Coluna do Leitor

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A “Esquerda Caviar” desconhece os pobres!

Hoje trazemos um artigo valiosíssimo. É uma enorme satisfação para nós do Reaçonaria entrar em contato com pessoas como o “carteiro Gil”, um dos milhares de anônimos que se incomodam com os rumos políticos do pais, não se alinham com o esquerdismo vigente e não têm voz ou representação adequada seja na mídia ou nos partidos políticos.

O “Gil Diniz, retirante nordestino, carteiro, pobre, favelado, casado e pai de dois filhos“, como ele se apresenta, ficou sabendo do nosso site após contato e busca feitos pelo colunista Marcelo Centenaro devido à participação de ambos no lançamento do livro de Isadora Faber (“Diário de Classe”) em São Paulo, pateticamente capitaneado por Gilberto Dimenstein.

É com orgulho que apresentamos hoje na “Coluna do Leitor” o relato pessoal de Gil Diniz sobre o evento:

A “Esquerda Caviar” desconhece os pobres! 

Dia 1° de abril de 2014 (popularmente conhecido como dia da mentira), fiquei sabendo do lançamento do primeiro livro de Flávio Quintela “Mentiram (e muito) para mim” o evento seria naquele mesmo dia, por volta das 18:30h na Livraria da Vila, no Shopping Higienópolis. Não conhecia o autor mas achei interessante a proposta do livro. “Soltei os pés” como dizemos nos Correios e entreguei as cartas o mais rápido que consegui pois estava na região do terminal Sapopemba e o evento seria do outro lado da cidade.

Fui vestido de carteiro mesmo, sabia que o ambiente é diferente do que encontro aqui na periferia, mas não carrego o tão ultimamente dito “complexo de vira-latas”. Na Livraria da Vila adquiri o meu livro e fui ao local reservado, onde o autor autografava. Na fila, conheci um rapaz que saia do trabalho como eu e fora direto para o evento, educadamente me pediu que o fotografasse com Flavio Quintela e gentilmente o fiz, o rapaz se chama Wilson, jovem, reacionário, aluno de Olavo de Carvalho e a simpatia em pessoa (nos tornamos amigos).
Carteiro_Gil
Flavio Quintela me recebeu como se fosse um amigo antigo, aquele que há muito tempo não via (fiquei surpreso). Fui lhe dizendo de onde vim e da satisfação de estar naquela noite o prestigiando no lançamento de seu primeiro livro e claro, disse-lhe que sou um dos tantos reacionários: pobre, favelado e reaça! Me perguntou por qual motivo não escrevia essa história (minha história), parou a fila de autógrafos, chamou sua esposa Alê Quintela que gentilmente me recebeu. A sensação que tive no momento foi de estar entre amigos. Fui prestigiar o autor em sua noite de glória e sai de lá me sentindo prestigiado. Posteriormente Quintela, em seu blog, escreveu sobre mim. Confesso que me emocionei com suas tão verdadeiras palavras dedicadas a mim (https://maldadedestilada.wordpress.com/2014/04/10/reacionarios-da-favela/).

Um pouco menos de dois meses se passaram daquela noite de autógrafos com Flavio Quintela, fiquei sabendo que a adolescente Isadora Faber, criadora da página no Facebook “Diário de Classe”, estaria em São Paulo para o lançamento do seu primeiro livro que leva como título o nome de sua página. Dessa vez o lançamento seria na Livraria Cultura do Conjunto Nacional na Avenida Paulista. Convidei o Wilson jovem reacionário que conheci dois meses atrás, combinamos de nos encontrar lá. Vi na descrição do evento que haveria uma conversa da autora com Gilberto Dimenstein e outros dois professores que até então desconhecia quem eram e onde trabalhavam.

A conversa foi no teatro Eva Herz, fiquei um tanto incomodado com os adultos naquele palco, fomos lá conhecer e escutar Isadora Faber, o evento era dela, no entanto, quem menos falou foi a menina. Alguns podem dizer que é tímida e de poucas palavras, lhes digo que “quiseram ter mais realeza do que o próprio rei” e silenciaram com seus egos inflamados a autora. Perguntas sem sentido, embasamento, parecia mais “o que é o que é” do que um diálogo com o autor (a), alguns naquele teatro estavam perdidos a começar pelo palco.

Poucos minutos ao final foram reservados às perguntas do público. Um dos questionamentos me surpreendeu bastante, Marcelo Centenaro (que até então não conhecia), perguntou a Isadora sobre um livro de Ayn Rand – “A Revolta de Atlas”, pois, a adolescente tinha postado na rede social uma foto com esse livro em mãos. Posteriormente conheci o Marcelo aqui pelo Facebook e descobri que ele é colunista do Reaçonaria e que inclusive tinha postado suas impressões sobre o evento, citando minha participação. (http://reaconaria.org/colunas/marcelocentenaro/lancamento-do-diario-de-classe/ ).

Levantei a mão pedindo a palavra, queria questionar Isadora. Dimenstein havia pedido que “quem fosse perguntar, falasse nome, profissão e de onde era”. Me apresentei: “Sou o Gil, carteiro, e moro em São Mateus.” Nesse momento Dimenstein me interrompeu: “Carteiro, como assim carteiro, o que um carteiro faz?” (Sic). Guardo mentalmente a fisionomia dele e complemento a pergunta que ele me fez: “Carteiro, como assim carteiro, o que um carteiro faz AQUI?” (o destaque é meu). Respondi o óbvio: “Carteiros entregam cartas!”. Entendo a reação, há pessoas que só ouvem falar de pobres, trabalhadores e afins nas rádios, tevê e jornais.

Perguntei a Isadora Faber sobre a presença da sua família em sua vida escolar, citei meu exemplo, pois, aqui em São Paulo nas escolas da rede municipal onde meus filhos estão matriculados foi retirado do calendário escolar o “Dia das Mães” e “Dia dos Pais”, substituídos pelo “Dia de quem cuida de mim” – travo até hoje uma “guerra” particular com a postura que essas escolas adotaram, inclusive, Reinaldo Azevedo publicou em seu blog o meu relato sobre o caso e noticiou na rádio Jovem Pan. (http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/escolas-de-sp-acabam-com-o-dia-das-maes-e-institui-o-dia-dos-cuidadores-viva-o-fim-da-familia-prefeito-fernando-haddad/ ).

