Coluna do Leitor

@reaconaria

Em defesa de um filme ou O Jardim das Aflições e seus inimigos

O amigo Josias Teófilo* nos enviou um texto sobre sua nova empreitada: fazer um documentário sobre o filósofo Olavo de Carvalho.

Com muita oposição da classe artística e “da cultura”, ele busca apoio dos alunos e das pessoas que gostam do trabalho do professor Olavo para realizar essa obra.

Leia o texto sobre as polêmicas, desafios e motivações desse projeto:

Em defesa de um filme ou O Jardim das Aflições e seus inimigos

No contexto do cinema brasileiro atual, deve ser mesmo chocante a notícia – assim, repentina – de que um sujeito está fazendo um filme sobre Olavo de Carvalho. Ainda mais vindo de alguém do Recife, terra da geração mais visceral e engajada (na esquerda, naturalmente) do cinema nacional. Até que dá pra entender: depois de Alberto Cavalcanti, Glauber Rocha, Leon Hiszmann, Joaquim Pedro de Andrade, deve ter parecido que ser de cinema no Brasil é ser de esquerda. Ainda mais no Recife de Chico Science. Quando alguém inventa de fazer um filme sobre Olavo de Carvalho, tido como maior cabeça da direita brasileira (rótulo que ele não aceita), deve ter havido um choque. Eu mesmo tive experiência curiosa de contar para um recém conhecido, como reproduzo abaixo:

–          O que você faz?

–          Faço cinema.

–          Estuda cinema?

–          Não, to fazendo um filme.

–          Ah é? Qual filme você está fazendo?

–          Se chama O Jardim das Aflições. É um documentário de longa-metragem sobre Olavo de Carvalho.

–          Sobre quem?

–          Sobre Olavo de Carvalho.

–          Quem? Olavo de Carvalho? Olavo, do Youtube, Olavo?

–          Sim, esse mesmo.

–          :O

O filme que não deveria existir

Aos poucos, me foram chegando algumas reações: a primeira de um sujeito que trabalha com cinema no Recife, Fábio Leal, que disse que um filme sobre Olavo de Carvalho não deveria existir, e veio com aquela velha história de que a direita é homofóbica e tal. Me chamou atenção um sujeito que trabalha com cinema dizer que o filme de um colega não deveria ser feito – ainda mais com esse tipo de argumento. Ora, será que ele falou algo semelhante quando Walter Salles fez Diários da Motocicleta, sobre Che Guevara (aquele que fez campos de trabalho forçado para homossexuais e os assassinava somente por suas escolhas)? Acho muito difícil. É que, como escreveu Eric Rohmer, é preciso fazer um primeiro ato de fé na esquerda, depois da qual tudo é permitido. O próprio Fábio Leal não se constrangeu em apoiar Dilma Roussef, essa que financia a peso de ouro a ditadura cubana que ainda hoje persegue homossexuais, nem deve ver problema nenhum em citar Paulo Freire ­– que defendeu até morrer ditadores que mataram milhares e milhares de homossexuais no século XX e cujos herdeiros ainda o fazem, como Putin, por exemplo, um ex-agente da KGB. No dia 20 de agosto, durante as manifestações a favor do PT, foi gravado um vídeo em que os manifestantes – com estrelinha do PT no peito – pediam pena de morte para gays, na mesmíssima semana em que David Cameron, primeiro ministro conservador do pais mais conservador do mundo, se manifestava a favor do casamento gay. É um estranho mundo esse, não é mesmo?

Mas existe ainda um elemento curioso a se notar no comentário de Fábio Leal que merece uma reflexão. Pelo que ele falou, deve estar pensando que eu vou retratar Olavo falando de política, do PT, de casamento gay ou outras atualidades – aliás, muita gente deve estar pensando isso. Eu precisaria ser um imbecil para fazer um filme sobre atualidades com um filósofo como Olavo de Carvalho, autor da Teoria dos Quatro Discursos, O Jardim das Aflições e O Futuro do Pensamento Brasileiro – para criticar o PT e falar de atualidades bastaria pegar qualquer um que aparecesse na rua. Esse tipo de gente costuma compreender os projetos dos outros pela própria baixeza e restrição mental. Kleber Mendonça Filho respondeu a ele dizendo que um filme de direita pode ser interessante como contraponto. Como assim filme de direita? O que é isso? Já imaginou um poema de direita? Um romance de direita? Isso não faz sentido algum. Se eu fizesse qualquer obra de arte de direita, assim como de esquerda, eu estaria fazendo uma peça retórica e não poética.

E ele está pensando isso porque os documentaristas brasileiros em sua maioria de fato tem esse perfil: fazem filmes de esquerda, que são, na verdade, peças publicitárias – o exemplo máximo disso é Doméstica, um filme feito no contexto da aprovação do projeto da PEC das domesticas pelo PT, mas existem tantos e tantos outros exemplos (inclusive os dezenas de documentários sobre o Ocupe Estelita, todos muito ruins). No Brasil as pessoas nem suspeitam da possibilidade de se fazer um documentário voltado para questões interiores, espirituais (que é exatamente o que o pensamento de Olavo tem mais a oferecer – mas isso não vai chegar nunca a essas pessoas que só lêem a difamação petista contra ele). Eles acham mesmo que eu faria um filme de direita para me contrapor à temática de luta de classes ou “social” que é predominante no cinema documentário nacional? Ora, uma coisa que eu aprendi com Balthazar Gracián foi não agir por oposição. Não é porque uma coisa é um lixo que o contrário dela seja algo bom. Agora me digam: como seria um filme direitista sobre a vida interior? Existe metafísica de direita ou esquerda? Nunca mais vou me esquecer: certa vez eu falava para Fernando Monteiro sobre o fato de Doistoiévski ser um conservador, e, portanto, de direita, e ele retrucou: “Doistoiévski era um profeta, poeta e místico. Profetas, poetas e místicos não são de esquerda nem de direita”.

