As noivas-crianças do Boko Haram, grupo terrorista islâmico

Tradução com pequenas adaptações* da excelente reportagem de Stephanie Sinclair, do New York Times:

Após conquistar Bama, a segunda maior cidade do estado nigeriano de Borno, um pequeno grupo de terroristas da organização islâmica Boko Haram forçaram a entrada na casa com telhado de palha da família de Hawa, exigindo a garota de 15 anos como noiva.

“Meus pais se recusaram a me deixar partir e casar,” Hawa me disse em novembro. “Então eles mataram meus pais na minha frente.”

Eles então se viraram para seu avô. “O que você tem a dizer?” perguntaram os terroristas. Ele hesitou mas aceitou, e eles então lhe deram alguns milhares de “naira nigeriana”, moeda local, como parte do pagamento pela noiva. Aproximadamente R$ 35. Os homens então levaram Hawa.

Haha, 17 anos, foi sequestrada pelo Boko Haram quando tinha 15 anos. Os terroristas mataram seus pais quando eles se recusaram a liberá-la para o grupo.

Após invadirem Bama, os terroristas do Boko Haram vieram à minha casa, um deles me viu e disse “Eu quero casar com você.” Eu disse Eu não vou casar com você. Meus pais não vão me dar para você. Então ele disse “O.K., isso é fácil. Vou matá-los e então você terá que decidir.” Nós nos casamos na floresta de Sambisa. Três meses depois, ele veio me dizer que queria atacar uma comunidade. Meu marido foi assassinado neste ataque. Eu estava grávida naquele momento”.
YAKAKA, 17

“Eu estava aterrorizada,” disse Hawa, lembrando daquela noite em setembro de 2014.

Além dela outras 20 garotas, a maioria amigas e companheiras de aula, foram levadas para um dos acampamentos do grupo no meio da floresta de Sambisa que possui mais de 500 quilômetros quadrados.

Maimuna, 16 anos, tem um bebê de 6 anos cujo pai é um terrorista do Boko Haram

Após o início de sua insurgência contra o governo da Nigéria em 2009, o Boko Haram já avançou de sua base na floresta com bombas, assassinatos e sequestros  como parte do esforço para derrubar o governo e criar um Estado Islâmico.

Sequestros como o de Hawa não são incomuns no norte da Nigéria, embora o mundo todo só tenha tomado conhecimento disso quando o grupo sequestrou 276 alunas de seu alojamento na cidade de Chibok, em 2014. Sob o mantra “Devolvam Nossas Garotas”, o caso explodiu nas redes sociais. Porém, devido às poucas notícias daquela região remota, o interesse do público desapareceu.

Quase três anos depois, está mais claro que os sequestros de Chibok foram apenas uma parte de uma tática terrível: casamentos com crianças como arma de guerra.

Hassana e Hussaina, gêmeas de 14 anos que foram sequestradas quando tinham 11 anos e foram mantidas reféns por 2 anos. Elas conseguiram fugir após ouvirem boatos de seus iminentes casamentos com os criminosos do Boko Haram

A situação era insuportável. Eles matavam pessoas na nossa presença para que tivéssemos medo. Infelizmente, tivemos que deixar alguns amigos para trás. Nós torcíamos para encontrar soldados e esperávamos não tomar tiros quando eles nos vissem. Tínhamos perdido a esperança de que seríamos resgatadas. Nós procuramos por comida durante os sete dias que levamos para chegar a Maiduguri.
HASSANA, 14

De acordo com a ONG “Internation Crisis Group”, a relativa facilidade com que o Boko Haram conseguiu realizar os sequestros de Chibok encorajou o grupo. Com uma frequência cada vez maior, tanto crianças cristãs e, mais recentemente, muçulmanas, passaram a ser sequestradas, enfraquecendo as comunidades que se opunham às táticas brutais do grupo. Para atrair jovens recrutas e motivar os combatentes, o Boko Haram usa essas noivas como prêmios para os terroristas. Assim que essas garotas atingem a puberdade, casamentos forçados geralmente torna essas crianças em mães contra suas vontades. Seus filhos estão destinados a se tornarem a próxima geração de terroristas, crescendo sob a ideologia nefasta de seus pais.

Esse comércio por noivas crianças já era comum antes do conflito. De acordo com a ONG “Girls Not Brides” (Garotas, Não Noivas), uma parceria global de organizações cívicas, cerca de 43 por cento das garotas da Nigéria se casam antes dos 18 anos. No norte do país o índice é de 76 por cento. As garotas são forçadas em casamento geralmente por questões econômicas: uma boca a menos para alimentar em sua família de origem e fontes de trabalho, sexo e pagem para a família do noivo. Agora que a região está sendo destruída pela violência, que as escolas são fechadas e famílias empobrecem, mais e mais pais desesperados vêem casamentos precoces como uma forma de proteger suas filhas

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Dada, 14 anos, com sua filha. Ela foi sequestrada junto de sua irmã mais velha e conseguiu escapar há um ano, mas sua irmã não.

