Coluna do Leitor

@reaconaria

Limpando pichações abortistas

foto01No dia 15 de outubro, um pequeno grupo de cidadãos de Campinas se reuniu para uma tarefa de limpeza: apagar pichações que ensinavam a fazer um aborto. Leiam o relato de Gabriel Vince, que organizou a ação. Espero que inspire outras pessoas a seguir este exemplo e agir.

Uma das coisas que mais impressionam na esquerda radical é a militância pelo aborto e sua eficiência na lavagem cerebral de seus seguidores. Conseguir que dediquem tempo, recursos e, em alguns casos, a própria vida a uma causa que desafia a própria natureza é espantoso.

Em minha cidade, Campinas, membros de coletivos feministas espalharam pelas ruas pichações que orientavam às mulheres como fazer um aborto.

Dispostos entre as receitas de como assassinar crianças no ventre, slogans evocando sororidade. Ausente nos dicionários de língua portuguesa, mas corrente entre a militância, a palavra remete a uma espécie de pacto entre mulheres baseado na empatia e no companheirismo. Empatia, pelo dicionário Aurélio, é a “tendência para sentir o que sentiria, se estivesse em situação vivida por outra pessoa”. O sentimento de empatia permite que sintamos as dores do próximo como se fossem nossas. Podemos, então, assumir atitudes para diminui-las, como faríamos se fossemos nós os sofredores. É por meio da empatia que exercemos a caridade. A caridade entre a militância feminista se expressa pelo incentivo à morte.

Sabemos dos pesares e dificuldades que podem acometer mulheres grávidas: rejeição familiar, abandono do cônjuge, falta de recursos. Diante dessas dificuldades, oferecer dinheiro, lar e apoio não são alternativas. Para acabar com os percalços por que poderiam passar as futuras mães, o conselho é simples: acabe com a vida. Um bebê morto não te acordará a noite, não precisará de fraldas, não exigirá que você desista de ir a uma festa e nem que pare seus estudos por um tempo. A solução parece simples; caso esteja sem recursos, é muito provável que as ‘manas’ te emprestem, contanto que os use para comprar medicamentos abortivos. É óbvio que ninguém vai se oferecer para pagar seu pré-natal.

Elas provavelmente não irão te informar sobre os estudos que relacionam o abortamento à depressão, observada em 60% dos casos, segundo a pesquisadora Mariana Gondim Mariutti Zeferino, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, nem alertar para o fato de que mulheres que passam por um aborto induzido têm 44% mais chances de desenvolver câncer de mama do que aquelas que nunca passaram pelo procedimento. A aliança estabelecida não tem como fim a vida das mulheres, sua saúde e bem-estar futuros. As feministas se associam em razão de uma causa, não umas pelas outras como seres humanos que sentem dores recíprocas e se oferecem ajuda. Na moralidade da revolução, oferecer a pessoas desesperadas uma solução criminosa com conseqüências inestimáveis é empatia e companheirismo.

O ato

A idéia de fazer o ato para apagar as pichações surgiu uma semana antes, enquanto passava pelo Centro da cidade. Comuniquei alguns amigos do Facebook sobre a presença de dois desenhos que ensinavam sobre o uso correto de um medicamento abortivo, um remédio tarja preta utilizado no tratamento de úlceras.

O principal componente desse medicamento é o misoprostrol, substância responsável por bloquear a ação da progesterona, hormônio produzido pelo corpo feminino que estabiliza o revestimento do útero. O enfraquecimento do tecido provoca a interrupção do suprimento de sangue para o bebê. Durante a gestação, a respiração é realizada através do sistema circulatório. É por isso que, neste caso, o bebê morre sufocado. A segunda parte consiste na remoção física da criança. Para isso, o medicamento abortivo em questão provocará contrações, cólicas e forte sangramento no útero. Esses mecanismos forçam a eliminação dos restos mortais, posto que fragmentos remanescentes podem provocar infecção e hemorragias. Algumas mulheres podem apresentar sangramento por mais de 30 dias após o abortamento.

Para esse trabalho, contei com o apoio dos amigos Luis Fernando Waib, Aldo Siqueira e Cíntia Salles, que se despuseram a ajudar com a doação de tinta, pincéis e trabalho. Sábado (15), nos encontramos na Catedral Metropolitana de Campinas e partimos para os locais determinados. A primeira pichação estava a pouco menos de 100 metros e a outra foi desenhada nas paredes de uma igreja evangélica, ao lado do prédio da prefeitura municipal da cidade.

Enquanto pintávamos as paredes, fomos interrompidos por duas mulheres, que nos agradeceram. Uma delas, inclusive, indicou a localização de outras pichações de mesma natureza. Sua atitude não contraria o esperado. Segundo o Datafolha, 87% dos brasileiros consideram a prática do aborto “moralmente errada”; entre as mulheres, esse número é ainda maior, chegando a 90% para as que possuem 41 anos ou mais. A mesma pesquisa revelou que pais de meninas adolescentes apoiariam que elas “mantivessem a gravidez em qualquer situação”; entre as mães, o número salta para 88%, enquanto 20% dos pais recomendariam que ela “tivesse o filho e se casasse com o pai da criança”. No caso das mães, esse número cai para 10%. Apenas 1% das pessoas aconselharia o aborto em qualquer situação. Os dados nos permitem concluir que, mesmo em situações consideradas socialmente indesejáveis, o brasileiro médio, tido por machista, preferiria que sua filha adolescente e solteira mantivesse a criança, porque considera o aborto imoral, rejeitando-o em proporção semelhante ao roubo e à corrupção.

O que podemos concluir?

O feminismo é um movimento restrito e político, que não defende os direitos femininos e não representa o desejo da maioria das mulheres.

Diante dessas verdades, aconselho a todos que se opõem à cultura da morte que organizem atos semelhantes. Eles têm o apoio da população e, sobretudo, das mulheres. Nós somos a maioria.


Gabriel Vince

 

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Choque e Pavor no Ano 711 AD: A Conquista Islâmica da Espanha

Trazemos hoje à Coluna do Leitor uma tradução feita pelo amigo @MareSolitude. O texto é um trecho do novo livro de Darío Fernándes-Morera publicado na Modern Age, revista cultural americana conservadora:

Choque e Pavor no Ano 711 AD: A Conquista Islâmica da Espanha

Acadêmicos, jornalistas e políticos afirmam que a Espanha medieval dominada pelos muçulmanos — “al-Andalus” — era um paraíso multicultural, um lugar onde muçulmanos, cristãos e judeus viviam  em harmonia. Mas essa descrição amplamente aceita é falsa, como revela o professor Darío Fernández-Morera da Universidade Northwestern (e conselheiro editorial da Modern Age) em seu novo livro, “The Myth of the Andalusian Paradise”.

A Modern Age fica orgulhosa de resumir este livro revelador e academicamente bem embasado.

Uma avaliação completa do domínio islâmico na Espanha medieval requer um exame de como as forças do Califado Islâmico obtiveram o controle desta região. As táticas implacáveis que elas frequentemente empregavam anteciparam algumas das medidas através das quais os posteriores governantes andaluzes usariam para manter o poder.

As forças do Califado Islâmico eram unidas, hábeis, violentas e bem lideradas. Seus comandantes eram experientes, havendo combatido e vencido os cristãos do Império Greco-Romano (usualmente conhecido como Império “Bizantino”, um nome enganoso) e as tribos bérberes pagãs do norte da África. Os bérberes, que compunham a maioria das tropas islâmicas, eram combatentes particularmente ferozes, como observado até mesmo por historiadores muçulmanos. Estes outrora pagãos estavam imbuídos do fervor religioso do recém-convertido e do apetite por pilhagem típico das tribos saqueadoras.

Os invasores usaram uma combinação de táticas de “choque e pavor” e tratados de “paz”. Nos tratados de “paz”, os conquistadores muçulmanos deram privilégios e autonomia momentâneos àqueles líderes visigóticos seculares e religiosos que não resistiram e que pagaram tributos (a exemplo do tratado com o conde Teodomiro), permitindo-os manter, pelo menos por um tempo, suas terras, servos e religião. Esta abordagem foi necessária porque os invasores inicialmente eram bem menos numerosos do que os nativos.