O ex-secretário de cultura do Recife

Eis que exatamente uma semana depois do comentário de Fábio Leal, Renato Lins, ex-secretário do cultura da Prefeitura do Recife, pergunta no seu perfil no Facebook se é verdade que estão “tentando” fazer um filme sobre Olavo de Carvalho. E diz que deve ser uma comédia. Ora, Renato L, que foi secretário de cultura da gestão que é universalmente reconhecida como a pior da história do Recife, e que deixou o cargo de fininho já no final da gestão em meio à humilhação completa e total do governo petista na cidade, deve ser um dos tantos incomodados com a existência do meu filme O Jardim das Aflições. Mas eu até entendo Renato L: quando foi secretário de cultura do Recife, a cidade era governada pelo PT, o estado era aliado do governo federal, e tudo parecia caminhar perfeitamente para a hegemonia do grupo do qual ele fazia parte em todos os âmbitos do executivo. O primeiro grande baque deve ter sido, naturalmente, a própria gestão da qual ele fazia parte: tão vexatória que o prefeito eleito do PT foi proibido de se candidatar à reeleição pelo próprio partido. Renato L saiu de fininho, cabisbaixo, se escondendo no boné, e sem querer entrar em polêmica. Depois Eduardo Campos virou uma ameaça ao poder central do partidão, e, naturalmente, virou fascista, nazista e o escambau. Dilma quase perde a eleição, mas logo nos primeiros dias de governo foi ficando claro o que os atentos já sabiam: o grupo do qual Renato L faz parte é na verdade uma sofisticada organização criminosa responsável pelo maior caso de corrupção de que se tem notícia (palavras do NY Times), a presidente que ele tão ardorosamente defendeu se torna a mais impopular da nação e enfrenta, ao mesmo tempo, o TCU, a policia federal, e 20 delações premiadas dizendo que ela se elegeu duas vez com dinheiro desviado da Petrobrás – de modo que ninguém mais diz que ela suporta governar até 2018 e muitos já dizem o PT acabou. Nesse contexto, vem alguém exatamente do Recife fazer um filme sobre Olavo de Carvalho, exatamente o intelectual que já dizia, com décadas de antecedência, que o PT é uma organização criminosa.

E por fim: porque fazer um filme sobre Olavo de Carvalho

Logo que contei da minha ideia do filme O Jardim das Aflições, me perguntaram porque eu escolhi fazer um documentário de longa-metragem sobre Olavo de Carvalho. Eu poderia ter respondido: que outro brasileiro tem obras ensaísticas do porte do O Imbecil Coletivo, A Nova Era e a Revolução Cultural, O Jardim das Aflições? (Livro que inspirou o título do filme). Que outro filósofo no Brasil cita, nas aulas sobre filosofia, autores como Goethe, Tarkóvski, Szondi, Frye? Que outro filósofo tem textos arquetípicos sobre cinema, como Símbolos e Mitos em O Silêncio dos Inocentes ou Meu filme favorito, sobre Aurora de Murnau? Que outro autor brasileiro foi, ao mesmo tempo, louvado por eminências como Jorge Amado, Roberto Campos, Paulo Francis, Bruno Tolentino e tem seus livros sempre na lista dos mais vendidos? Eu poderia ter respondido que Olavo de Carvalho é o mais completo intelectual brasileiro desde Gilberto Freyre (morto em 1987, ano em que eu nasci), e uma das personalidades mais complexas e interessantes da história desse pais. Mas a resposta é muito mais simples: porque eu quis! Felizmente, não só sou eu quero esse filme: até agora mais de 500 pessoas doaram para que ele exista. As filmagens serão realizadas ainda esse mês sem um centavo de dinheiro público, com direção de fotografia de Daniel Aragão e entrevistas de Wagner Carelli e, a não ser que o Estado Islâmico derrube o avião da equipe, o filme que não deveria existir vai sim existir.

*Josias Teófilo é jornalista, autor do livro O Cinema Sonhado, e fotógrafo.

Acesse o site com as informações sobre o projeto: O Jardim das Aflições

Quando o mundo perdeu a sua humanidade

O leitor Breno Machado (@BrenoOM1) nos enviou um texto curto e direto ao ponto sobre os acontecimentos envolvendo a empresa abortista Planned Parenthood. Nós legendamos um vídeo e divulgamos alguns outros.

Quando o mundo perdeu a sua humanidade

A geração que se comoveu com a morte de um leão e ignorou a venda de partes de bebês abortados

No dia 14 de julho, o canal no youtube do The Center for Medical Progress divulgou um vídeo que chocou a maioria das pessoas e vem causando revolta e indignação com outros vídeos que são divulgados a cada semana. A empresa americana de “planejamento familiar” Planned Parenthood, que recebe dinheiro da administração Obama para promover “o direito das mulheres”, comercializa numa espécie de mercado negro, partes de bebês abortados. Sim. Pernas, braços, crânio, o que você imaginar. Um verdadeiro balcão de negócios, onde a mercadoria são fetos humanos e os vendedores são médicos da empresa.

A Fox News, rede de notícias mais conservadora, vem divulgando esse “crime que clama aos céus” com bastante ênfase. A CNN, que serve de base de notícias pra muitos outros canais, inclusive aqui no Brasil, divulga com certa timidez o assunto.

Só no ano passado cerca de 500 milhões de dólares foram repassados à empresa. Organizações pró-vida, acompanhadas pelos pré-candidatos republicanos à Casa Branca e milhares de pessoas comuns pedem que o governo acabe com esse financiamento do contribuinte americano. Além desse escândalo, há denúncias de aborto seletivo, fraude, racismo entre outros.

Pois bem, você soube disso por algum órgão da imprensa brasileira? Eu também não. Ninguém falou, não houve comoção.

E sobre o leão Cecil?

Quase duas semanas depois da divulgação dos vídeos, surgiu a noticia que um dentista americano matou o leão Cecil, símbolo do Zimbábue. A reação?

A Casa Branca se pronunciou se propondo a ajudar nas investigações, a ONG de direitos dos animais PETA pediu que o dentista fosse ENFORCADO, milhares de pessoas comovidas em todo o mundo. Nem preciso dizer muito, porque você já viu no Jornal Nacional ou algum amigo seu já compartilhou isso no facebook.

A doença ambientalista conseguiu: rebaixamos a dignidade humana e elevamos os animais à adoração. Não analiso a morte do leão e o conceito de caça. O leão é um animal. Alguém como eu e você que não teve a chance de falar uma palavra, foi desmembrado pra ser comercializado.

A morte do leão surgiu como um alento para a agenda progressista: Fetos desmembrados? O mundo se comove mais com leões.

Sobre os crimes da Planned Parenthood

http://plannedparenthoodexposed.com/

Breno Oliveira Machado

Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico, de Theodore Dalrymple

Hoje a nossa Coluna do Leitor inova e traz, pela primeira vez, uma resenha enviada por leitor. A crítica ao mais novo livro publicado no Brasil de Theodore Dalrymple, “Podres de Mimados”, foi enviada por André Catapan. Leiam abaixo:

Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico, de Theodore Dalrymple

Podres de Mimados é a mais recente obra de Theodore Dalrymple publicada no Brasil pela editora É Realizações. Ao contrário de “A Vida na Sarjeta” e “Nossa Cultura… ou o que restou dela”, o livro não é uma coletânea de artigos com temas mais ou menos semelhantes, mas sim uma análise profunda das consequências do que o autor chama de “sentimentalismo tóxico” em nossa sociedade.

Dalrymple é um autor recente nas estantes e livrarias brasileiras. Seu nome é, na realidade, um pseudônimo do psiquiatra inglês Anthony Daniels, que, trabalhando como médico de uma prisão, transformou suas “experiências diárias em ouro jornalístico”, como bem disse Noel Malcom para o The Telegraph. O autor faz parte daquele panteão de gênios que consegue analisar, compreender e descrever a realidade de maneira clara e objetiva, enquanto, para nós, ela passa despercebida.

