Coluna do Leitor

@reaconaria

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Meia entrada: a metade do dobro

Hoje na Coluna do Leitor, um texto do @_LuckyBastard. Neste artigo especial enviado e publicado originalmente no site GeekMusical, Francisco aborda a armadilha travestida de “benefício” para os jovens. Ao texto:

Meia-entrada: A metade do dobro

Qualquer tipo de política deveria ser analisada fundamentalmente por seus resultados, não por suas intenções. Ponto. Podemos enumerar centenas de fracassos perpetrados por políticos de qualquer orientação ideológica simplesmente por não compreenderem — ou não quererem compreender — que as leis da economia não ligam a mínima para as leis dos homens. A economia é menos como um carro, e mais como um organismo vivo. As bilhões de pequenas e grandes interações entre todos os milhões de agentes econômicos faz da economia um fenômeno orgânico, que sempre irá obedecer suas próprias leis naturais e não tomará conhecimento de malabarismos legislativos e bravatas populistas. Fossem respeitadas, essas leis nos livrariam de uma horda de comunistas de boutique.

Mas a famigerada lei da meia-entrada merece menção honrosa nesse quesito, por ser o exemplo mais gritante do quanto tais políticas “Robin Hood” simplesmente não funcionam — e como se não bastasse, acabam por gerar um efeito reverso, agravando os problemas para os quais elas foram desenhadas como solução. A intenção por trás desse artifício (excluindo, evidentemente, a motivação eleitoreira de políticos e a motivação financeira da UNE), é tão clara quanto ingênua: facilitar o acesso dos menos abastados a eventos culturais em geral. Mas e os resultados?

O primeiro efeito colateral da lei da meia-entrada é que ela dificulta o planejamento de qualquer evento ou negócio sujeito a essa regra. Dessa forma, torna-se muito mais complicado elaborar orçamentos, o que por sua vez irá acarretar em maior dificuldade para obtenção de patrocínios, agendamento de datas, reserva de locais, etc. Qualquer um que já tenha se prestado a organizar um mísero churrasco sabe do quanto é essencial ter uma mínima projeção de receita.

Isso não apenas desestimula a criação de novos eventos, como dificulta o surgimento de novas empresas neste mercado. Por disporem de menos recursos, tem menos “bala na agulha” para suportar o caos no planejamento e os prováveis problemas orçamentários decorrentes disso. Esse cenário favorece a existência de um oligopólio, deixando o mercado de shows, cinema, teatro, na mão de menos empresas, maiores e mais poderosas. E onde há menos concorrência, há maiores preços por piores serviços, pois torna-se arriscado investir na área de entretenimento de modo geral. Todos perdem.

O segundo efeito, consequência direta do primeiro, é o mais emblemático. Se você, organizador, empresário, produtor, não pode ter ideia do quanto seus clientes lhe pagarão (se X ou metade de X), só resta a você elevar o preço original do seu serviço de modo a minimizar o risco de prejuízo. E esse aumento tende a ser algo próximo de 100%. Ou seja, a metade do dobro. Basta pegarmos como exemplo o caso da última edição do Lollapalooza para entendermos o tamanho da bizarrice: nada menos que 95% do público pagou meia-entrada.

Alguns mais ingênuos, ou talvez marxistas (são quase sinônimos) que nunca tiveram o (des)prazer de tentar tocar uma empresa de qualquer setor no Brasil, utilizam aquela velha bobagem do “anti-lucro” como argumento. Mas em respeito à inteligência do leitor do Geek Musical, vou poupá-los de fazer defesas preventivas contra falácias econômicas. Além do mais, se existe algo que é absolutamente eficaz na redução de margens de lucro de qualquer produto ou serviço (e consequentemente, de seus preços ao consumidor), é a abundância de concorrência — coisa que a própria existência da lei da meia-entrada dificulta.

Outro efeito não-desejado — e este é particularmente inconveniente para aqueles que defendem essa lei como forma de “justiça social” —, é que ela é concentradora de renda. É fato incontestável que jovens de classe média e alta estudam por muito mais tempo do que um jovem de menor renda familiar. Dessa maneira, a médio e longo prazo, aqueles que menos necessitam do suposto desconto (sim, suposto, pois pagam a metade do dobro), acabam usufruindo dele por mais tempo de vida, enquanto o jovem menos abonado (caso seja honesto e não falsifique a carteirinha) logo estará pagando a entrada inteira, pelo dobro do preço que pagaria sem a famigerada lei.

O efeito concentrador de renda também acontece no outro extremo do espectro de supostos beneficiários: os idosos. Atualmente, diversos estudos socioeconômicos apontam para um incremento da renda do indivíduo na terceira idade, nas classes A e B. Ocorre que os idosos de todas as faixas de renda estão pagando a metade do dobro. Para um idoso com situação financeira confortável, pagar por uma ilusão não sai tão caro quanto para um aposentado pelo INSS. Novamente, prejudica-se quem deveria ser ajudado. Hélio Schwartsman, colunista da Folha de S. Paulo, abordou o tema aqui e aqui.

Outra faceta bisonha dessa surreal legislação é a completa inépcia do poder público (e privado) para coibir fraudes com carteirinhas ou comprovantes estudantis falsificados. Qualquer um que esteja lendo esse texto, se já não usufruiu ilegalmente da lei da meia-entrada, com toda certeza conhece pelo menos umas cinco pessoas que o fazem. Além disso, grande parte da receita da UNE — uma entidade pela qual nem piromaníaco masoquista colocaria a mão no fogo — é fruto da emissão de carteirinhas de estudante. Tanto é que, quando as empresas passaram a ser obrigadas a aceitar um simples boleto de mensalidade como comprovante de vida estudantil, a UNE esperneou. Ora, se essa foi uma “conquista dos estudantes”, que os livrou de ter que pagar pela emissão da carteirinha, por que a entidade que se autoproclama defensora dos mesmos ficaria contrariada? Só mesmo por interesses capitalistas, algo que a UNE tanto finge abominar.

Mesmo com o pretenso aperfeiçoamento desta lei, que agora prevê uma cota limite de 40% de ingressos vendidos como meia-entrada, os efeitos nocivos não chegarão nem perto de desaparecer. Ainda que atenuados, os mesmos fatores que dificultam o planejamento e afugentam investimentos na área estarão aí. Além do mais, tal limitação não irá garantir que os que realmente necessitam do “benefício” terão acesso a ele, e sim os mais rápidos ou com melhores contatos nas empresas que comercializam as entradas (afinal, estamos no Brasil).

Se você deseja ingressos mais baratos para o seu cineminha, se deseja que jovens menos abastados também possam curtir os shows das suas bandas prediletas, se deseja que o brasileiro vá mais ao teatro, então você não deve apoiar essa legislação insólita. Você deve clamar por um livre-mercado no setor, com menores impostos, com regras claras e estáveis, livre da ingerência e do completo desrespeito às leis econômicas perpetrados pelo governo. Um lugar onde a concorrência possa florescer, aumentando a oferta, pressionando preços para baixo e a qualidade para cima.

Resumindo, a entrada é meia, mas a burrice é inteira. Não é apenas ineficaz como lei, mas também nefasta, pois prejudica quem supostamente deveria ajudar — seja diminuindo a oferta de opções culturais, seja encarecendo-as ou, pior, concentrando renda. A meia-entrada é um tiro no pé de quem já é manco. Eu diria que ela só rivaliza em ilegitimidade com a que dá àquela “máfia legalizada” do Ecad o direito de praticar os mais variados abusos, travestidos de benevolência. Mas isso já é assunto para outro texto…

Texto originalmente em http://www.geekmusical.com.br/index.php/2013/05/15/meia-entrada-a-metade-do-dobro/

Saúde e Hipocrisia

Esse texto que segue foi originalmente divulgado no facebook pela autora. Por ter o ponto-de-vista de uma profissional de saúde, creio ser extremamente relevante quanto à questão da importação de médicos cubanos (apenas cubanos, ora pois! ). O excelente texto é de Kátia Schmidt Filgueiras.

Saúde e Hipocrisia

Acompanhando a polêmica decisão do governo Federal de trazer médicos cubanos para atuarem no Brasil decidi, como médica, fazer algumas reflexões. Esqueçamos, por ora, as mesquinharias e cacoetes ideológicos. A questão é mais ampla e menos simplória. Medicina não é sacerdócio. Medicina é profissão. Trabalhamos por dinheiro, sim. Como jornalistas, domésticas, metalúrgicos, engenheiros e recicladores. Queremos ser bem remunerados. Somos filhinhos de papai mesquinhos, dizem alguns. Fizemos um juramento, sim. A maioria de nós preza por ele. Alguns, infelizmente não. Lamentemos por estes. Não juramos, em nenhum momento, ter de mendigar um leito de UTI para um paciente infartado. Mas mendigamos. Não juramos, que recordemos, ter de suplicar a gestores (políticos que deviam jurar o mínimo de respeito por seu povo) por uma tomografia para uma criança com suspeita câncer. Mas imploramos. E com que frequência e revolta imploramos! Não juramos ter de escolher, em uma emergência lotada com mais de cinquenta pessoas (sentadas em cadeiras, mal acomodadas em macas) qual dessas pobres almas terá direito ao único leito disponível naquele dia para internação. Mas escolhemos. Como em um maldito campo de guerra, escolhemos.

A dor e revolta dessas nefastas escolhas marcam um profissional por toda vida. Mas alguém tem de fazer. E nós juramos que faríamos, da melhor forma possível. E fazemos. Carregamos, e carregaremos a cada dia, o peso de nossas escolhas. Somos mercenários. Queremos remuneração justa pelos longos e árduos anos de estudo e pelo peso e responsabilidade de nossas escolhas e decisões. Suportamos, juntamente com todos os outros dignos profissionais da linha de frente da saúde pública, o peso de um sistema de saúde ineficiente, onde faltam recursos, leitos, remédios, exames, mas sobra corrupção e desvio de verbas. Somos filhinhos de papai, mimados. Preferimos trabalhar em médios e grandes centros urbanos, com melhor e mais fácil acesso a exames, tecnologia, informação e educação permanente. Queremos qualidade de vida também. Somos gente mesquinha, diferente de engenheiros, jornalistas, pedreiros, faxineiras e políticos. Os cubanos, ao que se divulga com alarido, são mais dignos que nós, médicos brasileiros. Afinal eles trabalham, segundo mostra a mídia reacionária, por menos de 300 reais por mês em seu país. E nem reclamam. Fazem isso por pura devoção ou sacerdócio, com certeza. Nenhum temor à repressão, ou à falta de perspectiva de seu país de regime totalitário.

Como médica que trabalha exclusivamente para o SUS e em um município do interior – por escolha e apesar das adversidades – torço por eles, os cubanos. E pelo Brasil. O país, e seu governo, que escolheu construir estádios de futebol e vender ao mundo a imagem de um país próspero que pode se dar ao luxo de esbanjar recursos públicos em futilidades e alegorias, enquanto seu povo agoniza em emergências lotadas e onde seus fúteis e desumanos médicos têm de mendigar remédios e exames a cada dia. Tomara que os cubanos não se arrependam de suas escolhas. Eu continuo escolhendo lutar pelo Brasil, apesar das adversidades e retaliações (pasmem alguns, elas também existem por aqui).

