A Menina Judia

Conto de Hans Christian Andersen. Traduzido por Pepita de Leão, ilustração de Nelson Boeira Faedrich
Coleção “Contos de Andersen”, Editora Globo – 1959. Grafia original mantida.
Parte da série especial em comemoração ao Dia das Crianças

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Ilustração de Nelson Boeira Faedrich

Na escola das crianças pobres, entre os outros alunos, achava-se uma menina judia.

Era uma criança boa e viva, e a mais atilada de toda a classe. Mas tinha de ser excluída de uma aula: não podia tomar parte na lição de religião, porque a escola era cristã.

Durante aquela aula podia ela abrir o seu compêndio de geografia, ou resolver o problema do dia seguinte. Mas terminado este, e sabida também a lição de geografia, deixava o livro aberto e punha-se a escutar. Ouvia, silenciosa, as palavras do professor cristão; e ele não tardou em notar que ela prestava mais atenção do que as outras crianças.

– Lê o teu livro, Sara – disse um dia o professor com voz branda, mas firme.

Contudo os olhos da menina, aqueles olhos pretos, tão brilhantes, continuavam fixos nele. E quando um dia lhe fêz uma pergunta, viu que Sara sabia responder melhor do que todas as outras. Ela ouvira, entendera, e gravara profundamente no coração tudo quanto êle dissera.

Seu pai era um homem pobre e honesto; ao matricular a menina, impusera a condição de que ficaria excluída do ensino da religião cristã. Contudo, para evitar que surgisse alguma perturbação ou alguma dificuldade entre
outras crianças, a afastavam da classe durante essas lições, permitindo-lhe que ficasse na sala. Agora, aquilo não podia continuar assim.

O professor foi falar com o pai e explicou-lhe que devia retirar a menina daquela escola, corria risco de se tornar cristã. E declarou:

— Já não posso contar como espectadores indiferentes aquêles olhos radiantes da menina; ela demonstra grande fêrvor, e uma alma sedenta das palavras do Evangelho.

Derramando lágrimas, o pai respondeu:

— Eu mesmo sei muito pouco acêrca dos preceitos dos meus antepassados. Mas a mãe de Sara era uma filha de Israel que possuía uma fé firme, e, quando estava morrer, jurei-lhe que nossa filha nunca se batizaria. Tenho de cumprir o meu juramento, que para mim vale por uma uniäo com Deus!

E a menina judia saiu da escola dos cristãos.

* * *

Correram anos.

Em uma cidade pequenina da província, servia numa casa humilde uma pobre moça israelita. Tinha cabelo prêto como o ébano e olhos escuros como a noite; mas eram tão cheios de brilho e de luz como costumam ser os olhos da filhas do Oriente. Era Sara. Conservava no rosto aquela mesma expressáo da criança que se sentava na carteira da classe a escutar, pensativa, as palavras do professor cristão.

Todos os domingos o som do órgäo da igreja e do canto da congregacäo atravessava a rua e inundava a casa onde a moça judia, em tudo diligente e fiel, se entregava aos seus trabalhos. Uma voz interior dizia-lhe: “Guardará o sábado.” Era a voz da Lei. Mas o seu sábado era para os cristãos um dia útil, e parecia-lhe que aquilo não bastava. E do íntimo da alma subia uma pergunta:

– Deus também contará os dias e as horas?

E, depois que essa idéia lhe ocorrera, consolava-se ao pensar que a hora da oração era menos perturbada no domingo dos cristãos. E então, quando entravam pela cozinha onde trabalhava os sons do órgão e dos hinos, até aquêle lugar se tornava sagrado para ela. E punha-se ler naqueles instantes o Velho Testamento, tesouro e esteio de seu povo — mas lia somente o Antigo. O que lhe haviam dito o pai e o professor, quando ela deixou a esco1a, o juramento que o pai fizera à mãe agonizante — que a filha jamais receberia o batismo cristão, que ela nunca renegaria a fé dos antepassados— tudo isso permanecia gravado o íntimo da alma. O Novo Testamento devia ser para ela um livro selado; e contudo sabia tanta coisa daquele livro! O Evangelho ecoava-lhe na alma, juntamente com as lembranças da infância.

Uma noite estava sentada a um canto da sala; o patrão lia em voz alta, e ela podia escutar tranquilamente, pois que êle não lia o Evangelho, mas um velho livro de histórias. Tinha pois o direito de ouvir a leitura.

Contava o livro, a história de um cavalheiro húngaro que fôra feito prisioneiro por um paxá turco. O paxá mandou jungir o prisioneiro ao arado, juntamente com os bois, e ordenou que o açoitassem e torturassem, em meio de zombarias, até que caísse de inanição. A espôsa leal do cavalheiro vendeu suas jóias, penhorou o castelo e as terras; os amigos do cavalheiro reuniram grandes somas pois o resgate exigido era uma quantia quase astronômica. Conseguiram, porém, reuni-la e o cavalheiro foi resgatado da escravidão e da ignomínia. Enfêrmo e combalido chegou à pátria; mas logo atroou* os ares um chamado geral, para a luta contra o inimigo da cristandade. O cavalheiro ouviu o chamado, e nada pôde retê-lo. Não descansou um só dia. Ordenou que o montassem no seu cavalo de batalha. Voltou-lhe a côr às faces ; parecia que recuperara as fôrças perdidas, quando partiu para o combate, para a vitória.