Ao longo das cerca de 200 páginas, o autor não se omite de tecer opiniões, de apontar causas e consequências. Não se pauta pelo falso moralismo nem se esconde atrás de certo relativismo que, travestido de isenção, denota apenas total indiferença para com os assuntos abordados. Não por menos João Pereira Coutinho sentencia: “Dalrymple não é leitura fácil para gostos politicamente corretos. Mas qualquer obra do dr. Dalrymple merece o tempo e o dinheiro. Dalrymple não engana.”

Mas o quê, então, é esse “sentimentalismo tóxico”? Por que motivo seria ele tão nocivo? Em primeiro lugar, afirma o autor, o sentimentalismo é “uma daquelas características mais fáceis de se reconhecer do que se definir”. Os dicionários todos apontam para os mesmos “sintomas”: “um excesso de emoção falsa, doentia e sobrevalorizada em comparação com a razão”. Dalrymple, todavia, vai além, e sua análise se dá para uma característica cada vez mais comum – a exibição pública do sentimentalismo, no qual “derramar uma lágrima em privado é um dos maiores crimes que se pode cometer”. Para tanto, faz uso do cotidiano inglês (que é, infelizmente, perfeitamente adaptável à realidade tupiniquim) como forma de apresentar sua tese: desde os casos mais ordinários, como um simples pé de galinha dentro de uma embalagem em que deveria haver apenas peito de frango, até aqueles com ampla repercussão internacional, como o desaparecimento da menina Madeleine McCann e a morte da Princesa Diana.

O primeiro caso, todavia, merece uma atenção especial, visto que é quase que uma epítome da situação que se quer demonstrar. Num jantar ordinário, a filha de um casal faz um escândalo porque encontrou, em seu prato, um pé de galinha (a bandeja com os cortes de ave deveria conter apenas peito). Os país, indignados, voltam-se contra o supermercado, afirmando que sua pequena e adorável filha, em decorrência dessa experiência traumática, havia assustado-se de tal maneira que afirmava que nunca mais iria comer carne em toda a sua vida, exigindo, portanto, uma volumosa indenização. A reação deproporcional, tanto da criança (que fez o berreiro) quanto de seus pais (que o aceitaram), só pode existir, afirma Dalrymple, numa cultura em que impere à emoção em detrimento da razão e, mais ainda, num ambiente em que seja socialmente aceitável, e até esperado, que empresas sejam sempre culpadas e clientes sempre vítimas. É evidente que ninguém merece comprar gato por lebre, ou, no caso, pé por peito, todavia, apenas a noção de que tal aviltamento é digno de atenção (e de ser assim considerado) e que responsáveis (que não os pais que miseravelmente prepararam esse jantar) devem ser identificados e punidos, não só pelo valor do produto em si, mas pelo ceifamento de todo um aspecto de uma vida humana, é evidência suficiente de que o sentimentalismo tem papel de destaque em nossa cultura. Como bem definiu Dalrymple: “a esperança de indenização é a forma moderna de alquimia que transforma aflição em ouro.”

Se aceitamos que tal comportamento aconteça na esfera privada (ainda mais quando vemos nele um potencial benefício financeiro), é impossível que o mesmo não ocorra também em público: “em um estado de sentimentalismo, certamente do tipo vivido em público, a pessoa é mais comovida pelo fato de ser comovida do que por aquilo que supostamente a está comovendo. Além disso, está interessada em que todos vejam o quão comovida está. O trigo do sentimento genuíno é logo perdido no joio das considerações secundárias; e, tendo o exagero uma lógica própria, o joio tende a aumentar.” Exemplos dessa espécie de exibicionismo sentimental, no Brasil e no mundo, não faltam (na realidade, infelizmente, os temos em excesso): desde a morte prematura de artistas até a defesa política de causas progressistas as mais variadas, a expressão de um sentimento é mais importante do que o conhecimento do fato ou causa em si. Diz ainda Dalrymple: “o sentimentalismo olha para si: ele não é apenas a resposta emocional a algo, mas a satisfação de possuir a emoção por si própria”.

Sendo assim, a verdade e a realidade são secundárias quando em contrastes com a emoção. Um possível erro, nesses casos, seria justificável. A partir de uma frase de Jean-Jacques Rousseau, em “A Profissão de Fé do Vigário Saboiano” (“Se estou equivovado, estou sinceramente equivocado, e, portanto, meu erro não será considerado um crime“), Dalrymple afirma que, desse modo, o equívoco, de fato, nunca será considerado um crime, uma vez que a coisa mais importante do mundo “é o aconchego psicológico dos princípios a partir dos quais um um homem diz agir”. Ou seja, quando o erro é resultado de “boas intenções”, erro não é. Eis aí um resumo do programa de governo do ciclofaixista (e, algumas vezes, prefeito de São Paulo) Fernando Haddad, por exemplo.

Dalrymple remonta à Rousseau as origens do sentimentalismo, mais precisamente à Revolução Romântica do século XVIII. Nessa época, “a visão cristã de que o homem nasceria imperfeito, mas poderia e deveria buscar pessoalmente a perfeição foi primeiramente questionada e depois trocada pela visão romântica de que o homem nascia naturalmente bom, mas era corrompido e transformado em mau por viver numa sociedade má”. Como consequência, “a exibição de vícios tornou-se a prova de maltratos; o que se considerava defeito moral se tornou condição de vítima.” Aquele que, de posse de uma faca, comete um crime, torna-se, portanto, cada vez mais vítima quanto mais estocadas dê. Ao cidadão que sangra e agoniza transfere-se a culpa e, caso sobreviva, não é absurdo em pensar que, em um futuro próximo, ainda lhe exijam um pedido de desculpas à vítima social que o atacou.

“Para o sentimentalista, é claro, não existe criminoso, mas apenas um ambiente que não lhe deu o que devia.” Esse pensamento é deveras reconfortante, uma vez que nos exime de nossas responsabilidades individuais. Tendo em vista que nascemos bons e felizes, a infelicidade e o sofrimento são, portanto, as provas de maus-tratos e de vitimação. Em vez de se corrigir os indivíduos, deve-se, primeiramente, corrigir a sociedade “para restaurar no homem seu estado original e natural de bondade e de felicidade”. Aceitar tal pensamento é dar carta branca à megalômanos de mente mínima que acreditam ter respostas para tudo. Ao longo do século passado, inúmeras tentativas como essas foram realizadas em locais diversos. O resultado (desastroso) é sempre o mesmo: pilhas e mais pilhas de cadáveres.