Aos que me acusarão de ser contra os cubanos e de que os médicos são mercenários e que lucram com a falência do SUS, reforço: torço pelos cubanos. Gostaria que eles pudessem experimentar um regime democrático (enquanto nós ainda temos um). Gostaria de ver um programa de incentivo a vinda de médicos estrangeiros para o Brasil. Não importa a nacionalidade. Não vejo nenhum problema nisso e não me sinto ameaçada por isso. Apenas exijo a revalidação de diploma. Eu, médica brasileira, com residência e pós-graduação, preciso revalidar meu diploma em qualquer país em que queira atuar. É a prática de toda nação séria para assegurar a seus cidadãos que os médicos estrangeiros têm a qualificação mínima para atender a sua população. Nada mais justo e criterioso. Um Estado precisa zelar pela saúde de seus filhos. Quanto a preferência dos médicos por atuarem em centros maiores, essa é uma lógica que rege qualquer profissão. Todos querem morar e atuar em municípios de fácil acesso, com asfalto, comércio, cultura e outras futilidades. Os médicos querem, ainda mais, estar perto do acesso a exames, consultorias com especialistas e tecnologia diagnóstica e terapêutica de ponta. O Brasil precisa de prevenção sim! Eu sou dedicação exclusiva ao SUS. Não trabalho na rede privada. Faço medicina preventiva, e muito! Mas hoje em dia prevenção não é mais ensinar a lavar as mãos ou dar remédios para vermes. Precisamos de exames para diagnóstico precoce de doenças crônicas. Precisamos de consultoria com especialistas. Isso é o que está escrito em qualquer artigo científico médico das maiores e mais renomada revistas cientificas da área. E não se iludam os que não atendem no SUS, nosso povo precisa de medicina diagnóstica e curativa também. É aí que o sistema falha, engargala. Para estimular que médicos residam e atuem em pequenos e médios municípios é preciso ações amplas e GOVERNAMENTAIS de incentivo. Como o projeto de interiorização de médicos formados em faculdades públicas. Como a pontuação em prova de residência médica para recém-formados que atuem em pequenos municípios. Como a proposta lançada há anos pelos conselhos de medicina, sindicatos e até em Conferências de Saúde, de um projeto de criação de emprego público para médicos do SUS, nos moldes do Ministério Público e Judiciário, onde o médico ingressaria na carreira pública atuando em pequenos municípios e iria gradativamente ascendendo para municípios maiores, se fosse de sua vontade. Tudo, sem hipocrisia, com salários dignos. Na balança de qualquer profissional pesam o desgaste e responsabilidade de sua profissão, a remuneração que recebem, suas condições de trabalho e moradia e a qualidade de vida para ele e sua família. Não sou defensora árdua da classe médica. Faço, fiz e continuarei fazendo críticas à categoria, quando merecidas. E inúmeras vezes são merecidas. Mas propostas demagógicas, simplórias e falhas de sustentação prática não vão resolver o problema de saúde do Brasil. Nem dos cubanos. Quero qualidade de saúde para todos os brasileiros. Quero dignidade na profissão para todos os médicos e profissionais de saúde. Não gosto de ver um doente com suspeita de câncer esperar 6 meses por um diagnóstico. Revolto-me com isso, como a maioria dos médicos. Essa tragédia diária, que indigna e espanta aos profissionais do SUS, os cubanos, irlandeses ou canadenses, não vão evitar. Ela está aí. Só uma sociedade que grite e lute junta, médicos e usuários do SUS, podem mudar. O resto é falácia. Como Uma Ilha de Fantasias.

Kátia Schmidt Filgueras. Médica de Família e Comunidade. Pós graduada em Saúde Coletiva e Saúde da Família. Atuando há 12 anos na Estratégia Saúde da Família de  Erechim-RS.

Segurança Pública e suas cascas de banana

Como é debatida politicamente a Segurança Pública? Quantas vezes ouvimos chavões pedindo a desmilitarização das Polícias, a unificação da Civil com a Militar? E quantos não são os luminares do pensamento humano a dizer que é mais importante “investir em educação” ou “construir escolas” pra combater a criminalidade? Embora seja talvez o problema mais grave do brasileiro contemporâneo, a afligir linearmente gente de todas as classes, regiões, sexo e idade, Segurança Pública é um tema rodeado de armadilhas. O artigo de hoje da “Coluna do Leitor” deve ser lido pacientemente, replicado e debatido por aí. Um excelente trabalho feito quase que “sob encomenda” pelo colega @PensoEstranho. Ao artigo então:

Segurança Pública e suas cascas de banana

O momento do debate público brasileiro não é muito animador: a agenda dominante conta com muitos e aguerridos defensores, pouco afeitos ao contraditório e à reflexão mais demorada; essa agenda logrou êxito em consolidar seus valores, conceitos e expressões como exemplos de isenção. Como disse @diacrônico dia desses no twitter, falando sobre os EUA: “a esquerda liberal conseguiu se transformar no ponto de neutralidade”. Aqui, a esquerda nada liberal é detentora do “marco zero” valorativo das discussões em geral.

Quando o tema do debate é segurança pública, o desânimo aumenta. Não há agenda, proposta, modelo, diretriz para análise crítica, apenas pontos de interdição que mostram até onde a discussão é aceita. São verdadeiras “cascas de banana” colocadas no caminho dos que pretendem avançar sobre essa complexa questão, as quais, se não forem corretamente identificadas, levam o debatedor desavisado ao chão antes que ele complete qualquer raciocínio ou proposta.

O objetivo desse texto é identificar essas “cascas de banana” conceituais, para que os interessados possam desviar delas com alguma antecedência ou, na melhor das hipóteses, retirá-las do caminho (o que deixarei para um outro – e espero breve – momento).

1.A QUESTÃO SOCIAL

 No início da redemocratização do país, segurança pública era um anátema: quem se dispunha a lidar com o tema era automaticamente vinculado à ditadura e à repressão. Discutir as polícias então, só era possível se fosse para desconstruí-las ou, até mesmo, extinguí-las. A criminalidade, no entanto, só fazia crescer, levando os índices de roubos, furtos, agressões e assassinatos a patamares até então desconhecidos no país.

Como não podiam ignorar a realidade da violência, mas também estavam impedidos pelo contexto de apresentar qualquer proposta afirmativa sobre as polícias (pois isso significaria reconhecer a legitimidade das instituições policiais e, portanto, ganhar a pecha de antidemocrático junto aos formadores de opinião), os políticos escoraram-se na alternativa social para responder às demandas da população sobre segurança.

Se há muitos trombadinhas nas ruas (à época a expressão “trombadinha” não tinha trombado com o politicamente correto), é porque os jovens não tem oportunidades de estudo e lazer. Se jovens e adultos estão matando e morrendo mais, é porque são marginalizados pela sociedade e não tiveram acesso a outras formas de afirmação e resolução de conflitos. Se aumentam os roubos de carros e residências, é consequência da desigualdade e da sociedade de consumo, que incita o desejo sem proporcionar meios de sacia-lo.

Em resumo: se a criminalidade aumenta, a culpa é da sociedade e sua lógica excludente, que deve suportar esse ônus até que um “novo modelo”, baseado em valores humanistas e progressistas com o objetivo primordial de promover a “justiça social”, promova as oportunidades para todos e supere a desigualdade social resultante das escolhas “reacionárias” até então em vigor.

Essa argumentação foi, por muito tempo, um interdito quase que geral ao debate sobre segurança pública, até o momento em que São Paulo, silenciosa e quase que envergonhadamente, começou a reverter o quadro dos homicídios no Estado e, em especial, na Capital. Sem promover qualquer alteração radical no quadro sócio-econômico nem escapar da curva geral de desenvolvimento econômico e social do país, São Paulo conseguiu diminuir o índice de homicídios do Estado em quase 70% e o da Capital em quase 80%, conforme os quadros abaixo:

Homicícios no Estado de São Paulo - Fonte ÉPOCA (site)

Homicícios em SP- Fonte ÉPOCA (site)

Homicídios na Capital - Fonte VEJA (site)

Homicídios na Capital – Fonte VEJA (site)

Embora esse fenômeno tenha sido tardiamente reconhecido (até 2007, 2008 os dados eram questionados pela imprensa e pelos especialistas) e pouco explicado (as teorias sobre as causas da queda dos homicídios vão desde mudanças no padrão demográfico da população até a influência do crime organizado na contenção dos homicidas, passando pelo estatuto do desarmamento, mobilização comunitária, melhoria na gestão das polícias, etc) [1], é um fato social poucas vezes visto no mundo. Tamanha redução na taxa de homicídios, em tão pouco tempo, sem grandes mudanças na estrutura social ou na política pública de segurança, pôs um belo abacaxi no colo dos defensores da mudança do modelo de sociedade como solução para o problema de segurança. Felizmente, para esses teóricos, o governo e as polícias paulistas foram pouco eficientes em vincular suas ações a tão expressivos resultados.

Hoje discute-se em São Paulo a “escalada da violência”, mas sobre patamares muito menores dos vividos há 15 anos. Mudou-se, para melhor, a realidade criminal no Estado no que tange a homicídios, sem que a realidade social tivesse sofrido mudanças substanciais que justifiquem tamanha queda no número de mortes violentas.

Há problemas na segurança pública paulista? Certamente, e muito graves. O que não significa que devemos esperar a mudança da “realidade” ou a chegada da “justiça social” para enfrentá-los. A casca de banana da questão social é mero diversionismo de quem não sabe ou não quer lidar com crimes, violências e gestão de segurança pública como se deve.

 2.A QUESTÃO DO MODELO DE SEGURANÇA DO PAÍS

Sempre que um crime bárbaro, uma violência policial ou uma crise carcerária toma conta do noticiário, surge logo o argumento “a culpa é do modelo nacional de segurança”. Sob essa expressão encontram-se críticas as mais diversas, como: a divisão entre polícia civil e militar é disfuncional; a falta de poder de polícia para as guardas municipais exclui as cidades da gestão de segurança; o governo federal não assume suas responsabilidades na segurança pública; o art. 144 da Constituição engessa os entes federativos, inviabilizando a integração das forças de segurança.

Cada ponto desses é uma casca de banana em si, mas aqui vou focar no primeiro, a divisão das polícias estaduais entre civil e militar.

Há muitos defensores da unificação destas polícias em nome da eficiência, da economia, da racionalidade, etc… Modelos estrangeiros são trazidos à baila como prova de que as polícias brasileiras são uma aberração, e que esta aberração é causa de muitas das mazelas da segurança pública.

Num primeiro momento, a ideia parece fazer sentido: por que duas instituições dividindo o ciclo de atividade policial, duplicando rotinas, estruturas, retendo informação, fomentando a rivalidade e as picuinhas institucionais, agindo de forma compartimentada, muitas vezes de forma conflitante, enquanto a criminalidade ganha terreno?

