Aurora Dourada – Sempre há espaço pro nefasto

Como explicar o partido Aurora Dourada?

Como revolucionários de esquerda, culpam os bancos pela crise e odeiam o que chamam de capitalismo financeiro;
Como os nacionais socialistas, são xenófobos;
Como boa parte da esquerda mundial, odeiam judeus e os Estados Unidos;
Um líder do partido diz que eles devem seguir o modelo de atuação do Hezbollah;
Como Ahmedinejad, o maior líder do partido minimiza o Holocausto;
Como amplos grupos da esquerda brasileira, acusam a mídia de manipular informações e estar a serviço de obscuros interesses internacionais;
Como quaisquer grupos revolucionários, não se envergonham de praticar atos violentos;
São ferrenhos defensores de bandeiras ecológicas;
Defendem barreiras protecionistas contra produtos estrangeiros, assim como o empresariado brasileiro;
Se autoproclamam “o novo” contra os velhos esquemas políticos do país;
Como os líderes autoritários e populistas recentes da América Latina, dizem que é preciso um novo regime para quebrar os esquemas de corrupção que “se perpetuam” no país;
Idolatram um líder grego que imitava ações de Mussolini (inclusive no campo trabalhista, ao estabelecer jornada de 8h diárias, dar seguidos aumentos no valor do salário mínimo e criar um Instituto de Seguridade Social), mas que entrou em guerra contra a Itália Fascista após uma invasão italiana. Esse líder era um germanista que admirava Hitler mas caiu no lado oposto na II Guerra Mundial e, se sua morte demorasse mais alguns meses, teria visto seu país ser invadido pelos nazistas;

O movimento político capitaneado pelo partido “Aurora Dourada” traz em suas características e discursos um grande apunhalado do que há de pior na história política do Ocidente nos últimos 100 anos. E tem sido bem-sucedido! De um partido minúsculo, com 19 mil votos nas eleições de 2009 (0,29%, abaixo até dos nossos partidos de extrema-esquerda como PCO e PSTU), em apenas 3 anos teve um crescimento expressivo para as eleiçoes de Maio de 2012, quando atingiram 7% do eleitorado.

O partido, fundado em fevereiro de 1983 por Nikos Michaloliakos, tem crescido sob argumentos e desculpas semelhantes a muitos movimentos extremistas e totalitários já vistos na história, como resultado de um caldeirão que contém recessão (perda de 18,5% do PIB em 6 anos!), insolvência do Estado, corte de gastos públicos, corte de “benefícios sociais” (que geraram a crise de insolvência), perda do poder aquisitivo, descrédito de toda a classe política, perda de confiança no poder público e descontentamento com a qualidade dos serviços públicos.

Cartaz do Aurora Dourada em defesa do Meio Ambiente

Cartaz do Aurora Dourada em defesa do Meio Ambiente

Embora esse caldo contenha elementos da ascenção de muitos comunistas ou mesmo “socialistas do século 21”, é com o nacional socialismo que o paralelo é mais preciso. Há na Grécia um sentimento de humilhação nacional diante das interferências do FMI como condição para ajuda financeira. Há na Grécia também o sentimento de identidade histórica nacional, a “helenística”. O Partido Aurora Dourada abomina os comunistas e também considera que os conservadores falharam na proteção da identidade e soberania nacional. A simbologia adotada pelo partido é muito semelhante à nazista (que por seu turno adotava estética stalinista).Ainda assim, os partidários negam que sejam nazistas ou neo-nazistas.

O Aurora Dourada só começou suas atividades de fato em 1993: “Nós começamos de uma forma Leninista: Decidimos lançar um jornal, Aurora Dourada, e a construir um partido ao redor dele. Nos anos 80, flertamos com todos os tipos de ideias do entreguerras, inclusive o Nacional Socialismo e o Fascismo. Mas, nos anos 90, nós resolvemos nos posicionar em favor do nacional populismo“. (Entrevista de N. Michaloliakos em 2012). Seus documentos públicos indicam uma ideologia que visa estabelecer um Estado fundado no nacionalismo, que chamam a “terceira maior ideologia da história”. Planejam também fazer uma engenheira social para criar uma nova sociedade com um novo indivíduo e criticam a sociedade contemporânea por possuir falsos valores sociais. “O nacionalismo é a única absoluta e genuína revolução pois busca o nascimento de novos valores morais, espirituais, sociais e mentais“.

No jornalismo mundial e nas poucas referências e notícias que temos sobre o partido, o Aurora Dourada é chamado sempre de Partido de Extrema-Direita pois convenciona-se atualmente chamar de extrema-direita a todo tipo de movimento político nacionalista. Curiosamente, na América Latina, Brasil incluso, o nacionalismo é uma bandeira da esquerda. Um nacionalismo diferente, que se faz muito mais pela negação e confronto das heranças européias após a colonização, um nacionalismo que elogia o imaginado “bom selvagem” destruído pelos invasores que estavam mais de um milênio à frente em termos de conhecimento e organização social. O ódio dos partidários do Aurora Dourada aos estrangeiros é a exacerbação do ódio dos Socialistas do Século 21 na América Latina aos ‘brancos de olhos azuis culpados pela crise mundial’, como disse certa vez um presidente da região tido por moderado e equilibrado.golden-dawn-greece-members

O distanciamento das situações às vezes leva à criação de rótulos para qualificar e facilitar a compreensão. O Aurora Dourada é um partido de ideais nefastos e temerosos mas que, olhando nas minúcias e somando várias características, podem ser vistos em muitos outros lugares. Todos nós abominamos o nazismo e nem mesmo o aceitamos como ideologia válida e legítima, daí deriva o assombro com que observamos o crescimento de um partido tão semelhante ao nazista. Causa assombro também ver o povo de um país com bons indicadores de educação e qualidade de vida se apegar a ideias tão absurdas. Cabe aqui dizer que isso foi visto e dito da ascenção nazista no entre-guerras, mas poderia ser dito também da Argentina de várias épocas, inclusive recente, sempre tão afeita a autoritarismos populistas.

