Coluna do Leitor

@reaconaria

O conforto de estar ao invés de ser

Nosso leitor Samuel Lemos reflete sobre profissão, funcionalismo público, vocação, carreira e empreendedorismo:

Dizem que os judeus nunca pronunciam o verbo “Ser” referindo-se a si mesmos. A razão seria que tal verbo é reservado unicamente ao EU SOU, Adonai. Somente Deus é, ponto. Assim, quando querem definir sua ocupação profissional, por exemplo, os judeus recorrem ao verbo “Estar”. “Eu Estou médico”, “Eu Estou professor”.

Confesso gostar dessa dinâmica verbal, talvez pelo fato de ser (ops!) eu mesmo um descendente de judeus marranos, imigrantes ibéricos para a Terra Brasilis em um passado não muito distante, porém infelizmente perdido em relatos pouco precisos e desconexos na história da família.

Gosto, particularmente, devido à minha atual condição profissional. Sim, no momento em que escrevo estas linhas, ESTOU funcionário público do Governo Federal. Conforta-me profundamente pensar que apenas estou, pois isto me remete automaticamente à ideia de que, um dia (muito em breve, se tudo der certo) não mais o serei; explico.

Num país como o nosso, onde o sonho dourado de 10 entre 10 egressos dos Ensinos Médio e Superior é estar onde estou atualmente – no cortejado Serviço Público Federal –, meu sonho é exatamente o oposto: migrar para a iniciativa privada. Tornar-me um Empreendedor, um gerador de empregos, um pagador líquido de impostos. Parece loucura, não? E é mesmo.

Num país como o nosso, onde é preciso pagar não apenas dois, mas três funcionários para contratar apenas um, é preciso ser muito macho para assinar uma carteira de trabalho. Sem falar na multa e no risco de ser processado caso o funcionário contratado não preencha as expectativas e você resolva dispensá-lo: a Justiça do Trabalho brasileira é exemplo clássico de “cauda abanando o cachorro”.

Num país como o nosso, em que desde pequenos somos ensinados que o lucro é condenável, não algo a ser desejado, mas sim detestado, algo com que apenas os homens mais asquerosos e repugnantes de nossa sociedade procuram, é preciso coragem, estômago e certa dose de paciência para dar a cara a tapa e assumir, com todas as letras, que você quer lucrar, sim, e muito, de preferência. Faltou-nos a dose de calvinismo que tomaram nossos irmãos americanos, quando da fundação de seu país.

Mas, para minha própria sorte, não posso fugir nem negar meus próprios instintos. Meu personagem favorito na infância? Tio Patinhas. O Brinquedo preferido? A Caixa Registradora da Estrela (ou Mattel, não me lembro…).

Desde criança sonho em ser empresário. Ter um grande prédio com meu nome na frente (olá, tio Trump!), entrar num supermercado ou loja de shopping e ver na prateleira produtos que sei que foram produzidos por gente que trabalha para mim. Não se trata de vaidade, embora possa soar como tal. É apenas um desejo, sincero e honesto, de ganhar dinheiro, lucrar bastante e, com isso, ascender socialmente da forma mais honesta que existe.

Capital nada mais é do que trabalho acumulado. Portanto, para quem não herdou fortunas construídas por gerações anteriores da família (caso deste que vos escreve), a melhor maneira de gerar capital é acumulando não apenas o seu próprio trabalho, mas também o trabalho de outros. Como? Gerando empregos, ora bolas! (Se você pensou em escravidão, talvez devesse estar lendo o Socialista Morena ou outro blog de esquerda qualquer…)

Se você também tem o desejo de, como eu, se tornar um empreendedor, parabéns: são pessoas como nós que tornam possível irmos ao supermercado e voltar com papel higiênico, arroz, açúcar, carne, pão e café para levarmos para casa em troca de nossos salários. Se você, por outro lado, sonha com o dia de sua aprovação num concurso público, eu não o julgo. Mas, falando como alguém que já se encontra do outro lado da moeda, eu digo: “estabilidade” é algo tão real quanto um truque de mágica. Num momento você vê, no outro você não vê. Que o digam os colegas dos Estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

Samuel Lemos Moura Bonifácio
@lemossamuel_
Agente Administrativo no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Casado, 26 anos, pai de um lindo menino de 4 meses. Descendente de judeus, seguidor de Cristo. Liberal na economia, conservador em tudo o mais.

A carne podre dos brasileiros

Essa operação da PF nos frigoríficos é sintomática de como as coisas se degradaram nas últimas duas décadas – do ponto de vista moral no Brasil. As operações contra adulteração de alimentos um dia estiveram restritas a casos pontuais, que foram aumentando de frequência e magnitude.

Recentemente, houve o caso daquela quadrilha que adulterava leite até com soda cáustica – o que é especialmente revoltante quando se considera que crianças são os principais consumidores de leite. Ainda assim, eram alguns produtores no interior do Rio Grande do Sul.

A operação de hoje visa a alguns dos maiores conglomerados de produção de alimentos do país – a BRF é uma das maiores do mundo (e a revista piauí fez, há alguns anos, uma excelente matéria sobre a fusão Sadia/Perdigão que talvez explique um pouco do que foi constatado hoje).
Estão avacalhando a comida que milhões de pessoas comem todos os dias – e, pra muita gente que não tem tempo/dinheiro pra se alimentar com carne orgânica de gado angus que ouve música clássica, ou habilidade e esforço pra fazer a própria massa de lasanha com trigo plantado na lua certa, essa comida avacalhada é a alternativa do dia-a-dia. Na cabeça de alguém lá dentro – não faço idéia se isso passa por toda a cadeia decisória, se é uma coisa determinada por alguém, o quanto de sacanagem e maldade há, ou se fazem alguma consideração do tipo “mas se não for assim, a empresa quebra” – deixou de ser tabu vender comida estragada para os seus semelhantes, e eles que se danem. Isso se repete monotonamente no Brasil: entre os políticos (e a choradeira de que estão “criminalizando a política” quer dizer exatamente isso: nenhum se salva e o certo era todos irem presos), entre os criminosos (vide, por exemplo, a onda de latrocínios em Porto Alegre), entre funcionários públicos (vide uma quadrilha que desviava estoques de medicamentos e vendia a clínicas particulares, também noticiada hoje) etc. etc.

O brasileiro é o lobo do brasileiro. No ritmo que as coisas vão, vai ficar complicado sair de casa daqui a pouco – falando literalmente, sem o exagero retórico que hoje já não é tão exagero assim.

Texto publicado por Thiago Pacheco em seu perfil no Facebook.

Festim sinistro

Em seus ataques a Jair Bolsonaro, Reinaldo Azevedo gastou até agora três balas: a primeira é a da “homofobia”, a segunda é a da “misoginia” e a terceira é a do “neoliberalismo”. Não é coincidência que esses termos tão vinculados à nova esquerda venham da pena do autodeclarado direitista mais suspeito do Brasil.

Infelizmente, Reinaldo Azevedo tem um estilo que prejudica a metáfora das balas. Ele emprega os mesmos ataques diariamente, ao passo em que balas são entidades empregadas apenas uma vez. Por outro lado, pelo próprio ridículo do estilo, talvez seja ainda melhor imaginá-lo como um pistoleiro que dispara, vai até o alvo incólume, recolhe suas balas do chão, volta, recauchuta-as, refaz a mira e dispara de novo e de novo até 2018.

A primeira bala é a do “couro” que Bolsonaro daria num filho que começasse a engayzar. É bom lembrar que essa famosa declaração é condicional. A surra nunca aconteceu. O jornalista, no entanto, não só escolhe o peculiar termo “espancamento” para formalizar a gíria “couro”, como deriva daí um repúdio geral e abrangente à classe dos gays. Não é uma conclusão lógica (deusa que Reinaldo Azevedo deixou de idolatrar ao se converter ao Estado-de-Direitismo) que esse pai hipotético sairia também batendo nos filhos dos outros — menos ainda em adultos, desconhecidos e sem relação de sangue, e menos ainda que surraria the gays, como classe, direta ou indiretamente, literal ou metaforicamente, uma vez eleito Presidente da República. Se fosse generalizada, a declaração poderia no máximo render algo sobre a criação de filhos ou a relação entre pai e filho em geral — mas mesmo essa abstração seria inválida.

A segunda bala é a do “estupro” que Bolsonaro defenderia contra Maria do Rosário, no caso de ela não ser tão feia. Quem viu o vídeo da declaração sabe que “Você não merece ser estuprada!” é uma piada de humor negro, cujo único conteúdo com sentido é: você não é pouco feia, não, minha filha. Ocorre que, segundo um famoso lema de Reinaldo Azevedo, “as palavras têm sentido”, e disso parece se seguir de alguma maneira misteriosa que essa piada deva ser submetida a uma análise lógica que não chega a impressionar pelo rigor. Ele não usa o lema somente para afetar intelectualidade; a aplicação principal é precisamente distorcer o sentido das palavras. Quando ele segue o raciocínio de que “se há mulheres que não merecem ser estupradas, logo há mulheres que merecem ser estupradas”, mostra que não tem capacidade para interpretar nem mesmo uma mensagem num nível consideravelmente mais primitivo que o da fina lógica silogística: o da piada de bar.

A terceira bala é a do “Trump dos Tristes Trópicos” — título que esbanja os dotes publicitários que compensam as faltas intelectuais do jornalista. A ideia é que os descontentes com “a classe política”, ou o “estamento burocrático”, ou o “establishment”, não conseguirão “tirar um Trump da cartola” num país com as carências do Brasil. Ou seja, um candidato que se proponha a reduzir o papel do estado na diminuição das carências do país não tem como dar certo. Ninguém nem sabe se essa proposta de Donald Trump é também esposada em detalhe por Jair Bolsonaro (ou Dória Jr., ou Ronaldo Caiado, ou qualquer ser vivo que não seja José Serra, Geraldo Alckmin ou Aécio Neves, nessa ordem), mas essa é sem dúvida uma ideia da direita liberal, que é precisamente a marca que Reinaldo Azevedo parece ter escolhido, depois de anos de indecisão deliberada, para se contrapor ao que ele chama de extrema-direita. Infelizmente para o jornalista, a história mostra que países como Suécia, Alemanha, Inglaterra, Japão e Estados Unidos superaram carências bem piores que as nossas de hoje justamente deixando os mercados mais livres. Fica naquela zona cinzenta entre o risível e o lamentável que Reinaldo Azevedo sempre tenha defendido “enxugar a máquina” sem perceber que esse era o nosso eufemismo para “drain the swamp”.

O mais revelador desse round inicial não é que Reinaldo Azevedo apele para as ideias da homofobia e do machismo, sem perceber que já vão sendo descartadas até pela elite da esquerda mundo afora; desde que ele fez a escolha de falar em “fascismo”, deixou bem claro que não viu a liberal democracy ruindo na sua frente, e que, portanto, perdeu o que ele próprio chama de “capacidade de leitura da realidade”, que não sabe o que é fascismo, e que, portanto, não tem metade da cultura que ostenta ter, e que não tem vergonha, e talvez tenha até certa vaidade, de se misturar com a esquerda universitária nos terrenos da linguagem e da propaganda.

O mais revelador é que ele tenha disparado o balaço do neoliberalismo, ainda que não use e nem nunca venha a usar o termo. Depois de ir contra todas as vozes da direita, de dizer que não sabe muito bem se acredita em Deus, de brincar que “só o Estado de Direito salva” e de se colocar a favor do desarmamento, ele vai dando seus primeiros acenos para um estado provedor também tão típico da esquerda, decerto distante do socialismo “a serviço de uma má causa, mas corajoso” (sic) e mais próximo de uma social-democracia meia-bomba.

Essa é a história de Reinaldo Azevedo, valente pistoleiro do faroeste midiático brasileiro que, depois de ter lutado contra o petismo durante anos a fio, ganhando salvas e mais salvas de palmas a cada tiro certeiro, viu-se de repente sem munição de verdade, vaiado e humilhado pelo público que mantinha pulsante seu vaidoso coração. E eis que se viu cada dia mais cabisbaixo, desconfiado de seu dom e convencido de sua derrota, diante do triste, mas cada vez mais evidente prenúncio de que sua obra, jamais executada pela pura destruição do poder da hora, mas pela retomada do poder de outrora, resultaria em tanto trabalho por nada.

Texto escrito por @zambinos, reproduzido com autorização do autor

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

The Anti-Bolso Lab

O blog de Reinaldo Azevedo foi reduzido a um laboratório de discursos anti-Bolsonaro. Sua tarefa prioritária é testar a cada dia uma nova abordagem até encontrar um tom, uma fórmula, uma coleção de chavões — qualquer coisa que sirva para desmontar a candidatura de Jair Bolsonaro em 2018.

O aspecto laboratorial do seu blog já pôde ser observado claramente quanto à Lava Jato. Um dia acusava a operação de ser ilegalmente rígida nas suas prisões preventivas; outro dia acusava Sérgio Moro de premiar seus delatores com penas muito brandas. E mesmo quando não chegava a ser incoerente, ao menos atirava para todo lado. Quando isso não é sinal de desespero, é sinal de cara de pau. O moto é o mesmo do PT que lutou contra o impeachment de Dilma Rousseff: se colar, colou.

Mas por mais que nosso alquimista já tenha tido a disposição de cultivar briguinhas com Gerald Thomas e Caetano Veloso, é difícil acreditar que o motivo único para sua nova aventura seja a vaidade. O público que o lia já detestava a Folha, o Estadão, o G1 e até a própria Veja, porque aprendeu, com ele mesmo, a identificar o viés sinistro de uma imprensa infestada de jornalistas egressos do curso de Graduação em Esquerdismo. Grande parte desse público se informava pelo blog dele. Por mais que não fosse o veículo formalmente adequado para essa finalidade, para muitos era o que tinha. Até O Antagonista aparecer.