Mais uma vez fui interrompido por Dimenstein, ele queria saber mais sobre ”O Dia de Quem Cuida De Mim”, notei que ficou incomodado quando citei a revista Veja e Reinaldo Azevedo, Dimenstein já fora duramente criticado por Reinaldo. Isadora respondeu brevemente e Dimenstein com uma indireta para mim, chamou a “cuidadora” de Isadora (Mel Faber) para responder meu questionamento. Dona Mel disse ser participativa e me revelou que em Santa Catarina não celebram mais o “Dia das Mães e dos Pais” (a revolução cultural chegou lá primeiro). Fiquei triste pela notícia, porém satisfeito com a resposta. Acabaram ali as perguntas e fomos aos autógrafos e as fotos com Isadora.

Não consigo deixar de comparar os dois eventos que participei. De um lado Flavio Quintela me recebendo como um amigo em seu evento. Do outro lado Gilberto Dimenstein, espantado com a presença de um carteiro naquele ambiente. Refletindo um pouco mais, fica visível tal diferença de atitude. Quintela segue uma determinada linha política, Dimenstein segue outra. Quintela poderia ser rotulado como de direita, reacionário, conservador,” inimigo dos pobres”, etc. Já Dimenstein segue a linha da “Esquerda caviar” tão bem detalhada por Rodrigo Constantino. O esquerdista não sabe nem o  que um carteiro faz…Carteiro entrega correspondência Sr. Gilberto. Aliás, carteiros, pobres, estudantes como eu consomem cultura, lêem, debatem, estudam, se esforçam para ser o melhor que puderem para si e para os seus!

Sou o Gil Diniz, retirante nordestino, carteiro, pobre, favelado, casado e pai de dois filhos, sou um dos milhões de reacionários que não vendem sua dignidade para partido algum!

E se eu disser que a educação com 10% do PIB não vai melhorar?

O texto de hoje da “Coluna do Leitor” é mais um enviado por Marcos Aurélio Lanes Júnior que tem seu blog, o “Minuto Produtivo” . Neste texto ele trata dos famigerados “10% para a educação”.

E se eu disser que a educação com 10% do PIB não vai melhorar?

PNE_1

(Fonte da imagem: Último Segundo)

Bom dia pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar a matéria, publicada na edição brasileira do El País, que fala sobre o Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado ontem na Câmara dos Deputados. Entre outros itens, o Plano prevê que em dez anos, 10% do Produto Interno Bruno serão investidos na área. Vale lembrar que a educação é um dos pontos em que o Brasil peca de forma grosseira, e isso é facilmente comprovado pelos maus resultados nos rankings da área (Pisa, por exemplo). Cabe lembrar, porém, que apesar da empolgação de muitos com a quase duplicação da verba para o setor, em outras postagens sobre educação neste blog salientei sempre que o simples fato de injetar mais recursos não irá solucionar o quadro de ruindade em que estamos (um exemplo disso você pode conferir aqui). Ao longo da postagem irei explicar com mais calma meu ponto de vista. Segue abaixo alguns trechos da matéria, com comentários ao longo da mesma (esquema pingue-pongue):

 “O investimento na educação pública brasileira deverá quase dobrar nos próximos 10 anos. Nesta terça-feira, a Câmara aprovou o destaque do Plano Nacional de Educação (PNE) que prevê o emprego de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do país na área até 2024. Atualmente, aplica-se cerca de 6%. Com isso, o valor repassado, considerando-se o PIB atual, subirá de cerca de 290 bilhões para cerca de 480 bilhões. O plano, que inclui ainda metas para a universalização da educação em diversos ciclos e um plano de carreira para professores, segue para a sanção da presidenta Dilma Rousseff (PT), que deve aprová-lo.

 O texto base do PNE já havia sido aprovado na última semana. Mas os pontos mais polêmicos, destacados para votação em separado pelos deputados, foram discutidos nesta terça. A íntegra do plano aprovado foi comemorada como uma vitória pelos movimentos sociais, que nos últimos três anos pressionaram os parlamentares para que os principais pontos do projeto fossem garantidos. Isso, de fato, aconteceu. Com exceção de um item polêmico: muitas entidades e a oposição criticavam a inclusão de um adendo pelo Senado que prevê como investimento em educação programas como o ProUni e o Fies, que financiam o estudo de alunos pobres em universidades particulares. Isso, segundo eles, assegura que parte dos 10% do PIB acabarão nas mãos de instituições privadas. Os deputados aprovaram a inclusão.

 “Isso é tirar dinheiro do tesouro para transferir para as escolas privadas. É um dinheiro que vai faltar e impedir que sejam cumpridas todas as metas do Plano”, diz o deputado Ivan Valente, líder do PSOL. A oposição pedia para que os 10% fossem investidos apenas em entidades públicas e afirmava que a inclusão feita no Senado representa uma perda de cerca de 3% do PIB para a educação efetivamente pública. Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, uma das principais entidades articuladoras do PNE, concorda. “O que é público é distinto do que é privado. O privado não tem o controle público. É preciso regular melhor”, destaca ele.

 Já os deputados governistas argumentavam que o Fies e do ProUni são políticas públicas educacionais importantes para a população pobre. “Por meio desses projetos, essas instituições oferecem bolsas para vagas que antes eram da elite. São programas sociais que contribuem para a educação”, afirma o deputado petista Angelo Carlos Vanhoni, relator do projeto na Câmara. Segundo ele, os dois programas correspondem a menos de 1% do PIB e, com o percentual aprovado, é possível cumprir todas as metas, inclusive a de número 12, que prevê quase dobrar a presença de jovens de 18 a 24 anos no ensino superior.

Muita calma nesta hora. Em princípio, teríamos motivo para concordar com o Ivan Valente, uma vez que dinheiro público iria simplesmente para engordar os cofres dos grandes grupos educacionais, algo que vagamente (bem vagamente mesmo, para os desavisados estou forçando um pouco a barra neste ponto) lembra a política de “campeões nacionais” adotada pelo BNDES. Mas se pensarmos que a alternativa apresentada pelo psolista é simplesmente colocar mais dinheiro público em um sistema que já consome em torno de 6% do PIB e continua amargando desempenho ruim atrás de desempenho ruim, a proposta governista parece razoável. Vale lembrar que mesmo se a pior hipótese (os 3% do PIB sendo “perdidos” para a rede privada) fosse confirmada, sobraria 7% para a rede pública, o que já colocaria o Brasil entre os 5 países que mais investem em educação no mundo (em % de PIB).