Uma das consequências desse sentimentalismo tóxico é a vitimação. Dalrymple apresenta inúmeros casos de pessoas que falsificaram até a própria identidade para tornarem-se vítimas mais reconhecíveis, assumindo uma espécie de autoridade moral em determinados assuntos. Sendo assim, é o sofrimento de uma pessoa, e não suas ações, que se torna uma espécie de parâmetro moral que distingue os seres humanos. Nessa eterna luta entre o opressor e oprimido, o mundo se resume à máxima (ou seria mínima) orwelliana “quatro patas bom, duas patas ruim”. Não é coincidência, então, que muitos discursos políticos se deêm hoje no campo das “micro-agressões”: a busca de um culpado (e, por conseguinte, de uma vítima) deixam de se basear num contraponto objetivo (Código Penal) e passam a ser totalmente definidas pela emoção ou pelo sentimento do “oprimido”. Não é por menos que Thomas Sowell define essas “micro-agressões” como uma espécie de “micro-totalitarianismo”. A culpa, nesses casos, está simplesmente no fato de se existir.

Não é difícil de perceber, após a leitura do livro, que o discurso progressista se baseia puramente no sentimentalismo e que o mesmo é ainda o filtro por qual boa parte das notícias passam antes de chegar até nós. Tome-se por exemplo o caso de uma repórter que, ao “entrevistar” um bandido preso pelo estupro de menores, pergunta se o mesmo já havia sofrido alguma espécie de abuso sexual quando menor. Antes de se buscar a notícia, busca-se a causa, a desculpa. E, quanto mais fácil ela possa ser transferida para nós, que desses crimes nunca participamos, melhor. Se existem milhares motivos para uma pessoa cometer um crime, talvez a certeza da impunidade seja um dos mais relevantes. Quando tiramos dos criminosos até sua culpa moral, o resultado só pode ser a barbárie.

Dalrymple, por fim, resume: “O sentimentalismo foi o precursor e o cúmplice da brutalidade sempre que as políticas sugeridas por ele foram postas em prática. O culto do sentimento destrói a capacidade de pensar, e até a consciência de que é necessário pensar”. Nada poderia ser mais atual.

“O sentimentalismo é o progenitor, o avô e a parteira da brutalidade.”

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Dados Técnicos:

Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico.

Autor: Theodore Dalrymple

Tradução: Pedro Sette-Câmara

Apresentação: Luiz Felipe Pondé

Número de Páginas: 208

Ano: 2015

A História reescrita e a censura da ficção

Retomando nossa “Coluna do Leitor”, trazemos hoje um artigo excelente enviado por Thaís Gualberto. Como escritora, ela trata da tentativa de censura e os ataques estúpidos a “E O Vento Levou”.

A História reescrita e a censura da ficção

Se há uma obra de ficção que indiscutivelmente impactou-me como leitora e escritora de ficção foi o grandioso épico “E O Vento Levou”, de Margaret Mitchell, que li ano passado. A escrita magistral brinda-nos com personagens descritos brilhantemente tanto no aspecto físico como emocional e extremamente bem construídos, bem como falas inesquecíveis vindas muitas vezes de personagens secundários (Beatrice Tarleton, a criadora de cavalos, por exemplo) e um bem construído background histórico da Guerra de Secessão (1861-1865) sob a ótica dos estados Confederados (sul dos EUA).

E é exatamente devido ao momento histórico retratado tanto pelo livro como pelo filme nele baseado que os militantes da praga politicamente correta têm cada dia mais fomentado a celeuma que se ergue contra esse grande clássico da literatura americana. No artigo “‘Gone With the Wind’ should go away with the Confederate flag”, Lou Lomenick sugere que “E o Vento Levou” deveria ser banido por se tratar, segundo ele, de um obra “racista”.

Uma breve observação. Desde o bárbaro atentado a uma igreja protestante em Charleston perpetrado por um psicopata racista no qual 9 pessoas morreram, muitos na esquerda americana têm insistido com a ideia de que é preciso banir dos olhos do público a bandeira que representou os então Estados Confederados durante a Guerra de Secessão, pois ela incentivaria o racismo, uma vez que o assassino tinha fotos com a dita bandeira. Bem, isso é querer negar a história. Ainda que sim as grandes plantations do sul dos EUA utilizassem mão-de-obra escrava e não quisessem abrir mão de tal forma de produção, a bandeira representa um fato histórico ocorrido e que exatamente por isso não pode e não deve ser negado. E mais que isso: deve ser conhecido amplamente para que jamais se repita. Acredito que ostentar a bandeira Confederada por si só não faz de alguém um racista assim como o não ostentá-la não quer dizer que o sujeito não seja racista.

GoneWithTheWindÉ seguindo esse mesmo raciocínio que Lomenick propõe banir “E O Vento Levou”. Segundo ele, a história “transmite a ideia de que a Guerra Civil era uma nobre causa perdida e que os yankees (americanos do norte do país) e simpatizantes foram grandes vilões tanto na guerra como na reconstrução”. Bem, “E O Vento Levou” retrata a Guerra de Secessão sob a ótica dos fazendeiros do sul dos EUA, que faziam uso de mão-de-obra escrava na lavoura e na pecuária, de modo que a ficção é verossímil, ou seja, condizente com a realidade daqueles personagens. Nesse contexto, necessariamente os personagens sulistas sentem-se violados pelos soldados do norte: eles estupraram suas mulheres, roubaram suas casas e mantimentos, queimaram suas terras – todos atos típicos de uma guerra, é claro, mas evidentemente bárbaros. E é óbvio que para aqueles personagens a guerra era uma causa nobre, pois era o modo de vida deles que estava em jogo. Hitler também julgava a Segunda Guerra uma causa nobre, quem entra em uma guerra sempre achará nobre a sua própria causa, por mais pérfida que ela seja. Assim, ainda que seja abominável defender a escravidão, os personagens de uma obra ambientada naquele período e naquele lugar, naturalmente a defenderiam. Surpreendentemente, no livro ao menos, subentende-se que o protagonista, Rhett Butler é um abolicionista que se cala para não sofrer retaliações em meio aos que pensam diferente dele.

Sim, o filme não faz referência à KKK (Ku-Klux-Klan), mas o livro sim. O livro a retrata como algo bom? Depende. As mulheres consideravam perigoso envolver-se com aquilo, porém o envolvimento é, dentro da trama ao menos, justificado diante a política estabelecida durante a reconstrução segundo a qual autoridades fariam vista grossa a crimes cometidos por negros recém-libertos. Para mim, em particular, isso não é uma boa justificativa para se criar uma organização como a KKK, pois não há justificativa nenhuma aceitável para isso. A grande questão exposta na narrativa que Lomenick não menciona é que o livro claramente mostra a Klan como surgida no seio do partido Democrata, ao qual eram vinculados os grandes produtores rurais do sul. Sim, o mesmo Partido Democrata que hoje posa de defensor de minorias e monopolista das virtudes foi contrário à abolição da escravidão e fundador da KKK, enquanto a abolição foi uma causa abraçada e ferrenhamente defendida pelos Republicanos desde a fundação do partido, sempre ligado a causas afins ao Liberalismo Clássico. Racistas não são os Republicanos, como gostam de pregar os Democratas, mas sim estes, que fomentam dia após dia a luta de classes em seus discursos inflamados que estimulam negros a odiar brancos por causa de um passado que na verdade pertence a toda a humanidade, visto que a escravidão foi verificada desde o início dos tempos. E mais ainda se considerarmos que em países socialistas populações inteiras são escravas de seus governos autoritários.

Sobre o livro, ainda digo mais. Mammy, a escrava do lar dos O’Hara, que dizia orgulhosa que nasceu na casa grande dos Robillard e jamais pisou em uma senzala (e que se recusava a trabalhar no campo mesmo quando as senhoras semearam e colheram algodão com as próprias mãos), é retratada como uma das personagens mais brilhantes e queridas pelas demais personagens da história. Mais que isso, Mammy é astuta, mas também dura com aqueles com quem ela se preocupava. Nenhum negro no livro é descrito como mera máquina de trabalho, mas como seres humanos dotados de sentimentos, de personalidade. Dizer que essa é uma história racista porque eles eram escravos em uma época que assim infelizmente o era na vida real? A propósito, a própria Hattie McDaniels, grande atriz que deu vida a Mammy no cinema, foi frequentemente boicotada por movimentos negros sob a alegação de que ela “ajudava a manter o estereótipo servil do negro na sociedade ao aceitar representar domésticas e serviçais”, ao que a atriz reagia dizendo que preferia ganhar 700 dólares por semana para interpretar uma criada a ganhar 7 dólares por semana para ser uma criada. Big Sam, outro dos personagens egressos dos campos de Tara salvou Scarlett de ser estuprada por negros que eram bandidos. Havia negros e brancos bons e maus nessa história, tal como na vida real e negar isso é desconhecê-la.

Banir a história mais épica escrita no século XX porque ao retratar uma realidade da época que ela descreve sensibilidades são feridas é levar a novilíngua a um novo nível. É claramente querer reescrever a história só porque há episódios feios nela. E isso não é exclusividade do atual momento dos EUA. O que foi a “Comissão da Verdade” senão uma tentativa de reescrever a história do Brasil? Desde quando uma comissão que se pretende “da verdade” apura apenas um lado do conflito? Por que apenas militares que cometeram crimes durante o Regime Militar foram rotulados como “malvados”, quando é sabido que os terroristas de esquerda do período não tiveram a morte de suas mais de 100 vítimas sequer apuradas? Porque construir a narrativa histórica que será impressa nos livros de história, no caso tratando os terroristas como democratas que sofreram nas mãos de autoritários bárbaros e de maneira unilateral, é o que irá determinar o sucesso da militância no futuro.

Portanto, considerar “E o Vento Levou” um filme racista devido ao fato de retratar os sulistas democratas (sim, eram todos democratas, os republicanos que desde o início defenderam o fim da escravidão e sim, foram os democratas que criaram a KKK) defendendo a escravidão no período em que historicamente eles de fato defendiam a escravidão não é só uma excrescência, é doentio. Fazia parte da realidade daquele período aquelas pessoas terem escravos; fazia parte da realidade das pessoas daquele período ter saudades de como levavam a vida antes da guerra (lembrando que os soldados do norte muitas vezes atearam fazendas inteiras com famílias no interior da casa grande).

Independentemente do quão condenável seja o ponto de vista de um personagem, nós que escrevemos ficção devemos ser livres para criarmos qualquer espécie de personagem e, mais que isso, não podemos tolerar que limitem nossa liberdade de expressão. E quando escrevemos algo tendo como pano de fundo algum grande evento histórico, não podemos ser tolhidos de expressar a visão de nossos personagens de acordo com a posição que ele ocupa dentro daquele contexto histórico. Vamos banir filmes que retratem o holocausto só porque necessariamente haveria personagens nazistas que o defenderiam? NÃO! JAMAIS! Isso seria falsear a realidade por trás de uma narrativa ficcional, porém verossímil. E jamais devemos conceder a ninguém a prerrogativa de reescrever a história, sobretudo tentando esconder o que nefasto aconteceu.

Thaís Gualberto, bacharel em Ciências Econômicas pelo Instituo Brasileiro de Mercados e Capitais (Ibmec-RJ).

Maduro afronta o Brasil (e Dilma não faz nada)

Trazemos hoje ao Coluna do Leitor um texto pedido à nossa amiga Bruna Luiza. Ela fala do mais novo absurdo da ditadura venezuelana, que humilhou senadores brasileiros em retaliação ao apoio que deram às vítimas políticas daquele regime assassino:

Maduro afronta o Brasil (e Dilma não faz nada)

Venezuelan acting President Nicolas Maduro delivers a speech during a campaign rally in San Carlos, Cojedes State, on April 4, 2013. The presidential campaign to replace Venezuela's Hugo Chavez formally kicked off Tuesday, with Maduro -- Chavez's hand-picked successor -- battling opposition leader Henrique Capriles for the forthcoming April 14 vote.  AFP PHOTO / JUAN BARRETO

AFP PHOTO / JUAN BARRETO

Em março o Senado brasileiro criou uma comissão especial para verificar a situação política na Venezuela. Os Senadores reclamaram da reação de Dilma aos problemas na Venezuela, que tem sido fraca (para não dizermos nula). O Senador Ricardo Ferraço é um dos mais enfáticos representantes nesse assunto, e disse que o Itamaraty parece estar fora da realidade ao ignorar assunto de tamanha gravidade. Ferraço foi um dos poucos Senadores com coragem para dizer o óbvio: não deve haver negociações com um governo autoritário. A resposta do Itamaraty foi nula: disseram não estar preocupados, e que o comitê era apenas uma manobra política da oposição.
Ainda em março as esposas dos presos políticos venezuelanos visitaram o Brasil. Nossa Presidente não quis encontrá-las. A mesma Dilma que chora ao falar da ditadura, fecha os olhos para as atrocidades que estão sendo cometidas no país vizinho. Mas nosso Senado mostrou uma postura exemplar, e as recebeu, numa audiência lotada. As esposas pediram ajuda do Brasil para buscar a liberação dos presos políticos, para organizar eleições limpas na Venezuela, e para que Maduro respeite os direitos humanos dos venezuelanos.
Ontem, a comissão formada por Aécio Neves, Aloysio Nunes Ferreira, Romero Jucá, Sérgio Petecão e Fernando Bezerra viajaria para a Venezuela para visitar os presos políticos. Mas não receberam autorização do governo da Venezuela para pousar. Sem explicações, Maduro simplesmente disse “não” para a visita dos Senadores brasileiros.
O Palácio da Planalto não comentou o assunto. O Ministério da Defesa tenta resolver o problema por baixo dos panos. A mídia não divulgou nada além de notinhas mínimas. Maduro se nega a receber Senadores brasileiros, e ninguém faz nada. Mais uma afronta da Venezuela ao Brasil. Mais uma medida autoritária e injustificada de Maduro.
A única medida tomada até agora veio do Senador Caiado, que disse que pretende organizar uma moção de repúdio, solicitando a exclusão da Venezuela do Mercosul e rompendo os acordos legislativos entre os países. Nossa Presidente terá que escolher se ficará ao lado do Congresso Nacional, ou se dará apoio escancarado à ditadura de Maduro.