Vamos entender um pouco as polícias enquanto prestação de serviços. São basicamente estas as grandes atribuições da(s) polícia(s), independente do modelo e da divisão funcional: presença e ação em espaços públicos (garantindo a ordem, prevenindo e reprimindo crimes e conflitos), investigação de crimes, atendimento ao cidadão (onde este estiver, ou em espaço devidamente adequado para a finalidade).

Para exercer estas atribuições, as polícias podem atuar de forma ostensiva (com carros caracterizados, uniformes, distintivos e correlatos) ou velada (utilizando roupas e carros não caracterizados, ações remotas ou até mesmo disfarces).

São atribuições amplas, que conferem às polícias imenso poder para interferir, de várias formas e em vários níveis de intensidade, nas rotinas públicas e privadas de indivíduos e grupos. Desde uma abordagem na via pública, quando o cidadão está caminhando ou dirigindo seu carro, até a mais ampla investigação, com quebra de sigilos bancário, fiscal e telefônico, às polícias é facultado o cerceamento da liberdade individual e coletiva com o uso de várias estratégias, inclusive a força e, em casos extremos, a força letal.

Mesmo nas democracias mais consolidadas, o controle das polícias é um desafio constante. São corregedorias internas, externas, ouvidorias, extensas normatizações de conduta, agências regulatórias, ONGs e associações voltadas única e exclusivamente para a análise crítica da segurança pública. As polícias, por seu turno, tem competência funcional ou territorial bastante restrita. Se não há a divisão de ciclo como no Brasil, há divisão de competências, funcionalidades ou, em muitos casos (como nos EUA), fragmentação territorial. As polícias atuam em municípios ou em pequenas regiões, não podendo estender sua ação por um estado inteiro ou país, a não ser as polícias federais, cujas atribuições são bastante limitadas.

No  Brasil, o controle das polícias mais eficaz é o realizado pelas próprias. As corregedorias, internas, são as maiores responsáveis por identificar e punir desvios de conduta de seus pares. O Ministério Público, instituição com atribuição constitucional expressa de realizar o controle externo das polícias, via de regra não se envolve com a gestão da segurança pública, limitando-se ao acompanhamento de inquéritos e intervenções pontuais em casos emblemáticos.

Se a proposta de unificação das polícias estaduais prosperasse, teríamos instituições enormes, atuando sobre grandes áreas e com ampla competência. Na prática, seriam incontrastáveis, pois não há instituição pública com tais atribuições, organização e capilaridade. Dessa forma, na medida em que o ciclo da atividade policial nos estados está dividido entre polícia civil e polícia militar, temos aí um método de freios e contrapesos endógeno, exercido pelas e entre as polícias, pois os resultados finais da segurança pública dependem da ação de ambas, ainda que não integradas e, muitas vezes, até mesmo conflitantes.

Se não é o melhor modelo de organização policial, está longe de ser uma aberração como muitos pretendem rotular. Ainda que fossem, polícia civil e polícia militar, uma única instituição, a necessidade de policiamento ostensivo e fardado continuaria; idem para a existência de delegacias e polícia judiciária investigativa.

Nos países onde há o ciclo completo, o desafio da integração persiste: os fardados e os investigadores também se hostilizam, sonegam informações, criam suas próprias subculturas…

Seja qual for o modelo, a integração entre os serviços e atividades de polícia é o grande desafio.

3.A DESMILITARIZAÇÃO DA POLÍCIA MILITAR

Desdobramento direto da casca de banana anterior (que para muitos é mero cavalo de Tróia desta), a desmilitarização da Polícia Militar é proposta antiga da esquerda brasileira, verdadeiro fetiche de grupos defensores de direitos humanos, acadêmicos especialistas em segurança e “bem pensantes” em geral, que vinculam a existência de uma “polícia militarizada” à manutenção da doutrina de segurança nacional da ditadura, à cultura de guerra, de combate e extermínio do inimigo, daí derivando para argumentos ainda mais absurdos como “polícia de extermínio da juventude negra, pobre e periférica”, dentre outros que, por equivalentes, são dispensáveis de citação.

As antigas “força pública” (no caso de São Paulo) e guardas civis foram transformadas em “Polícia Militar” durante a ditadura, subordinando-se às forças armadas até a Constituição Federal de 1988 (que ainda manteve as polícias militares como “forças auxiliares e de reserva ” do exército, conforme o § 6º do art. 144 da CF). Essa mudança agregou às polícias ostensivas estaduais características típicas das forças armadas, como patentes, graduações, medalhas, condecorações, regulamentos e normas, além dos princípios de hierarquia e disciplina típicos de organizações de natureza militar.

Como eram forças subordinadas a um regime de exceção, as polícias (tanto a militar quanto a civil) agiam de acordo com as diretrizes do regime. Claro que a defesa das liberdades e direitos democráticos não era uma diretriz das polícias à época.

Na esteira da redemocratização, as polícias militares eram vistas como herança da ditadura a ser superada, quando não extirpada. Embora os constituintes não tenham modificado o modelo geral de organização das polícias, fatos como o massacre do Carandiru e a Favela Naval (ambos em São Paulo) deram força ao movimento de desmilitarização da PM, cujo ápice foi o anteprojeto de emenda constitucional do então Governador Mário Covas, que propunha a unificação das polícias civil e militar, com a supressão do caráter militar desta nova polícia.

Até hoje, toda ação da PM violenta ou arbitrária é considerada culpa “do modelo militarizado de organização, resquício da ditadura, que forma o policial para exterminar o inimigo, e não proteger o cidadão”. Estas críticas escondem, além de indisfarçável ranço ideológico de uma esquerda que ainda considera as instituições militares inimigas a serem subjugadas, profundo desconhecimento da realidade das polícias.

Os fatos que, nos anos 90, levaram às PMs à beira da extinção também foram o motor de profundas autocríticas nessas instituições, que em muitos estados se reinventaram e tornaram-se instituições verdadeiramente subordinadas ao Estado Democrático de Direito.

Se as polícias não defendiam os direitos humanos, as liberdades e direitos democráticos à época da ditadura, não é por serem instituições militares, mas sim porque o Estado não era democrático. Considerar que instituições militares brasileiras são antidemocráticas por essência é um equívoco ideológico casuísta e cínico. Casuísta, porque seu objetivo real é revisar e subjugar as instituições identificadas como “pró regime militar” ou “direitistas”, e não aprimorar a segurança pública; cínico porque só considera antidemocráticas as instituições militares que não se submetem ao ideário “progressista”, por mais republicanas e democráticas que sejam.

A desmilitarização das PMs não teria o condão de resolver os problemas reais das polícias no âmbito de formação, recursos, logística, equipamentos, armas, corrupção, tolerância, relações comunitárias, inteligências. Apenas lhes retiraria instrumentos de gestão e organização que, em boa medida, mantém a hierarquia e a disciplina tão necessárias para o controle de homens e mulheres cuja missão é manter a ordem social, combater o crime e garantir os direitos elementares, individuais e coletivos, da sociedade, atribuições estas para cujo exercício tais homens e mulheres recebem armas, e poder para usá-las contra esta mesma sociedade.

Ser militar é, para muitos destes policiais, motivo de orgulho. As PMs hoje são, de fato e de direito, subordinadas ao poder civil. Desmilitarizar a PM não resolve, por si, nenhum dos problemas das polícias militares, apenas impõe-lhes a vontade de grupos cujo interesse maior é impor sua agenda ideológica, e não enfrentar os reais e graves problemas da segurança pública.

4.O FETICHE DAS DELEGACIAS DE POLÍCIA

Embora não sejam ameaçadas com propostas mirabolantes de extinção ou refundação, as polícias civis estaduais são vítimas de outro grande equívoco: o fetiche das delegacias. O que isso significa exatamente?

Sempre que um crime vira “onda” (como arrastões, latrocínios, maus tratos a animais, pedofilia, tráfico de pessoas, etc.),  uma das primeiras demandas surgidas é a criação de uma delegacia especializada para o delito em questão.  Logo surge um político que abraça a demanda e começa a pressionar o executivo para a criação desta nova estrutura policial.

Quando não há um tipo de crime específico, que resulte na demanda por delegacias especializadas, mas aumento dos crimes em geral ou apenas uma queda na “sensação de segurança”,  as reclamações são no sentido de criação de novas delegacias territoriais.

Aparentemente, demandas legítimas; na prática, ações perniciosas, que enfraquecem a capacidade investigativa da polícia civil, cerne de sua existência.

Ao contrário da polícia militar, cuja presença capilarizada no território é premissa de sua ação ostensiva, a lógica de trabalho da polícia civil é (ou deveria ser) a investigação e a ação de inteligência. Para o bom exercício de seu ofício, a polícia civil precisa, mais que estar fisicamente presente em várias partes da cidade, através de delegacias, ter acesso ao máximo de informações sobre todos os crimes e ações de potencial criminógeno ocorridas no território de sua atribuição.

A divisão exacerbada dos efetivos da polícia civil, seja pela criação de delegacias territoriais, seja pela criação de delegacias especializadas, dificulta o acesso a tais informações de duas formas: a primeira, ao fragmentar o ambiente operacional e dividir a competência investigativa em circunscrições cada vez menores, diminui a visão sistêmica do policial civil sobre a dinâmica social e criminal da cidade; a segunda, ao fragmentar a investigação por tipo de crimes, através da criação de delegacias especializadas sem critérios técnicos, mas por pressão social, retira do policial civil a possibilidade de analisar as diversas conexões entre os crimes, dificultando até à inviabilização a investigação de ações mais sofisticadas das organizações criminosas, relegando à polícia civil a investigação dos “crimes de varejo”.

A fragmentação sem critérios do efetivo da polícia civil obriga-os a repetir rotinas burocráticas em cada uma das delegacias existentes, divide informação, acirra competições internas (cuja principal consequência é a sonegação de informação), cria categorias de policiais (os “especializados” e os relegados às delegacias territoriais), tudo resultando em drástica redução da capacidade investigativa.

Durante muito tempo, essa dinâmica de criação desenfreada de delegacias foi fomentada por grupos sociais, políticos e pelos próprios policiais civis, que, mimetizando a lógica de organização da polícia militar, entendem que quanto mais delegacias existentes, mais força e influência terá a instituição.

Apenas há pouco tempo a policia civil paulista, premida pelo esgotamento do modelo e pela necessidade de dar resposta à sociedade e aos seus policiais, resolveu reverter a lógica e propor a aglutinação de equipes e competências, fechando unidades territoriais e especializadas, de forma a diminuir rotinas burocráticas, aumentar a troca interna de informações e permitir que os policiais tenham uma visão mais ampla do ambiente, seja em termos territoriais seja em termos informacionais.

A investigação não necessita de muitos prédios, mas de boa estrutura, preparo e tempo, requisitos que são mais eficazes quanto mais os policiais interagem, trocando informações sobre todo o ambiente operacional (de preferência, abarcando todo o município) e sobre as várias dinâmicas sociais e criminais. Essa experiência, que vem ocorrendo há alguns anos no interior do estado, enfrentou e enfrenta resistências, mas ainda assim vem mostrando bons resultados.

