Custo Brasil – Chamamos confiscos de “benefícios trabalhistas”

Volta e meia o termo “Custo Brasil” é abordado como justificativa para a falta de competitividade de produtos e mão-de-obra brasileiras em relação ao mundo. Também se usa o bordão para justificar os altíssimos preços que pagamos para produtos e serviços. Há também quem veja no Custo Brasil apenas uma desculpa para que empresários “gananciosos” se esbaldem no mar de fartura de suas empresas. O assunto é enorme, envolve muitos detalhes não tão óbvios, até mesmo pela farta legislação a respeito. Por ser tão grande, tratarei do tema em mais de um post. Neste inicial falarei aqui de um aspecto que certamente não é o principal mas ajuda a aumentar de forma desnecessária este preço que todos pagamos: O Custo-CLT. Sim, a nossa Legislação trabalhista, cuja base foi criada há 70 anos sob a ditadura varguista, custa muito para as empresas e ainda mais para os funcionários.

CUstoBrasil2

Para iniciar é preciso, como na maior parte dos debates políticos daqui, falar o básico mais básico: Neste caso, que uma empresa busca o lucro. Se isto ofende sua sensibilidade, melhor não ler o resto . O mundo seria lindo se todos trabalhássemos para nos entreter e se as empresas existissem para pagar salários, mas esta realidade maravilhosa não existe. Empregados buscam o equilíbrio na relação trabalho/esforço/remuneração e empresas buscam o maior lucro possível, que virá da relação entre receitas e despesas. Não é condenável a priori que um empregado queira ganhar o maior salário, da mesma forma como é correto uma empresa querer ter o maior lucro possível.

Embora pagar menores salários possa aparentemente acarretar maior lucro para uma empresa, isto provavelmente terá um custo à mesma: Ela poderá perder empregados ou ter gente menos qualificada. Mas um grande problema na relação empresa-empregado e que faz com que ambos saiam perdendo, evitando que a empresa pague mais e o empregado também ganhe mais é a excessiva e bizarra tributação sobre a Folha de Pagamento. Pior, o Governo faz crer que são benefícios os diversos confiscos que são feitos junto ao pagador e não vão para as mãos do trabalhador.

É preciso trazer os números para explicar como é absurda a nossa Legislação trabalhista e como ela prejudica a competitividade de nossa mão-de-obra ao encarecer o trabalhador sem que o mesmo ganhe mais. As empresas estão corretas quando reclamam da CLT, o que não se percebe é que elas perdem com ela mas os trabalhadores perdem muito mais! Para isto, vou dividir o problema em 3 partes, sempre tomando como base um hipotético salário de R$1000,00 sobre o qual incide a alíquota mínima de Imposto de Renda. Vamos aos custos:

1) Impostos puros:
Muito tempo atrás, nossos tributaristas devem ter acreditado que, quanto maior a empresa, maior o número de empregados, e que ter o controle sobre isso era mais eficiente do que sobre os ganhos reais da empresa. Pode ser daí que nasceu a exagerada tributação que temos sobre a Folha de Pagamento: 20% de INSS. Ainda na Folha de Pagamento, há uma taxa que varia de 1% a 3% de Risco de Acidente de Trabalho ( esta até faz sentido pois quanto mais funcionários, maior o risco de acidentes que os vitimem ). Há também a “contribuição” que a empresa tem que dar ao chamado “Sistema S”, que varia de 0,60% a 1,5%. A carga tributária completa pode ser vista com mais detalhes neste link mas, para efeitos simplificadores, usarei como base apenas esses 3 impostos obrigatórios.

Até aqui, se o empregado ganha R$1.000,00, a empresa já gastou com ele entre R$216,00 e R$245,00, ou seja, entre 21,6% e 24,5% a mais, vindos das somas de impostos do INSS, Risco de Acidente de Trabalho e pro Sistema S.