Mas como tanto as fontes cristãs e muçulmanas comprovam, as forças islâmicas eram mais implacáveis e sabiam como desmoralizar um inimigo melhor do que quaisquer exércitos desde os tempos das conquistas da Roma antiga. Ambas as fontes muçulmanas e cristãs mencionam uma história que, ainda que apócrifa, exemplifica o conhecimento do uso tático do terror na guerra psicológica. Logo após o desembarque das forças islâmicas, os cadáveres de alguns cristãos mortos em batalha foram cozidos em grandes caldeirões sob o olhar aterrorizado de outros cristãos feitos prisioneiros, que ficaram convencidos de que os muçulmanos eram canibais. Os muçulmanos, então, libertaram tais prisioneiros, que, diz o historiador do século XII, al-Kardabus, “contavam para todo cristão que eles encontravam o que tinham visto, de tal maneira que Alá preencheu seus corações com o pânico. Em seguida, aconteceu a batalha contra o [rei visigótico] Rodrigo.”[3]

Al-Kardabus e outro historiador muçulmano, Abd al-Wahid al-Marrakushi, afirmam que o líder árabe Musa Ibn Nusayr saqueou, escravizou e passou três anos promovendo a jihad — guerra santa — contra os infiéis espanhóis.[4] Juntamente com al-Kardabus, al-Marrakushi e al-Maqqari dizem que Musa investia na “pilhagem” o mesmo tempo que investia “organizando” a terra conquistada. Essas fontes também mencionam que vários membros da tabiun (a geração de muçulmanos devotos que eram discípulos diretos dos Companheiros de Maomé) chegaram à Espanha para dirigir a jihad e a conversão da região. A presença desses membros da tabiun destaca a motivação fundamentalmente religiosa da invasão — uma jihad.

Se os cristãos resistissem, um massacre se seguiria após a vitória muçulmana. Próximo da cidade de Orihuela, os cristãos derrotados foram punidos com o extermínio.[5]

Após os muçulmanos capturarem Córdoba em um assalto furioso, os defensores cristãos restantes se abrigaram em um igreja e continuaram a lutar. Segundo al-Maqqari, os muçulmanos tocaram fogo na igreja e os cristãos dentro dela morreram, sem se render; de acordo com al-Kardabus, quando os cristãos se renderam, o comandante muçulmano mandou decapitá-los.

Toledo, a capital dos visigodos, não ofereceu resistência ao rápido avanço das forças islâmicas porque a maioria dos soldados havia acompanhado o rei Rodrigo para se encontrar com o inimigo. No entanto, Musa executou alguns membros idosos da nobreza toledana por razões que os acadêmicos não têm um consenso, mas que talvez tenha sido simplesmente para encorajar os demais.[6] As forças muçulmanas capturaram Sevilha após sitiá-la, fazendo com que os combatentes cristãos fugissem para o norte. Diante da cidade de Mérida, após saírem vitoriosas, as forças islâmicas massacraram os “politeístas” em fuga.[7] Novamente em Sevilha, quando os cristãos se revoltaram contra a ocupante guarnição muçulmano-judaica, um exército muçulmano com reforços recapturou a cidade e massacrou os seus habitantes.[8]

Fontes cristãs como a Chronica Mozarabica do ano 754, escrita não muito depois da conquista, e a História de Espanha (Primera Crónica General) comissionada pelo rei Alfonso X no século XIII corroboram os métodos de recompensas e punições descritos pelos cronistas muçulmanos. Estes relatos cristãos afirmam que Musa oferecia paz e privilégios aos cristãos da nobreza e às lideranças da igreja que não resistissem, mas matava aqueles que o fizessem. Musa reduzia às cinzas qualquer cidade que resistisse, “crucificava membros da nobreza e os homens idosos,” e “esquartejava os jovens e os bebês lactentes (iubenes atque lectantes),” de tal maneira que as cidades se rendiam sob o terror e muitos dos seus habitantes fugiam para as montanhas.[9] Ambos os métodos, o esmagamento brutal de qualquer oposição e a concessão de pactos aos membros da elite que concordassem em não resistir, bem como a fraude envolvida nesses pactos (fraude que foi observada por outras fontes cristãs e por historiadores muçulmanos tais como Ibn Abd al-Hakam), estão registrados na Chronica Mozarabic de 754: “Após devastar o país até os confins de Toledo, a cidade real, Musa conquista, através da oferta de uma paz fraudulenta, as regiões vizinhas com a ajuda de Oppas [lorde visigodo] , filho de Égica [rei antecessor], e executa alguns membros da elite visigóticas que tinham permanecido na cidade e coloca todos eles para perecer no fio da espada com a sua ajuda.”[10]

A natureza “fraudulenta” dos acordos de paz mencionada por fontes cristãs e muçulmanas era de fato justificada pela tradição legal islâmica. Um acadêmico islâmico bastante simpático ao islã, Majid Khadduri, destaca que a revogação desses acordos em casos de necessidade era aceitável na prática legal do islã medieval porque

O islã, emergindo  no século VII como a nação conquistadora tendo  por objetivo último a dominação do mundo, recusava reconhecer quaisquer outros sistemas legais a não ser o seu próprio. Havia o desejo de estabelecer tratados de paz temporários com as outras nações, enquanto aguardava a consumação da sua missão terrena.

O Profeta e os seus sucessores, porém, reservavam o direito de repudiar qualquer tratado ou arranjo que eles considerassem prejudiciais ao islã. . . . Ainda que a relação entre o islã e as comunidades não-muçulmanas seja um estado de hostilidade, não é considerado inconsistente com o objetivo último do islã se um tratado é estabelecido com o inimigo, seja para fins de conveniência ou porque o islã sofreu um revés.[11]

Escrito logo após a derrota dos visigodos, o hino de igreja Tempore belli corrobora o que outras fontes muçulmanas e cristãs dizem sobre as aterrorizantes, mas eficazes táticas utilizadas contra os cristãos. Como o historiador espanhol M. C. Díaz y Díaz afirma, tal poema litúrgico latino descreve um “inimigo implacável,” “tomado pelo entusiamo do exercício da guerra” (continuo fervida bello), “forçando as tropas cristãs a partir em retirada e a fugir em pânico,” saqueando templos e casas dos cristãos, incendiando as cidades daqueles que resistiam, e tomando suas belas jovens como escravas sexuais, tudo isso gerando um “terror indescritível.”[12] A Chronica Mozarabic de 754 ecoa esses lamentos sobre a pilhagem das riquezas e a escravização sexual das belas e jovens mulheres cristãs (57.1–5).

A História de Espanha comissionada por Alfonso X (Primera Crónica General) também relata como os conquistadores muçulmanos matavam os homens, incendiavam as cidades, arruinavam as terras, tomavam jovens mulheres como escravas sexuais e saqueavam as riquezas da igreja, fazendo com que os bispos fugissem com as relíquias cristãs. Uma outra obra de história escrita no século XIII, de autoria de Rodrigo Jiménez de Rada, mostra como os muçulmanos queimavam as cidades, derrubavam as árvores frutíferas, destruíam as igrejas, consideravam música sacra uma blasfêmia e profanavam os cálices. Por um outro lado, assim como a obra de Alfonso X, também descrevia “tratados” nos quais os conquistadores obtinham o consentimento das diversas lideranças cristãs — ainda que os muçulmanos violassem esses acordos logo que eles tivessem o controle sobre a região. O historiador muçulmano do século IX, al-Hakam, também menciona tal desonestidade: “Quando os muçulmanos conquistaram a Espanha, eles a pilharam e cometeram muitas fraudes.”[13] A obra Chronicon Mundi, de Lucas de Tuy, escrita no começo do século XIII, ecoa esses relatos: “os mouros subjugaram, através da espada e do fogo, quase o todo da Espanha. . . . Apenas os godos que se retiraram para as montanhas dos Pirineus nas Astúrias e na Galícia escaparam. Os mouros ficaram com as melhores terras, conquistadas pela lâmina vingativa. . . . E eles mudaram as torres das cidades antigas; destruíram castelos. . . mosteiros; queimaram  os livros da lei sagrada e cometeram muitas más ações.”[14]

