William T. Cavanaugh e o Mito das Guerras Religiosas

Créditos de Imagem: Jankarski.org

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Da boca de Hitchens (Christopher, não seu irmão conservador, Peter) ouvimos a popular teoria que o secularismo e seu monismo materialista se provaram a cura para dirimir os conflitos violentos das superstições religiosas que pintaram a Europa de sangue. Assim fomos ensinados que o Estado secular salvou o dia com Locke prendendo a religião na cadeia da consciência íntima, banindo a Igreja para fora da política e o Estado para fora da religião. Desde então religiosos foram considerados cidadãos de segunda classe, onde os gostos particulares de todos ganharam um melhor status de universalidade que as crenças milenares que moldaram a moral e os costumes ocidentais.

Mas será que a narrativa que fundamenta esse pensamento é verdadeira? William T. Cavanaugh é professor de teologia na DePaul Theology, formado pela Universidade de Notre Dame, obteve seu mestrado em Cambridge, recebeu seu PhD em religião na Duke University. Ele pode não ser conservador, mas tem dito que a tese do secularismo pacificador é “um favorito de teoristas políticos liberais – John Rawls, Richard Rorty e muitos outros – mas não pode ser encontrado no trabalho de nenhum historiador respeitável dos séculos 16 e 17.”

A tese que as guerras foram motivadas pela religião não sobrevive quando, como conta Cavanaugh, “o Sacro Imperador Romano Charles V passou maior parte da década após a excomunhão de Martinho Lutero em guerra, não contra luteranos, mas contra o Papa. Quando os príncipes luteranos pegaram em armas contra o Imperador Católico nos anos 1550, eles fizeram com a ajuda da França Católica. As “Guerras Religiosas” na França são cheias de colaboração entre católicos e protestantes, e a Guerra dos Trinta Anos – talvez a mais notória das “Guerras da Religião” – viu Cardeal Richelieu jogar todo o poder da França do lado dos suecos luteranos, que por sua vez atacaram a Dinamarca luterana. Enquanto os holandeses calvinistas estavam ajudando as forças reais francesas a vencer os calvinistas de La Rochelle, a católica Espanha estava apoiando o protestante duque de Rohan na batalha contra a coroa francesa em Languedoc. As Guerras dos Trinta Anos foi em fato primeiramente uma briga entre os Habsburgos e os Bourbons, duas grandes dinastias católicas da Europa.”

Autores como José Casanova sugerem que em vez de chamá-las “guerras da religião”, elas deveriam ser conhecidas como “guerras da edificação estatal europeia”. Cavanaugh explica que “O fator chave em muitos dos conflitos era a luta entre as elites edificadoras-estatais e as formas de autoridades locais – especialmente aquelas da igreja e baixa nobreza – que ficaram no caminho da centralização. Em outras palavras, a expansão do estado moderno não foi a solução aos conflitos religiosos, foi a mais significante causa destes”.

Não é estranho que modernamente o maior obstáculo para as pessoas terem  sua conversão ao evangelho não é teológico, mas político. Em oposição à moral judaica elas criam códigos e mais códigos de conduta “libertários” tão arbitrários que multiplicam-se diariamente em milhares de decálogos infantilizantes. O interessante é que se o país é um fracasso em educação é principalmente a esquerda, veja só, que quer punir as grosserias populares, como cantadas ruins na rua ou o jeito jeca de Levy Fidelix, ao invés de vir com slogans de “mais giz menos balas”.

É natural os governos e os progressistas pró-expansão governamental verem a religião, principalmente a cristã, como inimigo nos seus avanços. Como mostra David J. Theroux, foi a religião cristã que não só abraçou os direitos naturais como os tornou sagrados e assim bloqueou os apetites ilimitados do Estado. Um exemplo disso é que desde o início cristãos impediram que Césares fossem novos Faraós e se declarassem deuses, sendo aí o início da doutrina laicista cristã que separava o governo temporal e atemporal.