  • Salário mais impostos puros: R$ 1.216,00 – R$1.245,00

2) Os Confiscos:
Nossa CLT, bem antiga e inspirada na Legislação da Itália sob Mussolini, chama diversas “poupanças compulsórias” de benefícios. 13o salário, 1/3 de férias e férias remuneradas parecem benefícios mas são na verdade dinheiro do assalariado que ficam confiscados nas mãos do empregador que tem que pagá-los do mesmo jeito, ou do Governo, que com muito atraso e trabalho o entregam. Empresas que competem no mercado internacional não têm como base o salário mensal, elas calculam o seu custo anual na hora de compará-lo ao de outros países. As porcentagens confiscadas junto ao empregador são:

8,33% de Décimo Terceiro ( cálculo básico sobre 1/12 do salário mensal );
8,33% de Férias remuneradas ( cálculo básico sobre 1/12 do salário mensal );
2,77% de 1/3 de férias ( cálculo sobre 1/3 dos 1/12 das férias remuneradas );

Os confiscos acima fazem o empregado que ganha R$1.000,00 custar à empresa mais R$194,43, ou seja, 19,43%  ( 8,33% + 8,33% + 2,77% = 19,43% ). Só que como Décimo Terceiro e Férias são parte da Folha de Pagamento, há que se acrescentar que eles também entram para o montante de impostos sobre Folha de Pagamento. Então aqueles 21,6% a 24,5% a mais devem ser calculados não sobre R$1.000,00, mas sobre R$1.194,30 que é salário do empregado mais poupança do empregador para pagar 13o e férias anualmente, transformados em base mensal:

  • Salário Mensal + Custos anuais represados da Folha ( 13o e férias ) = R$1194,30
  • Salário Mensal + impostos corrigidos (após acréscimo de 13o e férias ) = R$1452,26 – R$1486,90 

Há também um confisco que é tomado do empregador e vai diretamente pras mãos do Governo, que só o repassa ao seu verdadeiro dono, o trabalhador, se você se explicar e enfrentar uma chatíssima burocracia. São os 8% de FGTS, que são aplicados sobre a base de pagamento. Como o FGTS não incide sobre o benefício das férias, tomarei para seu cálculo não a base mensal pura, mas a base mensal composta pelo salário mais o 1/12 do 13o, equivalente ao custo mensal levando em conta o que o empregador tem que poupar para o pagamento anual do benefício:

  • FGTS = 8% de R$1083,33 = R$ 90,27
  • Salário + impostos corrigidos + FGTS = R$1542,53- 1577,17 

3) Os descontos:

Peguei R$1000 pra facilitar os cálculos, mas quem ganha isto não paga imposto de renda. Ainda assim, usarei então a menor alíquota de imposto possível, 7,5%. Também no caso do desconto para vale-transporte, cujo limite superior é 6%, usarei 3% para o caso imaginário em que a empresa é muito legal com o empregado. O Imposto de renda pode ser deduzido ao final do ano caso comprovem-se gastos que têm isenção ou caso o montante anual não ultrapasse o mínimo. Neste caso, mais uma vez estamos falando de uma poupança compulsória feita pelo Governo. Ignorando isto, vamos ao que ficará com o empregado ao final do mês contando INSS, IR e vale-transporte:

  • Descontos = 8% de INSS + 7,5% de IR + 3% de VT = 18,5%;
  • Salário Final do Trabalhador = : R$1000 – R$185,00 = R$ 815,00.

