Os perigos do meio sucesso, por Roberto Campos

Hoje no ArcaReaça um artigo do valiosíssimo Roberto Campos. O economista, político, escritor e diplomata escrevia belos artigos tendo passado pela Revista VEJA, pelos jornais Folha e Estado de São Paulo. Um enorme acervo de Roberto Campos é mantido nesse site há muitos anos:http://pensadoresbrasileiros.home.comcast.net/~pensadoresbrasileiros/RobertoCampos/

O artigo para o ArcaReaça é daqueles que, tirando as menções fatuais necessárias à época, possui uma ideia geral baseada em princípios ainda válidos para hoje.

Os perigos do meio sucesso
Roberto Campos,  Veja, 30/9/98

Sempre acreditei que os países são salvos pelas grandes “vitórias” ou pelas grandes “derrotas”. O perigo é o “meio sucesso”. As grandes vitórias inspiram autoconfiança e são a vitamina de futuras realizações.

As grandes derrotas tornam a sociedade plástica para aceitar reformas. A desilusão torna-se a semente da transformação.

O problema brasileiro nas últimas décadas foi o “meio sucesso”. Por longo tempo, o Brasil conseguiu uma convivência entre alta inflação e rápido desenvolvimento. Enquanto a Europa nos anos 70 sofria de “estagnação”, nós tínhamos “crescinflação”. Com isso, a sociedade desenvolveu extraordinária tolerância para com a inflação.

Havia mesmo quem considerasse que um pouco de inflação era indispensável ao crescimento. E as esquerdas brasileiras nunca entenderam que na raiz da vergonhosa concentração de renda no Brasil estavam o governo (que descurou da educação básica) e a inflação (que expoliou indecentemente os pobres).

Outros países da América Latina jugularam a inflação antes de nós: a Argentina porque sofreu três hiperinflações; o Chile porque além da hiperinflação de Allende passou por uma guerra civil ideológica.

O Brasil foi também o mais lento e resistente nas privatizações. É também o resultado do “meio sucesso”. Criamos empresas estatais que, se ineficientes por parâmetros mundiais, pareciam razoavelmente eficazes no contexto latino-americano. Assim, a Petrossauro era tecnologicamente superior à YPF argentina (antes e privatizada) e à Pemex (cuja única vantagem era ser uma vaca leiteira para o Tesouro mexicano).

O Plano Real foi uma brilhante ginástica financeira assente em três pivôs: a âncora cambial, a desindexação (pela URV) e a política monetária restritiva de juros altos. A base fiscal, como o próprio nome o indica – Fundo Social de Emergência -, providenciou apenas um temporário equilíbrio. Fomos excepcionalmente beneficiados no início com a liquidez internacional, que permitiu ampla liberalização de importações, sem constrangimento cambial.

Mas a maldição do “meio sucesso” também persegue o Plano Real. Sendo êxito espetacular no estancamento da inflação, foi medíocre na reestruturação do Estado e das finanças. Houve rápido progresso nas reformas ideológicas, como a abolição dos monopólios estatais ou da discriminação contra empresas estrangeiras.

Com as privatizações, avançamos no “redimensionamento” do Estado, superando a falsa sacralidade estratégica que cercava a Vale do Rio Doce ou a Telebrás. Mas estamos atrasados na “reestruturação” do Estado, objeto das reformas previdenciária, fiscal e administrativa. Esse atraso se deve em parte à interferência da tese da reeleição, que dominou por algum tempo a agenda política. Em parte, houve demasiada complacência com o déficit público, porque a liquidez internacional permitia seu financiamento (aparentemente indolor) por capitais voláteis.

Hoje, as coisas mudaram. Estamos pagando as penalidades do “meio sucesso”. O mundo reconhece as grandes transformações estruturais da economia brasileira efetuadas por FHC. Mas, depois dos prejuízos decorrentes das crises asiática e russa, recusa-se a continuar financiando nossos déficits cambiais, vistos cada vez mais como esbórnia do governo e não como expansão produtiva do setor privado.

Completar o “meio sucesso” do Plano Real com um enérgico programa de austeridade fiscal é nossa principal tarefa pós-eleitoral. Não há mais espaço para gradualismo na redução do déficit, porque não há mais financiadores pacientes.

Austeridade fiscal não consiste em aumentar impostos, e sim em cortar gastos, simplificar o sistema e redistribuir mais eqüitativamente a carga fiscal. E, uma vez que estamos na era da informática, substituir o artesanato dos impostos declaratórios por impostos cobrados eletronicamente.

 

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3 comentários para “Os perigos do meio sucesso, por Roberto Campos

  1. Milton Valdameri

    Não há nada de genial neste artigo, há apenas o óbvio, mas quando a irracionalidade predomina o óbvio vira genialidade. É possível resumir o artigo da seguinte forma: se eu não são o quanto poderia ser pior, então foi bom, ou seja, ignora que poderia ser melhor para se conformar acreditando que poderia ser pior. Isto me lembra de uma piada (sem graça, mas é piada):

    O paciente teve a perna amputada, logo após acordar da anestesia, o médico fez uma visita e disse para o paciente: tenho duas noticias para você, uma boa e outra ruim. A ruim é que a perna que amputamos não é a perna que deveria ser amputada. A boa é que não será necessário amputar a perna que deveria ser amputada.

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  2. Alexandre R.

    Incrível como esse artigo continua atualíssimo quase quinze anos depois. Na verdade, se tínhamos meio sucesso em 98, após 2002 as coisas só pioraram estruturalmente.

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  3. Amilcar Molinari

    Excelente texto! que vai de encontro com a cultura do brasileiro em geral, outro dia li um artigo, infelizmente não lembro de quem, que dizia que o Brasil não quer ter sucesso, eu concordo com isso. Não há brilho nos olhos dos brasileiros pela diferenciação, pela evolução, pela vitória!! a não ser no futebol e no samba.
    Ter um sucesso medíocre faz parte da nossa cultura, infelizmente.

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