A crise existencial do estamento brasileiro diante de Bolsonaro

Nas últimas semanas, jornais, revistas e colunistas trataram diariamente de apresentar Bolsonaro para seus públicos. Como passam-se os dias, agrava-se a crise política e o deputado só cresce nas pesquisas, o temor é que seu nome tenha se consolidado a um ponto em que armações de bastidores, como aquelas gestadas no STF, não passem mais sem reação popular.

O que acontece agora é apenas uma continuação do tipo de serviço que Reinaldo Azevedo iniciou meses atrás – leiam o post “The Anti-Bolso Lab“. Desde então o colunista deve ter desistido, até porque se viu mais ocupado com outros afazeres como a defesa de atos marginais do governo Temer, a luta para que o PSDB continuasse na base e a tentativa de conquistar um novo público, visto que os “anti-PT” e a favor da punição de políticos lhe deu as costas.

Há, porém, pontos engraçados sobre a inefetividade destas publicações recentes. Primeiro é o problema do alcance: não há dúvidas de que a imprensa escrita tenha ainda um público importante, porém ele é formado majoritariamente por gente do próprio establishment, o que nos dias de hoje seriam aqueles que buscam, para as próximas eleições, alguém do PSDB, da esquerda ou do PT para governar o país. Esta gente já é convertida contra Bolsonaro há muito tempo por diversos motivos, entre eles a opinião de que é preciso sustentar o sistema atual com pequenos ajustes.

O outro problema é de propagação. Reportagens que falem de “incongruências econômicas” do candidato, que tragam críticas a seus seguidores ou analisem sua atuação na Câmara não passam adiante em correntes de Whatsapp ao ponto de atingirem as pessoas normais que recebem com frequência piadas, montagens ou vídeos do “Mito” fazendo o que ele faz há muitos anos.

O terceiro problema para quem combate Bolsonaro é o mais grave: seu crescimento ocorre tanto por uma questão de identidade em princípios e prioridades quanto por rejeição a tudo que está aí. Assim, cada novo ataque de jornais,  revistas ou de políticos tradicionais é um ponto a mais  na imagem do homem que desafia um sistema podre. E é muito fácil hoje mostrar como a nossa imprensa está em simbiose com o sistema político corrompido, como ela erra, é tendenciosa e omissa em relação a diversos problemas. As críticas, nascendo de dentro do que está podre, só reforçaria a pureza daquele que está fora. Se fosse por essas empresas, e não pelas redes sociais, Bolsonaro jamais seria conhecido por seus admiradores e é por isso que as críticas, quando vindo delas, reforçam as convicções.

Tal reação, à distância, pode confundir e parecer idêntica à dos militantes petistas que, mesmo após inúmeras provas contra Lula, seguem apoiando-o. A diferença fundamental é que os petistas não são pessoas comuns atraídas à política recentemente, não são pessoas que passaram a discutir política devido aos problemas que enfrentam – antes o contrário, boa parte delas defende o partido há anos justamente para manterem as coisas como estão no que diz respeito aos seus benefícios financeiros e seus privilégios sociais. Anos de críticas ao PT e fartas provas da corrupção e incompetência do partido não surtiram efeito em quase 1/5 do eleitorado nacional, o que então fazer para convencer os 4/5 restantes, aquelas pessoas cansadas da política bandida e cada dia mais revoltadas contra o sistema, todas sujeitas às investidas dos cada dia mais numerosos entusiastas de Bolsonaro?

É contra esse conjunto de circunstâncias que o estamento burocrático precisa achar uma fórmula. A elite do judiciário, a imprensa e o sistema político continuam todos atônitos quando percebem a descrença que têm diante do público e vêem o resultado nulo de suas ações contra um simples deputado que nunca comandou nenhuma estrutura de poder. Se tiveram efeitos os ataques por diversos canais e abordando múltiplos temas feitos massivamente nos últimos dias só saberemos daqui a algumas semanas com novas pesquisas nacionais. E quando elas estiverem prontas, se não apresentarem sequer uma tendência de interrupção do crescimento de Bolsonaro, todos se perguntarão novamente o que fazer. Pior ainda para eles: a tendência é de que o deputado carioca tenha crescido ainda mais. Como então usar com eficácia suas armas vistas como podres para sustentar aquilo que o povo comum vê, com razão, como podre? Não demora e essa gente concluirá que a alternativa para frear Bolsonaro será elogiá-lo, absorvê-lo, assumindo então sua posição de malditos que estragam e fazem perder credibilidade todos aqueles que apóiam.

Loading...

11 comentários para “A crise existencial do estamento brasileiro diante de Bolsonaro

  1. Fabricio

    Não a como parar esse homem! Pois não é questão apenas de nos identificarmos com suas idéias. Bolsonaro condensa um sentimento único! Aquela vontade escondida de ligar o foda-se e ver toda essa merda sendo feita diferente!

    Responder
  2. Dante Dias

    Excelente texto, até que enfim encontrei um blog imparcial quando se trata de Bolsonaro , agora, não vamos nos iludir, a mídia esquerdista nunca vai elogiar Bolsonaro mesmo que ele ganhe as eleições por WO. Olavo de Carvalho disse uma coisa interessante; ele diz que por mais que o Trump eleve a economia americana as alturas e faca a nação prospera e forte novamente, a esquerda sempre vai ataca-lo. #Bolsonaro2018

    Responder
  3. Mario

    Reinaldo Azevedo, o lacaio do PSDB. Esse não engana mais…
    Agora tem mais gente cerrando as baterias contra Bolsonaro e gente que se diz conservador.
    Os recentes ataques de Carlos Andreazza, Rodrigo Constantino, Cláudio Tognolli e Marcelo Madureira mostram que eles e a Jovem Pan já vestiram a camisa do Dória.
    Joice Hasselmann em cima do muro, vendo o que vai dar e Felipe Moura Brasil tentando manter apoio discreto a Bolsonaro, mas sem pachequismo, como cabe a um bom jornalista. Isso pra ficar só na JP.
    Outros virão, com certeza.

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *