Verde e Preto com Reinaldo Azevedo

Na Coluna do Leitor de hoje, nosso amigo @diacronico desmonta a peça de defesa de Lula elaborada por Reinaldo Azevedo:

Verde e Preto

Uma homenagem ao Reinaldo dos velhos tempos, aquele que nos entusiasmava (e a mim, muito ensinava) com raciocínio claro e palavras duras. Quem sabe Reinaldo, o novo, também sinta alguma saudade de si mesmo (coisas que nunca viveu, ou evitava ter vivido?) e, qual Napoleão, retorne ao menos para mais uns 100 dias de glória? Estamos na torcida.

Ao invés de vermelho-e-azul (coisa que ele abandonou, infelizmente) fiz um preto e verde, apenas por razões clubísticas.

Nem Moro esmagou Lula nem o inverso. Mas só um feriu a lei ontem

A manchetinha malandra (alguém feriu? Quem feriu?) não tem nenhum eco no texto: se um dos dois feriu a lei – e claro que ele acha que foi Moro – não há no texto nenhuma menção a nenhum artigo de lei, que tivesse sido atingido. Para o legalista Reinaldo, é um crime.

Infelizmente, a maioria das perguntas do juiz nada tinha a ver com processo no qual depunha o petista. Isso é ruim para a democracia e bom para as esquerdas

No lead Reinaldo defende Lula mais que seus próprios advogados: eles não interferiram na “maioria das perguntas”, não recomendaram que não respondesse à “maioria das perguntas”. E não é que não estivessem dispostos a fazê-lo, à menor oportunidade.

Por Reinaldo Azevedo

Acesso: 11 maio 2017, 16h32 – Atualizado em 11 maio 2017, 16h43

Moro e Lula: o embate acabou sendo bom para o petista

A sutileza de usar embate, no lugar de “combate”, não esconde que Reinaldo joga o jogo dos petistas: seu time estaria embatendo com o outro time. Não haveria juiz e réu, não haveria julgamento – haveria uma justa, vencida por aquele cuja lança mais cumprida atingisse seu suave coração bicorreguense. E já sabemos que foi.

Os dias andam agitados demais. Coisas em excesso, demandas as mais variadas. Mas vamos lá. É claro que eu iria, como faço agora, escrever um texto com a minha avaliação sobre o depoimento prestado pelo ex-presidente Lula ao juiz Sergio Moro, em Curitiba.

Uma desculpa por ter demorado para escrever o texto? Quem sabe justifique também a sua falta de substância.

A minha síntese? Pois não! Sem poder apresentar as provas, que deveriam ter sido fornecidas pelo Ministério Público Federal, de que o tríplex pertence a Lula, Moro optou por uma condução da audiência que fez picadinho do devido processo legal.

O interrogatório do réu, embora esteja no conjunto dos atos instrutórios, é já considerado, por doutrina e jurisprudência, como meio de defesa. É a oportunidade para o réu, à vista do que já está nos autos, explicar a sua versão dos fatos.

Moro deu ao Lula todas as chances possíveis – deixou passar até boa parte do discursinho mequetrefe no final. Lula só se defendeu atacando seus acusadores e a maldita mídia, essa ingrata.

O devido processo legal saiu inteirinho da Silva.

Imagem popularizada na internet que representaria um quadro de Joaquim Silvério dos Reis

Acho que o apartamento é de Lula? Acho. Mas não sou juiz. E o meu achar é irrelevante. No estado de direito, condena-se com provas. E Moro não as tinha. Ao contrário, as evidências materiais apontam que o imóvel pertence à OAS.

Pois, novidade: o apartamento não é de Lula (e agora não será mais, mesmo). A propriedade de qualquer bem imóvel só se transmite, diz o Código Civil, com a transcrição no Cartório de Registro Imobiliário.

Eu sei disso, o MP sabe disse, o Moro sabe disso, a torcida do Corinthians (menos o Reinaldo) sabe disso. Desvio de dinheiro, propina e ocultação de patrimônio não se provam com escritura, sussurraria o Conselheiro Acácio aos ouvidos do jornalista, se ele ainda o mantivesse dentre suas musas.

