A Margarida

Conto de Hans Christian Andersen. Traduzido por Pepita de Leão, ilustração de Roswitha Wingen-Bitterlich
Coleção “Contos de Andersen”, Editora Globo – 1959. Grafia original mantida.
Parte da série especial em comemoração ao Dia das Crianças

amargarida_andersen2-2Escuta a minha história !
Lá no campo, à beira da estrada, há um chalèzinho de veraneio; e sabes que na frente do chalé fica o jardinzinho, cheio de flores, fechado por uma cerquinha de sarrafos brancos, não é? Pois em um montículo de terra, fora da cerquinha, no meio da grama verde e fresca, nasceu uma margarida. O sol espalhava seus raios quentes e brilhantes por igual sôbre as grandes e esplêndidas flores do jardim e sôbre a margarida, e por isso ela cresceu ràpidamente; e foi assim que uma manhã estava completamente desabrochada, com suas delicadas pétalas alvas e lustrosas, que cercavam o pequenino sol amarelo do centro.

Nunca a florzinha se lembrou de que ninguém a via, assim escondida no meio da relva; vivia contente. Voltava-se para o sol que a aquecia, olhava para êle. e ouvia o rouxinol que cantava no ar.

A margarida sentia-se tão feliz como se fôsse um dia de grande festa, e contudo era apenas segunda-feira. Tôdas as crianças estavam na escola; e enquanto lá estavam, sentadas nos bancos, aprendendo as lições, a florzinha, na sua haste verde, aprendia com o sol ardente e com tudo o que a rodeava, como Deus é bom.
Entretanto o pequenino rouxinol exprimia clara e lindamente tudo o que ela sentia em silêncio! E a flor olhava para cima com uma espécie de respeito para o feliz passarinho, que podia voar e cantar. Não se entristecia de não poder fazer o mesmo, porque pensava:
– Posso ver e ouvir; o sol brilha e me aquece, e o vento me beija. Oh! Sou abençoada com tamanha riqueza!

Lá dentro do jardim cercado erguiam-se algumas flores grandes e de haste rígida; e quanto menos fragrantes, mais orgulhosas eram! As peônias enchiam-se de vento, para ver se ficavam maiores do que as rosas. As tulipas ostentavam as côres mais alegres de tôdas; e, como sabiam disso, erguiam-se direitas como velas, vara serem bem vistas de todos. Nem sequer sabiam da existência da florzinha que vivia fora do cercado, e que olhava sempre para elas, dizendo consigo:

– Como são lindas! E ricas! Sim, aquêle nobre passarinho certamente vai descer para vê-las. Como sou feliz por viver tão perto delas e poder ver tanta beleza !

Justamente nesse momento ouviu um ruído que vinha do alto.

E o rouxinol voou para o chão; contudo não procurou as peônias e tulipas; não, êle voou para a humilde margaridinha da grama, que até se assustou, de alegria. Não sabia o que havia de pensar daquilo, tão surpreendida.

O passarinho ia saltando em roda e cantando:

—Oh! Que relva macia! E que linda florzinha, com o coração de ouro e tôda vestida de prata!

Porque o centro amarelo da margarida parecia mesmo de ouro, e as pequeninas pétalas que o cercavam brilhavam como alva prata.

E que feliz era ela! Ninguém pode imaginar como era feliz. O passarinho beijou-a com o bico, cantou para ela, e depois tornou a subir para o céu azul. E passou-se um quarto de hora inteirinho, antes que a flor se recobrasse. Meio vexada, e ainda cheia de felicidade, olhou para as outras flores, as do jardim; certamente tinham visto a honra e a felicidade que lhe tinham sido conferidas, e deviam saber como se sentia feliz. Mas as tulipas esticavam-se, com o dôbro da rigidez anterior, e tinham as faces vermelhas de raiva. Quanto às broncas peônias, era bom, na verdade, que não pudessem falar, porque senão a pequenina margarida não havia de ouvir coisas muito agradáveis. Bem via a pobre florzinha que estavam tôdas de mau humor e isso muito a afligiu.

Logo depois entrou no jardim uma menina, trazendo uma faca brilhante e aguçada; foi para as tulipas e cortou-as, uma por uma.

—Ai! Que coisa horrível!— suspirou a margarida; agora para elas está tudo acabado!