A farsa de Aécio Neves e Reale Jr.: Entenda a pizza preparada pelos tucanos

Comentário feito por um amigo do site que tomamos a liberdade de publicar na Coluna do Leitor:

Por Taiguara de Sousa

O ERRO DA “ESTRATÉGIA DA OPOSIÇÃO”

Há um ponto que está sendo desconsiderado nessa “estratégia da oposição” de pedir investigação de Dilma à PGR por crime comum. Não sei o que o Dr. Miguel Reale Jr. colocou em sua petição, mas há algo muito estranho nessa estratégia: é que as pedaladas fiscais NÃO SÃO crimes comuns, são crimes de RESPONSABILIDADE.

E, por expresso mandato constitucional, os crimes de responsabilidade SÓ PODEM ser investigados no processo de impeachment, que corre perante o Senado.

O STF só é competente para investigações por crime comum, não por crime de responsabilidade, mas as pedaladas SÃO CRIMES DE RESPONSABILIDADE, não comuns.

Vejam o que diz a Constituição:

“Art. 85. SÃO CRIMES DE RESPONSABILIDADE os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra:
[…]
V – a probidade na administração;
VI – a lei orçamentária;
VII – o cumprimento das leis e das decisões judiciais.

Art. 86. Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, OU PERANTE O SENADO FEDERAL, NOS CRIMES DE RESPONSABILIDADE.

§ 1º O Presidente ficará suspenso de suas funções:
I – nas infrações penais comuns, se recebida a denúncia ou queixa-crime pelo Supremo Tribunal Federal;
II – NOS CRIMES DE RESPONSABILIDADE, APÓS A INSTAURAÇÃO DO PROCESSO PELO SENADO FEDERAL”.

Vejam que a estratégia da oposição está errada até aí: não adianta pedir investigação à PGR por crime comum, pois as pedaladas SÃO CRIMES DE RESPONSABILIDADE, só passíveis de processamento por impeachment, sendo jurisdição competente o Senado Federal.

O Tribunal de Contas da União, no Acórdão TC nº 0992/15, não falou em crime comum, mas apenas que houve VIOLAÇÃO da Lei de Responsabilidade Fiscal em três de suas proibições. Vejam:

“32. Uma vez caracterizados como operações de crédito, tais procedimentos violam restrições e limitações impostas pela LRF.

33. Primeiro, porque, no que se refere aos recursos disponibilizados pela Caixa e pelo BNDES, envolvem instituições financeiras públicas controladas pelo ente beneficiário dos valores, contrariando o art. 36 da LRF, segundo o qual é “proibida a operação de crédito entre uma instituição financeira estatal e o ente da Federação que a controle, na qualidade de beneficiário do empréstimo ”. Depois, porque não atendem às formalidades requeridas no art. 32 da referida lei, em especial a necessidade de prévia e expressa autorização no texto da lei orçamentária para sua contratação, estabelecida no inciso I do § 1° do referido artigo. E, ainda, porque, circunstancialmente, infringem a vedação do art. 38, inciso IV, alínea “b”, da Lei, que proíbe a contratação de crédito por antecipação de receita no último
mandato do Presidente da República”

No que nos interessa, foram três as violações detectadas pelo TCU:

1. Realização de operação de crédito entre uma instituição financeira estatal e o ente da Federação que a controla (violação do art. 36 da LRF);

2. Realização desta operação de crédito sem a prévia e expressa autorização no texto da lei orçamentária (violação do art. 36, §1º, I da LRF)

3. Contratação de crédito por antecipação de receita (violação do art. 38, IV, “b” da LRF)

E estes três atos violadores são que crimes?

Justamente os crimes de responsabilidade contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, definidos na Lei 1.079/50 (Lei dos Crimes de Responsabilidade), mais especificamente no art. 10º, nºs 6 e 9, incluídos pela Lei 10.028/2000 (justamente a Lei que estabeleceu os crimes fiscais depois da LRF) e art. 11, nº 3. Vejam:

“Art. 10. São crimes de responsabilidade contra a lei orçamentária:

6) ordenar ou autorizar a abertura de crédito em desacordo com os limites estabelecidos pelo Senado Federal, sem fundamento na lei orçamentária ou na de crédito adicional ou com inobservância de prescrição legal;

9) ordenar ou autorizar, em desacordo com a lei, a realização de operação de crédito com qualquer um dos demais entes da Federação, inclusive suas entidades da administração indireta, ainda que na forma de novação, refinanciamento ou postergação de dívida contraída anteriormente;

Art. 11. São crimes contra a guarda e legal emprego dos dinheiros públicos:

3 – Contrair empréstimo […] ou efetuar operação de crédito sem autorização legal.”

Portanto, as “pedaladas fiscais” são crimes de responsabilidade, definidos na Lei 1.079/2000. NÃO SÃO CRIMES COMUNS.

Agora, se NÃO SÃO crimes comuns, como é que a oposição vai pedir investigação por crime comum?

E se SÃO crimes de responsabilidade, como é que a oposição não pede impeachment, já que esses crimes só podem ser processados no impeachment, perante o Senado (por ordem da própria Constituição, art. 86, parte final e §1º, Inciso I)?

Entendem porque isso é enganação pura? O pedido deverá ser negado justamente por isso e muito me admirará se for diferente.

É como se alguém cometesse difamação e o Ministério Público fosse investigá-lo por homicídio. São coisas totalmente diversas e por isso mesmo o inquérito seria arquivado.

Aécio Neves

Aécio Neves

A terceirização, os direitos, os anéis e os dedos

Trazemos novamente à Coluna do Leitor uma colaboração de Marcos Aurélio Lannes Junior. No artigo de hoje ele fala do debate sobre a terceirização. O Marcos pode ser encontrado no Twitter e seus artigos em seu blog, “Minuto Produtivo“.

A terceirização, os direitos, os anéis e os dedos

Terceirização

Como é sabido de todos, foi aprovado na Câmara o Projeto de Lei n°4330, que regulamenta as terceirizações no Brasil. Caso isto seja sancionado, as empresas (públicas e privadas), bem como a própria administração pública, não só as atividades-meio de uma empresa poderão ser repassadas a terceiros, mas também a própria atividade-fim. Este ponto, bem como outros do projeto (vocês podem conferi-los aqui), causa bastante polêmica entre empresários, centrais sindicais e magistrados da área trabalhista, sendo que os defensores alegam que a medida reduzirá os custos de produção, dará mais competitividade às empresas e acabará gerando mais empregos e, por outro lado, os opositores alegam que a medida precarizará o trabalho, com menores salários, maior jornada e piora na qualidade dos produtos e serviços produzidos à sociedade.