O que está claro é que o destino do apartamento era ser usado por Lula e seus familiares no mesmo modelito que serviu ao sítio de Atibaia: com a propriedade no nome de laranjas.

É disso – e do armazenamento das “tralhas” do ex-presidente – que trata a ação penal; não da entrega da propriedade do imóvel como pagamento.

Sem ter como dar o xeque-mate ou deixar o depoente numa sinuca, Moro optou por um comportamento lamentável, que agride o devido processo legal. Resolveu fazer perguntas a Lula que diziam respeito aos quatro outros inquéritos a que o petista responde.

O juiz que ainda não formou a sentença em sua cabeça pode, e deve, perguntar tudo o que lhe pareça útil à formação da convicção. O réu, gloriosamente assessorado, poderia, como fez, recusar-se a responder o que quer que fosse, sem prejuízo qualquer. Logo, o devido processo legal está mais do intacto: está mesmo protegido.

Entre as perguntas impróprias, a maioria buscava demonstrar que o petista, afinal, era o verdadeiro chefe da estrutura criminosa que operava na Petrobras.

Observem: no inquérito em questão, há três contratos da OAS com a estatal sob suspeita; eles teriam gerado a propina que o MPF diz ter sido paga a Lula na forma do apartamento de Guarujá e do transporte e armazenamento de seu acervo. Não! Moro não se referiu a nenhum deles em particular.

A Petrobrás está tão imiscuída nessa história que é até assistente de acusação. O relacionamento de Lula com ela é de óbvia relevância para o processo, porque dela teriam saído as vantagens para a OAS, que justificariam os favores a Lula. A própria defesa juntou bilhares de páginas (que não conseguiu ler, alas) oriundas justamente da Petrobrás. O que mais haveria a dizer sobre esses documentos? Reinaldo não nos iluminou.

Na verdade, ele tratava Lula como o chefe da organização criminosa. Ora, posso até concordar com isso. Mas esse é o inquérito que tramita no Supremo.

É apenas uma subjetividade bestalhona: Moro tratou Lula por “senhor ex-presidente”, foi cordial e sensato. E Lula é réu. Não estava lá a passeio e não poderia ser tratado de outra forma. (Uma vez eu advogava para o meu chefe, também advogado, que insistia em dirigir seu carro sem carteira, uma espécie de Bakunin do Detran. Foi pego em flagrante e processado – por sorte, no dia do flagra, houve greve de ônibus e ele levava sua filha ao médico, o que rendeu a absolvição. Mas no dia do interrogatório, meu chefe sentou-se meio largadão na cadeira. O Juiz: “O senhor é advogado?” R.: “Sou sim, Excelência”. J: “Não é não. Aqui o senhor é réu. SENTE-SE DIREITO”.)

Reinaldo ouve muito a choradeira de nosotros, advogados. Reclamamos, com razão, que há muita proximidade entre o MP e o Juiz – mas é inevitável, porque passam a tarde juntos, nas audiências, e o advogado de defesa é sempre um estranho no ninho. As coisas são assim, e não há maneira de mudá-las; os bons advogados as contornam, ora com simpatia, ora com firmeza, ora com estudada rudeza. Os maus, reclamam – e atribuem a elas o seu insucesso.

Mais: o juiz insistiu em fazer indagações sobre o sítio — afinal, as obras nesse imóvel e no apartamento estariam ligadas. Tudo indica que estão mesmo. Mas por que há, então, um inquérito para cuidar de cada caso? Por que não estão juntos?

Insistiu? Não insistiu, ô. A ligação entre o sítio e o triplex é óbvia e a separação dos inquéritos deve ter obedecido à sua formação inicial; não foi escolha do Moro. De qualquer modo, não faz diferença nenhuma: Lula respondeu o que quis, apenas.

Mais: o juiz demonstrou incômodo com a liderança política de Lula, o que é um despropósito. Quis saber por que o ex-mandatário emitiu juízos contraditórios sobre o… mensalão!!! O que a dita Ação Penal 470 tinha a ver com o apartamento de Guarujá? Nada!

