Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico, de Theodore Dalrymple

Hoje a nossa Coluna do Leitor inova e traz, pela primeira vez, uma resenha enviada por leitor. A crítica ao mais novo livro publicado no Brasil de Theodore Dalrymple, “Podres de Mimados”, foi enviada por André Catapan. Leiam abaixo:

Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico, de Theodore Dalrymple

Podres de Mimados é a mais recente obra de Theodore Dalrymple publicada no Brasil pela editora É Realizações. Ao contrário de “A Vida na Sarjeta” e “Nossa Cultura… ou o que restou dela”, o livro não é uma coletânea de artigos com temas mais ou menos semelhantes, mas sim uma análise profunda das consequências do que o autor chama de “sentimentalismo tóxico” em nossa sociedade.

Dalrymple é um autor recente nas estantes e livrarias brasileiras. Seu nome é, na realidade, um pseudônimo do psiquiatra inglês Anthony Daniels, que, trabalhando como médico de uma prisão, transformou suas “experiências diárias em ouro jornalístico”, como bem disse Noel Malcom para o The Telegraph. O autor faz parte daquele panteão de gênios que consegue analisar, compreender e descrever a realidade de maneira clara e objetiva, enquanto, para nós, ela passa despercebida.

Ao longo das cerca de 200 páginas, o autor não se omite de tecer opiniões, de apontar causas e consequências. Não se pauta pelo falso moralismo nem se esconde atrás de certo relativismo que, travestido de isenção, denota apenas total indiferença para com os assuntos abordados. Não por menos João Pereira Coutinho sentencia: “Dalrymple não é leitura fácil para gostos politicamente corretos. Mas qualquer obra do dr. Dalrymple merece o tempo e o dinheiro. Dalrymple não engana.”

Mas o quê, então, é esse “sentimentalismo tóxico”? Por que motivo seria ele tão nocivo? Em primeiro lugar, afirma o autor, o sentimentalismo é “uma daquelas características mais fáceis de se reconhecer do que se definir”. Os dicionários todos apontam para os mesmos “sintomas”: “um excesso de emoção falsa, doentia e sobrevalorizada em comparação com a razão”. Dalrymple, todavia, vai além, e sua análise se dá para uma característica cada vez mais comum – a exibição pública do sentimentalismo, no qual “derramar uma lágrima em privado é um dos maiores crimes que se pode cometer”. Para tanto, faz uso do cotidiano inglês (que é, infelizmente, perfeitamente adaptável à realidade tupiniquim) como forma de apresentar sua tese: desde os casos mais ordinários, como um simples pé de galinha dentro de uma embalagem em que deveria haver apenas peito de frango, até aqueles com ampla repercussão internacional, como o desaparecimento da menina Madeleine McCann e a morte da Princesa Diana.

O primeiro caso, todavia, merece uma atenção especial, visto que é quase que uma epítome da situação que se quer demonstrar. Num jantar ordinário, a filha de um casal faz um escândalo porque encontrou, em seu prato, um pé de galinha (a bandeja com os cortes de ave deveria conter apenas peito). Os país, indignados, voltam-se contra o supermercado, afirmando que sua pequena e adorável filha, em decorrência dessa experiência traumática, havia assustado-se de tal maneira que afirmava que nunca mais iria comer carne em toda a sua vida, exigindo, portanto, uma volumosa indenização. A reação deproporcional, tanto da criança (que fez o berreiro) quanto de seus pais (que o aceitaram), só pode existir, afirma Dalrymple, numa cultura em que impere à emoção em detrimento da razão e, mais ainda, num ambiente em que seja socialmente aceitável, e até esperado, que empresas sejam sempre culpadas e clientes sempre vítimas. É evidente que ninguém merece comprar gato por lebre, ou, no caso, pé por peito, todavia, apenas a noção de que tal aviltamento é digno de atenção (e de ser assim considerado) e que responsáveis (que não os pais que miseravelmente prepararam esse jantar) devem ser identificados e punidos, não só pelo valor do produto em si, mas pelo ceifamento de todo um aspecto de uma vida humana, é evidência suficiente de que o sentimentalismo tem papel de destaque em nossa cultura. Como bem definiu Dalrymple: “a esperança de indenização é a forma moderna de alquimia que transforma aflição em ouro.”

Se aceitamos que tal comportamento aconteça na esfera privada (ainda mais quando vemos nele um potencial benefício financeiro), é impossível que o mesmo não ocorra também em público: “em um estado de sentimentalismo, certamente do tipo vivido em público, a pessoa é mais comovida pelo fato de ser comovida do que por aquilo que supostamente a está comovendo. Além disso, está interessada em que todos vejam o quão comovida está. O trigo do sentimento genuíno é logo perdido no joio das considerações secundárias; e, tendo o exagero uma lógica própria, o joio tende a aumentar.” Exemplos dessa espécie de exibicionismo sentimental, no Brasil e no mundo, não faltam (na realidade, infelizmente, os temos em excesso): desde a morte prematura de artistas até a defesa política de causas progressistas as mais variadas, a expressão de um sentimento é mais importante do que o conhecimento do fato ou causa em si. Diz ainda Dalrymple: “o sentimentalismo olha para si: ele não é apenas a resposta emocional a algo, mas a satisfação de possuir a emoção por si própria”.