Por falar de investimento em educação, vale a pena falar da matéria da Exame, publicada em agosto de 2012, que mostram os países que mais investem na área e suas respectivas posições no Ranking Pisa, feito pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE. Segue imagem abaixo:

PIB Educação_1

Tabela que confronta os investimentos em educação e o desempenho no ranking Pisa, da OCDE. (Fonte da imagem: Exame)

Com base nisso, transcrevi a tabela no Excel e elaborei um gráfico de dispersão, em que o eixo x seria o investimento em educação (% do PIB) e o y seria a posição no Ranking Pisa. Por razões apresentadas na tabela acima, a África do Sul foi excluída. Segue abaixo:

 Gráfico PIB Educação_2

Gráfico de dispersão investimento em educação vs. Ranking Pisa. Dados da OCDE. (Fonte da imagem: Acervo do editor)

 Deste gráfico, podemos tirar algumas informações bastante úteis, que mais a frente nos permitem chegar a duas hipóteses (que falarei mais tarde). Segue abaixo:

 1.                  Se a qualidade da educação melhorasse basicamente pelo aumento dos investimentos na área, era de se esperar que os pontos no gráfico oscilassem em torno de uma linha de tendência, em que à medida que os investimentos (x) sobem, a posição no Ranking Pisa (y) melhora. Entretanto, não é isso que se vê, sobretudo no intervalo de 4% a 6%, onde existem países excelentes (como a Coreia do Sul, na segunda posição) e países com desempenho pífio (como a Argentina, na nada honrosa quinquagésima oitava posição);

2.                 No grupo dos países que investem acima de 6% na educação, ocorre um “estreitamento” na dispersão, sendo que a maioria deles estão entre os vinte primeiros no Pisa. Isso poderia servir como argumento dos favoráveis ao aumento dos gastos no ensino, entretanto, apenas dois deles figuram entre os dez primeiros, contra quatro no grupo dos países que investem até 6%. A maioria estão entre a décima primeira e a vigésima posição e um sequer está entre os vinte primeiros;

3.                 Last, but not least: o país que possui melhor desempenho em educação não figura entre os 30 maiores investidores. Na verdade, dos dez primeiros, quatro deles não estão nesses 30.

 Para ajudar na compreensão, ainda calculei os coeficientes de correlação e determinação (r e r², respectivamente) a partir da tabela transcrita, e os resultados obtidos são, respectivamente: 0,251 e 0,028 (correspondente ao r² ajustado). Em geral, um r inferior a 0,3 indica correlação fraca e o valor de r² indica que apenas 2,8% das posições no Ranking Pisa são explicáveis pelo investimento em educação.

 É claro que não é viável dar uma conclusão definitiva com base apenas na tabela, no gráfico de dispersão nem mesmo utilizando os coeficientes de correlação e determinação (até porque a lista de países é pequena), mas isso já nos permite chegar a duas hipóteses, ambas desfavoráveis aos defensores de maiores gastos em educação:

 1.                  Um aumento dos gastos públicos em educação, até certo percentual do PIB ajudaria a melhorar a qualidade da área. A partir desse valor seria indiferente (se eu utilizasse o gráfico como referência esse “ponto de indiferença” seria de 6%, patamar que o Brasil já se aproxima);

2.                 Não há relação entre gastos públicos e qualidade da educação.

 Voltando a falar da atuação do governo em fornecer bolsas para alunos estudarem em instituições particulares, vejo de forma positiva a ideia dos vouchers. Ideia, inclusive, que defendi em uma postagem do dia 23/03, ainda que não seja de forma tão agressiva quanto Rodrigo Constantino defendeu em seu livro Privatize Já.

 Além de meu ceticismo em relação à efetividade da quase duplicação dos recursos públicos para a educação, outro ponto da matéria do El País que chama a atenção é a oposição das entidades de classe à visão meritocrática da educação. Segue abaixo:

 “Um dos pontos aprovados, já na semana passada, será alvo de uma luta das entidades de classe: a aprovação do item 7.36,que prevê a adoção de uma remuneração dos professores com base no desempenho dos alunos.Segundo entidades como a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), bônus com base em resultados não têm refletido em melhorias na educação em outros países que os adotaram. Elas defendem que a remuneração do professor seja feita com base em um plano de carreira, algo já aprovado pelo PNE. “Vamos começar a mobilização e pedir para que a Dilma vete este item”, afirma a secretária-geral da CNTE, Marta Vanelli.”

 Apesar de eu concordar a existência de um plano de carreira para os professores (com menos níveis em relação ao que temos hoje, se formos falar do caso dos professores dos institutos federais), eu defendo que haja um elemento meritocrático de tal forma que acelere a progressão dos docentes ou garanta um adicional em sua remuneração. A questão é: como medir o desempenho dos alunos? Simplesmente usar o índice de aprovação de um ano para outro não resolve, uma vez que isso pode abrir margem para nivelar o ensino por baixo. Uma alternativa interessante, por exemplo, seria utilizar o desempenho em testes padronizados internacionalmente. Os professores das escolas que tivessem melhores resultados teriam maiores benefícios. No caso do ensino superior, a participação em projetos de iniciação científica e submissão de artigos para eventos de grande impacto ou revistas relevantes para suas áreas de conhecimento poderiam servir como critérios de desempenho. De qualquer forma, é necessário um mecanismo que beneficie os melhores no que tange à educação.

 Encerrando

 A ideia de 10% do PIB em educação, apesar do senso comum criado em torno disso, não é uma panaceia. A propósito, apenas colocar mais dinheiro público na área sem uma mudança gerencial pode fazer com que continuemos ruins – só que extremamente caros. Do ponto de vista corporativo, é o pior dos mundos.

 P.S.: Adolfo Sachsida, economista e um dos entrevistados doFrente a Frente com o Marcão, fez um comentário bem resumido (e esclarecedor) sobre o assunto. Clique aqui.

P.S. 2: Confira a planilha no Excel que elaborei o gráfico de dispersão aqui.