CONCLUSÃO

Este post serve apenas para ilustrar o quanto de dinheiro é retido e deixa de circular por culpa da CLT. Os funcionários com carteira de trabalho incorretamente crêem que é benefício o dinheiro extra que, na verdade, faz caixa de poupanças compulsórias! É como se o Governo,  através da CLT, acreditasse que você cidadão não sabe como administrar seu dinheiro e precisasse de uma data-base anual para tê-lo em mãos ( no caso de 13o e férias ) ou de uma bela desculpa e justificativa para usá-lo ( FGTS ).  Agora, vejam o quanto do salário “anual” do trabalhador é confiscado e depois distribuído como se fosse benefício ( 13o e férias e 13o):

  • Salário anual ( + benefícios ) = 14331,6;
  • Salário anual ( – descontos de 8% de INSS, 7,5% de IR ) = 12110,20;
  • Salário anual ( – descontos de VR 3% de R$12.000 [ R$360 ] ) = 11750,2;
  • Como seria o Salário mensal sem os confiscos chamados de benefícios = R$979,18

Ou seja, até aqui o trabalhador já teria um ganho real de R$164,18 por mês, após aplicarem-se os impostos a esses confiscos que ele deixa de ganhar. Mas há mais, há o confisco que não fica “guardado com o empregador”, mas depositado nas mãos do Governo, mesmo sendo do trabalhador.

  • Distribuindo mensalmente o FGTS para o salário mensal = +R$90,27
  • Total de confiscos mensal ( pelo empregador + Governo ) = R$194,30 + R$90,27 = R$284,57

Chegamos então ao resumo abaixo, que mostra o quanto o custo de um empregado vai muito além do mísero dinheiro que lhe resta ao fim do mês:

  • Salário Mensal NOMINAL do Trabalhador: R$1000,00
  • Impostos retidos na Folha: R$185,00
  • Salário Mensal Real do Trabalhador: R$815,00
  • Dinheiro Mensalmente confiscado do Trabalhador: R$284,57
  • Dinheiro gasto pelo empregador com o Trabalhador: Entre R$1542,53 e R$1577,17
  • Impostos pagos pelo empregador: Entre R$257,97 e R$292,60
  • Diferença entre o gasto pelo empregador e o dinheiro que vai ao trabalhador = Entre R$ 727,53 e R$762,17
Custo_CLT

Há um Governo entre a empresa e o trabalhador. Entre a empresa e o trabalhador há um Governo…

Há quase um salário real do trabalhador que se perde entre o que o empregador tem de gastar com o empregado e o que este efetivamente recebe. Não bastassem os impostos, há essa enormidade de confiscos vendidos como “benefícios” ( como visto acima, o trabalhador teria 31% a mais em dinheiro mensalmente não fossem essas políticas). Com tanto dinheiro confiscado, não é de se estranhar que o povo brasileiro seja tão endividado e tenhamos índices de poupança tão baixos. E toda vez que um inocente diz que seu salário é baixo por culpa da “ganância” dos empresários, o Governo agradece.

Quem acredita na independência das pessoas e na capacidade dos brasileiros de gerir seus recursos deveria lutar por mudanças na CLT. Da forma como estão hoje, os benefícios confiscados do salário mensal do trabalhador só ajudam as empresas que fazem contratos temporários de trabalho e, por não terem um ano de vínculo, conseguem escapar dessas obrigações. Mas deve-se pensar mais: Quanto não teríamos a mais de dinheiro em circulação se, digamos, ao menos metade do FGTS deixasse de ser confiscado pelo Governo e fosse entregue mensalmente aos trabalhadores? O quanto isto não ajudaria especialmente os mais pobres, que sofrem com os pesados juros bancários? Será que não há uma relação direta entre excesso de confiscos-população endividada-juros altos? Pensem nisso. Daqui a algumas semanas retomarei esse tema.

20 comentários para “Custo Brasil – Chamamos confiscos de “benefícios trabalhistas”

  1. Brasillll

    20 centavos
    O gigante adormecido acordou triunfante.
    A pátria amada finalmente se tornou idolatrada.
    O sol da liberdade nasceu hoje em nossos lares.
    A paz e a gloria se tornou presente.
    O brilhou no céu da pátria se viu uma esperança.
    Nosso presente espelha nossa grandeza futura.
    Ao som do amar gritam os nossos direitos.
    Á luz do céu profundo a nossa igualdade.
    Ó Pátria amada!
    Dos filhos desse solo que não se calaram diante da mãe gentil.
    Pátria amada,
    Brasil! (Adilson Noel)

    Responder
  2. Alberto

    Muito Bom!!