Como tais fontes muçulmanas e cristãs indicam, queimar igrejas e pilhar os seus tesouros tinham um papel importante nas táticas de choque e pavor dos conquistadores. Essa destruição ajudava a desmoralizar a resistência cristã. Muhammad Ibn al-Razi (887-955), um dos primeiros historiadores da conquista islâmica, relata que o fundador do Emirado de Córdoba, o omíada Abd al-Rahman I, consistentemente queimava igrejas e relíquias cristãs.[15]

Como a arabista espanhola Susana Calvo Capilla aponta, quando os cronistas muçulmanos mencionam as igrejas, é frequentemente para se regozijar por sua destruição ou conversão em mesquitas como parte da humilhação dos infiéis.[16] Relatos cristãos corroboram os dos muçulmanos: As Crónicas Anónimas de Sahagún (século XII ou XIII) falam da destruição de uma capela e as relíquias dos santos nela guardadas próximo do rio Cea durante as jihads; e a Crónica de Alfonso III (século IX: atribuída a Alfonso III, rei das Astúrias, que viveu por volta de 852-910) relata como Alfonso I das Astúrias (693-757) reconstruiu as igrejas nas cidades reconquistadas e devolveu os cristãos à sua pátria.[17]

Dificilmente poderia ser dito de outra maneira dadas as obrigações impostas pela lei islâmica medieval. Um tratado legal de autoria do influente jurista de al-Andalus, Ibdn Rushd al-Jadd (falecido em 1126), mostra o imã Malik Ibn Anas, o fundador da escola Maliki de jurisprudência islâmica, que dominava al-Andalus, respondendo questões da lei islâmica. Maliki responde desta maneira uma pergunta sobre o que deve ser feito com os crucifixos e livros sagrados dos cristãos derrotados pela jihad:

Pergunta: O que deveria ser feito com os livros sagrados que forem encontrados nas igrejas dos Rum [isto é, “Romanos,” um dos nomes genéricos que os muçulmanos davam aos cristãos] nas terras do inimigo? O que deveria ser feito com os crucifixos de ouro e outros  objetos que forem encontrados?

Resposta: Os crucifixos [de ouro] devem ser despedaçados antes de serem distribuídos [como butim aos combatentes muçulmanos] mas não se deve distribuí-los diretamente. Quanto aos livros sagrados, eles têm que desaparecer.[18]

No seu comentário sobre a resposta de Maliki, Ibn Rushd al-Jadd clarifica que ele leu que os livros sagrados dos cristãos derrotados devem ser queimados para que “desapareçam” — a não ser que as páginas possam ser apagadas completamente de tal maneira que as páginas em branco possam ser vendidas para obter algum lucro. Mas se não for possível vendê-las, elas devem ser queimadas.

O registro arqueológico na Espanha corrobora toda essa evidência textual. Assim há magníficos tesouros religiosos visigóticos encontrados enterrados nas rotas que saíam do sul da Espanha em direção ao norte, confirmando o que as fontes escritas afirmam sobre o medo e a fuga que os cristãos empreendiam perante a pilhagem muçulmana das igrejas.[19]  O que o reino dos visitados enfrentava era, de fato, um inimigo “letal e inflexível.”[20]

O historiador muçulmano Ibn Khaldun (1332-1406) destacava como desde o começo o uso do terror foi fundamental nas conquistas islâmicas:

Compreenda-se a declaração de Maomé: “Fui ajudado por meio do terror (que vitimou o inimigo). . . .” (O mesmo fato explica) a vitória de Maomé diante dos politeístas, mesmo contando com um exército pequeno, e as vitórias dos muçulmanos durante as conquista islâmicas após (a morte de Maomé). Alá cuidou do Seu Profeta. Ele lançou o terror nos corações dos infiéis. . . . Terror nos corações dos seus inimigos foi a razão de haver derrotas esmagadoras nas conquistas islâmicas.[21]

Não admira que as polêmicas religiosas dos cristãos orientais contra o islã, a partir do século VII, incluem uniformemente o argumento de que os muçulmanos usam a violência para expandir a sua fé, e que as primeiras polêmicas espanholas contra o islã consistentemente também destaquem o uso da violência pelos seus seguidores.[22]

*          *          *

As três opções que Musa dava aos hispano-visigóticos eram a norma do que os muçulmanos ofereciam aos cristãos: (1) converterem-se ao islã, (2) submeterem-se como dhimmis à supremacia islâmica e pagar o imposto (jizya) com a intenção expressa de humilhar os infiéis e lembrá-los da sua submissão, ou (3) ser morto (no caso dos homens) ou escravizado (no caso das mulheres não-combatentes e das crianças).[23]

Eis a fonte das interpretações conflitantes da conquista islâmica da Espanha — há aqueles que alegam que conquista foi em grande parte “pacífica,”, alcançada por meio de “pactos,” e há os que alegam que ela foi em grande parte “violenta.”[24] Os conquistadores muçulmanos de fato ofereciam a paz aos que se rendiam sem lutar, ainda que sob domínio muçulmano e condições estritas — mas eles rapidamente destruíam aqueles que resistissem. Os que se rendiam ao sistema de “paz” dos muçulmanos o faziam sabendo totalmente das consequências caso resistissem. A conquista islâmica, então, combinava força bruta e pactos de paz.[25] O segundo, no entanto, era inseparável e uma consequência do primeiro. E as forças muçulmanas se reservavam o direito de anular os “pactos de paz” sempre que fosse vantajoso fazê-lo, porque, como mostra o acadêmico Majid Khadduri, “a relação normal entre as comunidades muçulmanas e não-muçulmanas é um estado de hostilidade” até que o islã alcance a hegemonia.

Para os cristãos que se mantiveram leais à sua fé, o que Musa e suas forças muçulmanas estabeleceram foi um “reino selvagem” (regnum efferum conlocant), como a Chronica Mozarabica de 754 relata.[26] A obra História de Espanha de Alfonso X resume a conquista islâmica como descrita nas fontes cristãs medievais:

Os santuários foram destruídos; as igrejas derrubadas. . . . Eles atiraram para fora das igrejas os crucifixos e os altares, os óleos e livros sagrados e as coisas que eram honradas pela cristandade, tudo foi esparramado e descartado. . . . Os inimigos devastaram as terras,queimavam as casas, matavam os homens, incendiavam as cidades, as  árvores, os vinhedos e todo o verde foi derrubado. Tão grande se tornou essa praga que não restou na Espanha uma vila ou cidade que fosse boa. . . que não tivesse sido queimada ou posta abaixo ou tomada pelos mouros; e as cidades que eles não podiam conquistar, eles as enganavam e as conquistavam com falsos pactos.[27]

Um cronista muçulmano argumentou de maneira ainda mais vigorosa: segundo al-Hakam, tão impressionante foi a conquista da Espanha que, quando Musa escreveu para o seu califa, ele a descreveu “não como uma conquista, mas como o dia do Juízo Final.”[28]

Darío Fernández-Morera é Professor Associado no Departamento de Literatura Espanhola e Portuguesa na Universidade Northwestern. Ex-membro do National-Council on the Humanities, graduou-se na Universidade Stanford, fez mestrado na Universidade da Pennsylvania, e obteve seu doutorado na Universidade Harvard. Ele publicou diversos livros e vários artigos sobre questões culturais, literárias, históricas e metodológicas na Espanha, América Latina e nos Estados Unidos.

Este ensaio é um excerto do seu novo livro, “The Myth of the Andalusian Paradise: Muslims, Christians, and Jews under Islamic Rule in Medieval Spain”, que está agora disponível pela editora ISI Books.