O Aurora Dourada deixa claro que, embora a história não ande em círculos, velhos erros podem ser repetidos desde que criadas as condições para tal. Nos parece assombroso ver algo parecido com o nazismo crescer num país civilizado europeu, mas não ligamos muito para a ascenção de vários movimentos de esquerda e extrema-esquerda serem bem-sucedidos na América Latina. Não há a menor condição da Grécia, mesmo que seja administrada pelo Aurora Dourada, causar o estrago imposto pela Alemanha sob Hitler, da mesma forma como tomamos por inofensivos os inúmeros países pobres da América Latina que vão, aos poucos, assumindo feições de comunismo internacionalista e comunitário. As características comuns que unem o fortalecimento de movimentos totalitários e historicamente abomináveis devem ser observadas sempre com atenção para que possamos apreender o que pode ser feito para evitar o sucesso dos que, na primeira oportunidade, acabariam com a democracia e, mais adiante, começariam seus grandes expurgos.

Sábios políticos costumam dizer que grandes crises são oportunidades boas demais para serem desperdiçadas. Políticos totalitários também são sábios.

* Mais informações sobre a História do Aurora Dourada, leiam “The rise of the Golden Dawn – The new face of the far right in Greece

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

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8 comentários para “Aurora Dourada – Sempre há espaço pro nefasto

  1. Marcos

    Quando o país entra em crise e os políticos tradicionais perdem a credibilidade, a reação natural é buscar algo bem diferente do comum. O problema é que muitas vezes isso inclui grupos que estão marginalizados por um bom motivo, como é o caso desse partido grego.

    Só o conhecimento e o estudo podem evitar esses erros. No entanto, hoje isso é coisa rara.

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  2. Thiago Cortês

    “São ferrenhos defensores de bandeiras ecológicas”….

    “Defendem barreiras protecionistas contra produtos estrangeiros”…

    “Planejam também fazer uma engenheira social para criar uma nova sociedade e um novo indivíduo”…

    Tenho cada vez mais pena da Grécia.

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  3. Duda Weyll

    “Permita-me dar a você um exemplo da dialética do Sr. Proudon.
    A liberdade e a escravidão constituem um antagonismo. Não há nenhuma necessidade para mim falar dos aspectos bons ou maus da liberdade. Quanto à escravidão, não há nenhuma necessidade para mim falar de seus aspectos maus. A única coisa que requer explanação é o lado bom da escravidão. Eu não me refiro à escravidão indireta, a escravidão do proletariado; eu refiro-me à escravidão direta, à escravidão dos pretos no Suriname, no Brasil, nas regiões do sul da América do Norte.
    A escravidão direta é tanto quanto o pivô em cima do qual nosso industrialismo dos dias de hoje faz girar a maquinaria, o crédito, etc. Sem escravidão não haveria nenhum algodão, sem algodão não haveria nenhuma indústria moderna. É a escravidão que tem dado valor às colônias, foram as colônias que criaram o comércio mundial, e o comércio mundial é a condição necessária para a indústria de máquina em grande escala. Conseqüentemente, antes do comércio de escravos, as colônias emitiram muito poucos produtos ao mundo velho, e não mudaram visivelmente a cara do mundo. A escravidão é conseqüentemente uma categoria econômica de suprema importância. Sem escravidão, a América do Norte, a nação a mais progressista, ter-se-ia transformado em um país patriarcal. Apenas apague a América do Norte do mapa e você conseguirá anarquia, a deterioração completa do comércio e da civilização moderna. Mas abolir com a escravidão seria varrer a América para fora do mapa. Sendo uma categoria econômica, a escravidão existiu em todas as nações desde o começo do mundo. Tudo que as nações modernas conseguiram foi disfarçar a escravidão em casa e importá-la abertamente no Novo Mundo. Após estas reflexões sobre escravidão, que o bom Sr. Proudhon fará? Procurará a síntese da liberdade e da escravidão, o verdadeiro caminho dourado, em outras palavras o equilíbrio entre a escravidão e a liberdade. ”

    Carta de Karl Marx a Pavel Vasilyevich Annenkov, Paris
    Escrita em 28 de dezembro de 1846 Rue dOrleans, 42, Faubourg Namur.
    Fonte: Marx Engels Collected Works, vol. 38, p. 95.
    Editor: International Publishers (1975)
    Primeira publicação: completa no original em francês em M.M. Stasyulevich i yego sovremenniki v ikh perepiske, Vol III, 1912

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  4. Isaac

    Muito triste perceber que as pessoas não aprendem com os erros da história. Ao ler o artigo eu nunca tinha ouvido falar desse grupo, mas ao ver a fonte em inglês escrito “golden dawn” eu reconheci o grupo. Há um grupo místico pagão com o mesmo nome, há alguma relação?

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