    E ainda falta a questão dos domingos e feriados, se colocar, a conta ainda salta um horror.

    O salário mínimo remunera os domingos e feriados trabalhados, mas, se efetivamente forem trabalhados se paga o dobro (R$) do dia. Para um trabalhador que ganha R$ 1.000,00 somente o custo a mais dos domingos saí por R$ 266,66.

    Isso sem contar que a CLT ainda diz sobre a adição de deveres ao empregador negociadas em sindicatos. Para muitas categorias o custo ainda é infinitamente maior (cesta básica, salário família, etc)

    Responder
  3. SIF

    Boa discussão: democrática e pluralista, mas penso de devamos aplicar Ishikawa no Custo Brasil, perguntando inúmeras vezes por que? para chegarmos às causas raíz, ou talvez a que a acredito se a principal: não temos “massa crítica” de pessoas honestas.
    Talvez os “honestos de plantão” tenham se ofendido. Mas não se preocupem, continuem trabalhando! Dirijo-me aos que são vagabundos de carteira assinada, que lamentavelmente, ainda são a maioria neste país.
    Da parcela da população mais pobre à mais rica, a categoria dos vagabundos é a maioria. Vou definir o que chamo de vagabundo:
    “É aquele sujeito que:
    1) Conhece seus direitos, todos!
    2) Desconhece todos os deveres!
    3) Não perde oportunidade para justificar seus desvios de conduta, alegando: desde necessidade (Maslow) até a legitimação pelo que outros também fazem:
    3.a) Coisas “pequenas” como “enrolar” no trabalho, sob o manto protetor do anonimato;
    3.b) Furtar um doce de R$1,00 no supermercado;
    3.c) Jogar lixo no chão, sob o pretexto de gerar o emprego de coletores;
    3.d) Outros tantos “pequenos” desvios, que se agigantam quando, por voto direto, passam à categoria de representantes da população. A diferença: um doce de R$1,00 passa a ser um “agrado” de alguns milhares ou milhões de reais. Mas não se iludam: não foi a oportunidade que fez o ladrão, ele já existia.
    Falta “massa crítica” de pessoas honestas para:
    1º) Trabalhar;
    2º) Educar os filhos, e não “delegar” às instituições de ensino a função que é dos pais;
    3º) Cobrar de si, dos filhos, dos vizinhos, do patrão, do colega de trabalho.
    Tal qual numa empresa: o refugo, o retrabalho e as ineficiências, geram custos que se o mercado absorve, “tudo bem”, são repassados para o preço, no caso de um país, implica na necessidade de aumento de arrecadação: impostos, taxas, contribuições, etc.
    Se houvesse massa crítica de pessoas honestas, certamente não seria necessário tantos radares, cartórios, “facilitadores” de dificuldades criadas. Mas como ainda somos um povo “subdesenvolvido”, ou para usar o termo politicamente correto: “em desenvolvimento”, cabe às autoridades a tutela por meio de leis. E pergunto haveria tantas leis se de fato a “lei de ouro” fosse mais seguida: “não prejudicará o próximo!” Haveria tantos advogados? Por que será que temos tantos? Seria por que julgamos legítimo prejudicar os outros em benefício próprio?
    Pessoal! Não adianta discutir impostos, corrupção, pobreza e outras mazelas de nosso país. Eduquem seus filhos, se tiver oportunidade, dê oportunidade para que outros tenham acesso a cultura e educação acadêmica, e se possível e houver interesse: eduque aquele que não é seu filho.
    Penso que seja este o caminho para sairmos da mesmice de ficar discutindo os efeitos em vez de atacar as causas.
    Abraços.

