Aprendendo economia com a Black Friday carioca

Uma lição urgente de teoria econômica para certos jornalistas de um não economista. Sim, eu sei que eles não vão ler, mas vá lá.

Começou no Rio a promoção de aniversário do Supermercado Guanabara. É um evento da cidade que gera imagens com as da Black Friday americana: filas enormes na porta desde a madrugada e depois uma multidão de consumidores invadindo as lojas e comprando tudo que encontram pela frente.

O jornalismo do Bananão já começou a publicar, entre um “Cunha” e outro, matérias e posts dizendo “cadê a crise?”, como se a crise fosse apenas uma criação maquiavélica de empresários malvadões que querem desestabilizar o governo. Basta um desses capitalistas gananciosos baixar os preços que a crise desaparece.

Queridos, tio Borges vai contar um pequeno segredo procês: baixar preços é a solução LIBERAL contra a crise. Quem não deixa preço baixar na crise são os socialistas que vocês apóiam no governo e a atual política econômica. Me acompanhem por favor.

Recessão para essa turma do governo e da imprensa é um problema de “expectativas” e de “falta de estímulos”. Eles acreditam que há algo de esotérico ou conspiratório nas crises, elas nasceriam ninguém sabe bem onde, como num passe de mágica ou por conta de “pessimismo” disseminado por motivos políticos para minar governos socialistas. O mau humor se espalha e faz com que todos os empresários, e não apenas os participantes do golpe, fiquem receosos e não invistam, cortem crédito, demitam, criando um círculo vicioso recessivo. O governo cai, eles colocam lá um deles e a economia volta a funcionar. Sim, dá uma preguiça enorme, mas eles realmente acreditam nisso.

O que estes socialistas recomendam para combater a crise? “Estímulos” à demanda. Funciona assim: o Banco Central reduz as taxas básicas de juros com uma canetada, tornando o investimento de longo prazo menos atrativo e empurrando tudo para o consumo imediato. Na outra ponta, o governo força bancos públicos e privados para uma explosão de crédito ao consumidor, que com dinheiro na mão compra os produtos encalhados, a indústria volta a produzir e o ciclo pessimista é vencido pela intervenção “anticíclica” do estado na economia. “É por isso que o governo precisa controlar e regular a economia, liberais!”

Há também ferramentas complementares que eles usam: implementar medidas protecionistas contra importados, tolerar aumento de inflação, fazer investimentos públicos em obras de infraestrutura, abrir linhas de crédito subsidiadas para empresas privadas criando “campeões nacionais”, fazer contratação em massa de funcionários públicos e por aí vai.

Ao fazer esses pacotaços, é claro que num primeiro momento a economia é “estimulada”, o PIB dá um salto, o desemprego cai, o varejo volta a vender, mas as conseqüências a médio e longo prazos são desastrosas como estamos vendo, como sempre vemos quando esse tipo de feitiçaria é aplicada.

“Ah, seu conservador, então qual é a solução?”

Caro pixuleco, sem entrar em tecnicalidades, entenda que uma recessão é normalmente (com exceções, claro) sintoma de uma perda de competitividade da economia, um desajuste entre produtores e consumidores, entre oferta e demanda. Não é a única razão, mas é um dos fatores que mais contribuem.

O cidadão vê um quarto e sala em Copabacana, por exemplo, e o corretor diz que custa um milhão de reais. O interessado não compra e todo mundo sai gritando “crise!” quando na verdade há um consumidor em potencial que apenas achou o preço alto demais.

“Mas um milhão é o preço de mercado!”

Preços flutuam, o preço de um produto numa economia livre (e essa é a sua maior força) é fixado pelo consumidor, o produto vale tanto quanto o consumidor está disposto a pagar. Se os consumidores em geral avaliam que aquele apartamento vale 500 mil e estão dispostos a pagar 500 mil, ele VALE 500 mil.

“Só que o dono do imóvel comprou por 900 mil, se vender por 500 mil ele terá prejuízo”

Se comprou o imóvel por um preço e ele se desvalorizou, ninguém pode ser culpado pelo erro de cálculo, é um investimento de risco como qualquer outro. Ele só vai “realizar a perda” se vender por 500 mil, é uma opção que ele tem, mas o dono do imóvel pode também não vender esperando uma valorização futura. É assim que a economia livre funciona.

“Até agora não entendi o que o governo e os socialistas têm a ver com isso”

O problema é o governo querer se meter nesse momento e dizer “ok, vou fazer o Banco do Brasil financiar o imóvel por R$ 1 milhão para estimular a economia”. No discurso parece algo positivo, mas na vida real o que o governo está fazendo é mantendo o preço alto artificialmente para salvar um mau investimento de um dono de imóvel às custas de toda sociedade e do comprador em particular, já que ele vai assumir uma dívida de um imóvel por R$ 1 milhão quando ele “vale” 500 mil, o que é uma brutal transferência de renda do consumidor para o dono do imóvel. É uma medida concentradora de renda!

“Mas o dono do imóvel comprou caro induzido pelo governo, agora vai ficar com o mico na mão?”

Infelizmente alguém vai, mas que sirva de lição para não confiar em governos e, principalmente, não eleger políticos que apóiam intervenção estatal na economia. Numa crise, há realmente uma reavaliação dos preços dos ativos e essa é a única maneira sustentável de vencer a crise. Ao sair da recessão, a sociedade estará mais experiente e menos propensa a embarcar em novas aventuras.

Esse exemplo do imóvel ilustra em parte o que aconteceu na economia brasileira como um todo nos últimos anos (sim, sei que há outros fatores como a alta do dólar, por exemplo). Ao criar um bolha de crédito, o governo fez com que uma quantidade enorme de dinheiro fosse transferida para empresários que venderam produtos artificialmente caros, com margens de lucro injustificáveis (suficientes para dividir uma parte com os companheiros na política), enquanto o consumidor ficou com uma dívida que vai ter sérias dificuldades para pagar e com um produto que não vai conseguir revender pelo preço pago. Quando milhões de consumidores perdem a capacidade de pagar seus empréstimos, o governo entra novamente para “salvar os bancos” às custas de toda sociedade e ainda colocar a culpa no “capitalismo”, quando a culpa é evidentemente do intervencionismo.

Tudo isso seria evitado se o governo simplesmente não se metesse. Os liberais sabem que produtos encalhados não significam necessariamente falta de capacidade de pagamento dos consumidores, muitas vezes é apenas falta de vontade de comprar os produtos pelos preços atuais. Com a queda dos preços, as vendas voltam de uma maneira natural e espontânea, reajustando a economia sem pacotes, sem a criação de uma nação de endividados e de uma meia dúzia de empresários beneficiados pela ajuda dos companheiros no governo.

Numa crise, o consumidor naturalmente realiza substituições: se o produto A está caro, ele compra o produto B. O produto A encalha e força o vendedor a baixar o preço para desovar o estoque, além de premiar o vendedor do produto B que está sendo oferecido por preço mais competitivo. Se o governo se mete para tabelar o preço do produto A nas alturas, o competidor mais eficiente vende menos e o consumidor acaba transferindo renda para o produtor ineficiente do produto A. Tudo errado.

Se você um dia ouvir falar em “Supply Side Economics” (Economia pelo lado da oferta), que é a política econômica que marcou o governo Reagan, ela guarda um parentesco com esse mesmo raciocínio: com menos intervenção, menos impostos, os empreendedores vão à luta e brigam entre si pelo consumidor fazendo a economia cada vez mais eficiente. Os intervencionistas acham que isso é “concorrência predatória” e preferem tabelar preços, fazer acordos setoriais, barreiras protecionistas e, claro, dar choques de crédito quando os produtos encalham.

Quando o Supermercado Guanabara baixa os preços e há uma corrida às suas lojas, ele está provando que a solução liberal é a melhor, já que há sempre consumidores para produtos com preços percebidos como baixos. O maior estímulo para uma economia é, portanto, cortar impostos e gastos públicos, diminuir as regulações paralisantes e deixar de criar pacotes de estímulos. A economia sabe se virar e se ajustar quando o governo não se mete.

Sei que é impossível explicar isso para os socialistas, mas não custa tentar mais uma vez: é o governo intervencionista que mantém os preços artificialmente altos, tranferindo renda do consumidor para meia dúzia de empresários e criando um país de endividados. Eles não inventaram isso, é exatamente como funcionava a economia da Itália fascista, o tal “estado corporativo” de Mussolini.

No dia que o país entender isso teremos alguma chance de crescimento sustentável.

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6 comentários para “Aprendendo economia com a Black Friday carioca

  1. roberto quintas

    caro articulista, se a “solução” é tão evidente assim, por que simplesmente todas as empresas não diminuem o preço de seus produtos, ganhando mais por lote, aumentando os lucros [sim, eu tenho noção de economia e mercado]? simples, caro articulista: interessa aos países ricos empurrar esse misticismo neoliberal para os países em desenvolvimento, embora estes países tenham feito exatamente o contrário do que pregam. sim, caro arciculista, TODOS os países ricos aplicaram protecionismo industrial, investimento estatal, taxação de importados, etc. então explique para o publico por que países capitalistas empregaram medidas “socialistas” [segundo seu critério], foram bem sucedidos, cresceram, tornaram-se o grupo dominante na economia mundial e agora querem “chutar a escada”?

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  2. Filipe Lima

    Olha, cara, você sabe que devido à doutrinação das nossas faculdades, há grandes chances de alunos de Economia saírem da universidade sem aprender isso?

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  3. Maria Carolina Almeida

    Se não for pelo preço oferecido por este supermercado, fica ruim de o povo comprar determinados produtos. Saiu até pancadaria. Única oportunidade de algumas pessoas terem o seu feijaõzinho com arroz garantido.

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  4. Marcos TC

    Normalmente socialistas/comunistas não aceitam fatos apenas a narrativa de seus tutores. Mas você deu uma grande ajuda para que pelo menos (alguns não tão empedernidos) possam fazer alguma reflexão sobre a lógica da economia sem aquele economês chato.

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