Por que as pessoas modernas não acreditam em milagres?

Esse é um dos textos que gostaria de ter escrito mas o luterano Dr. Jack Kilcrease o fez antes de mim com muito mais propriedade, me dando o (difícil!) trabalho de traduzi-lo. Nesse texto destaco a fundação da era pós-cristã, os princípios da perseguição moderna aos cristãos no ocidente e o pressuposto diabólico do estatismo.

Como todos sabem a Modernidade nasce em 1648 na Paz de Vestfália. A Paz de Vestfália findou a Guerra dos 30 Anos e estabeleceu a relação moderna entre a Igreja e Estado. Parte deste acordo foi a criação de um sistema dentro do Sacro Império Romano que deu controle irrestrito da Igreja para o Estado Secular. Outras confissões de fé seriam toleradas (por exemplo, Luteranos em territórios Católicos), mas seus cultos teriam de ser privados e ocorrer em lugares e horários determinados pelo Estado Secular. O soberano deveria ditar sobre a estrutura da Igreja e doutrina.

Devemos observar que relações de poder não são simplesmente causalidades. Ela inculcou nas pessoas, e também pressupôs, uma estrutura ôntica particular da realidade. Logo, o dever do Cristianismo ser restrito ao domínio privado com total subordinação da Igreja ao Estado nos deve dizer certas verdades sobre religião e sua autoridade, assim como algumas coisas sobre metafísica.

O que nos diz? Especificamente, se assume que criação é um reino fechado e autônomo onde Deus, religião, e o sobrenatural estão separados desse domínio estando somente na região da consciência (praxis religiosa) e o transcendente. Contrário às tradições cristãs antigas de lei natural e interpretação Escritural tipológica (ambas as quais assumem um padrão de eventos históricos e a estrutura da natureza possui significado inerente.), a realidade aqui não tem sentido inerente. A Realidade é um reino neutro, autônomo, feito de causas materiais, discernível e facilmente controlados por sujeitos humanos racionais e autônomos (pense Descartes e Bacon). Os homens podem desta perspectiva impor subjetivamente algum significado nas causas neutras e eventos materiais mas isso é um juízo privado que não tem valor como real e objetivo no domínio público.

Quando se confirma esses pressupostos se torna claro o motivo pelo qual a religião, ciência e secularidade se desenvolveu  do jeito que vimos nesses recentes séculos. Como podemos ver, no fundo, a emergência da Modernidade tem pouco a ver com o início da investigação racional da realidade, o reconhecimento da dignidade humana e a destruição da autoridade arbitrária (de fato, se alguém buscar a história da Modernidade, o oposto acontece!). Antes, a divisão moderna de fato/valor e que as causas materiais são inerentemente mais racionais que as sobrenaturais são um subproduto de uma narrativa social da realidade que emergiu das relações entre Igreja e Estado. Em suma: o reino do material, onde o Estado possui o monopólio do controle, é o reino do real.

Logicamente, o Estado Secular pode controlar somente causas materiais. Ele não pode controlar causas sobrernaturais. Dizer que há causas que não são materiais mas sobrenaturais é colocar certas realidades fora do controle do Estado. Isto é visto como algo perigoso porque a inferência de reivindicações sobrenaturais sobre o real resultaria em rompimento social. De fato, isso é o que os arquitetos da modernidade acreditaram que aconteceu durante a Guerra dos 30 Anos onde Luteranos, Calvinistas, e Católicos estavam todos competindo sobre quem possuía a autoridade sobrenatural. O Estado, não podendo freá-los foi tragado a essa longa guerra irracional. Os Autores ingleses viam a guerra civil inglesa da mesma forma. É claro, não é bem assim que aconteceu, mas é assim que eles acreditavam ter acontecido e então eles consideraram importante remediar isso.

Por essa razão, não surpreende que Thomas Hobbes (por exemplo), começa Leviatã com uma visão materialista da natureza humana. Em outras palavras, se tudo é material, então o Estado pode controlar tudo e então não haverá outra guerra civil inglesa (i.e., uma guerra sobre verdades sobrenaturais). Voilá, Hobbes aceita que o estado irá possuir uma religião, mas que o rei ou quaisquer que seja o soberano terminará tendo direito de interpretar a Escritura. Qualquer Interpretação contrária é traição e o Estado tem o direito de bani-la. No Contrato Social, Rousseau nos conta que o Estado deve simplesmente impor uma religião monopolista e não importa o que ela ensina, mas se as pessoas a contrariarem elas devem ser mortas. Os revolucionários franceses seguiram esse aviso e estabeleceram a “Deusa da Razão” na Catedral de Notre Dame.

Isso também coloca em nova perspectiva o Liberalismo teológico. Para não dizer pior, o Liberalismo teológico tem pouca consistência lógica. O bispo Spong ensina que não não podemos acreditar em milagres. Mas porque não? É um silogismo fácil: se Deus é Deus e portanto o Criador, ele pode fazer tudo. O nascimento virginal, água em vinho, a encarnação e todo o resto caem como “tudo”. Mas quando você perceber que na modernidade, a narrativa social da realidade restringe a religião ao reino do julgamento privado (valor e não fato!), então fará mais sentido do porque Liberalismo teológico se encaixa melhor nela.