    Responder
  4. Bruno

    Isso em considerarmos a sanha da Justiça do Trabalho em ‘criar’ direitos em afronta ao processo legislativo, o que resulta em mais custos para as empresas.

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  5. Carvalho

    Parabéns pela paciência em escarafunchar todos os impostos, taxas, contribuições, etc que incidem sobre os salários.

    Como sugestão, acho que o valor calculado por ano fica melhor para visualizar, o negócio de 1/12 complica muito. Eu sou bom em matemática e me perdi um pouco nos seus cálculos. Nenhuma mensagem tão complicada vai chegar a um grupo grande de pessoas, e as pessoas mais esclarecidas já sabem desses custos, apesar de algumas tentarem mudar o foco como o comentarista V.

    Se o objetivo do site é aumentar a visibilidade dessas idéias, terá que dedicar tanto tempo à forma quanto ao conteúdo. Faça um post que a sua empregada diarista consiga entender. Pois é esse o nível educacional da esmagadora maioria da população.

    Menos mensagens
    Mais claras e simples
    Repetidas exaustivamente

    Isso terå chance de funcionar. Há que se aprender com a forma de comunicação da esquerda, que é muito boa nisso. Com o agravante que no caso deles o conteúdo é sofrível, portanto toda atenção é dada ao formato da mensagem.

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  6. Jastwt

    Faltou ainda as despesas com uniformes e equipamentos, que custam um absurdo.
    Essas despesas com vestuário/equipamentos/Vale transporte/Alimentação eram todas consideradas no parâmetro do Salário Minimo, ai o governo os travestiu de beneficios dos empresários, para que ele pudesse pagar menos ao aposentados.

    Responder
  7. Felipe Braga

    Bom texto (só esqueceu que a contribuição da empresa, no INSS, é maior que a do trabalhador: o total é 11% + 20% [da empresa]) – ele explica também o Custo-França, o Custo-Suécia, o Custo-Itália, etc…

    * mete a pica!

    * a chamado “Custo-Brasil” tem relação direta com insuficiências de Infraestrutura (principalmente Logística), não com legislação trabalhista (os comentários são engraçados!)

    Responder
    • Da CiaDa Cia Posts do autor

      Como demonstrado no texto, os confiscos do salário do trabalhador fazem com que ele fique mais caro sem que realmente tenha o dinheiro em mãos. É uma das partes do Custo Brasil, não a totalidade (isso também pode ser lido no início do texto )

      Responder
  8. Francisco Del Rio

    É mole? O Brasil consegue ter um dos trabalhadores mais caros do mundo (o mais caro dentre os países emergentes), sua produtividade é baixíssima, o que evidentemente acarreta a pior relação custo/produtividade do planeta, e ainda tem muita gente que defende a legislação atual com unhas e dentes. Deve ser algo como a maioridade penal: todo o mundo desenvolvido está errado, mas miraculosamente, o Brasil está correto. Essa legislação trabalhista oriunda das patéticas (e trágicas) doutrinas fascistas dos anos 40 deve então ser uma dádiva, e estamos sendo ingratos ao questioná-la.

    Responder
  9. Vinicius Duarte

    Muito bom demonizar a CLT, mas ela não é responsável por muitos dos “confiscos” apontados pelo texto, senão vejamos:

    1) O que vc chama de “impostos puros”, na verdade, são contribuições patronais para um fundo de aposentadoria público (INSS). Como acontece em qualquer fundo de pensão privado que se diga equilibrado e vise garantir a aposentadoria dos trabalhadores, a maior parte é custeada pelo empregador. A distorção “empresa grande e empresa pequena” já foi corrigida com o SIMPLES, que tributa as pequenas empresas (dentro do limite da lei) pelo faturamento. Micro e pequenas empresas não recolhem 20% de INSS. E mais: se você tentar contratar um plano de previdência privado, não conseguirá alcançar a remuneração desejada com 8, 9 ou 11% da sua remuneração atual nem fodendo (a não ser que queira se aposentar com 50 anos de serviço). Quanto ao SAT, acho que você já entendeu a necessidade dele (afinal, a empresa não paga o salário do empregado enquanto ele está acidentado ou doente há mais de 15 dias). Como o nome diz, é um seguro. E seguro vc paga pra não usar. Mas quando usa, fica aliviado.

    2) 1/3 de acréscimo sobre as férias remuneradas não foi instituído pela CLT, mas pela Constituição de 1988, portanto não foi “herança do Mussolini”. Independentemente dessa correção histórica, é uma forma de “participação nos lucros forçada”. Ruim, reconheço, porque atinge quem tem lucro e quem tá quebrado. Mas é solução típica de país com desigualdade que quer dizer que não tem tanta desigualdade assim. Aliás, como todas as “benesses celetistas”. O Brasil é um país metido a besta, onde o empresário quer pagar de bonzinho e o empregado quer pagar de sócio do patrão.

    3) Quanto ao IR, realmente existe uma distorção hedionda na tributação dos assalariados, mas esta JAMAIS pode ser atribuída à CLT. O imposto de renda no Brasil é uma das coisas mais absurdas já vistas na face da Terra, mas atribuir isto à relação de trabalho não me parece razoável. Basta ver o DARF do recolhimento de IRRF dos bancários e o DARF do recolhimento do IR dos banqueiros. Se vacilar, capaz de ser igual.

    4) Lei do VT também não está na CLT (lei 7418/1985), portanto não foi “herança do Mussolini”. Eu não concordo com nenhum tipo de “vale” concedido ao trabalhador (mesmo porque alguns são concedidos e recebem contrapartida para a empresa no IR). Se o empregador pagasse o valor justo ao trabalhador (e o justo não é o que ele aceita receber, pois muitas vezes é o que ele CONSEGUE receber), talvez a tutela governamental não fosse necessária. Quando se faz uma lei dizendo que o trabalhador não pode gastar mais do que 6% do salário para se locomover de casa até o trabalho, das duas, uma: ou o salário é muito baixo, ou a condução é muito cara. Em qualquer das hipóteses, a culpa não é da CLT.

    5) Quanto à contribuição ao “sistema S” sobre a folha de pagamento, cabe lembrar que SESC/SENAC/SESI/SENAI/SEST/SENAT são entidades cujos recursos e aplicação são geridos por PATRÕES e empregados. Foram criadas para fornecer mão-de-obra qualificada para as empresas e oferecer uma garantia social (assistência médica, recreação etc.) para os empregados. O governo apenas recolhe e REPASSA o que os PATRÕES acham que é uma grana justa para suas ações sociais e de capacitação profissional. E, que não nos percamos na conta, ELES (patrões) mesmos pagam! Ora, se os patrões e empregados acham que não é justo contribuir para as entidades que eles mesmos gerenciam, que fechem todas!

    6) FGTS, o vilão de todas as horas… Certas ações são feitas em função da característica da sociedade. O brasileiro é um sujeito imediatista por natureza (seja governo, patrão ou empregado). 8×12=96. Mais o jurinho, dá 100. Um salário por ano de serviço, pra não ficar no perrengue em caso de desemprego. Nasceu em 1967, quando os empregados tinham “estabilidade no emprego”. Antes do FGTS, se vc demitisse um empregado, deveria pagar na rescisão um salário por ano de serviço. Pois é, hoje paga quase isso, mas diluído mensalmente. É uma poupança. “ah, mas o FGTS rende menos que a poupança!”. Sim, porque o FGTS, enquanto você não é demitido, serve para financiar habitação (e você não precisa ter guardado nada, pq o governo já fez isso por vc), a rede de água e esgoto da tua casa… Será que não há vantagem para o empregador em ter um funcionário que não falta ao trabalho porque pegou uma esquistossomose na porta de casa? E quando o empregado saca (por demissão SEM justa causa), serve para que ele não fique desesperado para sustentar sua família pelo tempo em que ficar desempregado (e ninguém sabe quanto tempo uma pessoa pode ficar desempregada, né?)