O artigo acima foi originalmente publicado no link http://minutoprodutivo.blogspot.com.br/2014/06/e-se-eu-disser-que-educacao-com-10-do.html

A nova série de ataques a Rachel Sheherezade

O texto de hoje da “Coluna do Leitor” trata de um caso exemplar da ação desesperada do grupo no poder contra as vozes contrárias: pegaram um fato bizarro e absurdo do cotidiano, mas de certa forma comum (linchamentos são comuns no Brasil, já mostramos aqui) para tentar mais uma vez destruir a reputação de Rachel Sheherazade. Para explicitar a imoralidade e farsa desse levante, o leitor Tom Martins nos enviou esse artigo:

A nova série de ataques a Rachel Sheherazade

Culpar Rachel Sheherazade pelo linchamento que ocorreu no Guarujá é a nova estratégia esquerdista para jogar na lama o nome da única jornalista que criticava o governo sem medo.

Linchamentos sempre existiram, em qualquer época, em qualquer lugar, especialmente os menos civilizados. A diferença é que hoje em dia há câmeras por todos os lados e um projeto de poder em execução.

O que ocorre numa favela quando um estuprador ou pedófilo é descoberto? O infeliz é linchado. Se a polícia consegue prender o meliante a tempo, ele será linchado até a morte na cadeia pelos próprios presos.

Rachel Sheherazade NUNCA falou que linchamentos seriam corretos e louváveis. O que ela disse foi:

“Num país que ostenta incríveis 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes, que arquiva mais de 80% dos inquéritos de homicídio e sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível.”

Compreensível: do latim: comprehensibilis. Que se consegue compreender; passível de compreensão; fácil ou acessível. Que pode ser percebido; inteligível.

Será tão difícil entender que “compreensível” é diferente de “aceitável” ou “justificável”?

Temos 50 mil homicídios por ano. Destes, 8% chegam a ser elucidados e menos de 3% chegam ao cumprimento da pena.

A impunidade incentiva tanto os bandidos comuns, tratados como “vítimas da sociedade”, quanto os de colarinho branco, devido ao labirinto legal que só permite o acesso àqueles que podem pagar bons advogados. A certeza da impunidade é tamanha que os linchadores e demais cúmplices, muitos deles menores de idade, não hesitaram em postar o vídeo na internet.

Some-se isso a uma polícia mal-treinada, mal-equipada, mal-paga e sem plano de carreira (cuja presença ostensiva nessa mesma favela também seria criticada pela elite bem-pensante), à cultura pró-banditismo que, de “Capitães de Areia” até “O Homem que Copiava” faz dos bandidos mocinhos e vice-versa, ao “jeitinho brasileiro”, ao culto à malandragem e a um povo que levanta 2 milhões de reais em uma semana para pagar a multa de criminosos condenados e temos então esse estado de coisas.

Não é possível culpar um comentário de menos de 1 minuto num telejornal de baixa audiência pelo estado de anomia em que vivemos.

Se culpar Rachel Sheherazade pelo linchamento do Guarujá já é de uma torpeza infame, o próprio ato de se usar uma tragédia horrenda como essa para fazer terrorismo político-ideológico é algo ainda mais asqueroso e patológico.

A campanha contra essa jornalista é incentivada e levada a cabo pelos pontas-de-lança governistas: Sakamoto, Emir Sader, Paulo H. Amorim, Mino Carta, Lola, Boechat, absolutamente TODOS repercutem essas acusações caluniosas e mentirosas.

Não vemos 1% da indignação contra essa jornalista quando o discurso não é conveniente para a esquerda, por exemplo, quando um traficante negro amarrou um ladrão branco num poste e o espancou com fio de cobre, nem quando um professor universitário publicou que desejaria que Rachel Sheherazade fosse estuprada nesse ano de 2014, quando um casal gay abusou continuamente do afilhado, quando cristãos são crucificados na Síria, quando o blog da Dilma associou Joaquim Barbosa a um macaco, etc.

Se a acusação que pesa contra a jornalista é de apologia ao crime, então temos que considerar qualquer discurso abortista e pró-maconha criminoso e pedir a prisão daqueles que assim apregoam, pois ambas são práticas criminosas. A acusação de “apologia ao crime” é perigosíssima no que tange às liberdades individuais.

Cabe notar que, se Rachel Sheherazade tivesse mesmo cometido um crime, ela seria processada e condenada e acontece que ela não foi e nem será, simplesmente porque uma ação desse tipo não se sustenta nos tribunais.

Por isso o PT, que ameaçou cortar verbas de publicidade do governo caso o SBT não calasse Sheherazade, não está satisfeito. Sua estratégia sórdida de calúnias e difamações apenas começou.

SilvioSantos_Rachel

Sucesso popular e opiniões contundentes: a esquerda se sentiu ameaçada

Num país onde a mentalidade esquerdista é hegemônica, É COMPREENSÍVEL que, ao invés de atermo-nos aos estudos para desvendar assim as causas da criminalidade e, dessa maneira, tentarmos melhorar nossa condição de país atrasado e subdesenvolvido, sejamos obrigados a gastar energia explicando o óbvio e desfazendo mal-entendidos propositais, plantados com a única finalidade de assassinar as reputações de opositores do governo.

Segue abaixo uma lista de frases de autores admirados por aqueles que estão empenhados em linchar Rachel Sheherazade:

“MEUS VOTOS PARA 2014: que a Rachel Sherazedo seja estuprada.” (Paulo Ghiraldelli)

 “VOTOS PARA 2014: que a Rachel Sherazedo abrace bem forte, após ser estuprada, um tamanduá.” (Paulo Ghiraldelli)

 “Mais do que uma escolha pelo crime, a opção de muitos jovens pelo roubo é uma escolha pelo reconhecimento social. Um trabalho ilegal e de extremo risco, mas em que o dinheiro entra de forma rápida.” (Leonardo Sakamoto, blogueiro recentemente convidado para o programa “Esquenta”)

 “A classe média é uma abominação política, porque ela é fascista, uma abominação ética, porque ela é violenta, e ela é uma abominação cognitiva, porque ela é ignorante.” (Marilena Chauí)

“Não precisamos de provas para executar um homem – precisamos apenas de provas de que é necessário executá-lo. Nossa missão não é providenciar garantias judiciais. Nossa missão é fazer a revolução.” (GUEVARA, Che in: Llano, Victor, “El Carnicerito de La Cabaña”, Libertad Digital, 22 de novembro de 2004)