Primeiro as Escrituras seriam simplesmente reinterpretadas com base na distinção moderna entre fato/valor. Se nós admitirmos que o sobrenatural ocorreu como narrado biblicamente, então significa que o real não está restrito ao material e portanto o monopólio do Estado Secular seria quebrado. Daí o empreendimento de modernos estudos críticos da Bíblia, inventados por Spinoza e Thomas Hobbes no (adivinha!) meio do século 17, que simplesmente pega a bíblia e reinterpreta o texto como um produto de forças sociais em vez de sobrenaturais. Tem esses estudiosos acesso à essas forças sociais? Não. Podem eles provar que elas existiram? Não. Apesar disso, o que falha logicamente e historicamente funciona para as pessoas modernas num nível retórico. Para alguém que foi aculturado a ler toda a realidade puramente com base nas causas materiais controláveis pelo Estado, seria um desafio ler as Escrituras diferentemente (algumas vezes nos dizem para ler a bíblia como “um livro como qualquer outro”). Como as Escrituras ainda pode prover algum “significado” e “valor” (Mesmo que sejam considerados majoritariamente falsos), nenhum dano teológico é feito. De fato, se você participar de um seminário protestante mainline (como eu) reconhecer essa distinção de fato e valor como uma base de interpretação Escritural é visto como sinal de maturidade teológica. Pensar que “essas coisas tinham que realmente acontecer” para conterem verdades teológicas é vista como criancice. É algo que as pessoas irão superar assim que elas amadurecerem e aprenderem mais.

Logo, o Liberalismo teológico (e outras formas de teologia moderna) tende então a restringir sua teologia ao valor e significado. Isso pode ser visto em maior ou menor grau. Para pessoas como Schleiermacher o Cristianismo é somente sobre a experiência de absoluta dependência mediado por Jesus. Algumas alegações históricas e objetivas para isso são necessárias (Jesus teria de existir e ter divina consciência), mas mínimas. De novo, a teologia e Deus ficam restritas ao domínio privado. Eles não são perigo aos pressupostos do reino secular. A Neo-Ortodoxia (tanto Barthianas e Bultmannianas) também se alinha nisso. Barth em menor grau pela enganosa e pia retórica de transcendência; Bultmann (e Ebeling com ele) com sua inversão do relacionamento reformado entre fé e a Palavra de Deus. Por essa razão, Cristo “revelou-se na mente dos discípulos” e toda aquela conversa oca. Em vários níveis a teologia dita “significados” ao reino dos “fatos”. Sendo esses significados meramente subjetivos, ela perde a força de verdades públicas sobre como a realidade realmente funciona e então perpetua o establishment modernista, deste modo dando forças ao poder irrestrito do Estado de controlar cada aspecto da vida humana – incluindo o que para ele constitui o real. Alternativamente, quando teologia diz algo sobre como o domínio público devia ser regulado, ela é vista como destrutiva (i.e., o movimento anti casamento-gay.) ou útil ao ponto de fazer o jogo da narrativa Iluminista de progresso (i.e., teologia feminista e da libertação).

Como este vai ser minha última publicação antes do Natal, quando o milagre do nascimento virginal é debochado a ponto de muitos cristãos acharem motivos mesquinhos para não comemorar uma data que pese-lhe toda a influência pagã ainda é muito mais cristã que eles, quero desejar a todos os leitores do Reaçonaria um…

Feliz Natal!

 Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

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4 comentários para “Por que as pessoas modernas não acreditam em milagres?

  1. Alex-Rio

    Os protestantes não acreditam em milagres, porque os únicos milagres que eles já presenciaram foram os milagres dos crescimentos das contas correntes dos pastores.

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    • Thiago Cortês

      Alex-Rio,

      O seu comentário é absolutamente estúpido e medíocre. “Os protestantes” é uma categoria que pode englobar muita gente, assim como “católico” é uma categoria que hoje em dia costuma englobar, literalmente, milhões de espíritas/umbandistas que, por acaso, também são crentes em Maria, que não perdem uma sessão espírita e, de vez em quando, vão na missa, normalmente em datas especiais. São católicos mesmo?

      Eu conheço dois ou três católicos. O resto, a imensa maioria, faz cosplay.

      O fato de que certos segmentos evangélicos dão primazia à Teologia da Prosperidade não significa que todos os protestantes são iguais. E, sim, eles acreditam em milagres, a começar pelo milagre do nascimento de Cristo por uma virgem.

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  2. Pedro Rocha

    “Parte deste acordo foi a criação de um sistema dentro do Sacro Império Romano que deu controle irrestrito da Igreja para o Estado Secular.”

    Creio que ele está se referindo ao credo luterano que professa, que foi dominado por diversos regimes teocráticos, como Noruega, Suécia Dinamarca.

    No âmbito católico, as tentativas de controle e perseguição pelo Estado são inerentes à sua História, a começar do Conluio Caifás x Pilatos, passando pelas perseguições romanas, avanço do Islã, teoria do “direito divino dos reis”, escândalo das investiduras, movimento Protestante (Lutero era apoiado por príncipes alemães e impunha sua crença à força, como no massacre dos anabatistas), genocídio irlandês (perpetrado por Cromwell), Revolução Francesa (massacre da Vendeia), josefismo, seitas secretas, anarquismo/socialismo e globalismo, passando pela campanha mundial difamação de Bento XVI.

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