Festim sinistro

Em seus ataques a Jair Bolsonaro, Reinaldo Azevedo gastou até agora três balas: a primeira é a da “homofobia”, a segunda é a da “misoginia” e a terceira é a do “neoliberalismo”. Não é coincidência que esses termos tão vinculados à nova esquerda venham da pena do autodeclarado direitista mais suspeito do Brasil.

Infelizmente, Reinaldo Azevedo tem um estilo que prejudica a metáfora das balas. Ele emprega os mesmos ataques diariamente, ao passo em que balas são entidades empregadas apenas uma vez. Por outro lado, pelo próprio ridículo do estilo, talvez seja ainda melhor imaginá-lo como um pistoleiro que dispara, vai até o alvo incólume, recolhe suas balas do chão, volta, recauchuta-as, refaz a mira e dispara de novo e de novo até 2018.

A primeira bala é a do “couro” que Bolsonaro daria num filho que começasse a engayzar. É bom lembrar que essa famosa declaração é condicional. A surra nunca aconteceu. O jornalista, no entanto, não só escolhe o peculiar termo “espancamento” para formalizar a gíria “couro”, como deriva daí um repúdio geral e abrangente à classe dos gays. Não é uma conclusão lógica (deusa que Reinaldo Azevedo deixou de idolatrar ao se converter ao Estado-de-Direitismo) que esse pai hipotético sairia também batendo nos filhos dos outros — menos ainda em adultos, desconhecidos e sem relação de sangue, e menos ainda que surraria the gays, como classe, direta ou indiretamente, literal ou metaforicamente, uma vez eleito Presidente da República. Se fosse generalizada, a declaração poderia no máximo render algo sobre a criação de filhos ou a relação entre pai e filho em geral — mas mesmo essa abstração seria inválida.

A segunda bala é a do “estupro” que Bolsonaro defenderia contra Maria do Rosário, no caso de ela não ser tão feia. Quem viu o vídeo da declaração sabe que “Você não merece ser estuprada!” é uma piada de humor negro, cujo único conteúdo com sentido é: você não é pouco feia, não, minha filha. Ocorre que, segundo um famoso lema de Reinaldo Azevedo, “as palavras têm sentido”, e disso parece se seguir de alguma maneira misteriosa que essa piada deva ser submetida a uma análise lógica que não chega a impressionar pelo rigor. Ele não usa o lema somente para afetar intelectualidade; a aplicação principal é precisamente distorcer o sentido das palavras. Quando ele segue o raciocínio de que “se há mulheres que não merecem ser estupradas, logo há mulheres que merecem ser estupradas”, mostra que não tem capacidade para interpretar nem mesmo uma mensagem num nível consideravelmente mais primitivo que o da fina lógica silogística: o da piada de bar.

A terceira bala é a do “Trump dos Tristes Trópicos” — título que esbanja os dotes publicitários que compensam as faltas intelectuais do jornalista. A ideia é que os descontentes com “a classe política”, ou o “estamento burocrático”, ou o “establishment”, não conseguirão “tirar um Trump da cartola” num país com as carências do Brasil. Ou seja, um candidato que se proponha a reduzir o papel do estado na diminuição das carências do país não tem como dar certo. Ninguém nem sabe se essa proposta de Donald Trump é também esposada em detalhe por Jair Bolsonaro (ou Dória Jr., ou Ronaldo Caiado, ou qualquer ser vivo que não seja José Serra, Geraldo Alckmin ou Aécio Neves, nessa ordem), mas essa é sem dúvida uma ideia da direita liberal, que é precisamente a marca que Reinaldo Azevedo parece ter escolhido, depois de anos de indecisão deliberada, para se contrapor ao que ele chama de extrema-direita. Infelizmente para o jornalista, a história mostra que países como Suécia, Alemanha, Inglaterra, Japão e Estados Unidos superaram carências bem piores que as nossas de hoje justamente deixando os mercados mais livres. Fica naquela zona cinzenta entre o risível e o lamentável que Reinaldo Azevedo sempre tenha defendido “enxugar a máquina” sem perceber que esse era o nosso eufemismo para “drain the swamp”.

O mais revelador desse round inicial não é que Reinaldo Azevedo apele para as ideias da homofobia e do machismo, sem perceber que já vão sendo descartadas até pela elite da esquerda mundo afora; desde que ele fez a escolha de falar em “fascismo”, deixou bem claro que não viu a liberal democracy ruindo na sua frente, e que, portanto, perdeu o que ele próprio chama de “capacidade de leitura da realidade”, que não sabe o que é fascismo, e que, portanto, não tem metade da cultura que ostenta ter, e que não tem vergonha, e talvez tenha até certa vaidade, de se misturar com a esquerda universitária nos terrenos da linguagem e da propaganda.

O mais revelador é que ele tenha disparado o balaço do neoliberalismo, ainda que não use e nem nunca venha a usar o termo. Depois de ir contra todas as vozes da direita, de dizer que não sabe muito bem se acredita em Deus, de brincar que “só o Estado de Direito salva” e de se colocar a favor do desarmamento, ele vai dando seus primeiros acenos para um estado provedor também tão típico da esquerda, decerto distante do socialismo “a serviço de uma má causa, mas corajoso” (sic) e mais próximo de uma social-democracia meia-bomba.

Essa é a história de Reinaldo Azevedo, valente pistoleiro do faroeste midiático brasileiro que, depois de ter lutado contra o petismo durante anos a fio, ganhando salvas e mais salvas de palmas a cada tiro certeiro, viu-se de repente sem munição de verdade, vaiado e humilhado pelo público que mantinha pulsante seu vaidoso coração. E eis que se viu cada dia mais cabisbaixo, desconfiado de seu dom e convencido de sua derrota, diante do triste, mas cada vez mais evidente prenúncio de que sua obra, jamais executada pela pura destruição do poder da hora, mas pela retomada do poder de outrora, resultaria em tanto trabalho por nada.

Texto escrito por @zambinos, reproduzido com autorização do autor

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

9 comentários para “Festim sinistro

  1. Pedro Rocha

    Agora pegou no lixo uma bala que nem a extrema-esquerda usava mais: chamar Bolsonaro de racista!

    http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/bolsomito-fhc-esta-para-princesa-isabel-como-maconha-para-negro/

    Novamente ele distorce de forma grosseira a fala de Bolsonaro para mentir sobre ele. Quando Olavo de Carvalho em um comentário disse que anos atrás avisaram a ele que o RA não prestava , achei que fosse exagero. Mas agora vejo que é a mais pura verdade.

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  2. Antonio Gonçalves

    Qq dia destes a maria do foice-martelo vai instigar o ‘Bolssa’, acusando-o em publico, de peidofilo, homofobico e de odiar mocreias horrendas e ela a mandara tomate cru. Dai ela abrira um processo de cassaçao no congresso dos corruptos do povo e uma açao na suprema corte vermelhona para condena-lo a pena de morte eterna para sempre. Nesse stf vermelhao o q entrar contra o Bolssa e, de antemao, crime hediondo, inapelavel, irrecorrivel e sem direito a ”surcis”. O q e surcis? E eu sei la! So sei q contra um nao vermelho qq coisa ruim vale!

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  3. romulo_sjc

    Segundo a Lei do Ficha Limpa

    Os que forem condenados, em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão judicial colegiado, desde a condenação até o transcurso do prazo de 8 (oito) anos após o cumprimento da pena, pelos crimes…..

    § 4o A inelegibilidade prevista na alínea e do inciso I deste artigo não se aplica aos crimes culposos e àqueles definidos em lei como de menor potencial ofensivo, nem aos crimes de ação penal privada.

    Mesmo SE o Bolsonaro perder essa ação é de menor potencial ofensivo (pena menos de 2 anos) ou contravenção penal…. A Lei do Ficha Limpa é bem clara isso NÃO gera inlegibilidade …. o máximo que vai acontecer é ele ter de pagar um multa ou cestas básicas ……..

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  4. Pedro Rocha

    O establishment já percebeu que a mídia está desmoralizada e que a Internet suplantou as fake news.

    Agora, estão partindo para a perseguição judicial aberta, como vemos o que está acontecendo com Geert Wilders, Jair Bolsonaro, Padre Lodi e por último Marine Le Pen.

    Muita gente estava num grande “oba oba” com o impeachment do PT e a vitória de Trump, achando que as demais vitórias seriam de lavada, mas o sistema está reagindo de forma cada vez mais brutal e hoje eu temo pela vida de Trump.

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    • Rodrigo Senzo

      Exatamente. E o pior para nós é que aqui o ativismo do judiciário é gritante. Não digo nada se o Bolsonaro ano que vem não seja condenado por qualquer coisa absurda que seja.
      .
      Não conheço o Pe Lodi, mas lembro de um True Outspeak onde o Olavo contava o caso em que o Pe Lodi foi condenado por chamar um militante abortista de abortista. O cúmulo!!!

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