TheMythOfAndalusianParadise

Notas:

[1] Abu Muhammad Abd al-Wahid al-Marrakusi: Lo admirable en el resumen de las noticias del Magrib (Kitab al-Muyib Fi Taljis Ajbar al-Magrib), trans. Ambrosio Huici Miranda (Tetuán: Editora Marroquí, Instituto General Franco de Estudios e Investigación Hispano-Árabe, 1955), 149 and n1; Ana Serrano, María Jesús Viguera, et al., Ibn Khaldun: The Mediterranean in the Fourteenth Century: Rise and Fall of Empires (Seville: Legado Andalusí, 2006), 196.

[2] “Os súditos [de Teodomiro] não serão mortos ou tomados como escravos nem serão separados de suas crianças ou mulheres. . . e suas igrejas não serão queimadas. . . . Desde que ele aja de boa fé e cumpra as condições que nós impusemos. Ele concordou com os termos de rendição envolvendo sete cidades. . . . [Ele também concordou] que não dará refúgio para qualquer escravo fugitivo, nem abrigará qualquer um dos nossos inimigos, nem dará receios aos que estão seguros conosco; que ele não esconderá informações que tenha obtido acerca dos [nossos] inimigos; e que cabe a ele e ao seu povo pagar um dinar anualmente e quatro mudd (alqueires) de trigo, quatro mudd de centeio, quatro qist (medidas) de suco de uva espesso, quatro qist de vinagre, dois qist de mel e dois qist de óleo. Escravos pagam metade disso. Testemunhado por Uthman b. Abi Abda al-Qurashi, Habib b. Abi Ubaida, Ibn Maisara al-Fahmi e Abu Qaim al Hudhali. Escrito no mês de Rajabe, no ano 94 da Hégira (abril de 713).” Christians and Moors in Spain: Volume III Arabic Sources, ed. and trans. Charles Melville and Ahmad Ubaydl (Warminster: Aris & Phillips, 1992), 11–13.

[3] Ver, entre outras fontes, Ibn Abd al-Hakam, Conquista del Norte de África y de España, 43; al-Qutiyya, 6; The Book of Sufficiency on the History of Khalifs, by Abú Ja’far Ibn Abdi-l-hakk Al-khazráji Al-kortobí, traduzido por Pascual de Gayangos, in The History of the Mohammedan Dynasties in Spain, vol. 1, app. D, xliii–1; o excerto é de Ibn al-Kardabus, 64–65; Rodrigo Jiménez de Rada, vol. 2, chap. 23.

[4] Para essa e as seguintes, ver Ibn al-Kardabus, 68, 66; Abd al-Wahid al-Marrakushi, Histoire des almohades, 9–14.

[5] Para essa e as seguintes, ver Ajbar Machmuá, 23–30; al-Qutiyya, 8; al-Maqqari in The History of the Mohammedan Dynasties in Spain, 1:277–87, 531n18, 2:1–2; Ibn Idhari al-Marrakusi, Historia de al-Andalus, 17–42; Crónica mozárabe de 754, 71, 79.

[6] Chronica Mozarabica de 754 , 54; al-Athir, 46; Ajbar Machmuá, 27.

[7] Ibn al-Kardabus, 63.

[8] Ajbar Machmuá, 30; Ibn Idhari al-Marrakushi, Al-Bayano ’l-Mogrib,
18, 23.

[9] Crónica mozárabe de 754, seções 54–55; Primera Crónica General de España, ed. Ramón Menéndez Pidal (Madrid: Gredos, 1955), 559.

[10] Chronica mozarabica of 754, 54.8–12.

[11] Majid Khadduri, War and Peace in the Law of Islam (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1955), vii, 202.

[12] M. C. Díaz y Díaz, “Noticias históricas en dos hinos litúrgicos visigóticos,” in Los visigodos: Historia y civilización: Antigüidade y Cristianismo (Murcia) 3 (1986): 443–56. See also García Moreno, España 702–719, 190. Há a tentação de se comparar essas táticas de terror e seus céleres resultados com as táticas implacáveis e as conquistas similarmente rápidas do Estado Islâmica no Iraque e na Síria durante o século XXI.

[13] Primera Crónica General de España, chap. 559; Rodrigo Jiménez de Rada, vol. 3, chap. 22; al-Hakam, Conquista de África del Norte y de España, 47.

[14] Crónica de España, por Lucas, Obispo de Tuy, traduzido por Julio Puyol (Madrid: Revista de Archivos, Bibliotecas y Museos, 1926), 269–71.

[15] Crónica del moro Rasis, 281–82. Alguns historiadores têm questionado a atribuir a al-Razi as seções sobre história antiga pré-islâmica. Mas a pesquisa moderna tem confirmado a autenticidade do texto mesmo para o período pré-islâmico: ver a introdução por Diego Catalán, bem como a obra Adiciones al estudio de la crónica del moro Rasis (Madrid: Moneda y Crédito, S.A., 1978) do historiador Claudio Sánchez Albornoz. Outros textos, claro, corroboram a destruição de igrejas durante o período islâmica (ver, por exemplo, a pesquisa da Susana Calvo Capilla).

[16] Susana Calvo Capilla, “Las primeras mezquitas de al-Andalus a través de las fuentes árabes (92/711–170/785),” Al-Qantara 27, no. 1 (Enero–Julio 2007): 143–79.

[17] Crónicas anónimas de Sahagún, ed. Antonio Ubieto Arteta (Zaragoza: Pedro Garcés de Cariñena, 1987), 9–10; Crónica de Alfonso III in Jan Prelog, Die Chronik Alfons’ III, 34–36: cristianos secum ad patriam duxit. . . . Basilicas construxit et instauravit.

[18] Cit. Cyrille Aillet, Les mozárabes: christianisme, islamisation, et arabisation en péninsule ibérique (IXe–XIIe siècle) (Madrid: Casa de Velázquez, 2010), 122–23. As partes entre colchetes são minhas.

[19] Alicia Perea, El tesoro Visigodo de Guarrazar (Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Cientificas, 2001); El tesoro Visigodo de Torredonjimeno (Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Cientificas, 2009). Curiosamente, nenhum trabalho sobre as conquistas destacam tal evidência arqueológica.

[20] Lord Dannat, ex-chefe do British General Staff, referindo-se às rápidas conquistas do Estado Islâmico no Iraque e na Síria, cujo sucesso e métodos ecoam aqueles das primeiras conquistas muçulmanas: “ISIS Slaughters 400 in Ancient Syria City of Palmyra Where Hundreds of Bodies Line the Street,” Daily Mail, 24 de Maio de 2015.

[21] Ibn Khaldun, O Muqaddimah, 2:35.

[22] Em um documento datando provavelmente do século X, mas, claro, expressando visões comumente defendidas desde o século VIII. Ver Luis A. García Moreno, “Literatura antimusulmana de tradición bizantina entre los mozárabes,” Hispania Sacre 57 (2005): 11.

[23] A Chronica Mozarabica de 754 menciona a tributação que o islã impunha sobre os cristãos como uma das condições para lhes permitir praticar sua religião, mas sob os termos dos muçulmanos — uma provável referência à jizya islâmica. Além disso, a escola Maliki de lei islâmica, que era prevalente na Espanha Islâmica, destaca tais significado e propósito da jizya.

[24] Para uma discussão dessas duas interpretações da conquista da Espanha, ver Maribel Fierro e Francisco García Fitz, eds., El cuerpo derrotado: Cómo trataban musulmanes y cristianos a los enemigos vencidos (Península Ibérica, ss. VIII–XIII) (Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2008), 23–25. Alguns lordes góticos, entre eles os seguidores da facção de Vitiza, a qual se aliara aos invasores, aceitaram de bom grado sua dhimmitude, que lhes permitia continuar como lordes cristãos de suas vastas propriedades. Eventualmente, como ambas as fontes muçulmanas (al-Hakam) e cristãs (Luca de Tuy, Primera Crónica General de Alfonso X) notam, tais lordes e seus sucessores foram vitimados pelas “fraudes” dos conquistadores à medida que o Estado muçulmano se tornava mais forte e capaz de violar os termos de submissão. Como o historiador Jesús Lorenzo Jiménez da Universidade Autônoma de Barcelona observa: “Quem quer que faça um pacto o faz porque é forçado a concordar com o pacto. Ninguém cede as coisas porque quer. É imposto sobre você.” (Cit. Santiago Belistigoitía, “El cambio histórico de 711,” El País, February 20, 2011.)