O fetiche da delegacia é das mais insidiosas cascas de banana existentes na segurança, pois a criação de novas unidades é uma resposta rápida e relativamente fácil no âmbito político (depende apenas de decreto governamental), gera benefícios rápidos para os policiais (com criação de novos cargos e gratificações) e transmite à população uma falsa sensação de segurança. Polícia civil não é prédio, é equipe; sua especialização não demanda separação.

Essas são apenas quatro das muitas “cascas de banana” no caminho do debate virtuoso sobre segurança pública. Muitas outras estão por aí, mas precisamos não só desviar delas, mas também seguir a trilha correta. O desafio é imenso e urgente. Não podemos mais perder tempo discutindo as pautas erradas.

 

[1] A melhor explicação que vi até hoje sobre o fenômeno da redução de homicídios na capital paulista está no livro “O Homem X”, de Bruno Paes Manso. Basicamente, um misto de mobilização social (cobrando políticos e as forças de segurança para acabar com a escalada da violência, ação policial (sofisticando a investigação dos homicídios e prendendo os homicidas contumazes) e mudança de valores (a estigmatização dos matadores e o fim dos ciclos de vingança entre gangues e turmas). 

O autor do texto pode ser contatado no twitter, @PensoEstranho

O rumo petista ao Socialismo

Hoje na “Coluna do Leitor” trazemos um texto do amigo Bruno Lemes, que estuda Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo. No artigo abaixo, Bruno, que já esteve presente aqui na Reaçonaria, desenha o modelo de Socialismo que mais apetece aos petistas hoje.

O rumo petista ao socialismo

Pergunta-se a um esquerdista, moderado ou radical, desiludido com a práxis do Partido dos Trabalhadores: o PT, hoje, é o caminho para o socialismo?

Sim. No entanto, estamos falando do socialismo que “aprendeu com os erros” do socialismo real, os erros de tomar o poder e manter seu domínio à força, acintosamente. Trata-se do neossocialismo, o socialismo progressista, o socialismo sustentável (!), que não será implementado através da revolução, mas das vias democráticas “burguesas”. Diferentemente dos PCOs e PSTUs da vida que nunca vão conseguir nada além das atuais boquinhas de verba pública, pois não se modernizaram. A estes partidos de extrema-esquerda ortodoxa restará lutar por “diretas já” para reitor na USP, desejosos de — aproveitando sua força política ao menos no movimento estudantil — eleger um reitor do partido, o que lhes proporcionará um pouco mais de relevância política e moeda de troca junto aos governos “burgueses” estaduais. Ou acham que esse papo de diretas pra reitor é amor à democracia? Nada disso; ambicionam mesmo é a ampla autonomia universitária — que eventualmente até tribunais preferem não confrontar, como no recente caso em que a reitoria haveria vetado o debate entre candidatos à prefeitura de São Paulo em uma de suas faculdades — exatamente para lograr transformar a USP numa ilha socialista, ou o máximo que se chegue perto disso.

Atlas, mas poderia ser qualquer trabalhador.

Atlas, mas poderia ser qualquer trabalhador.

Já o projeto do PT não visa a extirpar a livre iniciativa. Apenas se aumentarão os tributos de modo que o Estado seja um sócio, que nada investe, com uma fatia cada vez maior do resultado do trabalho daqueles que produzem. O investimento estatal será cada vez mais amplo e difuso, e, à medida que os serviços prestados forem sempre ruins ou regulares, que os “direitos” a serem garantidos pelo Estado forem cada vez mais abrangentes e específicos (lembrando: garantir direitos cu$ta), e que as pessoas forem cada vez mais educadas a exigir que “o governo dê”, ainda mais o Estado será legitimado a sugar riquezas de seus cidadãos (podemos pensar, por exemplo, na máxima dos 10% do PIB pra educassaum, o mantra mais difundido da atualidade), sejam eles ricos, pobres ou medianos; aqueles, porém, sempre vão dispor de melhores instrumentos para contornar o peso estatal e social.

A expansão dos auxílios econômicos diretos (redistribuição de renda) manterá um eleitorado fiel ao projeto do Partido, que assim poderá se perpetuar indefinidamente no poder, democraticamente. Caminhar-se-á cada vez mais rumo ao sonho marxista do “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”, tragédia esta que Ayn Rand magistralmente exemplificou, na ficção A Revolta de Atlas, na realidade de uma simples fábrica de motores.

Em suma, o PT é o melhor (mais competente) partido de esquerda brasileiro, o mais apto a levar o país ao socialismo; o problema reside no fato de que este regime sócio-político-econômico, diferentemente do que muitos professores do Ensino Médio e universitários ensinam, não se trata de algo bom para o futuro dos povos.

Bruno Lemes é bacharelando em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de São Paulo.

Pode ser encontrado no Twitter em  @jornalemes
Blog: http://jornalemes.blogspot.com.br

Afinal, o que é inflação?

Voltamos com a “Coluna do Leitor”. Hoje o leitor Marcos Jr., do site Minuto Produtivo, parte de conceitos básicos sobre o que é a inflação para mostrar o quanto a preocupação quanto ao seu retorno por aqui tem razões de ser que não se explicam por teorias conspiratórias amalucadas.

Afinal, o que é inflação?

“[…]a inflação foi uma conquista desses dez últimos anos do governo do presidente Lula e do meu governo.” (Dilma Rousseff)[…]

Antes de falar de fato sobre o assunto é necessário fazer uma breve explicação sobre o que é inflação. Isso servirá de base para comentar o tema e a conspirata do “lobby do tomate”.

A inflação significa a perda do poder de compra da moeda de um país. Também pode ser traduzida pela alta generalizada de preços na economia.

Ela pode trazer efeitos negativos para o funcionamento da economia, uma vez que: ela produz distorções econômicas, pelo fato dos preços não subirem simultaneamente; causa concentração de renda, pois a população mais pobre tem menos possibilidades de se defender, enquanto a população mais rica pode reajustar sua renda ou recuperá-la, por exemplo, no mercado financeiro; por fim, pode inibir o investimento produtivo, causando impasse no crescimento econômico, uma vez que ambientes com alta inflação podem dificultar o cálculo de ganhos, perdas e as comparações, atiçando ganhos especulativos, levando o governo a se defender com o aumento da taxa de juros.

A teoria econômica trabalha basicamente com três explicações para a inflação, a saber:

· Inflação de demanda: quando existe muita demanda (dinheiro) para pouca oferta (bens e serviços). Os keynesianos usam a aceleração excessiva da economia, defendendo uma política monetária restritiva (diminuindo o dinheiro em circulação) e uma política fiscal contracionista (o que leva a redução da demanda). Os monetaristas atribuem a inflação ao descontrole monetário do governo devido aos excessos fiscais (promove emissão de moeda para cobertura de déficits, desvalorizando-a). Neste caso, existe uma defesa maior da política monetária em detrimento da fiscal;

· Inflação de custos: é basicamente gerada por duas fontes. 1) aumentos de salários ou lucros que não são proporcionais à produtividade; 2) choques de oferta (provocados por situações naturais, como quebras de safra, ou provocados por situações políticas, como o racionamento de energia de 2001 e a crise cambial de 2002).

Para esse caso, recomenda-se usar a política monetária apenas para evitar a propagação desses choques por toda a economia, bem como outras opções mais eficazes, como a maior abertura para importações ou as negociações de preços e salários entre governo, empresários e sindicatos de trabalhadores.

· Inflação inercial: diagnosticada aqui por economistas brasileiros que elaboraram diversos planos de combate à inflação que culminaram no Plano Real. Trata-se da indexação generalizada na economia: preços, impostos, salários, contratos e aluguéis são reajustados com base em alguns índices de inflação. Assim, a alta generalizada de preços é “empurrada” para frente, realimentando a inflação.

E como a inflação se tornou preocupação no governo Dilma?

Para entender como ela voltou a aparecer como um dos principais temas de discussão no que se refere à economia brasileira (assim como o PIBinho), precisamos voltar um pouco no tempo – 2010, ainda no governo Lula.

A economia brasileira, naquele ano, cresceu 7,5% (o melhor resultado em quase um quarto de século), ainda que a inflação tenha fechado consideravelmente acima do centro da meta (5,9%, 1,4% acima do centro, mas 0,6% abaixo do teto da meta – é permitida uma tolerância de 2% para mais ou para menos).

Tal desempenho em plena crise econômica mundial (presente até hoje) somado a outros fatores acabou garantindo a eleição de nossa Presidenta da República.

Ainda no segundo semestre de 2010, as expectativas apontavam para um crescimento menor porém ainda expressivo do PIB (5,5%) e uma inflação menor (5%) no ano seguinte.

E, então, começa 2011. Dilma Rousseff toma posse como a primeira mulher a ser presidente do Brasil. Parecia que os bons tempos que a economia viveu sob o comando de Lula continuariam. Apenas parecia. A inflação não só não cedeu como ultrapassou o teto da meta (6,5%) ainda no primeiro semestre do ano. Após várias altas sucessivas de juros e um corte bilionário no orçamento, a inflação conseguiu cravar o teto. Quanto ao crescimento, as previsões foram revistas sucessivamente, até que no final o país cresceu 2,7%. Era o início de um novo padrão de crescimento econômico, o PIBinho.

No final de 2011, mais expectativas: apesar do recrudescimento da crise econômica iniciada em 2008, esperava-se uma inflação menor, porém ainda acima do centro da meta (5,4%) e um crescimento do PIB entre 4% e 5%, impulsionado pela sequência de desonerações para diversos setores produtivos.

E chega 2012. Com ele, as baixas prometidas (IPI reduzido para automóveis e linha branca são alguns exemplos).

A inflação, de fato, ficou menor em comparação ao ano de 2011, apesar de que, no final, continuou acima do previsto inicialmente (5,8%).

Porém, o crescimento econômico, que era tão aguardado por conta das reduções de impostos não ocorreu. Pior, diferente do ano retrasado, em que o valor real era metade do esperado, o crescimento econômico fechou o ano passado em “incríveis” 0,9%.

Um quinto em relação ao esperado, o que fez com que o primeiro biênio do governo Dilma se tornasse um dos piores em desempenho do PIB nos últimos 20 anos.

Para 2013, uma previsão um pouco mais cautelosa para o crescimento da economia (em torno de 3%). A inflação foi fixada em 5,7%. Mais uma vez, acima do centro da meta. Ah, para 2014, no que se refere à alta generalizada de preços, idem.

Só com base nisso (e nos conceitos de inflação, especialmente os relacionados a de demanda e à inercial), já dá para pensar em como tal tema virou (ou terá/teria de virar) preocupação no governo atual. Até porque, se as previsões para 2013 e 2014 se confirmarem, o governo Dilma fechará sem conseguir chegar ao centro da meta de inflação. E diferente da gestão anterior, nem um crescimento do PIB (normalmente uma taxa alta de tal variável pode alimentar a inflação) que justifique isso é esperado.

