Resumo da primeira prova do ENEM 2017

Como já é uma tradição do site, publicamos o comentário do médico e advogado Sergio Nunes sobre os temas da primeira prova do ENEM 2017.

Publicado originalmente em https://www.facebook.com/sergio.nunes.545/posts/2134180973274063

Mais uma vez apresento minha breve análise sobre a prova do Enem, relativa às questões de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, e Ciências Humanas e suas Tecnologias. Trata-se do terceiro ano consecutivo que faço esta breve análise, para mim agora tradicional. Em termos gerais as questões de múltipla escolha corresponderam ao esperado, mantendo inclusive o viés ideológico dos últimos anos, no entanto com certa tendência já observada em 2016 de transcorrer de forma um pouco mais velada e implícita, diferente de 2015 em que o viés era mais explícito e escancarado. As reações da sociedade em relação à qualidade e partidarização das provas possivelmente contribuíram para amenizar tal ocorrência.

A breve análise abaixo ora centra-se nas fontes textuais (independente da adequação/correção do conteúdo), e ora foca no tema (independe da origem textual). Primeiramente cumpre-me fazer algumas pontuações gerais. Achei a cobrança de história fraca e desequilibrada, na ânsia de incluir questões relativas a temas mais nacionais como por exemplo questões indígenas e africanas, grandes outros temas da história universal foram deixados de lado. Se a prova do Enem gradualmente for determinando mudança no ensino da história, nossos alunos ficarão completamente defasados em história universal. A prova apresentou questões de interpretação de texto e da parte mais técnica da geografia, tradicionais e sem outros questionamentos específicos. Segue abaixo a análise de algumas questões e pontos específicos:

– Nada como começarmos mencionando que Chico Buarque apareceu em duas questões, em uma delas em um texto da Carta Capital;

– Outra questão usa texto de Gregório Duvivier;

– Questão que utiliza texto de manifesto futurista que propõe a destruição de todas estruturas, sendo o autor um militante fascista;

– Questão mencionando Frida Kahlo, militante do partido comunista, suicida e que não vejo nada em termos de arte proeminente, obviamente emerge por questão ideológica;

– A base textual de outra questão foi música dos Racionais MCs, e não nesta letra, mas em outros momentos justificam crimes por questões sociais;

– Questão sobre Habermas, que apesar do conteúdo desta questão ser interessante e adequado, trata-se de mais um filósofo da escola de Frankfurt;

– Questão negativa associando o tema competição esportiva como aspecto de desigualdade, para mim nítido desestímulo a competição para o jovem;

– Questões sobre Israel e Palestina, no primeiro caso questão genérica em inglês sobre turismo, e no segundo caso questão mostrando comemorações supostamente representando apoio de toda comunidade internacional com a promoção da Palestina à Estado observador não membro na ONU, obviamente mostrando as opções de quem criou a prova;

– Questão em que é reforçado não diretamente o desarmamento, mas ao menos um dos argumentos desarmamentistas;

– Algumas questões focaram temas supostamente clássicos, como Grécia (três) e liberalismo (duas), mas o recorte destoa da hermenêutica geral, com óbvia opção ideológica, no caso da Grécia usando Aristóteles afirmando que a política seria maior que as outras ciências, na outra foco em normas coletivas e na última associando Sócrates prioritariamente à dialética; e no caso do liberalismo associando imediatamente o conceito às liberdades positivas usando textos de Amartya Sen e Raws, tentando dar nova conotação ao conceito tradicional no âmbito clássico;

– Quatro questões sobre temas indígenas, duas questões sobre religião afro, uma sobre religião cristã, e uma sobre o catolicismo afirmando apoio em 64, que no contexto histórico seria um recorte focal episódico já que logo após a igreja foi contrário ao regime, mesmo que nos braços da teologia da libertação;

– Questão tentando associar a imagem de Maria Bonita, integrante de grupo que cometia crimes brutais, a imagem de resistência da mulher;

– Questão com texto de Hobsbawn (não pode faltar);

– Três questões sobre arte, uma mostrando a arte como exploração insólita de elementos do cotidiano, outra mostrando grafite como arte, e ainda outra mostrando participação do público em interação com a obra, obviamente nos três pontos uma visão peculiar de um grupo sobre uma coisa maior chamada arte;

– Questão sobre Bentham, utilitarista, cuja ética não é respeitar regras, mas ser feliz;

– Questão que de forma indireta sugere apoio popular à Vargas/queremismo, mesmo que exista crítica concomitante;

– Questão sobre a militância de aparências (Barbie);

– Questões que achei positivas foram: uma sobre o tema dos tribunais constitucionais, bastante atual e investiga um problema institucional que estamos passando, outra sobre a importância de leitura para as crianças, uma que critica a propaganda manipuladora no Estado Novo e por fim outra sobre propaganda questionando a questão de manipulação, o que guarda intertextualidade com a própria prova, já que o Enem nos últimos anos teve forte atuação enviesada.

O foco desta análise mais uma vez não é censurar ninguém, não é impedir qualquer debate, mas é importante que deixemos claro que existe um desequilíbrio de opiniões, não na sociedade, mas de quem possui as cátedras, as ferramentas pedagógicas e as posições políticas executivas em educação. Parece ter ocorrido uma certa melhora no decorrer dos últimos anos, possivelmente pela atuação das pessoas em questionar a qualidade e a partidarização da educação. Então sugestão a todos, sejam jovens, sejam pais, estejam atentos e engajados em uma educação isonômica e realmente plural.

Análise de 2016: http://reaconaria.org/colunas/colunadoleitor/resumo-da-primeira-prova-do-enem-2016/

Análise de 2015: http://reaconaria.org/colunas/colunadoleitor/resumo-da-primeira-prova-do-enem/


Sergio Nunes, 41, é formado em Direito pela USP e em Medicina pela Santa Casa de São Paulo e Mestre em Direito Econômico. Atualmente, é professor da Academia de Polícia de São Paulo e palestrante eventual da Escola Superior de Guerra.

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3 comentários para “Resumo da primeira prova do ENEM 2017

  1. Claudio da Rocha Soares

    Caro Sergio, boa noite. Embora meu comentário seja tardio, nada é tão velho que não possa ser atual não é mesmo?
    Acho interessante o sistema americano, embora não esteja a par de como funciona, sabendo o que todos sabemos que os alunos ao longo do ensino médio acumulam pontos para se tornarem aptos a ingressarem nas escolas. não existe nenhum país mais democratico do que USA

    ao

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