 “Para mandar homens para o pelotão de fuzilamento, provas judiciais são desnecessárias. Esses procedimentos são detalhes burgueses arcaicos. Isto é uma revolução. E um revolucionário precisa se tornar uma máquina assassina brutal, motivada por puro ódio. Precisamos criar a pedagogia do paredón!” (GUEVARA, Che in: FONTOVA Humberto, “Che Guevara: Assassin and Bumbler”, 23 de fevereiro de 2004, disponível em www.newsmax.com)

 “Louco de fúria, mancharei meu rifle de vermelho enquanto trucido qualquer inimigo que cair nas minhas mãos! Minhas narinas se dilatam enquanto saboreio o odor acre de pólvora e sangue. Com as mortes dos meus inimigos, preparo meu ser para a luta sagrada e me uno ao proletariado triunfante, com um uivo bestial.” (GUEVARA, Che. Diarios de Motocicleta)

ONU afirma: porto cubano financiado por Dilma é usado em contrabando de armas para Coréia do Norte

Chega pela “Coluna do Leitor” um artigo-bomba publicado no blog “Comedia Globale” que será replicado aqui na íntegra:

Relatório da ONU confirma: Porto de Mariel em Cuba vem sendo usado para contrabando de armas para a Coréia do Norte.

MarielUm relatório de peritos do Conselho de Segurança da ONU publicado em 6 de Março desse ano revela detalhes de como o porto de Mariel, recentemente reformado pelo conglomerado brasileiro Odebrecht com aporte de recursos do BNDES da ordem de US$ 900 milhões e forte articulação política do governo brasileiro, foi usado para o contrabando de 240 toneladas de armas, incluindo mísseis e armamento pesado, para a Coréia do Norte.

O relatório explica, inclusive, o porquê de Porto Mariel ter sido escolhido para essas transações criminosas, de modo a impedir a detecção da carga ilegal e evitar o seu rastreamento.

Confira o artigo que repercutiu essas descobertas:
http://www.capitolhillcubans.com/2014/03/why-odebrechts-port-was-chosen-for.html. Segue trecho:

“Mariel is being developed as a major deep-water port and free trade zone by a Cuba-Brazil consortium, with the Cuban military controlled Almacenes Universal S.A. The port was previously a submarine base and its development was formally opened on 27 January 2014.”

The Cuban military’s Brazilian partner in this consortium is the conglomerate, Odebrecht.

So why was the Port of Mariel specifically chosen (as stated in the report) for this illegal smuggling operation?

Obviously, because the Cuban military felt comfortable enough with its Brazilian partner, Odebrecht, to think that it could get away with such dangerous shenanigans.

E o mais importante (fontes primárias), o próprio relatório da ONU que denuncia a operação: http://www.un.org/ga/search/view_doc.asp?symbol=S/2014/147

Recomendo especial atenção aos anexos do relatório, especialmente do anexo IX ao XXI.

Que o governo brasileiro se aproximou das maiores ditaduras do mundo nos últimos anos não é novidade. Irmãos Castro, Chávez, Kadhafi, Bongo, al Bashir, Morales, dinastia Kim, entre outros ditadores são parceiros do governo brasileiro tomado pelo Partido dos Trabalhadores.

Mas nesse caso coisa é tão grave que ultrapassa a discussão interna, na qual o impeachment seguido de intensas investigações e cadeia para os envolvidos seria a saída mais óbvia. Entramos na seara dos crimes internacionais de guerra.

Bem-vindos ao Eixo do Mal.

O Declínio do Estado Venezuelano – Leopoldo López

Como é regra em todo regime de esquerda que enfrenta pouca resistência a seus objetivos, a Venezuela começou o processo de execução de seus próprios cidadãos e aprisionamento de opositores das barbaridades de Estado. Embora seja uma constante histórica inegável, este absurdo acontece agora em um país vizinho e os governantes brasileiros só se manifestam para… defender o Estado totalitário chavista.

A resistência venezuelana tem sido minada por todas as formas dentro de seu país. E fora dele, como aqui no Brasil, conta com inimigos também na imprensa, que insiste em caracterizar todos os opositores do regime arbitrário como ameaças desumanas e criminosas.

Não é fácil fugir das armadilhas que a imprensa brasileira esconde no caminho de quem quer se informar sobre as arbitrariedades de mais um regime esquerdista. Uma das formas para evitá-las é buscar fontes originais. O que vai abaixo é o artigo de Leopoldo López, enviado direto de sua cela, e publicado no The New York Times. É um artigo particularmente vergonhoso para nós brasileiros por  sabermos que nosso Governo se coloca ao lado deste chavismo debilóide que só não desembarca por aqui de vez porque ainda há algumas barreiras. Ainda.

Leiam o artigo traduzido e publicado com exclusividade aqui na Reaçonaria:

O Declínio do Estado venezuelano 

Enquanto escrevo estas palavras na prisão militar de Ramo Verde em Los Teques, Venezuela, me sinto afetado pelo tanto que têm sofrido os venezuelanos

Durante 15 anos, a definição neste país de “intolerável” foi recuando cada vez mais até chegarmos hoje a um dos índices de assassinatos mais altas do Hemisfério Ocidental, uma inflação de 57 por cento e uma escassez de produtos da cesta básica sem precedentes fora de um período de guerra.

Nossa debilitada economia se vê acompanhada por um igualmente opressivo clima político. Desde que os protestos estudantis começaram no dia 4 de fevereiro, mais de 1500 manifestantes foram presos e mais de 50 relataram terem sido torturados em repartições policiais. Mais de 30 pessoas, incluindo agentes de segurança e civis, morreram em protestos. O que começou como uma marcha pacífica contra o crime num campus universitário expôs a intensidade da criminalização do dissenso por parte deste governo.

Estou preso há mais de um mês. No dia 12 de fevereiro exortei os venezuelandos a exercer seus direitos legais de protestar e se expressar livremente, mas para fazê-lo pacificamente e sem violência. Três pessoas foram baleadas e morreram naquele dia. Uma análise do vídeo pela agência de notícias “Últimas Notícias” demonstrou que os tiros partiram da direção de tropas militares à paisana.

LeopoldoLopezPreso

Leopoldo López é preso pela polícia chavista

Logo após aquele protesto, o presidente Nicolás Maduro pessoalmente ordenou minha prisão sob acusações de assassinato, ação incendiária e terrorismo. A Anistia Internacional disse que essas acusações aparentam ser “politicamente motivadas como uma tentativa de silenciar os opositores”.  Até hoje, nenhuma evidência de qualquer tipo quanto às acusações foi apresentada.

Em breve, mais prefeitos de oposição, eleitos numa esmagadora maioria nas eleições de Dezembro, se juntarão a mim atrás das grades. Na última semana o governo prendeu o prefeito de San Cristóbal, onde os protestos estudantis começaram, assim como o prefeito de San Diego, que foi acusado de desobedecer uma ordem de remover as barricadas dos manifestantes. Mas nós não ficaremos calados. Muitos acreditam que gritar apenas antagoniza o partido no poder – convidando Maduro a agir mais rapidamente para suprimir direitos – e fornece uma conveniente distração quanto à ruína econômica e social que está tomando conta do país. Em minha opinião, esse caminho é semelhante a uma vítima de abuso ficar  quieta por medo de atrair mais punição.

Mais importante, milhões de venezuelanos não têm o luxo de aguentar por muito tempo, de esperar por uma mudança que nunca chega.

Nós devemos continuar a falar, agir e protestar. Não devemos permitir que nossos nervos sejam amortecidos por constantes abusos de direitos que vivenciamos. E devemos buscar uma agenda de mudanças.

A liderança de oposição tem desenhado uma série de ações que são necessárias com o objetivo de nos levar adiante.

Vítimas de repressão, abuso e tortura, assim como os familiares daqueles que morreram, merecem justiça. Os que são responsáveis devem renunciar. Os grupos paramilitares pró-governo, ou “coletivos”, que tentam silenciar os manifestantes com violência e intimidação, precisam ser desmantelados.

Todos os prisioneiros e dissidentes forçados pelo governo a exilar-se, assim como os estudantes que foram presos por protestar, devem ter o direito de retornar ou ser libertados. Isso deve ser seguido pela restauração da imparcialidade a importante instituições que formam a espinha dorsal da sociedade civil, incluindo a comissão eleitoral e o sistema judicial.

A fim de termos nossa economia no rumo certo, precisamos de uma investigação sobre a fraude cometida através de nossa Comissão para o Câmbio de Divisas – ao menos 15 bilhões de dólares foram canalizados a empresas fantasma e suborno no ano passado, ação que contribuiu diretamente para a espiral inflacionária e a severa escassez que nosso país enfrenta.

Por fim, precisamos de um compromisso real da comunidade internacional, particularmente na América Latina. A  resposta clara das organizações de direitos humanos mostra um enorme contraste com o vergonhoso silêncio dos vizinhos da América Latina. A Organização dos Estados Americanos, que representa as nações do hemisfério ocidental, se abstém de qualquer verdadeira liderança na atual crise de direitos humanos e o espectro de um Estado falido, mesmo ela tendo sido formada exatamente para lidar com situações como esta.

Silenciar é ser cúmplice dessa espiral descendente do sistema político, econômico e social, sem mencionar a continuidade da miséria de milhões. Muitos lideres atuais da América Latina sofreram abusos semelhantes em seus tempos de juventude e não deveriam ser cúmplices silenciosos dos abusos de hoje.

Para os venezuelanos, uma mudança na liderança pode ser alcançada completamente dentro do estrutura legal e constitucional. Devemos defender os direitos humanos; liberdade de expressão; o direito de propriedade, habitação, saúde e educação; igualdade no sistema jurídico e, claro, o direito de protestar. Esses não são objetivos radicais. São as pedras básicas para construção de uma sociedade.

Artigo originalmente aqui.

A esquerda, a História e o acaso: a obsessão pelo controle

Trazemos hoje para a Coluna do Leitor uma ótima análise feita pelo historiador com doutorado em Ciências Sociais que quis se identificar apenas como “Leo N.”. Boa leitura:

A esquerda, a História e o acaso: a obsessão pelo controle

(O texto que segue é uma série de apontamentos reunidos com o intuito de sublinhar algumas questões. Utilizei-me dos termos amplos “esquerda”, “esquerdista”, “esquerdismo” para facilitar).

Desde o recrudescimento das manifestações de junho de 2013 esperava-se que uma coisa acontecesse: alguém morresse. Não uma morte “indireta” ou “acidental” ocorrida a partir das confusões, mas sim uma morte – ou assassinato – diretamente ligada às respostas da polícia frente os manifestantes. O máximo que se conseguiu, nesta situação em particular, foi um punhado de pessoas feridas por balas de borracha, o que foi largamente utilizado para demonstrar a “truculência” da polícia e, como um “resultado lógico” disto, conferir legitimidade às manifestações e aos atos perpetrados durante as mesmas. Quem quer que fosse morto, neste contexto específico, seria transformado em mártir, o que, possivelmente, seria explorado ao ponto de ser impossível arranhar a aura de legitimidade com a qual manifestantes (e seus atos) seriam recobertos.

Já em 2014, foi possível imaginar toda a esquerda segurando a respiração, tensa, esperando que o manifestante baleado em São Paulo morresse – deste modo, teriam o mártir pelo qual eles tanto ansiavam. Não foi desta vez – ele não morreu. E o pior: gravações mostraram que o manifestante atacara os policiais em primeiro lugar. Qualquer alegação de “execução”, de que a polícia “fascista” assassinara à sangue frio um inocente, que a ditadura militar estava de volta ou outros chavões tão caros à moral de rebanho esquerdista ficou impossibilitada de circular pelos meios tradicionais – imprensa e redes sociais, sobretudo.

Então, aconteceu aquilo que ninguém, sobretudo a esquerda, sequer cogitou: um assassinato cometido pelos próprios manifestantes – a vítima, o cinegrafista da Rede Bandeirantes Santiago Andrade. Não foi uma morte “indireta” ou “acidental”, muito menos provocada pela política “truculenta”, “despreparada” e “fascista”. A esquerda, cuja história está repleta de verdadeiros massacres – e cuja ideologia apregoa e utiliza a violência como meio legítimo de alcançar seus objetivos – é quem foi a responsável pela morte. Ela, que esperava um mártir para sua causa, conseguiu, de certo modo, um fantasma para assombrá-la.