A menina foi embora, levando as tulipas. E a margarida ficou muito alegre de ter nascido na grama, fora do cercado, e de ser uma florzinha desprezada! Sentia-se realmente grata por isso; e quando o sol se escondeu poente, dobrou as pétalas e adormeceu, e sonhou tôda a noite com o sol e com o lindo passarinho.

No outro dia, quando a nossa pequenina flor, fresca e cheia de alegria, tornou a abrir suas brancas pétalas para o sol brilhante e o claro ar azulado, ouviu a voz do passarinho; mas seu canto era triste. E o pobre rouxinol tinha razão para estar triste: fôra apanhado em um laço e pôsto em uma gaiola perto da janela aberta. Êle cantava, cantava as alegrias do vôo livre e ilimitado; cantava a beleza do trigo novo nos campos e o prazer de alçar-se no espaço sem fim. O pobre passarinho era certamente muito infeliz — prisioneiro naquela gaiolinha estreita!

Bem quisera — e com que vontade! — a pequenina margarida ajudá-lo, mas que podia ela fazer? Não o sabia, não: mas esqueceu imediatamente como tudo era lindo ao redor dela, como o sol brilhava, e esqueceu-se até da alvura e beleza de suas pétalas. Ela só pensava agora no passarinho prisioneiro, ao qual não podia auxiliar de modo algum.

Saíram do jardim dois meninozinhos; um trazia na mão uma faca, aquela com que a menina tinha cortado as tulipas. Foram direito à pequenina margarida, que não podia imaginar o que pretendiam fazer. E um dêles disse :

— Aqui podemos cortar um lindo torrão para o rouxinol.

E começou a cortar fundo ao redor da margarida, deixando-a no centro do torrão.

— Arranca a flor — disse o outro.

A margaridinha estremeceu de mêdo, porque sabia que se fôsse arrancada morreria, e desejava tanto viver, pois que ia ser posta dentro da gaiola do rouxinol!

— Não, deixa-a aí! — disse o primeiro. — É tão bonita !

E assim foi: deixaram-na ali, e foi posta dentro da gaiola.

Mas o pobre passarinho lamentava a perda da liberdade, batendo as asas contra os arames da gaiola; e a florzinha não podia falar — não podia dizer uma só palavra de confôrto, como tanto desejava . . . E assim se passou tôda a manhã.

— Não há água aqui! — gemia o rouxinol cativo ; foram embora e esqueceram-se de mim; nem uma só gôta de água para beber! Tenho a garganta sêca e ardente! Tenho fogo e gêlo dentro do corpo! E não posso respirar! Ai! Vou morrer! Tenho de deixar. o calor do sol, as frescas árvores verdes, tôdas as lindas coisas que Deus criou!

Meteu o bico na relva fresca, para se refrescar um pouco . . . e então avistou a margarida; cumprimentou-a, beijou-a com o biquinho e disse-lhe:

– Tu também, tu também, pobre florzinha, vais murchar e secar aqui! Cada talinho, cada folhinha de relva, há de ser para mim como uma árvore verde, e cada uma de tuas pétalas brancas, como uma flor perfumada! Mas ah! Tu me avivas ainda mais a recordação do
que perdi!

Se eu pudesse consolá-lo! -— pensava a margarida.
Contudo não podia mover uma pétala . . . mas o passarinho notou a sua dedicação e, ainda que tivesse despedacado as folhinhas de relva, na angústia da sêde, não tocou na flor.

Chegou a hora do crepúsculo, mas ninguém trouxe para o pobre passarinho uma gôta d’água; êle distendia as lindas asas, batendo-as convulsivamente; seu canto era um gemido lamentoso; a cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coraçãozinho despedaçou-se de sêde e de angústia. Agora a flor não podia, como fizera na véspera, fechar as pétalas para dormir: triste e aflita, pendeu para o chão.

Os meninos só apareceram na manhã seguinte; e quando acharam o passarinho morto, choraram muitas lágrimas. Cavaram um pequenino túmulo, que adornaram de pétalas de flores; meteram o cadáver em uma caixinha vermelha, muito linda — e foi um entêrro principesco, o entêrro do pobre passarinho!

Enquanto êle ainda vivia e cantava, esqueceram-no – deixaram-no padecer na sua gaiola — e agora, que estava morto, cobriam-no de enfeites e de lágrimas.

Mas o torrão de terra com a margarida, êsse foi atirado à estrada: ninguém se lembrou daquela que mais lamentara a sorte do pobre rouxinol e que tanto desejara consolá-lo.amargarida_andersen-2

Loading...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *