Quando William Bonner respondeu a um colunista da Carta Capital

Em 2005 tivemos uma rara oportunidade de ver o apresentador do Jornal Nacional escrevendo algo público. A história, em resumo, foi: William Bonner chamava professores e estudantes universitários para verem de perto como era feito o mais importante telejornal brasileiro. Bem intencionado, Bonner queria provavelmente mostrar aos estudantes como é a vida profissional prática, a complexidade e responsabilidade envolvidas.

O que Bonner não dimensionou era a possibilidade de haver no meio, como há, dezenas de professores e ideólogos rancorosos. Mais ainda, gente burra! Após um dia inteiro de aprendizado, um dos presentes saiu a gritar como absurda a analogia adotada por Bonner para explicar como são preparadas as notícias no Jornal Nacional. Um colunista da Carta Capital atacou atabalhoadamente Bonner e a Globo. Jornalistinhas de muitos outros blogs e órgãos de imprensa tentaram também criar um clima de malhação pública… A resposta de William Bonner foi uma aula não só de jornalismo como também de como demonstrar menosprezo e botar em seu devido lugar os mal-intencionados. É a resposta de Bonner nosso material resgatado hoje na “Arca Reaça“:

No dia 23 de novembro, recebemos, no JN, a visita de professores universitários. Eles assistiram a uma reunião matinal, em que se esboça uma previsão da edição daquele dia. E me ouviram fazer algumas considerações sobre nosso trabalho.
Em palestras que ministro a estudantes que nos visitam todas as semanas, faço o mesmo.

Nestas ocasiões, sempre abordo, por exemplo, a necessidade de sermos rigorosamente claros no que escrevemos para o público. Brasileiros de todos os níveis sociais, dos mais diferentes graus de escolaridade. E o didatismo que buscamos para o público de menor escolaridade não deve aborrecer os que estudaram mais. Neste desafio, como exemplo do que seria o público médio nessa gama imensa, às vezes cito o personagem Lineu, de A Grande Família. Às vezes, Homer, de Os Simpsons. Nos dois casos, refiro-me a pais de família, trabalhadores, protetores, conservadores, sem curso superior, que assistem à TV depois da jornada de trabalho. No fim do dia, cansados, querem se informar sobre os fatos mais relevantes do dia de maneira clara e objetiva. Este é o Homer de que falo.

Mas o professor Laurindo tem uma visão diferente de Homer. Em vez do trabalhador (numa usina nuclear), o acadêmico o vê como um preguiçoso. Em vez do chefe de família, o professor Laurindo o vê como um comedor de biscoitos. Esta imagem não é a que tenho – não é a disponível, num texto bem-humorado, no site oficial da série Os Simpsons, que faz graça do personagem, mas registra que Homer é “um marido devotado e que, apesar de poucas fraquezas, ama a sua família e é capaz de tudo para provar isso, mesmo que isso signifique se fazer passar por tolo”.

Não sei para quantos professores e estudantes citei Homer, ou Lineu, como exemplo. Mas jamais tive informação de que alguém guardasse imagem tão preconceituosa, tão negativa do personagem do desenho.

Como profissional, como defensor da nossa imensa responsabilidade social, sinto-me profundamente envergonhado de me ver na obrigação de explicar isso. Como trabalhador, pai de família protetor, meio Lineu, meio Homer, reconheço humildemente meu fracasso no desafio de ser claro e objetivo para todos os meus interlocutores daquela manhã.

william-bonner

P.S.: O povo, como sempre, não entrou na onda dos subjornalistas e aprovou a analogia de William Bonner.

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8 comentários para “Quando William Bonner respondeu a um colunista da Carta Capital

  1. João 77BM

    Os petistas têm horror ao Homer porque, ao contrário dele, não possuem nenhum senso de humor. Eles se parecem com o Flanders: crentes, seguidores de uma seita

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  2. Fernando AS

    Em retribuição aos bons serviços prestados na Carta Estatal, o referido professor ganhou um carguinho no conselho curador da tevê do Franklin Martins e passou a apresentar um programa próprio nessa fantástica rede de difusão do jornalismo chapa-branca.