Para se ter uma ideia de que realmente há motivo para colocarmos as barbas de molho, este mês a inflação acumulada em 12 meses está próxima de 6,6%, acima do teto da meta. Na última reunião do Copom, o Banco Central decidiu fazer uma pequena elevação na taxa básica de juros (de 7,25% a.a. para 7,5% a.a.) como forma de “domar a fera”.

A tese do “lobby do tomate”. E por que eu diria que ela é estapafúrdia.

Antes de falar sobre a tese do “lobby do tomate”, é necessário que se explique o porquê do tomate ter entrado nessa jogada. Devido às fortes chuvas, que levaram a prejuízos na safra, e o diesel mais caro (afinal, nosso país tem a brilhante ideia de se transportar por longas distâncias usando rodovias) fez o preço do principal ingrediente da salada quase que triplicar nos últimos 12 meses.

Consequência simples, óbvia e lógica: o tomate virou um dos vilões da inflação neste ano, com direito a piadas repetidas ad nauseam nas redes sociais.

Pouco antes da reunião que sacramentaria a alta da Selic (após mais de seis meses sem aumentar), algumas pessoas (defensoras mais exaltadas do governo, ou, melhor, do partido que hoje está no poder) resolveram defender a tese de que “setores da imprensa conservadora, elitista e golpista, aliados à oposição e a especuladores financeiros que não observam mais no Brasil uma chance de ganhar mais dinheiro” estariam usando o tomate como fator de pressão para que o Banco Central aumentasse a taxa de juros. Mas, claro, por que cargas d’água ninguém pensou nisso antes?

Bem, a contra-argumentação precede de duas hipóteses: a primeira, de que realmente tais setores malignos para o Brasil (mwahahahaha!), usaram o tomate como “arma” para justificar o aumento da Selic.

Mas qual o conceito de inflação mesmo? Ah, se trata de uma alta generalizada de preços na economia de um país, certo?

Certo! Com base nisso, qual a chance de que mexer em um indicador macroeconômico (como a taxa de juros) com base na alta do preço de UM produto? Simplesmente ridícula, para não dizer zero! Se esses lobistas que torcem tanto contra o nosso incrível e maravilhoso país conseguiram convencer o Copom a subir a Selic por causa do aumento de um único produto, parabéns a eles por que a lábia que eles tiveram para convencer Tombini e sua trupe foi impressionante! Quanto aos membros do comitê, a lixeira para jogar seus livros de economia é logo ali.

Tá, mas vamos pensar que essa explicação não convenceu, ou ainda considerar a segunda hipótese: de que o “lobby do tomate” é apenas um nome simbólico (assim como o tomate apenas é um mero símbolo do atual momento da inflação), para dizer que existe uma pressão da imprensa, da oposição e de especuladores financeiros para que a taxa de juros aumentasse de forma a aumentar os ganhos no Brasil (ora, não é mais fácil dar nome aos bois? Para quê, então, esse rodeio todo? Ah, antes de mais nada, não estou afirmando necessariamente que esse lobby não existe). Tomemos então as explicações sobre a inflação (especialmente a inercial) e seus efeitos negativos, além de claro, uma breve identificação dos fatos:

· Em 2010, a inflação fechou acima do centro da meta;
· Em 2011, também. Mais precisamente, fechou no TETO da meta;
· Em 2012, também;
· Neste ano, espera-se que ela feche acima do centro da meta. E neste momento está, inclusive, acima do TETO da meta;
· E, para o ano que vem, a expectativa é a mesma: acima do centro da meta;
· Em tempo: diferente de 2010, NÃO está havendo um crescimento do PIB que justifique tais valores de inflação.

Se a equipe econômica do Governo Federal não está conseguindo cumprir a meta estabelecida de inflação e espera que isso também se repita para o próximo ano, das duas, uma: ou o centro do target não é realista ou simplesmente não está sendo feito o esforço necessário para se chegar a esse resultado (uma possibilidade não necessariamente exclui a outra).

E se pensarmos que o conceito de inflação inercial também se aplica às expectativas futuras, temos uma verdadeira armadilha para este ano: a expectativa da inflação para o ano que vem pode tornar difícil o combate à atual, que no final torna mais difícil ainda o combate dessa para o próximo ano.

Considerando isso e os fatos apresentados, além de que ambientes com alta inflação podem servir de isca para aqueles que querem ganhar dinheiro com especulações, poderíamos dizer que na melhor das hipóteses, supondo que o “lobby do tomate” venceu, o governo ajudou a “se derrotar”.

Resumindo: de qualquer forma querer colocar os especuladores financeiros no centro do problema, apenas para tirar a culpa do governo federal na condução da economia, me soa um tanto infundado.

Só lembrando que o tomate já deixou de ser o vilão da inflação. O feijão e o leite são os candidatos a serem os próximos.

Encerrando

Diferente de três anos atrás, os ventos favoráveis à nossa economia pararam de soprar. E, sim, devemos estar de olho na alta dos preços dos produtos e serviços no Brasil. Até porque, além dos dados apresentados, nos próximos anos espera-se uma forte demanda, principalmente dos turistas estrangeiros, devido aos grandes eventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Se considerarmos que nossa capacidade produtiva pode não ser suficiente, pode estar por vir um momento de forte pressão inflacionária. Quem viver, verá.

Marcos Jr.
Editor do Minuto Produtivo (http://minutoprodutivo.blogspot.com.br/)
Twitter – @marcosaljr
Facebook – fb.com/marcosaljr

Revisado por @sarubo

A Socialização do Mérito

Mais uma coluna do Leitor. Agora quem nos envia o artigo é o Marcel  @bqeg para tratar dum tema bastante peculiar e tanto mais evoluído nas sociedades quanto mais elas são livres, justas e capitalistas: a filantropia. É mostrado aqui o exemplo do Instituto Bill & Melinda Gates, gerido pelo magnata e gênio da computação Bill Gates.

A Socialização do Mérito

Olá amigos. Resolvi cometer a ousadia de me meter entre as feras neste site apenas para mostrar alguns dados interessantes sobre a Instituição Bill & Melinda Gates, fundada pelo porco-capitalista Bill Gates, gênio do mal e fundador da Microsoft, aquela empresa financiada pelo demônio em pessoa.

Conforme ilustrado pelo amigo Gravata em seu texto, se é modus operandi da esquerda socializar a culpa, como reaça me sinto no direito/dever de socializar o mérito. Afinal de contas, somos reaças mas somos limpinhos e não nos incomodamos em jogar conforme as regras do jogo.

Imagine como deve ser duro para um socialista perceber que Bill Gates fez muito mais pelos pobres e oprimidos do que qualquer socialista que existiu, existe ou existirá em nosso planeta. Perceba como deve ser difícil para a esquerda assumir que o nerd dos programas de computador fez e fará mais para desenvolver um mundo melhor, mais justo e mais saudável que todos os socialistas somados. Para os que duvidam, vamos a alguns detalhes.

A Fundação Bill & Melinda Gates existe desde 1994, sendo criada inicialmente com uma verba de US$94 milhões. Em 2000 foram injetados mais US$126 milhões. Rapidamente os fundos passaram para US$2 bilhões, num momento em que Bill Gates resolveu abandonar suas funções na Microsoft para dedicar-se quase que integralmente à caridade.

Os três programas principais da fundação envolvem:

  • Programa de Saúde Mundial;
  • Programa de Desenvolvimento Mundial;
  • Programa voltado aos EUA.

bill-and-melinda-gatesApenas para o fundo que ajuda a combater Aids, Tuberculose e Malária, a fundação doou US$1,3 bilhões em 2012. Além disso, provê 17% do orçamento mundial para erradicação da Poliomielite. Só para pesquisas com relação ao vírus HIV, foram doados US$287 milhões divididos em 16 grupos de pesquisa no mundo todo, com uma condição: que eles compartilhem suas descobertas entre si. Coisa bem de capitalista filho da mãe, mesmo.

Eu poderia continuar listando o dia inteiro aqui a enormidade de dinheiro e programas que foram criados pela fundação com benefício direto a pessoas e países pobres, assolados por doenças e desigualdade. Se você quiser saber mais, basta ir no artigo da Wikipédia em inglês ou no próprio site da fundação. Lá eles disponibilizam até mesmo dados do Imposto de Renda, tudo transparente. igualzinho as ONGs aqui no Brasil. Ah, quase esqueço: a própria fundação em si emprega mais de 1000 pessoas.

Então, socializando o mérito: culpa do capitalismo, esse ordinário.

Marcel escreve em seu blog  http://blog.bytequeeugosto.com.br/

A Mistificação do Marxismo

Mais uma contribuição enviada para a “Coluna do Leitor”. Agora trata-se de um ensaio preparado por Milton Valdameri de Salvador, Bahia. Neste longo post ele buscou exemplos de aulas marxistas para mostrar o quanto Marx é analisado e absorvido muito mais pela sua fama repassada do que pelo conteúdo friamente analisado.

Boa leitura!

A Mistificação do Marxismo

 1. Introdução

Mistificações são ideias inconsistentes, que são pregadas de forma sistemática. As mistificações convencem as pessoas a acreditar em algo que elas não tem como saber em que estão acreditando, condicionam as pessoas a repetir aos outros as mesmas alegações, ou os mesmos procedimentos que as convenceram.
As vítimas de uma mistificação, podem passar a vida inteira sem perceber que foram vítimas de uma mistificação, mas mesmo aquelas que deixaram a mistificação, continuam sem condições de refutá-las por que em nenhum momento entenderam o que elas próprias pregavam às outras pessoas.
Muitas vezes, vítimas de uma mistificação tornam-se inimigas da mistificação, mas não sabem como abandonar as práticas da mistificação que abandonaram, tornando-se vítimas de outra mistificação, ou criando uma mistificação própria, baseadas na falsa dicotomia de que, se não estão mais pregando aquilo que pregavam antes, estão pregando algo que está correto.

2. O argumento, o argumentador e o método

É extremamente necessário entender que a biografia de um indivíduo não desqualifica nem qualifica seus argumentos. Argumentar sobre o indivíduo, ao invés de argumentar sobre o argumento, nada mais é que a falácia “Ad Hominen”, ou seja, uma besteira falada por um santo não torna a besteira em algo verdadeiro ou válido, da mesma forma que algo falado por alguém desprezível, não torna o argumento inválido.
Argumentos e pessoas são objetos distintos, o melhor médico do mundo pode ser a pessoa mais desprezível do mundo, mas seus diagnósticos não deixam de ser eficientes, da mesma forma que um médico que é um indivíduo moralmente adorável, não faz com que seus diagnósticos estejam certos simplesmente por que é moralmente adorável.
Analisar a biografia de Karl Marx se faz necessário para analisar o marxismo, por que a suposta genialidade de Marx é usada como sustentação da mistificação. Uma vez que a mistificação usa a “genialidade” de Marx para validar seus argumentos, então a “genialidade” de Marx deve ser analisada com propriedade. Não se trada de desqualificar o argumentador, mas desqualificar o “argumento do apelo à autoridade”, onde Marx é colocado como autoridade inquestionável.
Para analisar a biografia e os eventos históricos relacionados com a mistificação, as datas somente serão mencionadas quando se mostrarem necessárias. O conhecimento atual, sobre o funcionamento do cérebro humano, mostra que o cérebro divide a capacidade de compreensão de acordo com a quantidade de informações, então sempre que o cérebro dedica uma parte de sua capacidade para lembrar de datas, ele está diminuindo a capacidade de analisar os fatos correspondentes àquela data.
A análise histórica será apresentada ligando fatos históricos a outros fatos históricos relacionados, quando for necessário mencionar uma data, a data será mencionada, mas a data em si mesma não é relevante.