Eu até poderia utilizar o blog para comentar um pouco sobre os detalhes e sobre o porquê da aprovação deste projeto de lei ser positiva para o país, mas creio que tanto os artigos de Bernardo Santoro no Instituto Liberal e no Instituto Mises Brasil como o artigo de João Mauad no IL fizeram muito bem este papel. O meu intuito aqui é tentar desmistificar alguns comentários feitos em tom escatológico sobre a aprovação do PL 4330. No final das contas, acabarei chegando ao mesmo objetivo de Santoro e Mauad, apenas adotando um tom menos formal no meu comentário.

Finalizada a minha observação, vamos ao primeiro comentário apocalíptico, na qual as empresas farão questão de terceirizar tudo, se bobear até a mãe dos empregados (ok, ela não pode fazer isso, mas alguns comentários contrários à terceirização chegam perto deste nível). Para começo de conversa, é importante frisar que o fato de as empresas poderem terceirizar praticamente todas as suas atividades não significa que elas de fato a farão, da mesma forma que legalizar o casamento gay não implica que todos virarão gays e se casarão, legalizar a maconha não implica que as cidades brasileiras virarão um misto de Amsterdã com Kingston, ou ainda que legalizar o posse de armas de fogo implica que todos andarão armados de 762 na mão e transformarão o Brasil em um Iraq…Ops, pera, nosso país consegue matar mais pessoas que países em guerra, e temos um número relativamente pequeno de armas em mãos de civis.

Comparações à parte, a verdade, repito, é que nem todas as empresas que, pela lei, possam terceirizar todas as suas atividades, o farão de fato. Até porque não é tão somente uma questão legal, e sim de viabilidade econômica e estratégica. Como disse em um post do dia 27/03, em que critiquei o posicionamento de Guilherme Boulos em sua coluna na Folha de S. Paulo, a maioria dos empregos gerados no país são por micro e pequenas empresas, que, por razões de viabilidade econômica, não terão condições de terceirizar qualquer atividade-meio, muito menos a atividade-fim (lembrando que uma parcela delas são empresas familiares, e uma das características das mesmas é a centralização das atividades em torno de seu dono, portanto a terceirização é a última coisa a ser pensada, por razões óbvias). Outras empresas podem até enxergar como economicamente viável a terceirização de todas as suas operações, mas por fatores estratégicos ela acabará optando por contratar diretamente seus funcionários. Tomemos uma escola, por exemplo. Muitas escolas possuem condições financeiras de terceirizar a contratação de professores, mas é razoável que elas optem por tê-los no quadro de funcionários da instituição pelo fato de que eles participam da execução do plano de ensino da mesma. Talvez as grandes redes de ensino optem pela terceirização, pelo fato de adotarem procedimentos operacionais mais padronizados, mas as escolas menores (as “de bairro”) dificilmente adotarão a medida. Resumindo: as empresas que mais recorreriam a subcontratação de funcionários seriam as grandes e que tenham operações padronizadas, com poucas variações.

Outro comentário apocalíptico é que os concursos acabariam, uma vez que o setor público poderia terceirizar a contratação de funcionários para diversas atividades, exceto regulamentação e fiscalização. Trata-se de um argumento leviano, uma vez que os concursos continuariam existindo (até para que os serviços públicos tenham um quadro semipermanente ou mesmo permanente de funcionários), porém passariam a ocorrer com menos frequência. Além disso, como meu colega de bancada Luan Sperandio me lembrou, a terceirização pode ser uma alternativa paliativa para manter o atendimento à população enquanto os trâmites de concursos (que são mais burocráticos) se desenrolam. Por exemplo, caso o IFES, onde estudo, tivesse uma vaga em aberto de professor e não a preenchesse a tempo por meio de concurso ou mesmo processo seletivo (para contratação temporária) de um professor, este poderia terceirizar a contratação do mesmo até que o trâmite fosse finalizado. Situações semelhantes poderiam ser aplicadas em outras áreas. E caso você seja um “concurseiro” e esteja realmente preocupado com isso, convenhamos…Não é nenhum fim de mundo se tivermos menos concursos públicos (não, eles não acabarão, e, inclusive, tem funcionários públicos que preferiram voltar ao setor privado), ora bolas. Até porque acredito que você tenha algum potencial para realizar outras coisas, não acha? Por fim, a terceirização de serviços públicos pode sim ser uma boa alternativa, como mostra esse vídeo abaixo:
Outro comentário igualmente escatológico sobre o PL 4330 é quanto ao fato de que “a CLT seria rasgada e direitos trabalhistas seriam eliminados”. Nada mais falso. As obrigações trabalhistas continuariam sendo pagas pela prestadora de serviços, e caberia a quem contratou fiscalizar o cumprimento destas, sob risco de ser acionada na Justiça caso estas não fossem cumpridas (ver segundo link do primeiro parágrafo). E mesmo se houvesse alguma margem para flexibilização de direitos trabalhistas – que na versão atual do projeto é ainda pequena – é importante frisar o contexto em que estamos no momento, que é de crise econômica. Muitas pessoas já rodaram, vão rodar ou simplesmente ficarão sem emprego nos últimos meses e nos próximos. E mesmo admitindo o fato de que os trabalhadores das prestadoras de serviços trabalham mais e ganham menos (levando em conta que na contratação de um funcionário a empresa paga ele e os encargos trabalhistas, que correspondem a quase outro funcionário), é importante destacar que, devido à aprovação desta medida, menos postos de trabalho serão perdidos neste período de vacas magras. Enfim, você pode não ter todos os “direitos” que acha que deveria ter, mas terá o mais importante neste momento: emprego. Afinal, você prefere ter dedos nos braços, ainda que não tenha um anel, ou prefere este ainda que perca o braço por gangrena?

Faço esta pergunta porque alguns falam muito em manter “direitos” sem ter a noção dos custos que estes implicam à economia e à sociedade como um todo (lembrando que essa discussão está muito longe de ser novidade, em duas vezes deste ano, pelo menos – ver aqui e aqui – eu falei disso, assim como nos dois anos anteriores, para quem acompanha este blog). Cito o FGTS, uma das conquistas da CLT (diga-se de passagem uma legislação inspirada na Carta del Lavoro de Mussolini e que é defendida fervorosamente por sindicatos e movimentos sociais que alegam “combater o fascismo”), por exemplo. Você, trabalhador, sabia que está perdendo seu dinheiro naquilo? Sim, é seu dinheiro que está indo pelo ralo. Sabia ainda que durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, aquela que dizia não mexer nos direitos trabalhistas “nem que a vaca tussa”, o governo usou recursos do seu dinheiro para fechar as contas? Não, você não pode usar os recursos do FGTS como bem entende, inclusive retirá-lo para fazer um investimento mais rentável, mas o governo pode…Pois é.

Apenas citei um exemplo mais escancarado de que o Estado muitas vezes “” algo aos seus cidadãos para tirar muito mais em longo prazo, mas existem muitos outros “direitos” que, por mais bem-intencionados que sejam, acabam trazendo consequências negativas para a sociedade como um todo. Isso foi muito bem abordado no livro O Mapa e o Território, de Alan Greenspan (você pode conferir a segunda parte de minha resenha aqui).