[25] Essa é a afirmação mais sensata sobre o assunto, como em Maíllo Salgado, Acerca de la conquista árabe de Hispania, 30. Representativo dos pactos foi a submissão do lorde Teodomiro (“Tudmir”) a Tariq. Mas o “pacto pacífico” incluía a obrigação de Teodomiro pagar ou sofrer as consequências (os colchetes são dos tradutores): “[Teodomiro] concordou com os termos de rendição envolvendo sete cidades. . . .
[Ele também concordou] que não dará refúgio para qualquer escravo fugitivo, nem abrigará qualquer um dos nossos inimigos, nem dará receios aos que estão seguros conosco; que ele não esconderá informações que tenha obtido acerca dos [nossos] inimigos; e que cabe a ele e ao seu povo pagar um dinar anualmente e quatro mudd (alqueires) de trigo, quatro mudd de centeio, quatro qist (medidas) de suco de uva espesso, quatro qist de vinagre, dois qist de mel e dois qist de óleo. Escravos pagam metade disso. (Christians and Moors in Spain: Volume III Arabic Sources (711–1501), ed. and trans. Charles Melville and Ahmad Ubaydli [Warminster: Aris & Phillips, 1992], 12–13.) Em 2013, a cidade de Orihuela (em Múrcia) celebrou o pacto em uma comemoração oficial: ver Alejandro García Sanjuán, La conquista islámica de la peninsula ibérica y la tergiversación del pasado: Del catastrofismo al negacionsimo (Madrid: Marcial Pons Historia, 2013), 19. García Sanjuán é defensor da escola que propõe a idéia de “pactos pacíficos” e ele ataca o “catastrofismo” de arabistas como Serafín Fanjul e historiadores como García Moreno (García Sanjuán, La conquista, 49–50). Ver também “Formas de sumisión del territorio y tratamiento de los vencidos en el derecho islámico clásico,” em Maribel Fierro and Francisco García Fitz eds., El cuerpo derrotado: Cómo trataban musulmanes y cristianos a los enemigos vencidos (Península Ibérica, Ss. VIII–XIII) (Madrid: 2008), 61–111.

[26] Chronica Mozarabica de 754, 54.

[27] Primera Chrónica General, 554.

[28] John Harris Jones, ed. e trad. Ibn Abd el-Hakem’s History of the Conquest of Spain (London: Williams & Morgate, 1858), 23; al-Hakam, 47, onde Vidal Beltrán a traduz com o termo igualmente impressionante “Ressurreição.” Al-Hakam também cita Malik dizendo que durante a conquista da Espanha os muçulmanos pilharam a região e fizeram muitas coisas “fraudulentas” (al-Hakam, 47). O historiador do século XVII Mohammed Ibn al-Raini al-Qayrawani cita a frase “Fim do Mundo” como sendo usada por Musa para descrever a conquista na tradução de E. Pellisier: Histoire de l’Afrique de Mohammed-ben-Abi-el-Raini-el-Kairouani, trans. E. Pellisier (Paris: Imprimérie Royale, 1845), 59.

Fardas de sangue

Por Breno Machado

Na infância sonhamos em ser grandes. Nosso desejo de voar se traduz em ser astronauta, ser jogador de futebol para sermos lembrados ou  até um dos mais belos desejos de ser pelo menos parecidos com aqueles que nos inspiram: nossos pais. Na sua grande maioria, os meninos sonham em ser policiais: alguém que protege, defende e mata os bandidos. O que era sonho ontem para muitos hoje, se tornou desgraça. Com o crescente número de policiais mortos e a nossa inércia diante da situação fica a pergunta: por quê?

Este texto não trata de análise sociológica nem científica dos fatos, apenas uma analise humana.

Quando alguém se forma policial, ganha além da farda, um atestado de óbito em branco. No Rio de Janeiro, só até o presente dia (13 de julho), 59 policiais morreram, no ano passado esse numero não chegou aos 30, mas em 2014 foram 102 baixas, segundo estatísticas da própria policia militar. Policiais estão sendo mortos fora do serviço, onde a política de segurança mais enganadora da história, patrocinada pelo secretário de Segurança José Mariano Beltrame, as UPP’s espalharam a mancha dos crimes por toda a cidade e por todo o estado. Além é claro, das situações desumanas que os policiais são obrigados a enfrentar nas próprias instalações.

Para não só ficar no estado do Rio de Janeiro, em São Paulo, só no ano passado, 136 policiais foram mortos por estarem em serviço,  ou através de emboscadas ou por tentarem evitar algum tipo de crime.

No Brasil, manchado pelo tratamento zero que os governos do PT em 13 anos deram a segurança, é mais seguro ser bandido, do que ser policial. Homens que não podem chegar em casa fardados pra não levantarem suspeitas, esposas que precisam lavar a farda dos seus maridos e por pra secar em um cômodo escondido para não serem vitimas de atentados. O resultado disso são homens e mulheres que sonharam em um dia se doar pelos seus e que agora sofrem com depressão, síndromes e arrependimentos.

Morte de PM não vende jornal e nem dá audiência. Morte de bandido para até rodovia federal. Ficamos tão anestesiados com tanta violência, que a morte de um policial não nos comove mais. Pessoas que largam suas vidas para darem seu tudo a todos, são tratadas como indigentes quando morrem.

Há alguns dias atrás, a morte de cinco policiais em Dallas, nos Estados Unidos, gerou comoção pelo país inteiro. O “Memorial Service” contou com a participação do presidente atual e o seu antecessor. Aqui quem ganha “honras de chefe de Estado” é bandido.

As fardas não se encontram mais com esperança, orgulho ou fé. Mas com desespero, frustração, dúvidas e sangue.

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David Brown, chefe da Polícia de Dallas (Foto: Tony Guitierez – AP)

Conheça Flávia Piovesan, a Maria do Rosário do governo Temer

Nosso amigo Taiguara Fernandes fez um texto excelente sobre a Secretária de Direitos Humanos nomeada por Temer.

Leia:

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Esta é Flávia Piovesan, nomeada por Michel Temer para a Secretaria de Direitos Humanos.

Temer insiste em querer agradar os esquerdistas que estão gritando contra ele, como se isto fosse fazê-los passar a apoiá-lo.

Temer precisa entender que o povo brasileiro rejeitou a agenda cultural esquerdista e é por isso que Dilma foi derrubada.

Confira algumas opiniões da nova nomeação de Michel Temer:

– Aborto: “Eu sou contra a criminalização do aborto. Este é um tema complexo, que deve estar sediado na área da saúde pública. No Brasil, o aborto figura como a quarta causa de mortalidade materna. Há uma discussão, muitas vezes, hipócrita. Está provado que a ilegalidade do aborto só leva à clandestinidade. […] Temos de revisitar a legislação repressiva e que isso seja repensado no campo das políticas públicas, na área da saúde e com todo respeito à laicidade do Estado.”

– Política e valores religiosos: “Cada um tem o direito à liberdade religiosa, mas o Estado há de se mover por uma razão pública e secular e não pelos dogmas sagrados de foro íntimo.”

– Lei da Anistia: “a Lei de Anistia é um ilícito internacional, porque denega justiça às vítimas, obsta que o Estado investigue, processe, julgue e repare graves violações dos direitos humanos e faz perpetuar a injustiça continuada”.

(Referência: http://www.gazetadopovo.com.br/…/a-escolha-de-vida-de-flavi…)

– Cansamento homossexual: “Há dez anos, apenas um estado nos EUA reconhecia o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. Na última década, este direito se estendeu para 36 dos 50 estados americanos. Com a decisão da Corte Suprema o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo há de ser assegurado nos demais estados, em nome da igual dignidade de todos perante a lei.”

