreiras comerciais contra países africanos, pois ele é racista. Que Putin tomaria conta da política externa dos EUA. E os textos terminariam com uma sacadinha inteligente a lembrar que o risco destes absurdos acontecerem está logo ali, na pequena margem construída para derrotar todo este atraso – esses imbecis sempre usam atraso, velhice ou antiguidade como a maior desqualificação possível em oposição a moderno.

No fim das contas, uma vitória do campo revolucionário em qualquer eleição serve sempre para aumentar ainda mais  a lente de distorção que impõem aos fatos e à realidade. Quando vencem uma eleição, vêem a recompensa pela mentira e sentem-se impulsionados a aumentar a dosagem pelo reforço criativo que somente a impossibilidade da realização pode oferecer a um jornalista desonesto.

A vitória de Trump presta este duplo serviço contra o jornalismo desonesto: trará a realidade como prova incontestável que derruba as mentiras contadas e impede um alarmismo ainda maior para reforçar a ojeriza que tentam criar contra aqueles que discordam.imprensahillary

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

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