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  3. danir

    É duro lidar com cretinos e mistificadores que fantasiados de professores, destilam ódio e doutrinação ideológica, no afã de conquistar os corações e as mentes de estudantes, ingênuos e incautos, ou as três coisas juntas. O Bonner não precisa ficar abatido com o fracasso de sua explanação naquela manhã. Somente um Lula. uma Marina, ou outro “cumpanhero intelectual” conseguiria conquistar as sumidades visitantes. Eles sabem exatamente o que significa a figura de um Homer Simpson. Afinal de contas suas vidas tem sido uma constante na cooptação de pessoas, inocentes úteis, com o nível intelectual de um Homer Simpson .

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  4. Pedro

    Patética a desculpinha do William Bonner e a ainda mais constrangedora a “homenagem” (como descrever?) que vocês fizeram a ela.

    O Bonner teve que fuçar no site oficial dos Simpsons pra tentar amenizar a analogia grosseira dele, e o máximo que conseguiu encontrar foi uma frase que chama o Homer de “tolo”.

    Vejam, por exemplo, o que o próprio Matt Groening falou sobre o Homer: “With Homer, there’s just a wider range of jokes you can do. And there are far more drastic consequences to Homer’s stupidity. There’s only so far you can go with a juvenile delinquent. We wanted Bart to do anything up to the point of him being tried in court as an adult. But Homer is an adult, and his boneheaded-ness is funnier. […] Homer is launching himself headfirst into every single impulsive thought that occurs to him.”

    E chamar de “povo” os respondentes de uma ENQUETE ONLINE DE DOIS MIL E CINCO? Você acha que a sua faxineira respondeu a essa enquete em 2005? O porteiro do seu prédio, acessando a Folha Online oito anos atrás? Aliás, você gostaria de ser comparado ao Homer Simpson?

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    • Da CiaDa Cia

      Quem respondeu à enquete da FOLHA foi quem tomou conhecimento da desavença. Essa “confusão” ficou restrita ao ambiente da internet, embora como mostrado no post, alguns jornalistas da “grande imprensa” tenham tentado dar uma força para ela divulgando e tomando partido.
      Eu não tenho faxineira e nem moro em prédio, mas imagino que esses símbolos que você elegeu para representar “o pobre”, quando muito fariam uma associação imediata do nome (Homer) a um personagem de desenho animado. Por fim, saiba usar as palavras: Eu não tenho problema nenhum em ser “comparado” ao Homer Simpson. Comparar é uma operação que só faz sentido entre diferentes, de onde você tiraria as conclusões a respeito de um ou outro. O que é muito diferente de “equiparar”, creio que é isso que você quis dizer.
      William Bonner sabe usar as palavras. Ele fala para milhões. Ainda bem, como visto na sua resposta, clareza, compreensão e generalizações não são para quaisquer pessoas.

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    • danir

      Boa noite Pedro. Num pais onde o nível de analfabetos funcionais é maior do que 30%,(no meio universitário); onde as pessoas são conduzidas intelectualmente e votam em nulidades, e onde a turma está mais preocupada com a novela do que com as perspectivas de suas vidas, não é muito difícil encontrarmos inúmeros Homer Simpson pelo caminho. O personagem é uma representação de uma realidade, e ao invez de ficarmos ofendidos, precisamos tentar entender o porque deste fenômeno, para no mínimo evitarmos que aconteça com os nossos filhos. Edulcorar a realidade e tentar vender a ideia de que vivemos num ambiente onde a inteligência, a articulação e a capacidade de raciocínio são uma realidade difundida em todo o meio social, só contribui para aumentarmos o número de Homers que encontraremos pelo caminho. O Bonner tem sim que adaptar a linguagem e a apresentação de suas matérias de forma que os Homers possam entender, e quem, sabe tirar algum proveito. Ou você pensa que estamos vivendo um conto de fadas e que Homer é um personagem sem nenhuma relação com o mundo real? Use sua percepção e veja como as pessoas são frágeis e inconsistentes, tornando-se presas fáceis de qualquer prestidigitador, numa proporção assustadoramente alta. Em qualquer camada social, em qualquer grupo étnico, em qualquer igreja e em qualquer estado da federação. Um batalhão de Homers Simpson lutando pela subsistência sem saber exatamente o que está acontecendo, esperando o ônibus da história. Deus queira que não sejam atropelados e cheguem aos seus destinos sãos e salvos.

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