– “Diversidade”: “Além destas recentes e extraordinárias conquistas no campo dos direitos civis considerando os direitos à diversidade sexual, as últimas décadas testemunharam avanços notáveis no que se refere aos direitos de populações afrodescendentes e aos direitos das mulheres.”

(Referência: http://m.oglobo.globo.com/opiniao/revolucoes-morais-16904643)

– Refugiados islâmicos: “É importante abrir os braços aos refugiados, seja pelo tema da solidariedade ou outros tantos, mas também a Europa hoje é envelhecida. Se nós tomarmos países europeus como a Alemanha, há cidades com crescimento negativo que correm o risco de desaparecerem. E os refugiados vêm com uma força de vida, vêm com uma gratidão, com sonhos… Mais do que a hospitalidade que vão receber, qual é o sonho, a força que traz cada refugiado?”

(http://www.conjur.com.br/…/forca-vida-refugiados-ajudar-eur…)

***

Esta seria uma pasta difícil, de qualquer jeito, mas havia nomes mais moderados, como a Deputada Mara Gabrilli, com a qual foi possível os conservadores trabalharem no caso da redução da maioridade penal.

Michel Temer, contudo, escolheu uma nova Maria do Rosário – mais perigosa, porque inteligente.

Vamos aceitar essa nomeação calados?

Fonte

Texto publicado com autorização do autor.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

A Senhora das Moscas

Leiam o excelente post do nosso amigo Thomaz Ferreira no Facebook:

A Senhora Das Moscas

DilmaMOsca

Moscas simbolizam, desde a antiguidade, a morte, doenças e o Diabo. Era muito difundida a concepção de que os demônios, sob a forma de moscas, ameaçavam os homens com doenças.

Belzebu, o príncipe dos demônios mencionado na Bíblia, cujo nome vem do hebraico (Ba’al zebub: senhor das moscas) é representado freqüentemente como uma mosca. Na mitologia persa, Arimã, o princípio do Mal, penetra furtivamente no mundo como uma mosca.(1)

O clássico de 1954, “O Senhor das Moscas”, do vencedor do Nobel William Golding, retrata a origem do Mal, numa alegoria na qual um grupo de crianças fica preso numa ilha deserta após um acidente de avião e o fascismo, o totalitarismo e a barbárie surgem na figura de Jack, o garoto que detém o poder.

Moscas são atraídas pelo sangue, por dejetos e pela putrefação.

Numa época em que as ações do governismo remetem à escatologia e à violência, com cusparadas e fezes, essa seqüência de fotos não deveria surpreender ninguém. Você pode não acreditar em símbolos, sinais ou tradições antigas, mas eles estão pouco se lixando se você acredita ou não neles.

Não existem coincidências fortuitas.

(1) LEXIKON, Herder. Dicionário de Símbolos. Trad. Erlon José Paschoal. São Paulo: Cultrix, 1997. in: https://sites.google.com/site/dicionariodesimbolos/mosca

Fotos: Bruno Santos/Follhapress; Folha de São Paulo, 02 de Maio de 2016.

O post originalmente foi publicado neste link.

A oposição de smoking e sua espera por um Lord inglês

Na nossa “Coluna do Leitor” de hoje, um post de David Boutsiavaras no Facebook

Todo anti-esquerdista brasileiro que tivesse sequer um pingo de senso de realidade votou ao longo das duas últimas décadas no seguinte projeto para evitar um mal maior chamado PT: desarmamento civil, agências reguladoras, diálogo com baderneiros, um plano de geração de riqueza que não contemplava que a sociedade civil fizesse dessa sua riqueza o que bem entendesse, mas sim que visava confiscá-la para então distribuí-la através da burocracia estatal em serviços públicos de nível sueco, em suma, um projeto assumidamente progressista. A simpatia mútua entre o mal maior chamado PT e o mal menor chamado PSDB é antiga: o fabiano Mário Covas sempre foi admirado por Marta Suplicy, oriunda do petismo burguês assim como Chico Buarque, que pediu voto para FHC, que ficou muito satisfeito quando o “operário” Lula derrotou seu candidato Serra, que é colega de casa e partido de Aloysio “Mateus” Nunes, que foi capanga de Carlos Marighella, que foi cúmplice de Dilma Rousseff, todos declarados esquerdistas. Apesar da simpatia, encenaram muito bem um teatrinho nesse período: o PT batia e o PSDB se comportava como mulher de bandido. E não só em sentido metafórico, de sofrer quieto e nunca devolver à altura, mas em sentido literal também, porque os tucanos são em essência a jovem burguesinha romântica que se apaixona pelo traficante. E o PSDB não mudou: hoje mesmo, depois de terminar de ser esmagado pelas mentiras de José Eduardo Cardozo no Senado, “Mateus” só conseguiu responder: “Parabéns”, não sem antes elogiar o brilho e a inteligência do advogado petista que defende o quarto mandato consecutivo de um partido que tem os dois pés no banditismo. E apesar disso ser tudo verdade, todos que marretamos o PSDB em blogs e portais ao longo de 2015 sentimos o tempo todo uma incômoda sombra sobre nós.

Teríamos que socar 45 na urna outra vez em 2018, para tentar evitar a ascensão de Marina Silva ou, pior, de Fernando Haddad ou, vade retro, o ressuscitamento de Ciro Gomes. Quem tinha olhos testemunhou a diabólica tática soviética de manter o fiel da balança entre uma “esquerda da esquerda” e uma “direita da esquerda”, e assim continuamos sonhando com um futuro muito distante, nutrido pela renovação da alta cultura e pela desobediência civil sistemática, quando houvesse oportunidade real de propor uma alternativa de direita “a tudo que está aí”. Acontece que acenos a essa alternativa sempre passaram despercebidos e desprezados pela maioria dos descontentes. Personagens acessíveis, da imprensa, da grande mídia e da política como Luiz Carlos Alborghetti, Carlos Roberto Massa, Clodovil Hernandes, Conte Lopes, Afanásio Jazadji e até José Maria Eymael defenderam valores como propriedade e família, mas independentemente de declarações polêmicas, nunca foram sequer levados a sério, a não ser pelo povão. Imagine se um rapaz que conhece literatura americana e teatro inglês endossaria as palavras de gente cafona assim — o PT é péssimo, claro, mas é essa a alternativa que nós temos? E a resposta é sim. Se o que esses bebedores de cerveja belga desejam no fundo é um lordão inglês ou um reverendo americano, podem tirar o cavalinho da chuva. Isto aqui é o Brasil. É o país do sub-chefe de Streets of Rage Magno Malta e do Comandos em Ação encarnado Jair Bolsonaro. E se votar num pastor evangélico com voz de cantor sertanejo não é cool o suficiente, se a sobrancelha laser ofende tanto a sensibilidade desses antipetistas, que esperem sentados numa câmara criogênica seu herói fumante anunciar a candidatura à presidência de smoking, enquanto amargam mais uma década da dobradinha da estrela e do passarinho lá, votando em gente elegantíssima como Marta Suplicy e João Dória Jr.

O post original pode ser lido neste link.

CaveiraChiquerrima

11 PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE AS INTERCEPTAÇÕES TELEFÔNICAS DE LULA E AS AÇÕES DE SERGIO MORO

Por Taiguara Fernandes de Sousa

Com a chegada cada vez mais próxima ao núcleo do esquema criminoso investigado pela Operação Lava Jato, as adversidades e oposições têm aumentado. Na última semana, muitas falácias têm sido levantadas contra o juiz Sérgio Moro e sua decisão de levantar o sigilo das interceptações telefônicas de Lula.

A seguir, desminto algumas das principais:

1) SERGIO MORO AGIU DE ACORDO COM A CONSTITUIÇÃO?

Sim. O art. 5º, inciso LX da Constituição estabelece como regra a publicidade dos atos processuais; o sigilo é a exceção, apenas quando necessário para defesa da intimidade e quando o interesse social exigir. Já o art. 93, inciso X da Constituição impõe que as decisões judiciais sejam públicas, transformando a publicidade em condição de validade dos julgamentos. Esta foi a motivação de Sergio Moro:

“Não havendo mais necessidade do sigilo, levanto a medida a fim de propiciar a ampla defesa e publicidade. Como tenho decidido em todos os casos semelhantes da assim denominada Operação Lavajato, tratando o processo de apuração de possíveis crimes contra a Administração Pública, o interesse público e a previsão constitucional de publicidade dos processos (art. 5º, LX, e art. 93, IX, da Constituição Federal) impedem a imposição da continuidade de sigilo sobre autos.”

Na verdade, desde o início da Operação (que já conta dois anos) o juiz tem agido desta forma. Somente agora, em que Lula e Dilma Rousseff estiveram diretamente envolvidos, houve uma “inexplicável” oposição de juristas nacionais ao ato de Sergio Moro.

2) EXISTE PRECEDENTE?

Sim. Apenas dois dias antes da decisão do juiz Moro, isto é, no dia 14/03, o Ministro do STF, Teori Zavascki, levantou o sigilo da delação premiada do Senador Delcídio Amaral com a mesma justificativa:

“Por fim, nada impede o levantamento do sigilo […]. É que a Constituição proíbe restringir a publicidade dos atos processuais, salvo quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem (art. 5°, LX), e estabelece, com as mesmas ressalvas, que a publicidade dos julgamentos do Poder Judiciário é pressuposto inafastável de sua validade (art. 93, IX). Não há, aqui, interesse social a justificar a reserva de publicidade.”

3) POR QUE O JUIZ NÃO LEVANTOU O SIGILO ANTES?

Juiz não pode agir por si mesmo; somente age por pedido das partes. É o que se chama “princípio da inércia do judiciário”. O Ministério Público Federal atuante na Lava Jato somente pediu o fim do sigilo às 13:39 do dia 16/03; Sergio Moro o autorizou às 16:21 do mesmo dia. Antes do pedido do MPF ele não poderia fazê-lo. O pedido de divulgação das gravações foi feito pelo MPF com o aval do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, que foi consultado anteriormente: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1751501-janot-deu-aval-para-divulgacao-de-audios-de-lula-dizem-investigadores.shtml

4) SERGIO MORO GRAMPEOU A PRESIDENTE DA REPÚBLICA?

Dilma tentou se valer desta história (até fez ameaças veladas de prisão contra Moro em discursos públicos), mas sabia que ela não era verdade. A Presidente da República não foi grampeada, assim como nenhuma outra autoridade com foro privilegiado. O que ocorre é que o ex-Presidente Lula estava grampeado e recebeu ligações de Dilma Rousseff e do Ministro Jacques Wagner. Sergio Moro explica:

“Observo que, apesar de existirem diálogos do ex-Presidente com autoridades com foro privilegiado, somente o terminal utilizado pelo ex-Presidente foi interceptado e jamais os das autoridades com foro privilegiado, colhidos fortuitamente. Rigorosamente, sequer o terminal do ex-Presidente foi interceptado, mas apenas o terminal telefônico utilizado por assessor dele (11XXXXXXXXX), do qual ele fazia uso frequente.”

Quando uma pessoa que NÃO TEM foro privilegiado está grampeada e conversa com outra que TEM foro privilegiado, a interceptação é legítima.

5) EXISTE PRECEDENTE?

Sim, o caso do ex-Senador Demóstenes Torres. O juiz de primeira instância responsável pela Operação Monte Carlo autorizou interceptações telefônicas do bicheiro Carlinhos Cachoeira e, com isso, vieram à tona telefonemas com o Senador Demóstenes Torres. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) entendeu que a prova era válida, pois quem estava sendo grampeado não era o Senador (que tem foro privilegiado), mas o bicheiro (que não tem). Leia mais aqui: http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/11/stj-mantem-acao-penal-contra-ex-senador-demostenes-torres.html

6) QUAL FOI A POSIÇÃO DO GOVERNO NA ÉPOCA?

Naquele momento, o então Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo (atual Advogado-Geral da União, que agora questiona no STF as interceptações autorizadas por Sergio Moro), defendeu que as gravações de Demóstenes Torres eram legais:

“Ninguém nunca investigou objetivamente os parlamentares. Estava-se investigando o empresário Carlinhos Cachoeira, agora, se parlamentares conversam com ele, o problema é outro”.

Na regra do Governo, interceptações só valem para os adversários. Leia mais sobre o caso aqui: http://oglobo.globo.com/brasil/cardozo-diz-que-escutas-da-pf-no-caso-cachoeira-nao-sao-ilegais-4533276

7) A GRAVAÇÃO DE LULA E DILMA FOI FEITA DEPOIS DO DESPACHO DE SERGIO MORO DETERMINANDO O FIM DO SIGILO. A PROVA É VÁLIDA?

Sim, a prova é válida. O que conta não é a hora do despacho, mas o momento em que a operadora telefônica (onde o grampo é realmente realizado) recebe a notificação, tomando conhecimento da ordem do juiz. Neste momento, a operadora é obrigada a encerrar o grampo, mas até lá as gravações continuam ocorrendo e entram como prova no processo. Este fato foi ressaltado pelo próprio Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot: http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/03/grampo-tem-validade-ate-empresa-de-telefonia-ser-notificada-diz-janot.html

Também o mais autorizado perito criminal do país, Ricardo Molina, consultado pelo Governo Federal sobre o caso, explicou que “é normal em todos os casos de interceptação telefônica um delay tanto no início como no fim da operação. Afirmou que entre a determinação judicial e a efetiva ação da operadora leva algum tempo. Disse ainda que já atuou em diversos casos semelhantes e o Supremo Tribunal Federal não deixou de considerar a prova válida em razão dessa diferença de horários” (http://www.istoe.com.br/reportagens/448970_GOVERNO+PROCURA+PERITO+PARA+DESQUALIFICAR+GRAVACOES+MAS+O+TIRO+SAIU+PELA+CULATRA).

8) MORO GRAMPEOU O ADVOGADO DE LULA, O QUE VIOLA AS PRERROGATIVAS DA ADVOCACIA.

O advogado Roberto Teixeira estava na condição de investigado, conforme explicou o juiz no despacho:

“há indícios do envolvimento direto de Roberto Teixeira na aquisição do Sítio em Atibaia do ex-Presidente, com aparente utilização de pessoas interpostas. Então ele é investigado e não propriamente advogado. Se o próprio advogado se envolve em práticas ilícitas, o que é objeto da investigação, não há imunidade à investigação ou à interceptação.”

Além disso, o advogado não estava habilitado no processo como defensor de Lula, o que permitia concluir não haver relação cliente/advogado. O §6º do art. 7º do Estatuto da OAB (Lei 8.906/94) afirma que “presentes indícios de autoria e materialidade da prática de crime por parte de advogado, a autoridade judiciária competente poderá decretar a quebra da inviolabilidade”.

9) HÁ PRECEDENTE?

Sim. Há apenas alguns meses o próprio STF autorizou a quebra de sigilos de dois escritórios de advocacia que defendiam investigados na Lava Jato, por indícios de associação a fatos criminosos: http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2015-10/stf-quebra-sigilo-de-advogados-que-atuam-na-operacao-lava-jato

10) MAS MORO GRAMPEOU OUTROS 25 ADVOGADOS DO ESCRITÓRIO DE ROBERTO TEIXEIRA, QUE NÃO ESTAVAM RELACIONADOS A LULA. ISTO VIOLA PRERROGATIVAS.

O juiz Sergio Moro apenas autorizou os pedidos de interceptação feitos pelo MPF. O grampo foi realizado no escritório de advocacia porque o MPF encontrou o número da firma associado ao da empresa LILS Palestras, do ex-Presidente Lula, que estava sob investigação. Mas, no fim das contas, os diálogos de outros advogados não foram anexados ao processo, conforme nota do MPF: “Nos relatórios juntados aos autos, não constam transcrições de diálogos do referido número como alvo.” (http://www.conjur.com.br/2016-mar-17/mpf-ataca-conjur-noticiar-lava-jato-grampeou-25-advogados). Portanto, foi seguido, neste ponto, a norma da Lei 9.296/1996, que rege as interceptações telefônicas: no artigo 9º, ela ordena inutilizar as gravações que não interessem como prova ao processo, o que foi realizado no caso; as gravações do escritório sequer entraram nos relatórios.