Mais subjetivismo: “demonstrou incômodo com a liderança política de Lula”. Como? Ajeitou as cuecas? Ele nem estava nas imagens, como demonstrou esse desconforto? Teria sido um arrotinho que não ouvi?

O que Moro fez, se é que é a isso que Reinaldo se refere, foi averiguar se ele tinha poder de dar à OAS a contrapartida pelos “favores” que recebeu, ou receberia. E perguntar quem foram os políticos que ele disse, tempos atrás, que cometeram “erros”, dentro do PT. O Reinaldo d’antanho decerto gostaria de saber.

Teve o desplante de dizer, ainda que o tenha feito de forma interrogativa, que o depoente, ao processar um delegado, um procurador e um juiz (sim, ele próprio: Moro!), estava tentando intimidar as pessoas encarregadas da investigação.

Trata-se de uma afirmação absurda. Apresentar petições ao poder público — e isso inclui recorrer à Justiça — é um direito fundamental das democracias. Vejam a Primeira Emenda da Constituição Americana, por exemplo.

Não é preciso dizer que a Constituição Americana (ou “Estadunidense”, como o Reinaldo do porvir dirá) não se aplica aqui, né? De qualquer modo, é possível usar direitos para intimidar os outros – o nome disso é “abuso”, e é justamente o que o Lula fez, ao tentar processar (e desmoralizar) quem o processa e quem o vai julgar.

Na era da pós-verdade e das verdades alternativas, versões se espalham na cloaca do capeta: as redes sociais. Petistas dizem que seu líder esmagou Moro. Os fanáticos do juiz sustentam o contrário.

Não vou nem falar da expressão “pós-verdade”, né? Lingo de antifa não merece nem mesura. E foi a cloaca do planeta que pariu esse Novo Reinaldo, que reluz reloginhos da H. Stern no vídeo da Jovem Pan e jacta-se das grifes com que orna suas arredondadas tits of the easy living – antes dela, da cloaca, ele era apenas um editor frustrado. Depois de atacar quem o lê há tempos – mesmo antes que a cloaca o parisse – ele volta à “narrativa” petista: não era um interrogatório entre Juiz e réu; era Lu-Lancelot contra Morodred.

Vamos botar os pingos nos is. Lula não esmagou ninguém. Deu-se mal, por exemplo, ao explicar suas relações com Renato Duque, ex-diretor da Petrobras, e deste com João Vaccari, tesoureiro do PT. E digo que se deu mal porque se atrapalhou.

Lula não se deu mal – deu-se muito mal. O interrogatório serviria para que explicasse, por exemplo, o que cazzo o contrato do apartamento, mesmo sem ser assinado, fazia em seu apartamento (ele acusou a PF, veladamente, de “plantar” o documento); para que dissesse por que comprou uma cota do apartamento junto à Bancoop e depois da entrega da obra à OAS parasse de pagar as prestações, sem ter desistido da compra ou pedido de volta o que já havia pago. Lula, se dominasse o Francês tão magistralmente quanto a sua sucessora, teria recorrido a Dumas (o pai): Il y a une femme dans toute les affaires; aussitôt qu’on me fait un rapport, je dis: ‘Cherchez la femme’.No caso, infelizmente, a dama a ser procurada já não está entre nós. Uma vergonha que parece não ter ferido o decoro do nosso repaginado Reinaldo.

Sergio Moro esmagou, sim, o devido processo legal, mas não o petista, que não foi confrontado com nenhuma prova inequívoca.  Mais: nós o vimos obrigando-se a dizer que nada tem de pessoal contra o presidente e de que nunca foi verdadeira a máxima “Lula vai ser preso amanhã”.

Mais uma vez: interrogatório é meio de defesa, não é ato da acusação. Moro não tinha que confrontar Lula com nada – tinha que dar a ele a oportunidade de se defender, e o fez. Começando por colocá-lo à vontade, dizendo que ele nada tinha de pessoal contra ele e que não o prenderia. Cordialidade com petista, agora, virou ofensa? Que bom, então.