3. A biografia de Karl Marx:

 Karl Marx nasceu na Renânia, território da Prússia, que fazia parte da Confederação Germânica. Depois que o Império Germânico (I Reich) perdeu a guerra contra Napoleão Bonaparte, o I Reich tornou-se uma confederação de monarquias que se uniram para defender as monarquias que fizeram parte do I Reich (Império Germânico);
 os pais de Karl Marx eram judeus convertidos ao cristianismo. O pai era um advogado que dispunha de privilegiada condição financeira e mantinha uma relação próxima com a aristocracia da Prússia.
Karl Marx foi criado em ambiente que tinha ligação com a nobreza, embora sua família não fizesse parte da aristocracia. Marx viveu sua infância e adolescência em ambiente burguês, numa época em que a Alemanha tentava consolidar a economia e a sociedade dentro do modelo moderno, ou seja, dentro do modelo burgues. A Alemanha só abandonou o feudalismo no começo do século XIX, justamente após a derrota para Napoleão Bonaparte.

3.1. Primeiro momento:
 Karl Marx ingressou na Universidade de Bohn, para cursar Direito. Depois de cursar Direito por dois anos, envolveu-se emocionalmente com uma amiga de sua irmã mais velha, durante o período de férias;
 a amiga da irmã mais velha de Karl Marx, era filha de um dos conselheiros do Imperador da Prússia, o Barão de Westphalen;
 as duas famílias, mesmo tendo laços de amizade, discordaram veementemente do relacionamento entre Karl Marx e Jenny von Westphalen. O pai de Karl Marx transferiu o filho para a universidade de Berlim, para afastar o filho dele da filha do conselheiro do imperador;
 na Universidade de Berlim, Karl Marx mudou de curso e deixou de cursar Direito para cursar Filosofia, os motivos para a mudança são desconhecidos;
 Karl Marx não recebeu o diploma de filosofia da Universidade de Berlim, por motivos desconhecidos, Karl Marx recebeu o diploma na Universidade de Jena, onde ele apresentou uma monografia sobre As divergências entre Demócrito e Epicuro, sobre a filosofia da natureza. Não há nenhuma informação sobre o motivo de Karl Marx não ter apresentado a monografia na Universidade de Berlim, nem qualquer motivo para que a Universidade de Jena recebesse uma monografia de um aluno de outra universidade. Qualquer um que deduzir que a Universidade de Berlim reprovou a monografia e a Universidade de Jena aprovou por influência da família Marx, não estará deduzindo algo inimaginável, muito pelo contrário, é uma dedução praticamente óbvia;
 Karl Marx foi trabalhar na Gazeta Renana, periódico mantido por empresários insatisfeitos, que se dedicava a publicar uma campanha contra o governo;
 Karl Marx, em pouco tempo, assumiu a direção do periódico, mas os empresários mantenedores do periódico, fizeram um acordo com o governo e fecharam o periódico.

Comentário sobre o primeiro momento:
A mistificação marxista costuma contar que Karl Marx tinha como objetivo tornar-se um professor universitário, mas desistiu depois que o Imperador nomeou para reitor da Universidade de Berlim, alguém que divergia de Hegel. A mistificação fica explícita neste ponto, pois Karl Marx não se formou na Universidade de Berlim, o pensamento do reitor não era motivo para desistir de ser professor e haviam muitas outras universidades onde ele poderia exercer a atividade de professor universitário, incluindo a universidade que lhe conferiu o diploma. Qualquer um que deduzir que Karl Marx não tinha qualificação para exercer a função de professor, não está deduzindo algo inimaginável, está apenas deduzindo o óbvio.

3.2. Segundo momento:
 depois que a Gazeta Renana fechou, Karl Marx providenciou sua mudança para a França, mas antes de se mudar para a França, casou-se com Jenny von Westphalen, a filha de um dos conselheiros do governo que ele combateu através da Gazeta Renana, cujo relacionamento causou a transferência, do estudante Karl Marx, da Universidade de Bohn para a Universidade de Berlim, onde ele trocou o curso de Direito pelo o curso de Filosofia, mas não recebeu o diploma na Universidade de Berlim, recebeu o diploma da Universidade de Jena, sem jamais ter frequentado qualquer aula naquela universidade;
 o casal Karl e Jenny mudou-se para a França, sem receber nenhum dote, pois a união do casal não era aceita pelas famílias envolvidas. Embora não tenha recebido nenhum dote, o casal levou consigo o enxoval da Jenny, que incluía pratarias, linhos e uma aia (serva);
 Na França, Marx continuou sua empreitada contra o governo da Prússia, através da publicação Anais Franco-alemães. Sob a influência de Feuerbach, escreveu a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e também a Questão Judaica.

Comentário sobre o segundo momento:
Marx não foi para a França por ter sido exilado, mas por livre e espontânea vontade. Tudo indica que a mudança para a França tinha como objetivo dar continuidade aos ataques contra o governo da Prússia. A questão mais relevante deste momento, é a presença de uma aia no enxoval da esposa de Marx.
Para entender a relevância da aia, é necessário mencionar que Marx mudou-se para a França em 1843, quando a escravidão ainda era permitida. Embora a França tenha sido o primeiro país do mundo a abolir a escravidão, durante a Revolução Francesa, a escravidão foi restabelecida por Napoleão Bonaparte, sendo abolida pela segunda vez apenas em 1848, portanto a França permitia a escravidão naquele momento em que Marx mudou-se para a França.
A Prússia havia abolido a escravidão em 1807, quando realizou uma reforma agrária e distribuiu terras para os camponeses que viviam na condição de servos, mas não houve mudanças nas condições dos servos urbanos, que não podiam ser comercializados, mas continuavam como propriedades dos patrões por falta de alternativa. Anos mais tarde, nasceu uma criança fruto da relação entre Marx e a aia, mas Marx não assumiu a paternidade, que foi assumida por Engels, que entregou a criança para uma proletária, que receberia pagamento mensal para criar a criança.

3.3. Terceiro momento:
 Marx recebeu um artigo de Engels, intitulado Esboço de uma Crítica da Economia Política. Marx começou a se interessar por economia política e aproximou-se de Engels. Marx escreveu Contribuição à Crítica à Filosofia do Direito de Hegel e os Manuscritos econômicos filosóficos;
 Marx foi expulso da França, mudou-se para a Bélgica. Marx escreveu Teses Sobre Feurbach e A Sagrada Família;
 Marx aproximou-se de uma sociedade clandestina, chamada de Liga dos Justos. Num congresso da Liga dos Justos em Londres, convence seus membros a mudarem o nome para Liga Comunista.
 Logo após fundar a Liga Comunista, Marx publica o Manifesto Comunista, que resulta na sua expulsão da Bélgica, pois havia um compromisso assinado para que Marx não publicasse nada sobre política interna ou externa.

Comentário sobre o terceiro momento:
Marx estabeleceu uma forte relação com Engels, que dispunha de uma considerável fortuna e tornou-se parceiro e financiador de Marx. Neste momento Marx escreveu, influenciado por Hegel, uma crítica a Feuerbach, que tinha lhe influenciado na crítica a Hegel. Marx usou Feuerbach para criticar Hegel e usou Hegel para criticar Feuerbach.
A fundação da Liga Comunista é um dos pontos mais importantes deste momento na trajetória de Marx. Com a liga comunista, Marx passou a influenciar diretamente um grupo organizado, deixando de ser uma voz isolada com publicações sem repercussões significativas entre os intelectuais da época. A única obra de Marx com repercussão entre outros intelectuais, foi a Sagrada Família, que resultou em uma resposta de Bruno Bauer, em um periódico, onde foi afirmado que Marx não entendeu o que leu.

3.4. Quarto momento:
 a expulsão da França tinha sido revogada e Marx voltou para a França;
 havia um ambiente de revolução em toda a Europa, o período ficou conhecido como Revoluções de 1848, Marx ficou pouco tempo na França e mudou-se para Colônia, para fundar a Nova Gazeta Renana, com os recursos e a parceria de Engels;
 Marx e Engels utilizaram o periódico para atacar o governo da Prússia, ajudando a Liga Comunista a prover a revolução na Prússia;
 a Nova Gazeta Renana foi fechada pelo governo da Prússia, Marx foi expulso e Engels fugiu para não ser preso, a revolução foi dominada;
 Marx voltou para a França, mas o governo francês não permitiu que ele estabelecesse residência fixa, então Marx mudou-se para a Inglaterra;
 em Londres, um espião do governo da Prússia se aproximou de Marx e conseguiu a lista de membros da Liga Comunistas. Vários membros da liga foram presos e as divergências entre os membros restantes resultou na dissolução da liga.

Comentários sobre o quarto momento:
Não existe nenhuma explicação para o fato de Marx ter sido expulso ao invés de ter sido preso, uma vez que Engels teve que fugir para não ser preso, ao invés de ser expulso. Qualquer especulação sobre este fato seria leviandade, mas ficou evidente que Engels foi considerado mais “importante” que Marx pelo governo da Prússia.
Marx conseguiu, em menos de dois anos, ser expulso de dois países, um deles sua terra natal, e não foi aceito para fixar residência em outro. Mas sem dúvida sua maior proeza foi tornar a Liga dos Justos, que era uma associação socialista que tinha como lema “todos os homens são irmãos”, em uma associação onde vários membros foram presos em diversas partes da Europa, conseguiu causar divergências suficientes para que a associação se extinguisse.

3.5. Quinto momento:
 Marx participou da criação da Associação Internacional dos Trabalhadores, que ficou conhecida como Internacional Socialista;
 Marx tinha graves divergências com Bakunin e outros socialistas, oito anos de pois da criação da AIT, Marx conseguiu a expulsão de Bakunin e de todos aqueles que divergiam de suas ideias. Bakunin batizou o idealismo de Marx de marxismo;
 Marx publicou O Capital e morreu seis anos depois. Após sua morte, Engels publicou mais dois livros complementando O Capital, os livros teriam sido escritos por Marx, mas não tinham sido publicados;
 Marx viveu em Londres até o final de sua vida, escreveu várias obras e artigos para jornais.