E aquêle mesmo paxá que mandara atrelá-lo à charrua caiu-lhe nas mãos, prisioneiro, e foi encarcerado nas morras do castelo. Mas menos de uma hora depois, lá ia o cavalheiro falar-lhe:

— Sabes o que te espera?

— Sim, a tua vingança.

—É verdade, mas é a vingança de um cristão. A doutrina do Cristo manda-nos perdoar o inimigo, pois Deus é amor. Vai-te em paz! Parte para a tua terra! Devolvo-te aos teus. Mas daqui em diante procede com humanidade e brandura com os que padecem !

Ouvindo aquelas palavras, o prisioneiro rompeu em pranto e exclamações :

— Como poderia eu imaginar que havia no mundo tamanha brandura? Estava certo de que me esperavam tormentos ignominiosos, por isso tomei o veneno que trouxe escondido. Dentro de poucas horas sucumbirei ao seu efeito. Tenho de morrer, não há salvação. Mas antes de morrer desejo que me comuniques a doutrina de que dimana tamanha abundância de amor e de clemência, porque deve ser grande e divina! Deixa-me morrer nessa doutrina, como um cristão.

E foi feita a sua vontade.

Essa era a que o patrão leu no velho livro de histórias. Todos a escutavam com grande interêsse. Mas a que lá estava sentada, em silêncio no seu canto, essa sentia-se inflamada. Grossas lágrimas inundavam-lhe os negros e brilhantes olhos. E ali ficou, piedosa e simples, como outrora na carteira da classe, sentindo a magnitude dos Evangelhos, enquanto as lágrimas lhe iam rolando pelas faces. Contudo, as últimas palavras da mãe agonizante tornaram a lhe soar dentro do coração:

“Não permitas que minha filha se torne cristã.”

E com elas soava também o mandamento:

—Honrarás pai e mãe!”

— Não, eu não sou admitida na comunidade dos cristãos – disse ela consigo. — Chamam-me “judia suja”. Os meninos do vizinho assim disseram no domingo, quando fiquei parada diante da porta aþerta da igreja, vendo os círios chamejarem e o canto da congregação. Desde os tempos da escola experimento o poder do Cristianismo, um poder que se ašsemelha a um raio de sol; por mais que eu cerre os olhos, êle me ilumina o coração! Contudo, não te magoarei no teu túmulo, minha mãe. Não faltarei ao juramento que meu pai fêz: não lerei a Bíblia cristã. Tenho o Deus dos meus antepassados e ficarei com Êle…

* * *

Mais uma vez correram anos.

Morreu o patrão. A viúva ficou sem recursos. Queriam despedir a criada, mas Sara não abandonou a casa. Foi um esteio, na miséria; mantinha tudo em ordem, trabalhava até altas horas da noite, ganhando com o seu esfôrco o pão de cada dia. Não apareceu nenhum parente para ajudar a família, e a viúva ia ficando cada vez mais fraca, e passou na cama meses inteiros. Sara trabalhava, e também ia sentar-se ao pé do leito da enfêrma, dela cuidando, velando por tudo. Era piedosa — era um anjo de bênção, naquela pobre casa.

Um dia a doente disse-lhe:

— Ali está a Bíblia, sôbre a mesa, Sara. Lê-me um pouco . . . A noite me parece tão longa, tão longa . . . e meu coração tem sêde da palavra de Deus.

E Sara, curvando a cabeça, pegou no livro. Uniu as mãos em tôrno da Bíblia dos cristãos, abriu-a e leu para a doente. A cada passo sentia os olhos rasos de lágrimas, mas êles luziam e cintilavam, enquanto no seu coração ia fazendo-se a luz.

— Mãe ! — disse ela baixinho. —— Tua filha não deve receber o batismo dos cristãos; não deve ser recebida na comunhão dêles. Assim o determinaste, e eu hei de honrar a tua vontade. Quanto à vida neste mundo, estou de acôrdo contigo. Mas para além desta terra, mais além, existe uma união mais sublime, em Deus, que nos conduz e guia para além da morte. Assim o compreendo. Não sei mesmo como foi que aprendi a compreender, mas foi por intermédio de Cristo.

Estremeceu ao pronunciar o nome sagrado, e desceu sobre ela um batismo, como se fossem labaredas de fogo que se lhe apoderavam de todo o corpo. Ela torcia-se, em convulsões; os membros perdiam a fôrça. Caiu desmaiada mais fraca do que a enfêrma que estava cuidando.

Pobre da Sara ! — diziam todos. — Está exausta pelo trabalho e pelas vigílias.

Levaram-na para o hospital dos pobres. Lá morreu, e foi levada para o túmulo — não no cemitério dos cristäos, onde não havia lugar para a moça judia. Foi enterrada fora do muro.

Mas o sol de Deus, que brilha sôbre os jazigos dos cristãos, lança sua luz também sôbre o túmulo da judia, lá fora, junto do muro. E quando ressoam os salmos no cemitério cristão, vão êles ecoar também por sôbre o túmulo solitário.

Também àquela morta destina-se o chamado da ressurreição, em nome de Cristo, Nosso Senhor, que disse aos seus discípulos :

“João certamente batizou com água: mas vós sereis batizados com o Espírito Santo.”

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