O esquerdinha, esse é o cara!

Colaboração agora enviada por “Poliana”, que tem o “Blog da Poliana”. No artigo, uma figura tão comum para quem se interessa por política: O esquerdinha

O esquerdinha, esse é o cara!

Em épocas de movimentos populares, aflora no cenário social um caricato e divertido personagem: o esquerdinha. O esquerdinha é um sujeito boa gente, culto, articulado e de convicções inabaláveis. Com seus quarenta e tantos anos, pertence à seleta classe de pessoas que pode se vangloriar, com o peito estufado de orgulho, de ainda guardar as mesmas idéias e ideais da adolescência. Um esquerdinha de boa safra, assim como os melhores vinhos, jamais envelhece, só intensifica o aroma e o sabor. Apenas aqueles de paladar menos apurado não toleram pessoa assim tão encorpada. Questão de gosto, simplesmente. Nada mais que isso.

CapitaoCavernaO esquerdinha, na adolescência, saiu às ruas pedindo por eleições diretas no país. Entoava o grito da multidão que clamava por democracia e liberdade de expressão. Anos mais tarde, já na universidade, foi cara pintada. Empunhando a digna bandeira contra a corrupção pedia o impeachment de um presidente corrupto. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, nos ensinou o esquerdinha, juntamente com milhares de outros brasileiros que, esquerdinhas ou não, também foram às ruas. Nos anos que se seguiram foi crítico severo da grande mídia manipuladora da opinião pública e tendenciosa com os interesses dos novos representantes do poder. Nas mesas de bar, juntamente com outros universitários, discursava incansavelmente contra a burguesia hipócrita que desfilava em seus carros, e descansava confortável em seus lençóis, alheia a miséria de seu sofrido e oprimido povo.

Hoje, professor universitário na capital, com doutorado em Sorbonne, o esquerdinha continua quase o mesmo. O mesmo discurso ao menos. O mesmo cansativo discurso contra o monopólio da imprensa, agora com discretas nuances de controle da mídia e da liberdade de expressão. Esqueceu, o esquerdinha, que alguns deploráveis periódicos reacionários de hoje, denunciaram escândalos que cassaram presidentes de outrora. Mas eram outros os tempos, e outras as cores da moda. Na atualidade, qualquer denúncia de corrupção no governo é mera perseguição midiática. Afinal, roubar todo governo rouba. O importante é roubar por um bem maior, essa é a nova ideologia do neo-esquerdinha. O esquerdinha da atualidade mora em condomínio fechado em bairro de classe média alta e anda de automóvel modelo esportivo. Ainda fuma um baseadinho, vez ou outra, só para desopilar. A vida nos grandes centros e o corre-corre do dia a dia é muito estressante. É defensor fervoroso da liberação da maconha. Só os reacionários é que persistem com a idéia fixa de que a maconha é um mal para a sociedade. O crack sim, é um perigo. Defende, é claro, a internação compulsória dos usuários dessa droga nefasta. Já fora assaltado por um viciado em crack. Nunca passara tanto terror em tão pouco tempo. O Estado precisa tomar uma atitude e conter essa epidemia, acredita o esquerdinha, puxando um fuminho inofensivo, comprado, é claro, de um fornecedor sério e profissional.

Em suas aulas, prega com a eloqüência dos muito cultos e sábios, a sua seleta classe de acadêmicos, todas as maravilhosas conquistas do – eternamente perseguido pelo imperialismo norte americano – socialismo cubano, onde todos são iguais, e o capital não tem qualquer valor para o povo descapitalizado de quase tudo. Onde a ditadura e o desrespeito a liberdade individual e de expressão é plenamente justificável em nome da boa causa. Esqueceu, o letrado esquerdinha, que desculpa idêntica, havia sido usada na mesma ditadura que ele tão destemidamente combateu e criticou em seu país. Questão de ponto de vista, e de que lado do paredão, ou do capital, se está, naturalmente.

Hoje em dia, mais maduro, não critica mais a burguesia. A burguesia é coisa do passado. A nova moda esquerdista é criticar a elite. Elite é a aquela gente asquerosa, que anda de carro e tem casa própria. Financiada em prestações. Como o esquerdinha, mas obviamente diferente no contexto. Gente arrogante e esnobe, que conta os centavos no final do mês só para se exibir e colocar os filhos em escolas privadas. Não querem, essa elite, ver os seus filhos se misturando e desaprendendo com os menos favorecidos pelas política públicas de exclusão cultural e apartheid social. A abominável classe média fascista, que deve ser exterminada, segundo Marilena Chauí, grande pensadora brasileira (putz!), famosa e ovacionada filósofa da hipocrisia rançosa dos esquerdinhas modernos.

Em relação às atuais e gigantescas manifestações populares em seu país, pedindo por maiores investimentos em saúde e educação, o esquerdinha faz uma análise criteriosa e profunda: “Falta foco e objetividade a essa gente toda que está nas ruas. Eles não sabem o que querem. Movimentos que não são pautados por reivindicações claras e de forte apelo popular estão sujeitos a serem manipulados por grupos com evidentes interesses golpistas”. – E ainda tem gente que desacredita no efeito paranóico da maconha no cérebro de um esquerdista de raiz. – Quando questionado sobre a onda de cartazes, faixas e gritos nas ruas, pedindo pelo fim da corrupção, o esquerdinha é ainda mais contundente: “São moralistas, apenas! Não tem um ideal maior. É um movimento moralista, articulado pela direita golpista, é lógico!” Brada, exaltado e convicto, o mesmo esquerdinha que tem em sua sala uma desbotada fotografia em que erguia um imenso cartaz onde se lia: Vamos Moralizar o país! Fora Collor Já!

A coerência está na alma do esquerdinha, na mesma proporção em que o golpismo está no sangue de todo brasileiro, a capacidade de organização das massas está no cerne da direita, e a honestidade é moeda corrente na política. Quem duvidar é golpista ou fumou maconha estragada.

 

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2 comentários para “O esquerdinha, esse é o cara!

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