A oposição de smoking e sua espera por um Lord inglês

Na nossa “Coluna do Leitor” de hoje, um post de David Boutsiavaras no Facebook

Todo anti-esquerdista brasileiro que tivesse sequer um pingo de senso de realidade votou ao longo das duas últimas décadas no seguinte projeto para evitar um mal maior chamado PT: desarmamento civil, agências reguladoras, diálogo com baderneiros, um plano de geração de riqueza que não contemplava que a sociedade civil fizesse dessa sua riqueza o que bem entendesse, mas sim que visava confiscá-la para então distribuí-la através da burocracia estatal em serviços públicos de nível sueco, em suma, um projeto assumidamente progressista. A simpatia mútua entre o mal maior chamado PT e o mal menor chamado PSDB é antiga: o fabiano Mário Covas sempre foi admirado por Marta Suplicy, oriunda do petismo burguês assim como Chico Buarque, que pediu voto para FHC, que ficou muito satisfeito quando o “operário” Lula derrotou seu candidato Serra, que é colega de casa e partido de Aloysio “Mateus” Nunes, que foi capanga de Carlos Marighella, que foi cúmplice de Dilma Rousseff, todos declarados esquerdistas. Apesar da simpatia, encenaram muito bem um teatrinho nesse período: o PT batia e o PSDB se comportava como mulher de bandido. E não só em sentido metafórico, de sofrer quieto e nunca devolver à altura, mas em sentido literal também, porque os tucanos são em essência a jovem burguesinha romântica que se apaixona pelo traficante. E o PSDB não mudou: hoje mesmo, depois de terminar de ser esmagado pelas mentiras de José Eduardo Cardozo no Senado, “Mateus” só conseguiu responder: “Parabéns”, não sem antes elogiar o brilho e a inteligência do advogado petista que defende o quarto mandato consecutivo de um partido que tem os dois pés no banditismo. E apesar disso ser tudo verdade, todos que marretamos o PSDB em blogs e portais ao longo de 2015 sentimos o tempo todo uma incômoda sombra sobre nós.

Teríamos que socar 45 na urna outra vez em 2018, para tentar evitar a ascensão de Marina Silva ou, pior, de Fernando Haddad ou, vade retro, o ressuscitamento de Ciro Gomes. Quem tinha olhos testemunhou a diabólica tática soviética de manter o fiel da balança entre uma “esquerda da esquerda” e uma “direita da esquerda”, e assim continuamos sonhando com um futuro muito distante, nutrido pela renovação da alta cultura e pela desobediência civil sistemática, quando houvesse oportunidade real de propor uma alternativa de direita “a tudo que está aí”. Acontece que acenos a essa alternativa sempre passaram despercebidos e desprezados pela maioria dos descontentes. Personagens acessíveis, da imprensa, da grande mídia e da política como Luiz Carlos Alborghetti, Carlos Roberto Massa, Clodovil Hernandes, Conte Lopes, Afanásio Jazadji e até José Maria Eymael defenderam valores como propriedade e família, mas independentemente de declarações polêmicas, nunca foram sequer levados a sério, a não ser pelo povão. Imagine se um rapaz que conhece literatura americana e teatro inglês endossaria as palavras de gente cafona assim — o PT é péssimo, claro, mas é essa a alternativa que nós temos? E a resposta é sim. Se o que esses bebedores de cerveja belga desejam no fundo é um lordão inglês ou um reverendo americano, podem tirar o cavalinho da chuva. Isto aqui é o Brasil. É o país do sub-chefe de Streets of Rage Magno Malta e do Comandos em Ação encarnado Jair Bolsonaro. E se votar num pastor evangélico com voz de cantor sertanejo não é cool o suficiente, se a sobrancelha laser ofende tanto a sensibilidade desses antipetistas, que esperem sentados numa câmara criogênica seu herói fumante anunciar a candidatura à presidência de smoking, enquanto amargam mais uma década da dobradinha da estrela e do passarinho lá, votando em gente elegantíssima como Marta Suplicy e João Dória Jr.

O post original pode ser lido neste link.

CaveiraChiquerrima

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3 comentários para “A oposição de smoking e sua espera por um Lord inglês

  1. Alexandre Sampaio Cardozo de Almeida

    São Paulo, 02 de maio de 2.016

    Prezado Sr. David Boutsiavaras,

    Obrigado pelo belíssimo texto! Expressa nos mínimos detalhes, o sentimento de pessoas como eu, que a cada dois anos, tenho que tapar o nariz, benzer-me, e teclar “45” nas malditas urnas eletrônicas. Para prefeitura esse ano, não irei votar. Simplesmente, não sairei de casa, pois estou cansado de ter que escolher o mal menor. Pagarei a multa que o TSE cobrará. Entre Haddad, Marta, Russomano, Dória Jr. e um tiro no joelho, pergunto se o disparo será no esquerdo ou no direito. Em 2.018, se confirmado , voto Bolsonaro para presidente.

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  2. RM

    Belo artigo. Só um reparo, “Mateus” era o motorista de Marighela , se ainda fosse um segurança, o contador do bando ou o armeiro, tudo bem. Exerceu a época, funções subalternas e auxiliares – e parece que continua exercendo.

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