Decerto a esquerda não esperava por isto, ficou atordoada. Tanto é que, nos primeiros dias, só houve o silêncio, e quando surgiram os primeiros indícios claros da ligação entre os assassinos e os Black Blocs (e, por tabela, toda a esquerda), verdadeira tropa de assalto das manifestações, a SS da esquerda (peço desculpas por fazer esta referência batida ao nazismo, mas creio que ficará mais claro para os esquerdistas entenderem, pois a utilizam a torto e a direito, ignorando os grupos de extermínio que são parte de sua própria história), começou o corre-corre para que se ocultasse e negasse a ligação. O PSOL, por exemplo, condenou (com algum atraso) a violência dos Black Blocs e das manifestações e disse que nunca apoiara seus métodos. Correndo, retiraram de seu site um artigo que dizia justamente o contrário. Sendo assim, mentiram. O PSOL apoiava, sim, o uso da violência – se não, por que nunca emitiu uma nota condenando-a? E um de seus heróis, Marcelo Freixo, já deixara isto bem claro. Aliás, foi seu nome que ganhou destaque com a entrada em cena de “Sininho”. (Para um resumo, ver aqui)

Tem-se, aqui, dois elementos que trabalham juntos em uma situação que a esquerda não esperava: primeiro, o assassinato do cinegrafista, cometido pelas forças da esquerda; segundo, a ação destrambelhada de Sininho tentando mostrar serviço, o que acabou por evidenciar a conexão Black Bloc-PSOL (e a aderência irrestrita do PSOL à violência como meio de ação legítimo). Por que a esquerda não esperava isto? Por que precisou, depois, recorrer à teorias conspiratórias disseminadas pela internet – e que ganharam, inclusive, espaço no jornal O Globo – para aliviar o lado do PSOL e de Freixo (e da esquerda em geral)? Por que seus intelectuais orgânicos estrategicamente posicionados na “grande mídia” correram para defender seu herói e sua ideologia redentora? Por que o Salão Nobre de uma universidade federal (IFCS/UFRJ) foi utilizado para um “ato em defesa” do grande herói, portador das virtudes mais elevadas, e ao mesmo tempo para condenar à mesma “grande mídia” da qual a intelectualidade orgânica se vale diariamente para sua doutrinação?

Simples: a esquerda não é capaz de reconhecer o acaso e o caráter contingencial da realidade como elementos cruciais para a composição da durée da vida. Não existe, no pensamento de esquerda, espaço para o acaso, para a contingência. Quem olhar para algumas teorias [sic] esquerdistas, como o marxismo e o feminismo, verá que estas nada mais são do que teorias conspiratórias (da história). Por quê? Porque elas são capazes de colocar o mundo em ordem, de explicar tudo como fruto de maquinações de algumas pessoas: os “ricos” que se juntam para explorar os “pobres” em todos os momentos da História; os “homens” que se reúnem para subjugarem as “mulheres”, criando uma cultura machista mundial. Luta de classe e patriarcado são chaves da história: explicam o mundo, dão sentido à História, facultam às pessoas um acesso a uma realidade mais verdadeira. Deste modo, tudo acontece por um motivo bem definido e identificado. Não há acidentes, nem imprevistos. Localizando-se o problema, basta enfrentá-lo. A complexidade do mundo – o que impede sua compreensão total e, o mais importante, a resolução de todos os seus problemas de uma só vez – é reduzida, por todo o pensamento de matriz de esquerda (e aqui estou incluindo o nazi-fascismo, cujas ideias centrais seguem o mesmo caminho com simplificações grosseiras), a uma monocausalidade capenga.psol[1]

Não é á toa que o pensamento esquerdista despreza a ideia de liberdade (usada somente como peça retórica, e às vezes nem assim a palavra liberdade é mobilizada), seu ódio à liberdade individual é palpável – a liberdade rompe com o mundo ordenado do esquerdismo. A possibilidade dos indivíduos agirem livremente fere de morte os esquemas traçados pelo pensamento de esquerda. Não existem processos nem entidades personificadas que movem a história teleologicamente, mas sim indivíduos que agem de maneiras distintas e as consequências de suas ações produzem resultados imprevisíveis. São as consequências não intencionais da ação. Quando o rojão que “deveria estar voltado para a polícia” matou Santiago Andrade ou quando Sininho revelou, por um acaso, a ligação Black Bloc-PSOL, trazendo à tona o nome de Marcelo Freixo, a narrativa da história imaginada pela esquerda foi rompida, quebrou-se, daí a correria para remendá-la, para lhe dar ordem novamente. Conspiração, perseguição, interesses da grande mídia – todos elementos que visam colocar a “história” nos eixos, que reconduzem a durée da vida aos seus trilhos “normais”, como postulado pela te(le)ologia da esquerda.

Ao fim e ao cabo, a esquerda é obcecada pelo controle, tanto é que seu esforça para controlar a História. Ao contrário do que os intelectuais da Escola de Frankfurt pudessem achar sobre a relação entre capitalismo, racionalidade, técnica, dominação, etc. – o fato é que é o esquerdismo a forma mais bem acabada desta racionalidade pautada no cálculo intenso, na previsão, no controle. E não é à toa que a esquerda defende tanto o Estado: qual a melhor maneira de dominar, calcular e prever que não através da burocracia estatal? A burocracia, a forma mais acabada desta racionalidade, adequa-se perfeitamente ao pensamento de esquerda. Ela nega qualquer espaço para as ações individuais, para o exercício da liberdade, que é a única coisa capaz de perturbar a narrativa imaginada pela esquerda. Através do cálculo, exerce controle sobre as pessoas; através da previsão, busca contornar o acaso.

Mais do que a emergência (na internet) de um pensamento liberal/conservador/de direta/o que seja – muito disperso, altamente individualizado (e, por isto, imóvel) e sem qualquer instituição capaz de viabilizar eventuais ações – acredito que o assassinato de Santiago e o surgimento de Sininho foram os eventos que melhor conseguiram atingir a esquerda, pois abalou seus fundamentos e valores mais caros: a crença em sua capacidade de controlar a história, jogando-lhe na cara que suas chaves da história não abrem todas as portas.

Retorno às aulas: mensagem aos professores

Mais um post enviado à “Coluna do Leitor” por grande amigo da Reaçonaria.

O que vai abaixo é um desabafo, ou uma declaração de amor à profissão, de Paula Rosiska. É especialmente importante de ser lido por quem, por ideologia burra, transporta o ódio a uma figura simbólica como “O Estado” para pessoas de carne e osso que trabalham nessa máquina: os funcionários públicos.

Leiam. E abaixo há um pequeno complemento feito por mim.