Sendo assim, a verdade e a realidade são secundárias quando em contrastes com a emoção. Um possível erro, nesses casos, seria justificável. A partir de uma frase de Jean-Jacques Rousseau, em “A Profissão de Fé do Vigário Saboiano” (“Se estou equivovado, estou sinceramente equivocado, e, portanto, meu erro não será considerado um crime“), Dalrymple afirma que, desse modo, o equívoco, de fato, nunca será considerado um crime, uma vez que a coisa mais importante do mundo “é o aconchego psicológico dos princípios a partir dos quais um um homem diz agir”. Ou seja, quando o erro é resultado de “boas intenções”, erro não é. Eis aí um resumo do programa de governo do ciclofaixista (e, algumas vezes, prefeito de São Paulo) Fernando Haddad, por exemplo.

Dalrymple remonta à Rousseau as origens do sentimentalismo, mais precisamente à Revolução Romântica do século XVIII. Nessa época, “a visão cristã de que o homem nasceria imperfeito, mas poderia e deveria buscar pessoalmente a perfeição foi primeiramente questionada e depois trocada pela visão romântica de que o homem nascia naturalmente bom, mas era corrompido e transformado em mau por viver numa sociedade má”. Como consequência, “a exibição de vícios tornou-se a prova de maltratos; o que se considerava defeito moral se tornou condição de vítima.” Aquele que, de posse de uma faca, comete um crime, torna-se, portanto, cada vez mais vítima quanto mais estocadas dê. Ao cidadão que sangra e agoniza transfere-se a culpa e, caso sobreviva, não é absurdo em pensar que, em um futuro próximo, ainda lhe exijam um pedido de desculpas à vítima social que o atacou.

“Para o sentimentalista, é claro, não existe criminoso, mas apenas um ambiente que não lhe deu o que devia.” Esse pensamento é deveras reconfortante, uma vez que nos exime de nossas responsabilidades individuais. Tendo em vista que nascemos bons e felizes, a infelicidade e o sofrimento são, portanto, as provas de maus-tratos e de vitimação. Em vez de se corrigir os indivíduos, deve-se, primeiramente, corrigir a sociedade “para restaurar no homem seu estado original e natural de bondade e de felicidade”. Aceitar tal pensamento é dar carta branca à megalômanos de mente mínima que acreditam ter respostas para tudo. Ao longo do século passado, inúmeras tentativas como essas foram realizadas em locais diversos. O resultado (desastroso) é sempre o mesmo: pilhas e mais pilhas de cadáveres.

Uma das consequências desse sentimentalismo tóxico é a vitimação. Dalrymple apresenta inúmeros casos de pessoas que falsificaram até a própria identidade para tornarem-se vítimas mais reconhecíveis, assumindo uma espécie de autoridade moral em determinados assuntos. Sendo assim, é o sofrimento de uma pessoa, e não suas ações, que se torna uma espécie de parâmetro moral que distingue os seres humanos. Nessa eterna luta entre o opressor e oprimido, o mundo se resume à máxima (ou seria mínima) orwelliana “quatro patas bom, duas patas ruim”. Não é coincidência, então, que muitos discursos políticos se deêm hoje no campo das “micro-agressões”: a busca de um culpado (e, por conseguinte, de uma vítima) deixam de se basear num contraponto objetivo (Código Penal) e passam a ser totalmente definidas pela emoção ou pelo sentimento do “oprimido”. Não é por menos que Thomas Sowell define essas “micro-agressões” como uma espécie de “micro-totalitarianismo”. A culpa, nesses casos, está simplesmente no fato de se existir.

Não é difícil de perceber, após a leitura do livro, que o discurso progressista se baseia puramente no sentimentalismo e que o mesmo é ainda o filtro por qual boa parte das notícias passam antes de chegar até nós. Tome-se por exemplo o caso de uma repórter que, ao “entrevistar” um bandido preso pelo estupro de menores, pergunta se o mesmo já havia sofrido alguma espécie de abuso sexual quando menor. Antes de se buscar a notícia, busca-se a causa, a desculpa. E, quanto mais fácil ela possa ser transferida para nós, que desses crimes nunca participamos, melhor. Se existem milhares motivos para uma pessoa cometer um crime, talvez a certeza da impunidade seja um dos mais relevantes. Quando tiramos dos criminosos até sua culpa moral, o resultado só pode ser a barbárie.

Dalrymple, por fim, resume: “O sentimentalismo foi o precursor e o cúmplice da brutalidade sempre que as políticas sugeridas por ele foram postas em prática. O culto do sentimento destrói a capacidade de pensar, e até a consciência de que é necessário pensar”. Nada poderia ser mais atual.

“O sentimentalismo é o progenitor, o avô e a parteira da brutalidade.”

zoom_podres de mimados4

Dados Técnicos:

Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico.

Autor: Theodore Dalrymple

Tradução: Pedro Sette-Câmara

Apresentação: Luiz Felipe Pondé

Número de Páginas: 208

Ano: 2015

3 comentários para “Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico, de Theodore Dalrymple

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *