A Folha de São Paulo só não quer mensaleiro preso

Num país ainda marcado pela sensação de impunidade nos chamados crimes do “colarinho branco”, a ação do Supremo Tribunal Federal não haveria de surgir como acontecimento rotineiro aos olhos da opinião pública. (1)
Convergem, no caso do Mensalão, a estrita lógica jurídica e o clamor da opinião pública cansada de tanta impunidade (2)
Não há como deixar de ver exagero, portanto, no coro de protestos entoado por petistas e pela Folha de São Paulo em torno da “espetacularização”. (1)
Sabendo-se da amplitude das ligações do lobbysta José Dirceu com o mundo empresarial e das empresas de comunicação, tais críticas -ainda que teoricamente justas- perdem bastante em credibilidade. Contra acusados tão poderosos é até natural supor que o Supremo Tribunal Federal aposte no impacto midiático positivo de suas operações para contrapor, às pressões de bastidores, o respaldo público que granjeia. (1)
Se o fato traz inegável satisfação a uma sociedade exausta de impunidade, deve-se levar em conta que, pelo próprio ineditismo, a prisão se configura mais como uma exceção do que como o início de uma nova etapa na política do país. Mas sinaliza, ao menos, que não se pode ir tão longe quanto ele em matéria de acinte à população.(2)
Qualquer que seja a classe a que pertençam, a ineficiência do sistema ajuda os culpados e prejudica os inocentes. Lentidão e desigualdade manietam as ações da Justiça no país (3);
A melhor resposta contra a proliferação, de resto injusta, das suspeitas contra a “classe” política é o esclarecimento de cada suspeita, individualizando as responsabilidades pelos desmandos e estabelecendo as punições cabíveis, inclusive as políticas. Não há por que temer fazê-lo dentro das regras democráticas há mais de 23 anos restabelecidas no Brasil. (4)
É auspicioso constatar que as instâncias incumbidas de fazer cumprir a lei vão se dispondo a atuar também contra setores das elites, o que confere ao país -a exemplo do que ocorre em democracias mais desenvolvidas, como os Estados Unidos- um caráter mais republicano. (5)
Tudo, porém, tem de ter um começo, muitas vezes tímido, até que a certeza da punição para quem se locupleta nos cofres públicos se torne a realidade irretorquível. (6)
O que temos acima são trechos de editoriais da Folha de São Paulo diante da prisão ou condenação de figurões políticos em outros escândalos de corrupção. Apenas os trechos em negrito foram trocados, substituindo as referências aos momentos dos editoriais por referências à iminente prisão dos mensaleiros. Desses todos, em apenas um houve uma pequena ressalva quanto ao cárcere de quem “não cometeu crimes violentos”. De resto o jornal defendia a prisão de bandidos “de colarinho branco”.
Folha de São Paulo

Folha de São Paulo

Não há razão aparente para a mudança de opinião da Folha de São Paulo quanto a esses temas. Hoje houve um segundo editorial no jornal paulistano lamentando a prisão dos mensaleiros (o primeiro e mais explícito foi esse).

Quanto à prisão de gente não violenta: há muitos no Brasil que estão nessa situação e não oferecem riscos à sociedade. Certamente o maior grupo deles é composto por aqueles que, por carência financeira, atrasam a pensão de suas crianças. Procurei nos arquivos da Folha algum editorial pedindo a liberdade desses pobres pais-de-família mas tudo indica que nenhum deles é amigo de editorialista, colunista ou repórter de jornal.

Eis os editoriais da Folha de onde foram feitos os recortes do texto montado acima:

1 – Riscos de um sucesso
2 – Do palácio à prisão
3 – Um par de algemas
4 – VASTAS ACUSAÇÕES
5- OPERAÇÃO NARCISO 
6 – ALGUM FREIO À CORRUPÇÃO

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

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4 comentários para “A Folha de São Paulo só não quer mensaleiro preso

    • Da CiaDa Cia Posts do autor

      Desonestidade intelectual é atribuir a mim uma fala que não é minha. No mais, os links estão no post pra desqualificar críticas desqualificadas como a sua. Abraços.

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  1. Da CiaDa Cia Posts do autor

    Esse é um caso a se cobrar da Ombudsman da FOLHA, dos editorialistas, de toda a empresa.
    A Ombudsman é muito educada e atende no twitter https://twitter.com/folha_ombudsman ou por e-mail ombudsman@uol.com.br .
    O e-mail para os editorialistas é editoriais@uol.com.br
    Para ter sua mensagem publicada no jornal, o endereço é painel@uol.com.br
    Outras formas de contato podem ser realizadas em http://www1.folha.uol.com.br/falecomafolha/

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