Retorno às aulas

Amanhã as minhas férias terminam de fato. E é necessário ter uma grande preparação psicológica para suportar um ano letivo. Não tenho dúvidas da minha vocação e da minha capacidade. Não fosse isso, já teria saído dessa área há tempos. Mas isso tudo somado à experiência dos mais de 10 anos de carreira (somado o tempo de voluntária no cursinho são 15 anos), não é suficiente para nos permitir atravessar certas situações escolares sem ferimentos físicos e emocionais. A configuração de escola pública como depósito de criança já é algo desastroso para quem ama a tarefa de ensinar. Sentir-se por vezes carcereiro de crianças e adolescentes, usando a própria voz como cassetete (sim, com dois esses, podem procurar) não é das melhores coisas. Mas o pior, creio eu, são os discursos floreados e adocicados, que encobrem uma acusação vinda de quem jamais pisaria numa sala de aula de periferia: “nossa educação vai mal porque não estamos preparados para… mas somos sonhadores”. Desde que cursei a Licenciatura, ouço essa acusação. E tome formação continuada, e tome palestrante ganhando dinheiro para não oferecer nenhuma alternativa prática aos nossos dias, e tome acadêmico fazendo mestrado em cima da incompetência dos profissionais da educação. A incompetência costuma ser a forma de se referir à não aceitação do novo, do aluno do século XXI, que, em tese – e só em tese- é questionador, utiliza as tecnologias para se informar, é autônomo, mas, que na verdade, questiona coisas como “por que eu devo recolher a sujeira que eu fiz se tem as tias da limpeza”?, utiliza tecnologia para o Facebook e é autônomo para não ir de uniforme, embora a sociedade pague até pelas meias que recebem.

De tudo isso, há duas coisas que se sobressaem, sendo uma triste e revoltante e a outra, irritante. Começo pela irritação. Professores que estão em sala de aula conhecem a realidade, são vítimas da utopia freireana, e acatam a culpa pelo fracasso escolar. O triste e revoltante é ver que há muitos alunos excelentes, brilhantes, que não podem se desenvolver porque são reféns dos canalhas, dos violentos, dos barulhentos, contra os quais pouco se pode fazer. Eu sou de briga, eu sou insubmissa e jamais aceitarei esse tipo de injustiça calada. Mas reconheço minha impotência diante da necessidade de atender os que querem aprender.

Ano passado uma aluna me disse que aguardava ansiosamente a minha aula, pois eu era a professora que atendia os bons e colocava os maus nos devidos lugares. Não com essas palavras, mas com os termos “bons” e “maus”. Se continuar a ser vista assim, o ano escolar que se inicia, valerá a pena.

Desejo um bom retorno a todos os professores. E, quanto aos meus colegas: parem de acatar essas culpas. Vocês são ótimos.

Um adendo personalíssimo: entre familiares e amigos posso dizer que sou rodeado por professores que trabalham na rede pública. Nesse tempo marcado pelo crescimento da renda em paralelo à violência e à queda na qualidade do ensino, é seguro dizer que os alunos das escolas públicas são, em sua maioria, muito pobres. Muitos dos pais que são “apenas um pouco pobres” buscam escolas e escolinhas particulares, um negócio muito lucrativo por sinal. Aos que ficam com os alunos da escola pública restam os alunos que convivem com muito daquilo que torna nosso país ainda mais triste: violência familiar, doenças de países paupérrimos, tráfico de drogas e bandidagem no cotidiano, pais perdidos pelo consumo e tráfico de drogas e, por fim, miséria.

O meu recado a todos esses professores, complementando a mensagem da Paula, é que se inspirem nessa belíssima música abaixo. Salvem essas flores!

NatureDesertFlower

Brasil: O Que Esperar Para 2014 (E Além)

A “Coluna do Leitor esteve por um bom tempo inativa devido a uma confusão nos e-mails e perda de controle nas muitas sugestões enviadas. Vamos tentar retomá-la com maior periodicidade a partir de agora.

Hoje trazemos para apreciação um breve artigo de convidado, o Fábio Ostermann, sobre os erros repetidos de seguidos governos que, tudo indica, custarão ainda mais caro daqui para frente.

Brasil: O Que Esperar Para 2014 (E Além)

O colega Adolfo Sachsida já vinha dizendo há um tempo: 2014 será o ano em que todos os recordes de greves no setor público serão batidos.PostFabio

Com a Copa do Mundo, os olhares do mundo estarão voltados para o Brasil nos meses de junho e julho. Os políticos (especialmente em âmbito federal) sabem muito bem que um fracasso em manter o país em ordem durante esse período representará um grande abalo para as eleições de outubro.

Diante dessa “sensibilidade”, os sindicatos do serviço público, que ordinariamente já se aproveitam do fato de não terem um patrão para contrabalancear sua permanente demanda pela expansão de suas mamatas (afinal, o que é “de todos” a rigor acaba sendo de “ninguém”), se esbaldarão.

As greves que estão ocorrendo agora são só o começo de um ano turbulento que vem por aí. O governo federal usará recursos que não tem para (tentar) apaziguar grupos de pressão que historicamente lhe apoiaram mas dos quais se tornou refém ao longo dos últimos 12 anos. Com isso, o Brasil ficará não “entre a cruz e a espada”, mas sim entre o CAOS e a BANCARROTA.

De um jeito ou de outro, somos nós quem pagaremos a conta da irresponsabilidade de governos populistas que não aproveitaram os bons ventos e os altos índices de aprovação popular e apoio do Congresso para realizar as reformas necessárias à sustentabilidade financeira e institucional do Estado brasileiro.

O mesmo modelo de inchaço estatal e cooptação de grupos de interesse com interesses específicos que tem levado tantos países mundo afora a crises econômicas e até a rupturas institucionais sérias precisa ser reformado URGENTEMENTE no Brasil.

Roberto Campos, um dos mais argutos e perspicazes observadores da realidade brasileira no século XX dizia que para o Brasil havia “o aeroporto do Galeão, o de Cumbica e o liberalismo”. Atualmente dispomos de uma quantidade maior de aeroportos internacionais que nos conectem diretamente a países institucionalmente mais avançados, mas o liberalismo segue sendo (convenientemente) ignorado pela nossa classe política. Felizmente começa a emergir um movimento de ideias forte, amplo e sólido com bases na sociedade civil e, em breve, também na política. Hora de devolver o Brasil aos brasileiros.

Fábio Ostermann

Texto originalmente publicado em http://www.fabioostermann.org/2/post/2014/01/brasil-o-que-esperar-para-2014.html .

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