2017 e o limite de fadiga do povo brasileiro

O ano de 2017 acaba marcado pelo fato das forças estabelecidas levarem ao extremo suas capacidades de auto-preservação e cinismo. Se o ápice parecia ser a farsa do julgamento da chapa presidencial petista de 2014 – em que Gilmar Mendes inocentou o PT para preservar o mandato de Temer – isto foi superado pelos atos no encerramento do ano. Ainda não está muito claro para ninguém quais serão os efeitos políticos das mais recentes movimentações em que se destacam novas ações “ousadas” em que um ministro do STF, empresário e interlocutor de Temer soltou presos provisórios, atacou a Lava Jato, praticamente proibiu as conduções coercitivas, enviou uma PEC com urgência para mudar o sistema político nacional e prepara terreno para a marmelada das favas contadas que reverterá a possibilidade de prisão após decisão em segunda instância. Mais gritante ainda foi o super indulto dado pelo Presidente “Constitucionalista” Michel Temer, beneficiando de forma nítida os criminosos do sistema político – ação tão absurda que foi revertida por Carmem Lúcia, após pedido de Raquel Dodge.

A aposta do grupo que conta hoje com Temer, a parte mais decrépita do PSDB, empresariado e boa parte do STF é que uma mínima recuperação econômica seja garantida até o período das eleições, facilitando a vitória de algum candidato meia-boca (Doria? Huck? Alckmin?), mas comprometido com o mecanismo (cf Padilha) e uma agenda mínima de salvação de bandidos.

O grande objetivo deles é, a partir de agora, fazer frente a um sentimento cada vez mais forte de que estamos prestes a uma ruptura. Tudo indicava que a Lava Jato seria isto, a grande mudança definitiva nos costumes do país, uma ação praticamente miraculosa que cresceu e ganhou corpo próprio capaz de derrubar um sistema viciado. Mas o apartidarismo da Operação também levou o PSDB e o PMDB à mesma fossa em que já estava o PT. E as descobertas se intensificaram quando Temer chegou ao poder. Começou então a ganhar corpo o “grande acordo nacional” que envolvia o PT, e a Operação foi murchando. Não sem grande contribuição de setores que faziam oposição ao petismo, diziam combater a corrupção mas que se venderam ao Temer.

A Lava Jato foi, muito provavelmente, a última chance. Ela enfraquecida e desfeita, qual esperança terão as pessoas comuns de que exista um mínimo de justiça para quem rouba bilhões? Crescem então sentimentos de urgência e indignação que não vêem no sistema político vigente possibilidade de resgatar o país.

Não podemos contar com a Justiça para nos livrarmos dos bandidos pois ela ou está submetida ao poder Executivo ou aliada a ele. E se o sistema eleitoral também é suspeito e controlado pela mesma elite política e de toga que livra os bandidos, qual seria o caminho?

Nos anos recentes, três tipos de regime de força têm sido impostos subitamente contra o status quo, movidos por ações populares, milícias ou forças armadas.

O primeiro e mais comum na América Latina é uma intervenção militar. No Brasil de hoje, tal atitude encontraria um respaldo popular significativo não pela proporção em relação à população total, mas pela aparente fidelidade e insistência na atuação dos pequenos grupos espalhados. Atribui-se a impossibilidade de uma ação dessas pelos militares ao fato das Forças Armadas estarem sucateadas, sem recursos e efetivo. Quem diz isso se esquece que nossas polícias estaduais são “militares”. Tirando-se então o problema numérico e de aparelhagem, a resistência a uma ação dos militares se deve principalmente a não terem nenhum respaldo em grupos organizados tais como: os representantes da intelectualidade, dos meios artísticos, os líderes religiosos, os banqueiros, os donos dos meios de comunicação e mesmo boa parte do comando das Forças Armadas. Com tanta oposição organizada, seria praticamente inviável a manutenção da ordem no país e a organização de tantas estruturas de poder hoje existentes.

Outro regime de força comum na América Latina e muito ativo nos últimos anos é o comunista, impulsionado em ações coordenadas pelo Foro de São Paulo. Sorrateiros, ascendem ao poder de forma pacífica e corroem as resistências legais à ditadura aos poucos. É inegável que o Brasil seguia por este caminho a passos lentos mas na velocidade possível devido ao nosso tamanho e impopularidade dos termos “comunista” e “socialista”, além de total falta de identidade com o bolivarianismo – um brasileiro normal mal saberia citar os feitos de Simon Bolívar. A queda de Dilma inviabiliza momentaneamente um regime bolivariano, mas não um sistema comunista. De certa forma a saída do PT do poder facilita a revitalização do projeto comunista por afastá-lo de seu matiz bolivariano, cujos efeitos nefastos se vêem muito fortemente em países vizinhos e causam ojeriza enorme na população. Não é por acaso que a imprensa local se refira ao regime de Maduro como “populista”, esvaziando cada vez mais qualquer conteúdo esquerdista em suas políticas.

Um sistema comunista no país teria enorme trabalho para conquistar a população normal, embora possua base sólida entre jornalistas, empresários (é inegável a relação fraterna entre a Odebrecht e a evolução do Foro de São Paulo, por exemplo), a esquerda católica, um grande número de partidos instituídos, um enorme efetivo político e uma pequena mas barulhenta militância urbana em entidades como a UNE, a CUT e demais braços do PT. Sua dificuldade seria, além da falta de base popular significativa, a total inviabilidade de imposição de um regime abruptamente pela falta de organizações armadas e ativas – a menos que se aliem definitivamente ao crime organizado: PCC e Comando Vermelho, por exemplo. Muito pior seria apresentar o comunismo como saída para nossa crise de criminalidade quando justamente as políticas de esquerda elevaram a violência do país, sem falar nos níveis de corrupção trazidos pelo PT.

O último regime de força é aquele que não tem efetivo oficial, não possui partido político, não tem ninguém que se declare favorável e, ainda assim, é o mais citado como símbolo de ameaça à nossa institucionalidade: o fascismo. Perverso e sem risco real ao Brasil, o fascismo virou sinônimo de tudo que seja “duro” ou violento, desprendendo-se de qualquer conteúdo ideológico ou político, resultado de uma soma de ignorância e má-fé. E assim como tem sido no mundo desde os anos 20, o combate ao fascismo tem sido a justificativa da maioria dos atos nefastos da esquerda, o mesmo pessoal que simpatiza com a implantação de um regime ainda mais pernicioso e assassino, ou seja, o comunismo. Não raramente a esquerda tem misturado fascismo e militarismo na criação de seus inimigos imaginários, ignorando que na América Latina, igualmente comum é a união de militares com comunistas na implantação de regimes totalitários.

Embora apresentem diferentes dificuldades práticas que inviabilizem suas imposições, cada alternativa de mudança brusca no sistema de poder brasileiro ganhará mais forças quanto mais a atual elite política continuar a desafiar os já largos limites de fadiga de nossa população. As maquinações em curso, citadas na abertura deste texto, chegam até a parecer provocações pensadas com o intuito de precipitarem um movimento em falso dessas ‘saídas alternativas’ para que possam dizer que o que temos hoje, esse sistema corrupto e asqueroso que corrói até os pessoas de bem quando os iludem simulando uma disputa política, nos protege de um mal maior desconhecido. Suportar essas artimanhas, apoiar políticos e autoridades que façam frente de fato a este ambiente de banditismo é o desafio para 2018.

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