    7) “Mas com essas leis absurdas protecionistas dos empregados não conseguiremos competir num mundo globalizado!”. Ah, é? Desde 1988, a jornada máxima de trabalho dos brasileiros está travada em 44 hs. semanais (nível “chinês”, segundo a OIT). A tendência mundial é pela diminuição da jornada. Países europeus estipulam 30 a 35 hs. semanais, em média. O nosso salário médio é inferior ao dos países concorrentes, mesmo que produzamos as mesmas coisas e concorramos nos mesmos mercados. Ora, quem é que está se beneficiando com isso? Talvez seja uma pergunta válida para os empresários brasileiros.

    Responder
    • Da CiaDa Cia Posts do autor

      Não é demonização. Os números estão aí, bem claros, com arredondamentos pra facilitar. Mas vou responder ponto-a-ponto:
      1) Imposto sobre a Folha de Pagamento faz com que empresas busquem outras formas de contratação. Há todo tipo de prática demonizada, desde terceirizações, usando empresas que fazem contratos de curto prazo, a até mesmo a famigerada “pejotinha fake”. Micro e pequenas empresas raramente competem por força de trabalho no mercado global. E o fato delas terem uma tributação razoável advoga ainda mais pela excrescência do que as “grandes empresas” pagam.
      2) Não disse que tudo da CLT é herança de Mussolini, tá no texto bem claro que a versão “original” é do ditador Vargas inspirada no outro Fascista. E não é nenhuma participação nos lucros forçada, isso é ingenuidade. A realidade é semelhante às meias-entradas: A base do pagamento é feita com a realidade distorcida ( os incrementos aqui, os descontos na meia-entrada ).O IR entra no pacote para expôr como, além das poupanças compulsórias, o trabalhador perde ainda mais. Só que o IR é OUTRA POUPANÇA COMPULSÓRIA para os casos em que o trabalhador obtém restituição. Isto é tema para o próximo post, você não perde por aguardar…
      3) Vide item 2 ou mesmo o texto original;
      4) De onde você tirou alguma relação entre Vale Transporte e CLT ? Eu usei o Vale transporte para botá-lo no bolo da exposição do quanto há de diferença entre o salário real e o gasto real do patrão com o funcionário;
      5) O “sistema S” não é auto-gerenciável como você diz pela razão simples de que todo o recolhimento é regulado por lei. É obra do Governo sim. Se eles quisessem mudar, teriam que agir politicamente para aprovar. Mas, como tem sido bem nítido ultimamente, o Sistema S tem virado palanque eleitoral pra peso morto que só fica rondando eleições executivas, especialmente em São Paulo;
      6) Pelo menos você é honesto em dizer sem freios que o brasileiro não sabe poupar, não sabe gerir suas contas. É uma visão de mundo, só não vale dizer isso para “uns casos” e em outros dizer que o cara tem que ter certas liberdades. A história do FGTS é muito boa, aliás recomendo a leitura do livro “A Lanterna na Popa” de Roberto Campos, praticamente o mentor disso. É curioso que pessoas que odeiam Roberto Campos e suas idéias defendam uma legislação praticamente planejada por ele ( assim como é engraçado também ver como certa corrente de pensamento se ofende em ver Getúlio ser chamado de Ditador como foi, ou de acharem ruim lembrar de que Mussolini é o pai distante da CLT ). Enfim, dizer que ainda hoje dependemos do confisco de dinheiro de trabalhadorr para construir casas populares e rede de esgoto é uma piada de mau gosto! No mais, pensa se isso não gera uma bizarra concentração de renda: Milhões poupam, maioria deles pobres, e alguns milhares usufruem. Também achei bem honesta sua crença de que o Governo faz um favor para o pobre brasileiro ao juntar o dinheiro para ele MESMO com rendimento menor. Como eu disse, a coerência às vezes cobra o preço da indelicadeza. No caso, dizer que os brasileiros precisam de cabresto financeiro;
      7) Jornada máxima não é jornada média. As grandes multinacionais brasileiras ou aqui instaladas, numa maioria absoluta, têm carga de 40h semanais. Aliás né, sindicato taí pra isso, boa parte das categorias têm isso por acordo sindical ( que coisa, nem adicionei esse imposto ridículo também que só serve pra financiar gente incompetente aboletada na mordomia dos conchavos ). A Europa, que saudades da Europa como bom exemplo. A realidade é que a Europa está com taxas de desemprego altíssimos ( se bem que a forma de cálculo deles, adotada por aqui, causaria um grande impacto ). Mas a Europa deixou de ser grande player global de capital humano há tempos. Mesmo as multi européias terceirizam não só fabricação como até mesmo pesquisas. Um funcionário brasileiro, para uma multinacional, custa quase o mesmo que um americano e canadense. Mas custa ainda bem menos que um europeu. A questão é que pelo nossos indicadores educacionais e profissionais, competimos com gente do Chile, Argentina, Colômbia, México, Filipinas, Índia, Indonésia, Paquistão, Costa Rica, Guatemala, Porto Rico… Especialmente no mercado de serviços, em que o grande capital é intelectual e portanto há a necessidade de grande mão-de-obra, o grosso do rendimento da empresa vem do trabalho de seus funcionários, o Brasil perde muito. Por quê? Por tudo aquilo que já foi dito no post e que ainda assim você acha correto, como os absurdos 20% sobre a Folha de Pagamento.
      É uma questão de tomada de posição. Você acha mesmo que os patrões são vilões, o povo é vítima e bom mesmo é o Governo. Eu quero mais gente do povo virando patrão, para mim o vilão é o Governo. E eu tenho plena confiança de que o povo brasileiro saberia gastar melhor seu dinheiro do que passá-lo a essa estrutura imensa, corrupta e incompetente do Estado brasileiro.

      Responder
  10. Luiz H.

    Para convencer as pessoas propensas a acreditar na beleza da CLT, seria melhor colocar na perspectiva de que a cada X trabalhadores que estão empregados, um desempregado receberia uma vaga. Trocando em miúdos, se não houvesse estes entraves, X vagas potencialmente seriam criadas. Acho que o cálculo somente de quanto o trabalhador ganharia “a mais” é falho pelo fator “mais dinheiro na praça, maior inflação”

    Responder
  11. Márcio Alcântara

    Eu ainda alteraria o cálculo do custo mensal do empregador com um empregado para a seguinte forma: tudo o que se gasta com o empregado em um ano (como explicado no texto) dividido por 11 (e não por 12, pois o empregado trabalha efetivamente 11 meses num ano).

    Responder
    • Da CiaDa Cia Posts do autor

      Mas para ter direito a esses benefícios, o empregado tem que trabalhar um ano. Por isso coloquei 12: trabalha 12 para ter o benefício. Há quem ache que o cálculo certo é dividir por 13 porque só após o 12o mês se tem os direitos…

      Responder
      • Márcio Alcântara

        Observe que estou falando em custo MENSAL (talvez eu devesse acrescentar a palavra “médio”).
        O empregador gasta, com o empregado em um ano, tudo o que a lei o obriga a pagar, mas só conta com o resultado de seu trabalho por 11 meses. Durante sua ausência aquele tem de substituir o empregado de férias por mão-de-obra temporária, ou pagando horas-extras a seus colegas, senão sua produção seria reduzida!

        Mas, enfim, essa questão seria apenas um detalhe que não mudaria muito sua excelente análise.

        Responder

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