Michael Shermer, humanista fundador da revista Skeptic, em seu brilhante artigo sobre o livro “E Deus criou Lenin: Marxismo vs. Religião na Rússia, 1917-1929” do historiador de Berkeley, Paul Gabel, conta os esforços soviéticos na eliminação da religião e mostra como essas táticas sofrem uma similaridade incrível com o que é praticado hoje em dia. Diz Shermer que “o governo espionava os padres, censurava seus sermões, aumentavam seus impostos (como cidadãos improdutivos), e ordenaram eles a viver fora das vilas que serviam. Capturavam igrejas e monastérios, e reabriam como museus anti-religiosos. Aboliram as escolas religiosas e proibiram a educação religiosa até a idade de 18. Os bolcheviques promoveram um cisma “progressista” dentro da Igreja Ortodoxa com uma pompa de padres comunistas – afinal, Jesus não uniu a classe trabalhadora da Palestina e ordenou os ricos a oferecer suas riquezas aos pobres? O governo derramou tantos recursos nessa Igreja Viva (em contraste à Igreja morta) que pessoas começaram a chamá-la de Igreja Vermelha. Paradas selvagens tiveram erupção nas largas cidades, escarnecendo e ridicularizando a celebração cristã do nascimento de Cristo. Jovens, ateístas da classe trabalhadora desfilavam nas ruas carregando efígies de líderes religiosos de cada fé eles poderiam imaginar. Eles se vestiam como padres, monges, rabbis, mullahs, e shamans, enquanto seus companheiros de Parada zombavam e escarneciam deles. Um artigo em Izvestia descrevia alguns dos personagens: Deus abraçando uma mulher nua, a Maria Virgem, o papa em um motorizado carro decorativo abençoando o povo, um monge passeando num caixão cheio de relíquias sagradas, um padre oferecendo-se a casar com qualquer um por um preço, um pastor protestante, um rabino judeu, um Buda de vestes amarelas, Marduk da Babilônia, e um grupo de demônios com longos rabos e chifres vindo atrás.”

Tudo isso falhou, e a Igreja Ortodoxa sobreviveu na mente e espírito do povo russo. Mas ainda parece que não param de tentar livrar a religião dos caminhos progressistas do governismo.

A declaração de independência americana é talvez o maior ícone contemporâneo da visão medieval pré-iluminista dos direitos naturais. Na construção de seu país, os pais fundadores buscaram a autoridade de sua independência em uma figura superior ao monarca anglicano, um rei dos reis, o próprio Deus, em rejeição à direitos criados por burocratas populistas e estatísticos positivistas, que se usam dos direitos humanos, com uma linguagem emocionalmente apelativa, para dar mais direitos ao Estado e seus serviçais.

Liberais precisam simpatizar mais com a cultura religiosa que deu início aos Estados Unidos do que com seu progresso econômico. É sim admirável que o país não tenha os mesmos impedimentos demagógicos que outros países para prosperar, mas a base de todo o sistema americano são os valores de trabalho calvinistas e a anciã moral judaica.  Isso está sublinhado na cosmovisão de sua constituição e seus valores que resistem à cultura de welfare slackers, politicamente correto e das economias planificadas dos tecnocratas. A maioria silenciosa faz frente ao elitismo barulhento e esnobe de universitários progressistas. Foi isso que deu ao país força para suportar a pressão das propagandas do sucesso soviético que encantavam intelectuais no mundo todo enquanto lutava contra a miséria e a pobreza da grande depressão em casa. O país nasceu sob extrema pobreza com fazendeiros isolados sofrendo ataques de nativos, bandos de criminosos e animais selvagens, mas sua ética religiosa tolerou os desafios até se tornar líder do mundo livre enquanto o sovietismo decepcionava multidões. Esse testemunho religioso é mais fácil de ser imitado do que uma mudança legislativa de cima para baixo, pois o capitalismo não promete prosperidade e a pobreza é um fator natural. É o fato de um país permanecer contra o espoliamento tributário mesmo sob extrema pobreza que o torna excepcional.

Para isso a direita tem que vencer o conflito interno entre o jusnaturalismo de Hobbes e Grócio e o de Tomás de Aquino. Basta usar a Guilhotina de Hume para entender que o materialismo não tem como dar um dever jurídico, independente dos valores utilizados, mas um Criador inteligente, sim. Sem isso, os religiosos vão continuar perdendo nos tribunais antes sequer de tomarem ação, pois tribunais ainda acreditam em uma neutralidade metafísica que mudou as regras do jogo. No caminho dos tiranos que se multiplicam no mundo sabemos o que une Israel, Vaticano e os Estados Unidos como os três maiores alvos a serem derrubados: eles constituíram o mesmo Deus como alicerce de suas existências.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

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2 comentários para “William T. Cavanaugh e o Mito das Guerras Religiosas

  1. Leonardo Marcondes Alves

    Colocar religião como causa das guerras é uma mera falácia que confunde correlação com causação.

    Seguindo a mesma lógica, o futebol deveria ser banido. Além dos hooligans e das torcidas organizadas, as corruptas CBF e FIFA, o futebol foi o estopim de uma guerra, a Guerra del fútbol, entre El Salvador e Honduras em 1969. Essa análise (com a que integra fenômenos religiosos) ignora a escalada de animosidade e a concorrência entre as elites dos dois países.

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  2. Rodrigo Amado

    Guerras sempre foram por PODER.
    A religião apenas é usada as vezes para recrutas soldados.

    Na China mesmo há guerras por territórios há milênios, mas lá nunca usaram a religião como explicação.

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