Ao tentar explicar por que fazia perguntas que nada tinha a ver com o processo, o juiz apelou, mais de uma vez, ao “contexto”. Não pode ser. A ser assim, a gente precisa ensinar o teorema de Pitágoras a partir do Big Bang. Já recomendava o poeta latino Horácio: não conte em seu poema a origem das musas…

O parágrafo não faz sentido – a não ser como exibição de erudição. Por que não pode ser o contexto? Reinaldo sabe qual o cenário que está se desenhando na cabeça do Juiz? É a convicção dele, Moro, que tem que ser formada, não a do Reinaldo, menos ainda a do antes tão odiado, por ele, Alarido das Ruas (um belo nome, aliás, huh? Se tiver um temporão, chamá-lo-ei, quietamente, de Alarido).

Moro vai condenar Lula? A sua condução da audiência indica que sim. Se nada de novo aparecer, vai fazê-lo com base na convicção formada a partir do depoimento de delatores, sem as provas. É claro que isso é um mau exemplo.

Sem as provas? Para ficar no mais evidente, além das delações e dos testemunhos, há fotografia de Lula no apartamento, há contratos apreendidos em seu escritório, há planilhas da OAS – e há o pagamento à empresa de armazenagem por esta última. A revista Exame e o Escosteguy, no Twitter, desenharam para o Reinaldo, mas talvez ele estivesse entretido com a Carta Capital.

O que exige Reinaldo, como prova? A escritura do apê? E o Acácio, Reinaldo?

Reação posterior de um procurador que é estrela da Lava Jato, Carlos Fernando dos Santos, evidencia que a própria Lava Jato avalia que Lula venceu o embate também no tribunal. Na ocupação das ruas, já havia vencido.

E volta a porcaria do embate. Ê taticazinha canhestra. O que o procurador disse[1] foi que é triste ver o cidadão aproveitar a morte da esposa para atribuir a ela as respostas que ele não sabe dar. Mais: “o procurador avaliou que o depoimento ‘transcorreu como tinha que transcorrer’ e criticou os advogados do petista por ter criticado o MPF e acusado os procuradores e o juiz Sérgio Moro de terem feito perguntas que não constam na denúncia. ‘Talvez a defesa devesse olhar os autos com mais cuidado’, disse”. Aparentemente, o Reinaldo também.

A Lava Jato, com o apoio entusiasmado da direita xucra, está, acreditem, cometendo erros em penca. E isso tem seu preço: fortalecimento da esquerda.

Não é só a direita xucra que apoia a lava-jato – ao contrário, há gente que acha que a lava-jato é suave demais, que deveria ser até mais agressiva. Quem apoia a lava-jato é a classe média, que vê em Moro um bonus pater familias fazendo a sua parte.


E só se pode dizer que está se fortalecendo, a esquerda, se se considerar que ela ganhou um colunista de brinde, que agora é o preferido do Emir, aquele dos países Sáderes. E contriubui – gratuitamente – para o Brasil 2+4+7.

Sim, eu considero que Lula era o chefe máximo de um monstrengo criado para assaltar os cofres e a institucionalidade. Acho que tem de ser investigado, processado, julgado e condenado por isso.

Curiosamente, não parece – tanto é que teve que escrever, né?

Mas que as coisas se façam segundo o devido processo legal. Não darei nem a Moro nem a ninguém a prerrogativa de se comportar e de decidir ao arrepio da lei.

Tudo corre conforme a lei. De qualquer modo, Moro, graças!, não precisa da sua aprovação, ó nobilíssimo Juiz dos Juízes. O que ele firmar vai precisar do aval do seu Ministro preferido (não digo qual), mas até lá, em Deus permitindo, Inês é morta. E só vai sobrar o Reinaldo para o beija-mão.

Despeço-me, enfim, com una lacrima sul viso: ho capito molte cose, dopo tanti, tanti mesi ora so, cosa sono per te: direita xucra.

[1] acho que é a isto que ele se refere: http://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2017/05/responsabilizar-dona-marisa-por-tudo-e-um-tanto-triste-diz-procurador-da-lava-jato-sobre-lula.html)

Veja também:

VÍDEO: Melhores momentos do professor René Dotti enquadrando os advogados de Lula

2 comentários para “Verde e Preto com Reinaldo Azevedo

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