A lei da alternância está presente nos fatos da história

Trazemos hoje para o Arca Reaça um trecho bem curto do excelente livro “Filosofia da Crise”, de Mário Ferreira dos Santos. O texto é uma brilhante análise da história vista de uma forma mais ampla e com uma  surpreendente atualidade para o nosso cenário político e também (quem dera!) filosófico e cultural: há um cansaço e exaustão das práticas petistas e começam a surgir cada vez mais influentes contestações ao amplo predomínio comunista e revolucionário no meio intelectual nacional.

O trecho e a  nota do autor estão presentes no capítulo “As fases cráticas na História” (o “crática” usado no título do capítulo é derivado de “cratos”, poder em grego como dito pelo autor). Se servem para melhor observar a queda já citada anteriormente, devem também ser lidos com atenção por muitos que se ludibriam com sucesso relativo de algumas visões doutrinárias que encontram eco numericamente relevante na internet mas, vistas no cenário real da luta pelo poder e que obviamente se dá na vida prática, ainda estão engatinhando para quererem já dar grandes saltos.

A lei da alternância está presente nos fatos da história.

Dá-se o absolutismo naquele momento em que a força natural de uma doutrina ou de uma forma crática vacila, e o emprego dos meios, para dar-lhe coesão, facilita o ingresso de representantes menos categorizados. Se observarmos os nossos dias, veremos a riqueza de exemplos que eles nos oferecem. Toda forma crática, que se apresenta para orientar a sociedade, em seu início, é ela encabeçada por verdadeiros idealistas, que atuam em toda a sua pureza formal. Com o decorrer do tempo, há sempre um marchar para as formas inferiores, e daí surgirem as frases que constantemente se repetem: “Não é essa a forma que eu sonhara”.

E tal se dá, porque a posse do poder é acompanhada de certos benefícios que atiçam a ambição de muitos, que o olham mais como fim do que como meio, e aspiram ao poder para usufruí-los. A política, que é uma técnica de harmonizar os interesses individuais com os sociais, passa, nesses momentos, a ser uma técnica de conquista do poder e de conservação do mesmo. E, nesse instante, os meios substituem os fins, e a marcha para a decadência é inevitável. Por isso, há sempre uma crise histórica, porque há sempre separação entre os que governam e os que são governados, e a luta pelo poder é um constante agravamento da crise.

 *O processo cíclico de uma estrutura ideológica ou de uma tensão cultural, apresenta, sempre, em suas fases (…)os seguintes representantes: de início, os idealistas, juvenis, entusiastas propugnadores, a seguir, os pioneiros, que realizam as primeiras obras, os heróis, os cavaleiros andantes da idéias. Seguem-se depois os realizadores práticos, que correspondem ao período clássico e, finalmente, os absolutistas, que surgem quando a coerência intrínseca do ciclo histórico enfraqueceu e é substituída por uma coesão imposta, por uma universalização coativa, período de absolutismo, de cesarismo, que marca o fim do processo evolutivo, e a inevitável decadência.

Ilustração de Cido Gonçalves originalmente publicada na revista Dicta & Contradicta

Ilustração de Cido Gonçalves originalmente publicada na revista Dicta & Contradicta

Um comentário para “A lei da alternância está presente nos fatos da história

  1. Jorge Carreiro

    Excelente excerto! Excelente lembrança sobre um dos nosso maiores intelectuais tão forçosamente esquecido neste novo e paupérrimo academicismo nacional.

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