Comentários sobre o quinto momento:
Ficou evidente em toda a vida de Marx, que ele sentia muito rancor em relação a qualquer pensador, a única exceção foi Engels, que concordava sistematicamente com ele e também o sustentava financeiramente. Embora Marx tenha se dedicado intensamente em desqualificar outros pensadores, jamais conseguiu mais notoriedade que qualquer um de seus desafetos. Marx só conseguiu mais notoriedade que seus desafetos, depois que morreu, mas sua fama é resultado da pregação de um idealismo, não é resultado da qualidade de seu trabalho.
A relação de Marx com o socialismo, foi muito mais usando o socialismo para conseguir alguma notoriedade. do que fazendo algo para que o socialismo alcançasse algum objetivo que não fosse os desejos de Karl Marx. Na primeira oportunidade que teve de influenciar um grupo socialista, a Liga do Justos, Marx corrompeu a natureza do grupo, usou o grupo para fazer sua própria revolução, vários membros foram presos e o restante do grupo de dissolveu devido às divergências que se instalaram no grupo.
Quanto surgiu a oportunidade de se envolver com a Associação Internacional dos Trabalhadores (ATI), dedicou-se a corromper a ATI, colocando-a contra os autêntico líderes socialistas, expulsando os líderes e seus seguidores. Mesmo assim, os líderes socialistas autênticos continuaram mais reconhecidos como líderes do que Marx.

4. A pregação marxista nas escolas

O marxismo é pregado praticamente em todos os cursos, se não é pregado diretamente através de alguma disciplina, é pregado por estudantes militantes e veladamente por algum professor. Os cursos chamados de ciências sociais, ou ciências humanas, são utilizados como meio de pregação do marxismo na forma mais explícita, não é exagerado dizer que existe uma idolatria ao Marx sendo praticada em alguns cursos.
Não há nada de errado em estudar Marx, mas o que acontece nas salas de aula não pode ser chamado de estudo, é uma pregação sem qualquer mérito acadêmico. Se Marx fosse devidamente estudado, nos cursos de economia, filosofia e sociologia, certamente Marx não desfrutaria do conceito de gênio, muito pelo contrário sua mediocridade seria conhecida facilmente.
A pregação marxista pode ser verificada em vídeos disponíveis no YouTube. No curso de economia, a pregação é feita nas aulas sobre o primeiro capítulo do livro O Capital, onde não existe nenhuma análise do que Marx escreveu, a aula dedica-se a convencer os alunos da genialidade de Marx. Outros cursos estão sujeitos ao curso O Método em Marx, proferido por um doutor em Serviço Social. O curso do doutor em serviço social está disponível no YouTube e foi gravado quando ministrado para estudantes de pós graduação em Serviço Social.

5. O Método em Marx

O curso tem aproximadamente vinte horas de duração, é dividido em cinco aulas, que está disponível em dez vídeos. Uma parte das aulas é dedicada às perguntas dos alunos, esta parte não está disponível nos vídeos, reduzindo o tempo dos vídeos de vinte horas para quatorze horas e meia. No início do primeiro vídeo, o professor é apresentado aos alunos pela coordenadora da pós graduação, então o tempo efetivo do curso fica em aproximadamente quatorze horas.
A primeira evidência de mistificação está no nome do curso. O método “em alguém” só seria aceitável se o curso fosse sobre alguém que escreveu uma obra referindo ao que é método, Marx jamais escreveu algo sobre o que é ou não é método. O nome apropriado seria “o método de Marx”, mas seria necessário que existisse algum método usado por Marx.
Na segunda aula, o professor ensina o seguinte:
 só se aprende o método de Marx aprendendo a análise teórica;
 em Marx não há uma discussão metodológica autônoma, que permita aprender o modo analítico;
 em Marx não se trata de elaborar uma lógica, trata-se de aprender uma lógica determinada;
 aprender o método marxiano, é apropriar-se da análise marxiana;
 aprender o método de Marx é ler O Capital.
A explicação que o professor dá sobre o método é tão sem sentido como o nome do curso. Se só é possível aprender o método de Marx aprendendo a análise teórica, o curso deveria ensinar análise teórica, ou ser ministrado apenas para quem tivesse aprendido análise teórica. Como a análise teórica não é ensinada no curso e supõe-se que nenhum dos alunos tenha aprendido análise teórica, pois não existe uma disciplina chamada análise teórica, conclui-se que os alunos não estão aptos para fazer o curso que estão fazendo.
O professor encerra os ensinamentos sobre o método de Marx, dizendo que aprender o método de Marx é ler O Capital, o que torna o curso mais sem sentido, pois se aprender o método de Marx é ler O Capital, não existe nenhum motivo para fazer o curso que estão fazendo. O professor volta a falar sobre o método de Marx na última aula, desta vez ele diz que o método de Marx não possui qualquer regra ou norma, que significa exatamente o mesmo que dizer que não existe método nenhum.
Muito mais do que evidente, a mistificação fica comprovada com o uso deturpado das palavras. O professor diz que é necessário aprender análise teórica, quando não existe tal disciplina, análise teórica é algo para ser feito, não para ser aprendido. Os aluno do curso, ou vítimas da mistificação, provavelmente saíram convencidos de que existe um método de Marx, no entanto o suposto método não foi apresentando em nenhum momento.
O professor nem mesmo arriscou dizer que o método de Marx é a dialética, ou “método dialético”, como a maioria dos marxistas costumam dizer. O professor mencionou a dialética durante o curso, mas em nenhum momento explicou o que é dialética. O curso não mostra nenhuma relação com Serviço Social, na verdade o curso mostra que Serviço Social enquadra-se na categoria da “ideologia”, que segundo Marx nada mais é que falsa consciência, não há qualquer motivo para acreditar que algum dos alunos percebeu isto.
O curso foi gravado quando foi ministrado aos estudantes de pós graduação em Serviço Social, mas pode ser ministrado em qualquer outro curso. Infelizmente não há como estimar quantos estudantes dedicaram vinte horas de suas vidas para fazer um curso sobre algo que não existe.
A mistificação é tão grande, que a palavra método é usada de forma totalmente indevida, sem nenhum significado acadêmico. O único significado possível para a palavra método neste caso, seria comportamento, mesmo assim o nome do curso permaneceria um absurdo, pois deveria ser “o comportamento de Marx”, jamais “o comportamento em Marx”.

