No último dia

Conto de Hans Christian Andersen. Traduzido por Pepita de Leão, ilustração de Nelson Boeira Faedrich
Coleção “Contos de Andersen”, Editora Globo – 1959. Grafia original mantida.
Parte da série especial em comemoração ao Dia das Crianças

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“No Último Dia”, ilustração de Nelson Boeira Faedrich

O dia mais sagrado entre todos os dias é aquêle em que teremos de morrer: o dia solene da transformação. Já pensaste seriamente nessa hora tremenda, inelutável e derradeira, que terás de passar nesta terra?

Era uma vez um homem, um fanático, como se costuma dizer, um dêsses que lutam pelo Verbo, que para êle era a Lei; um servidor zeloso de um Deus zeloso . . . E agora se achava a Morte ao pé da sua cama, a Morte, de rosto carrancudo.

— Chegou a tua hora. Tens de seguir-me — disse a Morte, tocando-lhe os pés com o dedo glacial.

Os pés do homem gelaram. A Morte tocou-lhe então a testa, depois o coração, que se despedaçou àquele contato A alma seguiu o anjo da Morte.

Entretanto, naqueles poucos segundos que se escoaram, durante o transe, passou, como passam as altas e negras ondas de um mar, pelo agonizante, tudo quanto a vida lhe trouxera, tudo quanto a vida nêle despertara. E assim, com um único olhar, devassa as profundezas insondáveis e abrange com o raio de um só pensamento o caminho incomensurável: desvenda, com um só olhar, num conjunto imenso, os enxames inumeráveis de astros, de globos e mundos, na vastidão do espaço.

Em semelhante momento, sente-se o pecador tomado de aflição: não lhe resta mais nada a que se apegar, e ele tem a sensação de que vai afundando num infinito vazio. Não assim o homem justo ; êsse reclina serenamente a cabeça, como uma criança resignada: “ Seja feita a Vossa vontade!”

O homem que ali estava morrendo, porém, não tinha alma de criança: sentia-se homem. Não se horrorizava, naquele momento, como o pecador; sabia que tinha a fé verdadeira. Observara os preceitos da religião em todo o seu rigor. Não ignorava que milhões de pessoas tinham de transpor a via larga que conduz à condenação : seria capaz de aniquilar-lhes os corpos a ferro e fogo, como são e serão sempre aniquiladas as suas almas. O seu caminho, porém. dirigia-se para o céu, onde a graça lhe abriria a porta a prometida graça.

E a alma acompanhou o anjo da Morte; mas antes, dirigiu ainda um último olhar para o leito onde jazia a imagem de barro, vestida com a mortalha branca, uma imagem estranha do seu próprio Eu…

Iam caminhando, e voando. Atravessavam uma vasta sala, mas essa sala era ao mesmo tempo um bosque; ali a natureza cerceada, amarrada, estacada e arranjada em fileiras— era, enfim, tratada artificialmente, como os antigos jardins franceses: era uma mascarada !

— Eis a vida humana! disse o anjo da Morte.

Todos andavam mais ou menos disfarçados. Nem todos os que trajavam veludos e se cobriam de ouro eram na verdade os mais nobres e mais poderosos; e nem todos os esfarrapados eram de fato os mais pobres e humildes. Que mascarada esquisita, aquela ! E – o que parecia mais estranho – cada pessoa trazia, escondida sob as vestes, alguma coisa que procurava furtar aos olhares das outras. Contudo, sacudiam-se uns aos outros, violentamente, para que o objeto escondido aparecesse ; via-se então apontar a cabeça de um animal a careta de um macaco, um bode grotesco, uma serpente viscosa, um peixe meio morto.

Era o animal que nos aflige a todos: o animal que se arraigou no homem. E todos aquêles animais iam pulando, dando saltos, na ânsia de avançar. Cada pessoa procurava cingir bem ao corpo a roupa, mas vinha outra que a afastava, gritando:

— Vejam, vejam! Olhem! Aqui está êle ! Aqui está ela !

E cada qual queria desnudar a miséria do outro.

— Que animal trazia eu? perguntou a alma peregrina.

O anjo da Morte apontou para um vulto soberbo que estava em frente dêles. Tinha a cercar-lhe a cabeça uma auréola brilhante e multicor; mas junto do coração do homem estavam ocultos os pés do animal: os pés de um pavão. A auréola era apenas a cauda cintilante da ave.