11) POR QUAIS MOTIVOS SERGIO MORO DECIDIU LEVANTAR O SIGILO DAS GRAVAÇÕES?

O juiz explica no próprio despacho:

“O levantamento propiciará assim não só o exercício da ampla defesa pelos investigados, mas também o saudável escrutínio público sobre a atuação da Administração Pública e da própria Justiça criminal. A democracia em uma sociedade livre exige que os governados saibam o que fazem os governantes, mesmo quando estes buscam agir protegidos pelas sombras. Isso é ainda mais relevante em um cenário de aparentes tentativas de obstrução à justiça, como reconhecido pelo Egrégio Supremo Tribunal Federal, ao decretar a prisão cautelar do Senador da República Delcídio do Amaral Gomez”.

De fato, as gravações apontavam a tentativa de crime de obstrução de justiça, com participação da própria Presidente da República, pois indicavam que Lula pretendia fugir da competência do juiz Sergio Moro assumindo o Ministério da Casa Civil. A jurisprudência do STF entende que estes casos são de muita gravidade, já tendo autorizado a prisão de um Senador (Delcídio Amaral) por causa da “concreta ocorrência e a possibilidade de interferência no depoimento de testemunhas e na produção de provas” e da “necessidade de garantir a instrução criminal, as investigações e a higidez de eventuais ações penais vindouras” (decisão do Min. Teori Zavascki – http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/Acao_Cautelar_4039.pdf).

Logo, se o STF entende ser possível, em casos de obstrução de justiça, até mesmo decretar a prisão de um Senador, muito mais possível é utilizar medida menos grave, isto é, apenas levantar o sigilo de gravações quando haja indícios de obstrução de justiça.

A Beleza Salvará o Mundo, de Gregory Wolfe

Trazemos aos nossos leitores a apresentação de Rodrigo Gurgel para A Beleza Salvará o Mundo, de Gregory Wolfe. O maior crítico literário brasileiro da atualidade escreveu o prefácio da edição brasileira, publicada pela Vide Editorial. Leiam!

Texto publicado originalmente em http://rodrigogurgel.com.br/2015/09/a-beleza-salvara-o-mundo/ https://www.facebook.com/rodrigo.gurgel1/posts/10208406495619024.

CapaTenho reencontrado, em algumas listas com os melhores lançamentos de 2015, o livro “A beleza salvará o mundo”, de Gregory Wolfe, que tive a grata alegria de indicar à Vide Editorial.

Não me lembro como descobri “A beleza salvará o mundo”. A Internet é floresta densa, repleta de sendas obscuras, semelhantes às de uma história infantil, nas quais, de página a página, de link a link, nos perdemos sem conseguir refazer o caminho inicial.

Numa dessas pesquisas aleatórias, cheguei ao site de Wolfe e deparei-me com esse título comum — ao menos para quem se recorda de Dostoiévski — e, principalmente, com o subtítulo que sintetizava uma de minhas constantes preocupações: “Recuperando o humano numa era ideológica”.

A identificação cresceu a cada ensaio de Wolfe que descobri. E se tornou plena ao ler algumas das páginas do livro, gentilmente fotografadas por uma amiga que reside nos EUA.

O resultado está, agora, à disposição de todos — e espero que “A beleza salvará o mundo” se transforme, no Brasil, no que ele já representa para muitos leitores de língua inglesa: um guia para os que acreditam, como T. S. Eliot, que “a vantagem essencial de um escritor é não ter um mundo maravilhoso com que lidar. É ser capaz de enxergar além tanto da beleza quanto da feiura; ver o tédio, o horror, a glória” — pensamento que Wolfe considera a “extensão natural da profecia de Dostoiévski”.

PRECONCEITO E DIÁLOGO
Há muitos elementos que merecem atenção nos ensaios que compõem o livro — e abordei alguns dos principais no Prefácio que fui convidado a escrever —, mas o ponto essencial, decorrente do que citei no parágrafo anterior, é o comportamento conservador criticado por Wolfe. Aluno de Russell Kirk, o autor não teme afirmar que “a maioria dos conservadores pensa na cultura como um museu, e não como uma continuidade orgânica. Eles são todos a favor da promoção dos clássicos, mas quando se trata de cultura contemporânea, simplesmente se eximem”.

De fato, canso de ver, no meio conservador, preconceitos em relação à arte. Muitos conservadores estão apegados a uma visão simplista e superficial da realidade — e chegam mesmo a enaltecer uma estética rasteira, inócua repetição do passado, como se a arte que recusa a pauta niilista, formalista e solipsista só pudesse ser a cópia rebaixada de Homero, Virgílio ou Dante. Ou, ainda pior, devesse se restringir a uma função meramente catequética.

Esse comportamento preconceituoso produz conseqüências assustadoras, como jovens que se negam a ler Hemingway, Kafka ou James Joyce, alegando a busca de uma suposta pureza, só encontrável nos autores que tenham recebido, em alguma época, um “Nihil obstat”.

Na verdade, dar as costas à cultura moderna — ou, como afirma Wolfe, “deixar-se desesperar sobre o nosso tempo” — é uma forma covarde de jogar essa mesma cultura nos braços insaciáveis do materialismo, de sucumbir à estreiteza do pensamento politizado e ideológico, de se tornar, citando Wolfe, um “discípulo involuntário de Marx”.

O caminho proposto por Wolfe é aquele seguido por grandes escritores, como T. S. Eliot, Evelyn Waugh, Flannery O’Connor, Susaku Endo, Nathaniel Hawthorne, Walker Percy e tantos outros: não se entrincheirar na sua própria fortaleza, não se entregar a um tipo de filistinismo que recusa a cultura do seu próprio tempo sem oferecer uma alternativa, sem se predispor ao diálogo.

Diálogo, aliás, que inquestionáveis defensores da ortodoxia católica, como o cardeal Leo Scheffczyk, souberam fazer com sucesso. Leia-se, por exemplo, de Scheffczyk, “O Homem Moderno” (“Der moderne Mensh vor dem biblishen Menschenbild”), e veja-se como o autor formaliza a crítica da “perda do humano na literatura moderna” — mas também dialoga com os autores que critica, sempre disposto a encontrar “notáveis pontos de luz” em cada um deles. Ou, se preferirem, leiam a análise que Henri de Lubac faz de Dostoiévski em “Le drame de l’humanisme athée”.

“DRAMATIZAR OS CONFLITOS DE SEU TEMPO”
A necessidade de um novo humanismo cristão é urgente inclusive para se contrapor aos religiosos secularistas e laxistas, que se apressam, como afirma Wolfe, a “batizar cada tendência secular que passa”, a aceitar qualquer modismo esquerdista sem reflexão, a não ser o filtro de um religiosidade neopagã e sentimentalista — e, portanto, vulgar em todos os sentidos.

O caminho que Gregory Wolfe propõe não é simples, mas grandes artistas o realizaram, quando se dispuseram a “dramatizar os conflitos de seu tempo e incorporar significado em suas obras de maneira profunda”.

Como afirmo no final do meu Prefácio, enquanto lemos Wolfe somos atingidos, muitas vezes, pela suspeita de que ele tenta unir realidades incompatíveis. Mas tal impressão revela-se infundada sempre que ele repete a decisão de não aceitar passivamente o mundo pós-moderno e reafirma o desejo de transformar fé e arte num “traje inconsútil”. Caso a caso, Wolfe segue a máxima paulina: “Discerni tudo e ficai com o que é bom”.


Rodrigo Gurgel é crítico literário e professor de literatura e de escrita criativa. Escreveu três livros: Esquecidos & Superestimados, Muita Retórica — Pouca Literatura e Crítica, Literatura e Narratofobia.

Título: A Beleza Salvará o Mundo

Autor: Gregory Wolfe

Editora: Vide Editorial

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Gregory Wolfe

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