6. Aula sobre O Capital

O mesmo doutor em Serviço Social, que ministra o curso “O Método em Marx”, também coordena um curso chamado Aulas sobre O Capital de Karl Marx, ministrado por um doutor em economia. Este curso também está disponível no YouTube, a mistificação presente na primeira aula, sobre o primeiro capítulo de O Capital, a mercadoria, pode ser considerada assombrosa, pois quando alguém diz que viu uma assombração, ninguém acredita. Acreditar em assombração é tão difícil como acreditar que seja possível ser irracional sobre o óbvio.
Este curso não apresenta evidências da mistificação no nome, mas as evidências da mistificação começam a aparecer no primeiro minuto do vídeo. A quantidade de evidências da mistificação são tantas neste vídeo, da primeira aula, que torna-se desnecessário fazer qualquer referência às outras. O vídeo começa com o professor fazendo uma apresentação do curso, onde chama de magnífica a obra O Capital. A mistificação torna-se evidente ao colocar a conclusão sobre a obra, antes mesmo de começar a estudá-la.
No minuto seguinte, o professor afirmou que, “de certa maneira, este capítulo condensa toda a questão do método de Marx”. Desta forma, em menos de dois minutos, a mistificação deixou de ser apenas evidente e tornou-se comprovada, pois no curso “O método em Marx”, que é ministrado pelo coordenador deste curso, afirmou que o método de Marx não possui qualquer regra ou norma, portanto não existe qualquer método no sentido acadêmico.
Com cinco minutos e trinta segundos de vídeo, já apresentando a aula propriamente dita, que descontando a apresentação resulta em menos de cinco minutos de aula, o professor afirma que “para Marx nada se define”. Esta afirmação comprova definitivamente a mistificação do marxismo, além de refutar automaticamente toda a obra de Marx, pois se nada se define, nada pode ser estudado. Definir significa indicar o verdadeiro sentido, a significação precisa. Portanto para Marx nada pode ter seu verdadeiro sentido indicado, ou seja, só pode ser mistificado.
Outro ponto importante na apresentação do vídeo, é a seguinte afirmação: “o objetivo de O Capital, é estudar as leis de funcionamento e de desenvolvimento da sociedade capitalista. O ponto de partida vai ser o estudo da mercadoria, por que na sociedade capitalista a produção de mercadorias é uma produção generalizada”. Desta forma ficou estabelecido que a obra de Marx é magnífica, que ela estuda as leis de funcionamento da sociedade capitalista e que a produção de mercadorias no capitalismo é generalizada, ou seja, que o gênio Karl Marx mostra que o capitalismo está errado e portanto Marx está certo.
O professor estabeleceu conclusões pré concebidas, depois afirmou que nada pode ser definido. O professor afirmou que o objetivo de O Capital é estudar a sociedade capitalista e apresenta uma conclusão sobre o capitalismo antes mesmo de iniciar o suposto estudo. Como não há uma definição de capitalismo, para Marx, não há como saber se aquilo que está sendo afirmado sobre capitalismo corresponde ou não ao capitalismo.
Tudo o que for apresentado por Marx estará certo por que não é possível verificar se está errado. Desta forma cria-se uma falsa dicotomia, onde Marx está certo por que o capitalismo está errado, ao mesmo tempo que é um raciocínio circular, pois o capitalismo está errado por que Marx diz que está errado. Para demonstrar a falsa dicotomia, basta criar uma situação hipotética, onde o capitalismo diz que “2 + 2 = 3” e Marx diz que “2 + 2 = 5”, então não importa o quanto o capitalismo está errado, Marx também estará errado e vice-versa, no entanto a mistificação marxista assume que Marx está certo por que parte do pressuposto que o capitalismo está errado.
A suposta aula, ou suposto estudo, começa estabelecendo duas conclusões, Marx está certo e o capitalismo está errado. Como as conclusões foram estabelecidas no começo do “estudo”, tudo o que for apresentado mostra aquilo que já está concluído, sem que haja qualquer definição para verificar se aquilo que está sendo mostrado está correto ou não. Na verdade, o “estudo” nada mais é do que convencer os alunos das conclusões pré estabelecidas.
O professor dedica aproximadamente cinquenta minutos para convencer os alunos de que Marx descobriu, ou criou, um novo conceito de valor. O professor diz que Marx chamou esse novo conceito de valor, mas poderia ter chamado de macaco, que tudo é apenas uma questão de nome. O vídeo analisado não mostra a parte onde o professor explica que a mercadoria, segundo Marx, possui valor-de-uso e valor-de-troca, mas isto é mencionado no decorrer do vídeo.
No vídeo, a aula começa com o professor mostrando que Marx percebeu que o valor-de-troca é relativo e variável, mas percebeu também que isso sugere que o valor-de-troca é casual, e ensina como Marx demonstrou que o valor-de-troca não é casual. Considerando que o valor-de-troca é relativo, então ele não é absoluto, se não é absoluto, então é variável, ou seja, está sujeito à variações. Marx considera que o valor-de-troca pode ser casual, simplesmente por que é variável, sem levar em consideração que variações costumam ser causadas, não costumam ser casuais.
O professor ensina que Marx quer mostrar que o valor-de-troca tem uma explicação, que esta explicação está no interior da mercadoria, que é uma propriedade da mercadoria, que Marx vai chamar esta propriedade de valor (mas poderia ter chamado de macaco). O professor ensina que Marx usou um artifício, Marx eliminou as variações de tempo e espaço, analisou a mercadoria em um instante do tempo e em lugar determinado.
O professor citou a loteria para exemplificar uma situação casual, se a loteria apresentasse uma regularidade nos sorteios, ela não seria casual, ela estaria sendo manipulada. Esta relação com a loteria deixa extremamente explícito o ludíbrio, que será demonstrado depois de apresentar como Marx mostrou que o valor não é casual.
O professor ensina que Marx fez uma lista de mercadorias, que mostra que os valores de uma mercadoria tem relação com os valores das outras mercadorias. Nada mais óbvio que uma relação entre os valores-de-troca das mercadorias, quando foi considerado que o valor-de-troca é relativo, a não ser que seja um relativo sem relação. A lista, que pode ser 1A = 2B = 3C… mostra que há uma igualdade entre as mercadorias, segundo o professor e segundo Marx. O professor ensina que a lista mostra que o que determina o valor das mercadorias da direita na lista, é a mercadoria da esquerda, que isso mostra a regularidade do valor.
O professor prossegue convencendo os alunos de que Marx é um gênio, mostrando para os alunos que, mesmo que a lista seja feita em outro dia, depois que os preços mudaram, ou em outro mercado que pratica outros preços, a regularidade será encontrada em todas as listas. Neste momento o ludíbrio pode ser facilmente demonstrado, usando o exemplo da loteria.
Para mostrar o ludíbrio, basta usar o fato de que a loteria é casual por que os números são sorteados, então os preços das mercadorias também podem ser estabelecidos por sorteio, tornando-os casuais. Desta forma, fazendo a “lista mágica” do Marx, com os preços sorteados no primeiro dia, apresentará a mesma regularidade na “lista mágica” feita com os preços sorteados no segundo dia, ou sorteados em outro estabelecimento. Resumindo, a compreensão de valor que Marx apresenta na “magnífica obra”, não passa de um delírio.
A dimensão da mistificação é tão grande, que consegue até mesmo ultrapassar os limites do delírio demonstrado. O professor ensina que depois de mostrar que o valor-de-troca não é casual, Marx deu à essa propriedade o nome de valor, que valor é um nome que Marx deu para essa realidade que ele descobriu. Neste momento a mistificação delira de forma magnífica, mostrando que a magnífica obra de Marx é na verdade um magnífico delírio.
O valor de Marx é uma realidade descoberta pelo próprio Marx, que tem um significado diferente do valor usado pelas outras pessoas, diferente do valor em valor-de-uso ou valor-de-troca, ao mesmo tempo que Marx substitui a expressão valor-de-troca por valor (o descoberto por ele). Como para Marx, nada se define, ninguém sabe o significado do valor descoberto por Marx, sabe-se apenas que não significa o mesmo que o valor que era usado há séculos pelas outras pessoas. Resumindo, ou delirando, para Marx, valor não é valor, valor é outra coisa, descoberta por ele, que foi chamada de valor.
O professor descreve valor, ele não define, por que para Marx nada é definido, da seguinte forma: valor é um poder de compra. De que forma isso é uma descrição e não uma definição? Uma descrição descreve como alguma coisa é, não diz o que ela é. A mistificação é tão grande, que até mesmo quando define alguma coisa, diz que não está definindo. Se para Marx, valor é um poder de compra, então o que seria o valor dos outros indivíduos, que não descobriram o valor de Marx?
Mesmo antes de existir o mercantilismo, quando existia apenas o escambo, as pessoas usavam seus objetos para comprar outros objetos, cada objeto tinha um poder de compra diferente. Qual seria o nome que as pessoas davam para o poder de compra dos objetos que usavam para comprar outros objetos? Alguém sugere outro nome que não seja valor? Se para Marx, valor é um poder de compra, da mesma forma como sempre foi, então Marx foi a última pessoa a descobrir o valor, até aquele momento. A genialidade de Marx levou apenas uns cinquenta anos para descobrir o valor e morreu acreditando que descobriu algo novo.
A “aula” sobre O Capital, não deixa dúvidas quando à dissociação entre as conclusões, os raciocínios, as premissas e os critérios usados. Como já foi argumentado no livro Refutando Karl Marx, o único método de Marx, é o método dissociativo, ou comportamento dissociativo, uma vez que não há método no sentido acadêmico, apenas no sentido comportamental.
A “magnifica obra” de Marx, mostra a incapacidade de Marx para construir raciocínios lógicos, resultando no comportamento dissociativo das ideias, que não deve ser confundido com dissociação de personalidade. Marx e seus seguidores consideram esse comportamento dissociativo como dialética. O Código Internacional de Doenças, considera a incapacidade de produzir raciocínios lógicos, uma insanidade, ou deficiência mental. Aquilo que o marxismo chama de dialética, a medicina chama de insanidade.

Milton Valdameri

Milton Valdameri, analista de sistema, residente em Salvador (BA), autor do
livro Refutando Karl Marx, que está a espera de uma editora para ser publicado.
Também escreveu outros três livros sobre outros temas, que também estão
esperando pela oportunidade para serem publicados.

Às favas com a Copa do Mundo

A Coluna do Leitor é um sucesso! Não param de chegar textos de pessoas espalhadas por todo o Brasil  que são contra muita coisa que tá por aí , que têm algo a dizer e que encontram aqui, na Reaçonaria, uma caixa amplificadora.  A ideia inicial da “Coluna do Leitor” era de publicarmos um texto por semana mas hoje estamos no 6o dia do portal Reaçonaria e este já é o 3º publicado. Obrigado a todos pela excelente resposta!

Fiquem agora com o texto de Adriano Paranaíba, Mestre em Agronegócio pela Universidade Federal de Goiás. É economista membro associado do Instituto ProEconomia, pesquisador da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de Goiás e Professor Efetivo (EBTT) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG). Neste artigo, uma rápida análise sobre expectativas e resultados prováveis dos ganhos com a Copa do Mundo.

ÀS FAVAS COM A COPA DO MUNDO!

Quando ministrava uma aula de economia em que o assunto era oferta e demanda, eu fui incitado pela turma a usar exemplos empíricos, ou seja, práticos. Como é de minha preferência, busquei um tema polêmico. Seria a Copa do Mundo responsável por uma melhora na economia brasileira antes, durante e depois do evento? Pronto: polêmica lançada!

Os que defendem e esperam que a Copa do Mundo contribua com benefícios para o Brasil e para os brasileiros se apoiam em um aumento da demanda agregada. Demanda agregada é a soma dos gastos dos agentes econômicos. Bem diz Vasconcellos, em um de seus vários livros, que a demanda agregada é realmente mais sensível, mais fácil de ser alterada, e produz resultados mais rápidos a curto prazo que a oferta. A grande parcela do investimento capaz de induzir o crescimento desta demanda pode vir dos investimentos do governo federal na construção de estádios, pontes, melhoria dos aeroportos e rodovias, levando a um ajuste rápido do investimento privado neste sentido. A construção da infraestrutura beneficiaria os brasileiros gerando emprego e renda. Durante o evento, a quantidade de turistas aqueceria o setor do turismo e outros diversos setores da economia e, mesmo após o evento, teríamos uma melhora na qualidade de vida da população em geral, graças à infraestrutura instalada. E assim, nós, brasileiros, viveríamos felizes para sempre.

Gostaria de deixar claro que não estou sendo sarcástico, nem me opondo aos keynesianos e aos neokeynesianos. Somente alerto que a conjuntura que circunda a construção e preparação deste evento está cercada de equívocos e o resultado pode levar senão a alguma forma de catástrofe social, parafraseando Celso Furtado. Desculpem-me a expressão, mas o que vejo está mais próximo de um “pão e circo desconexo” do que de um Welfare State (Estado de Bem-Estar Social).

A construção das obras é dispendiosa e não demonstra que irá aumentar a oferta de bens públicos: a reforma dos aeroportos, atualmente defasados em todos os quesitos imagináveis, poderá, se tudo der certo, conseguir levar os aeroportos a operarem no patamar da capacidade com que já deveriam estar funcionando, correndo sérios riscos de ficarem obsoletos após o evento.

A fortuna gasta na construção de estádios trará grandes benefícios? Onde existia uma Fonte Nova, teremos uma Nova Fonte Nova! Onde tinha um Maracanã, vejam só, poderemos em 2014 ver: um novo Maracanã! E daí? 705 milhões para 76 mil pagantes? O pior é que o atraso das obras cada dia mais caracteriza-as como emergenciais, o que faz com que sejam dispensadas as licitações. Nos telejornais, teremos as notícias de inauguração dos estádios seguidas de notícias de ventiladores caindo na cabeça de alunos em escolas abandonadas às traças.

Contudo, o ponto que mais chama a atenção é a insegurança institucional que se levanta. A lei da Copa, que quase não saiu, já recebe metralhadas das Medidas Provisórias do Palácio do Planalto. Por exemplo, o caso da venda de bebidas alcoólicas: a FIFA pressiona e o Palácio do Planalto cede, demonstrando que os patrocinadores da Copa têm mais força do que a soberania nacional. Ora, após anos lutando por uma lei seca no trânsito, como fazer para os torcedores lembrarem da existência de tal lei e ainda a cumprirem? Mesmo porque, quando o Neymar marcar um gol, tenho a certeza de que ninguém mais vai lembrar quem é o motorista da rodada! Além disso, para cada jogo que o Brasil ganhar, teremos um carnaval inesquecível! Ademais, o Brasil pode até perder, visto que nos dias de jogos da seleção será feriado mesmo e a festa começa antes da seleção canarinho entrar em campo!

Em um país sério, como a Inglaterra, estamos vendo o investimento na construção de uma Olimpíada que deixará a infraestrutura que os londrinos merecem. Quando penso no Brasil, só me lembro das obras dos Jogos Pan-americanos de 2007. Aliás, o Tribunal de Contas da União (TCU) também lembra. Em seu relatório consolidado, produzido pelo Serviço de Coordenação de Redes de Controle/Adplan, foi apontado que “os riscos de aditivos contratuais, sobrepreço, aportes desnecessários de recursos federais e contratos emergenciais são muito grandes, a exemplo das obras do Pan”.

Mais do que ver a população envolvida em discutir se teremos direito ou não à “meia-entrada”, gostaria, neste próximo ano eleitoral, de ver questões levantadas sobre o direito à educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, segurança, previdência social. E aí sim, depois de tudo isso, lazer, para se ter de fato o que comemorar.

Adriano Paranaiba é economista e professor universitário no IFG.

No Twitter: @adrparanaiba

Mais textos de Adriano em http://www.paranaiba.ecn.br/

Texto revisado por @sarubo

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