Eu nunca o considerei meu marido. Se eu gostasse dele, não teria fugido. Eu me sentia como um fantasma. Eu não tinha medo de escapar, estar viva naquele acampamento já era a pior coisa que poderia me acontecer.
DADA, 14

Numa tarde quente, num apertado escritório em Maiduguri, capital do estado de Borno, conversei sobre as garotas de Chibok, muitas supostamente já casadas com terroristas, com Engr Satomi Ahmad, o chefe executivo do órgão do Estado de Borno responsável pelo gerenciamento de emergências.

“Como chefe dessa agência, as garotas de Chibok, para mim, não representam nem 0,1 por cento do total das garotas sequestradas,” disse Ahmad.

Relatórios fornecidos pelo governo da Nigéria estimam que cerca de 9 mil mulheres e garotas foram sequestradas desde que o Boko Haram começou seus ataques. Satami Ahmad acredita existir ainda cerca de 13 mil sob domínio deles e não registradas, e provavelmente muitas mais em regiões perigosas demais para avaliar.

No último mês de novembro conversei com cerca de 30 garotas que foram sequestradas e forçadas a se casar com homens que estão entre os mais violentos do mundo. Elas relatam casos em que foram mantidas em cativeiros por meses, de amigos que foram queimados vivos, de serem forçadas a se casar e serem molestadas sexualmente por homens que “fediam a sangue”.

Balkisu, 16 anos, foi sequestrada quando tinha 14 e mantida em cativeiro por 15 meses na selva.

Minha amiga morreu quando dava à luz. Quando a vi morrer, decidi escapar. Quando cheguei em casa, descobri que estava carregando uma criança morta. Eu adoraria ter conseguido dar à luz e cuidar daquele bebê.
BALKISU, 16

Gogogi, 15 anos, foi sequestrada e teve de se casar com um terrorista. Ela conseguiu escapar com sua bebê.

Eles sequestraram todas as garotas da vila. Nos colocaram em uma grande casa e nos casamos após duas semanas. Após minha primeira tentativa de fuga, eles me encontraram e ameaçaram matar minha mãe, que me escondia. Eles ponderaram entre me matar ou me bater e por fim decidiram me açoitar. Eu estava grávida.
GOGOGI, 15

Elas descreveram os riscos que correram para se libertar: correr sob tiros e batalhas, às vezes grávidas ou carregando bebês, cruzando rios, andando por dias sem comida ou água e temendo ser encontradas mesmo após chegarem a algum lugar seguro.

Hawa não sabe quanto tempo passou no acampamento do Boko Haram no mato, mas foi tempo o bastante para dar à luz um bebê, que ela batizou Mubarak. A criança tinha cerca de 6 meses quando Hawa, agora com 17, escapou. Mas a jornada de volta troxe uma nova tragédia: durante a longa caminhada até Maiduguri, o bebê morreu.

“Eu não tinha leite o suficiente para alimentá-lo”, disse Hawa.

A vida fora do cativeiro tem suas próprias privações para as garotas chamadas de “Noivas do Boko Haram”. Os outros nigerianos suspeitam de suas lealdades após tanto tempo em cativeiro.

O uso de crianças pelos terroristas como homens-bomba – 75 por cento delas garotas – aumenta a atmosfera de medo e desconfiança, gerando um devastador efeito cascata para as garotas que escapam..

Aisha A., 15 anos, segura sua filha de um ano chamada Hadiza, que nasceu em cativeiro

Fui sequestrada de minha casa na noite. Eu estava apenas andando pelo bairro quando os terrroristas vieram e me forçara a subir na moto.  Eu havia casado há um semana. Meu bebê nasceu na floresta. Os terroristas anularam aquele casamento e casei novamente com um deles. Voltei ao meu marido quando consegui fugir. Ele me aceitou de volta.
AISHA A., 15

“Alguns nos culpam, outros não nos querem por perto” disse Aisha I, de 17 anos. Após três anos e meio em cativeiro, ela chegou a Maiduguri sem lar e grávida de três meses.

Como as outras ex-sequestradas com quem falei, Aisha e Hawa se encontram sem formação escolar, dinheiro, apoio familiar ou qualquer pessoa a ajudá-las a se reintegrar pacificamente e em segurança à sociedade. De fato, aprendi após entrevistar representantes de várias organizações globais, poucos sequer sabiam que as garotas que escaparam estavam vivendo em Maiduguri.

Por que ninguém está ajudando na busca das garotas desaparecidas da Nigéria, sejam aquelas que estão na floresta ou aquelas que escaparam? O esforço e os recursos estão focados nas 276 garotas. Líderes do Boko Haram alegam que as garotas que eles sequestraram não querem voltar para casa. Mas representantes do governo e fugitivas com quem falei dizem o contrário.

Em minha última manhã em Maiduguri, fui me despedir de Aisha. A luz entrou no quarto simples em que ela vive, e a vi preparar chá, organizar seus poucos pertences e cuidar de seu filho. Cada tarefa é um pequeno passo rumo a uma vida que ela espera um dia reconstruir.

“Meu sonho para o futuro é que Deus me ajude”, disse Aisha. “E que aqueles que ainda estão na floresta consigam escapar.”

 

* Na reportagem, os membros do Boko Haram são chamados de guerreiros ou insurgentes. Aqui, preferi o termo terroristas. A reportagem original pode ser lida neste link.

 

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