Continuaram a andar e ouviram vozes desagradáveis que se elevavam dos galhos das árvores; eram vozes humanas:

— Ó andarilho da Morte! Não te lembras de mim?

Eram os maus pensamentos, os maus desejos do tempo em que vivia, que lhe dirigiam aquela pergunta:

— Não te lembras de mim?

Por um momento a alma sentiu-se tomada de pavor: reconhecera as vozes, os maus pensamentos e desejos que assim se erguiam, como testemunhas em um tribunal. E exclamou:

— Na nossa carne, na nossa natureza perversa, nada existe de bom. Mas os maus pensamentos que havia em mim não chegaram a se concretizar em atos. O mundo não viu o mau fruto.

E tratou de se apressar, para escapar àquela vozearia importuna. Mas as grandes aves negras esvoaçavam em roda dela, gritando, como se quisessem dar a notícia ao mundo inteiro. A alma dava saltos, como um veado perseguido, mas a cada passo tropeçava em seixos pontiagudos, que lhe dilaceravam os pés, magoando-os dolorosamente.

— De onde vêm estas pedras que cobrem a terra, como folhas sêcas?

— São as palavras imprudentes que deixaste escapar. Elas feriram profundamente o coração do teu próximo – mais profundamente do que essas pedras te esfolam os pés !

— Eu não tinha essa intenção — disse a alma.

— Não julgues, para que não sejas julgado!  – bradou uma voz nos ares.

— Todos nós pecamos— exclamou a alma, tornando a erguer-se. — Observei a Lei, obedeci ao Evangelho, fiz o que pude, não sou como os outros…

Estavam então diante da porta do Céu, e o anjo que guardava a entrada perguntou:

— Quem és? Dize-me qual é tua fé, e comprova-a pelos teus atos !

— Cumpri rigorosamente todos os preceitos. Humilhei-me à vista do mundo. Odiei e persegui o mal e os maus.

—És, então, um dos sequazes de Maomé ?

— Eu? Não! Jamais!

“— Todos os que tomarem a espada morreräo à da”, diz o Filho. Tu não tens a sua crença. Serás, talvez, um filho de Israel, que dirá, como Moisés : “Olho por ôlho, dente por dente !” Um filho de Israel, cujo Deus zeloso é o deus sòmente do teu povo ?

— Sou cristão !

— Não o reconheço nem na tua fé, nem nos teus atos. A doutrina de Cristo é feita de reconciliação, amor e graça.

— Graça! — ecoou a voz pelo espaço infinito.

Abriu-se a porta do Céu, e a alma adejou para ir ao encontro daquela magnificência.

Mas a luz que dela irradiava era tão penetrante, tão deslumbrante, que a alma recuou, como se tivesse diante de si um gládio desembainhado. Soavam melodias tão suaves e tão comoventes, como nenhuma voz humana poderia desferir. A alma, tremendo, foi-se abaixando cada vez mais. Mas a claridade celestial penetrou-a, e ela sentiu e percebeu o que jamais sentira com tamanha fôrca: o pêso do seu orgulho, da sua dureza e dos seus pecados — fêz-se a luz no íntimo do seu ser.

– O que realizei de bom no mundo foi porque não pude proceder de outro modo: mas o mal que fiz . . . êsse vinha de mim mesmo !

E a alma, ofuscada pela luz celeste, tão pura, caiu desmaiada: tôda enovelada em si própria, abatida, estava ainda imatura para a bênção do Céu. E, lembrando-se do Deus severo e justo, não se atrevia a murmurar :

– Graça !

E foi então que veio a graça — a graça que esperava !

O Céu de Deus enchia o espaço infinito; o amor de Deus pulsava em todo êle, abundante e inesgotável. E as vozes cantaram:

— Ó alma humana ! Torna-te compassiva, santa, magnífica e eterna!

E todos nós – todos nós recuaremos tremendo, no último dia da nossa vida terrena, como aquela alma; recuaremos tremendo, diante do esplendor e da magnificiência do Reino Celestial; cairemos profundamente; havemos de nos prosternar em humildade. E todavia seremos erguidos pelo Seu amor, sustentados pela Sua graça. Esvoaçando por novas veredas, purificados, melhores e mais nobres, cada vez mais próximos da magnitude daquela luz, por ela fortalecidos, seremos capazes de subir até a eterna claridade!

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