Existem outros pontos que poderiam ser abordados por aqui, mas acredito que para começo de conversa minha tentativa de desmistificar o “apocalipse” das terceirizações está de bom tamanho. Espero ter esclarecido um pouco a questão.

Até a próxima.

O artigo original pode ser lido em: http://minutoprodutivo.blogspot.com.br/2015/04/a-terceirizacao-os-direitos-os-aneis-e.html

Cid Gomes foi herói por um dia, para direita e para a esquerda

Trazemos hoje para a Coluna do Leitor um artigo enviado por Fernando Henrique. Ele fala sobre a passagem ruidosa de Cid Gomes na Câmara Federal essa semana:

Cid Gomes foi herói por um dia, para direita e para a esquerda

Cid Gomes conseguiu nessa semana um feito digno da Família Gomes. Ciro, seu irmão mais velho, deve estar orgulhoso. E para tal Cid não precisou de muito: emulou a arrogância do irmão, quase tão bem quanto o próprio, e, fingindo-se de rogado, acusou os deputados da nação, veja só!, daquilo que muitos deles realmente são: achacadores. E usou ainda outros adjetivos piores.

E para enobrecer ainda mais seu ato, fez isso na Câmara, numa das tribunas da Câmara, com seus alvos a sua frente e ao seu lado.

Lá, em certo momento, quando dizia que deputados da base aliada deveriam sempre votar com o Governo, o exasperado Cid disse que aqueles que não o fizerem deveriam “largar o osso”! Para ele, muitos deputados aliados (300? 400?) são oportunistas que apreciam o enfraquecimento do Governo, pois assim fica mais fácil a barganha, fica mais fácil acharcar, sugar, obter cargos e tudo o mais que se faz, sabemos, nos bastidores da política brasileira – não sem a leniência do Executivo, claro, que enfraquecido ou não é partícipe de quaisquer maracutaias que ocorram, como bem evidencia os escândalos de corrupção investigados pelo Polícia Federal recentemente.

Louco? Corajoso? Se tratando de um Gomes, do Ceará, os donos do Ceará, prefiro acreditar nalgum tipo de cálculo político. Daqueles que não funcionam tão bem e só Ciro Gomes poderia arquitetar. Mas, antes de aventar as motivações para o inusitado fato, e ainda imaginar os resultados que podem trazer, para os Gomes, para o PT e para a nação, voltemos ao fato em si, e como ele se deu.

O até então ministro da educação do governo Dilma, Cid Gomes, havia ido ao plenário da Câmara, convocado por uma Comissão Geral, exatamente para esclarecer uma fala anterior, que vazou, proferida numa palestra para estudantes na Universidade Federal do Pará, onde havia dito que 300, 400 deputados da república não passam de achacadores. A ideia da convocação era esfriar os ânimos, quem sabe ele não se desculpava. Ledo engano.

Ora, foi uma participação inusitada porque não é toda dia, nem todo ano, quiçá década, que se vê alguém ir a Câmara dos Deputados apontar o dedo para o presidente da Câmera dos Deputados. Ainda mais sendo este Eduardo Cunha. Ainda mais sendo Cunha do PMDB. Líder do PMDB. Ainda que o acusador seja um ministro, ex-governador e o escambau, e muitos deputados sejam mesmo achacadores, é uma coisa que não se faz – até se pensa, mas não se faz, não se diz. Cid fez. Cid disse. E o Plenário caiu na sua cabeça. Lembraram de seus podres – alugou jato particular para viajar e se divertir pela Europa, com a esposa e a sogra, às custas do governo do Ceará; suposto superfaturamento de um show de Ivete Sangalo, na inauguração de um Hospital -, de como ele era também, como não?, um achacador. E não se contentaram apenas em respondê-lo a altura, quiseram a sua pele.

Antes mesmo do fim da sessão, Cunha, que havia contemplado o dedo em riste de Cid, e sido xingado nominalmente de achacador, através da “cúpula do PMDB” comunicou a um auxiliar da presidente Dilma que Cid deveria cair. Ou caía o ministro, ou o PMDB saía do Governo. Esse foi o recado. Caiu o ministro, claro. Numa clara demonstração de força, Cunha (e o PMDB) ameaçou a presidente e expôs sua fraqueza, indigna não para um presidente, mas para um gestor ou líder qualquer. Com isso, a relação entre Legislativo e Executivo acirrou-se de vez.

Pulou a esquerda, pulou a direita. A esquerda não petista, diga-se, aquela que pensa no PT como um traidor da causa revolucionaria-comunista-socialista por ter se aliado aos burgueses e não ter acirrado a luta de classes e avançado rumo a um regime (mais) socialista – é, este mesmo pessoal desinformado que não entendeu como sobrevive o “comunismo moderno”, aos moldes chineses. E também a esquerda “Tico Santa Cruz”, que odeia o PMDB e vê no partido todo o mal da política brasileira. Pois bem, estes saudaram o socialista, ou social-democrata, dá no mesmo, Cid Gomes como herói, antes mesmo dele ter descido da tribuna. Românticos, viram no ato suicida do ministro, que expôs a presidente e animou a direita que pede seu impeachment, um ato de bravura. Só poderia ser bravo aquele adentra um antro de ladrões e os chama do que são. Ou burro.

Ministro da Educação vai ao Congresso e é demitido em seguida

Ministro da Educação vai ao Congresso e é demitido em seguida

Burro Cid não é, mas talvez o sejam aqueles que, estando à esquerda, aplaudiram seu ato. É um problema da visão romântica e idealizada, sempre descompromissada com o mundo real. Mais corretos foram os direitistas, aquele pessoal que saiu às ruas de verde e amarelo outra dia e gritou “Fora Dilma!”, ao comemorar o salseiro. A atitude do ex-ministro da educação serviu de motivo para apontarem a incompetência do governo, que escolhe mal seus ministros, através de acordos políticos (Cid é hoje do PROS), e sua instabilidade.

É mesmo um feito agradar com um mesmo ato grupos tão heterogêneos. Teria sido o acaso, ou o destempero, capaz de produzi-lo? Saberemos ao observar os Irmãos Gomes daqui por diante. Veremos se esta não foi uma maneira de saírem de um governo que consideram falido, ou um ato em nome de Lula – de quem sempre foram próximos -, que segundo algumas interessantes teorias, deseja fritar Dilma para se apresentar como oposição em 2018 – o PT bom que se opôs ao PT mau, que governou mal e agora precisa dar vez ao PT bom, este sim, que muito fez pelo Brasil; não duvido de mais nada. O tom que empregará Ciro, mestre em retórica como bem sabe Rodrigo Constantino, daqui por diante, contra o governo, será a medida para escolhermos algumas das vias citadas ou nos certificarmos de que realmente Cid não tem o mesmo talento do irmão, tendo feito uma burrada sem propósito algum.

Vejam mais artigos de Fernando Henrique no site Gospel Prime.

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