A partir dali, leitores rolando O Antagonista no metrô, enquanto iam ou voltavam do trabalho, almoçavam no quilão ou fumavam um cigarrinho na calçada já absorviam 500% mais informação que pelos modestos “clippings” do blog dele, que, justiça seja feita, não é um blog de notícias, mas sim de “análise”. E foi justamente nessa área que ele sofreu sua maior perda: a da relevância.

Não é só que ele se recusasse, por orgulho, a sobreviver das migalhas que rolassem pela perna midiática da Lava-Jato; é que ele não sobreviveria. Assim como o PSDB foi empurrado para a direita pelo PT pseudossocial-democratizado, Reinaldo Azevedo foi empurrado para a esquerda pelo primeiro site de notícias que efetivamente não cedia uma unha à esquerda, chegando a chamar a ONU de “Petezão Internacional” — com a notável exceção da desastrosa cobertura da eleição de Donald Trump.

A reação dos leitores veio e veio forte, e foi assim que Reinaldo Azevedo passou do orgulho do blog mais lido do Brasil para o orgulho dos leitores “influentes” e “de qualidade”, até chegar, em questão de um mês, na patética afirmação de que não é “likedependente”, para dar conta da chuva de flechas certeiras no seu coração argumentativo lançadas incansavelmente por uma massa do Facebook que ele não poderia chamar de robôs — embora tenha tristemente tentado.

Mas o mais importante vem agora: quem tem os olhos escamados sempre percebeu o tom subserviente, excessivamente respeitoso que ele emprega quando fala do PSDB, como se lidasse com otoridades ou manipulasse finas e roliças peças de cristal. É notável, por exemplo, como ele sempre torceu e espremeu declarações de petistas, cavando faltas desnecessárias, enquanto dispensava descomunais distinção e clareza conceituais aos tucanos, tudo para lhes passar o famoso pano.

Embora nunca tenha parecido tentar disfarçar no estilo, sempre recusou, na retórica, a “pecha” (sic) de tucano. Até recentemente. Outro dia, enquanto batia no peito com a mão fechada afirmando-se direitista, balançava o pé sobre o calcanhar feito o Didi, asseverando que o PSDB não é um partido de esquerda, tudo sem negar o título da seção: “Reinaldo é tucano”.

Se fosse diferente, seria uma inacreditável coincidência que sua intuição, seu senso de justiça, suas “informações” e tudo mais convergissem para que ele concentrasse seus ataques de 2016 em diante quase que exclusivamente na Lava Jato e em Jair Bolsonaro, justamente os maiores obstáculos dos tucanos além deles próprios.

Essa é, aliás, a principal pista de que seu anúncio agourento da volta da esquerda não faz sentido; se fosse verdade, por que ele perderia tempo atirando no cavalo xucro de Satanás?

Mas se nada disso é coincidência, então um candidato “social-democrata nos direitos básicos e liberal na economia” seria igualmente alvo de suas críticas, caso parecesse ameaçar a festa tucana em 2018. Portanto, sua posição é partidária, mas não ideológica — como já haveria de ter ficado claro, dada a incompatibilidade de seus “valores” com os do PSDB.

Até o método de lidar com essas diferenças Reinaldo copia da esquerda: é o velho “tenho minhas críticas”, “temos nossas divergências”, que ele empregou para defender a nomeação de Alexandre de Moraes para o STF; sutis diferenças em pautas menos importantes para alguém ora dito conservador, ora dito liberal, como aborto, drogas, armas e camisinha distribuída no carnaval.

Nesse cenário alternativo, refinadíssimos trocadilhos e buzzwords como “a jornalista que pratica a mais velha profissão do mundo”, “jornalismo de equipe”, “aiatolavo de si mesmo” (sic) e “extrema-direita” não seriam preparados, nem seriam abordados subtemas dos quais ele só trata por terem conexão com Bolsonaro.

Diante de todas essas evidências, resistir à “tese” de que Reinaldo Azevedo é tucano inspira aquela peculiar sensação de ser feito de trouxa por si mesmo, como quando preferimos pagar mais que devemos a questionar a soma, por puro medo de parecermos ruins de conta.

E apesar dessas gritantes evidências, ele continua tentando ludibriar seu próprio público, demonstrando, portanto, desprezo intelectual por ele. Por isso mesmo, quem gosta dele, ainda que com reservas, não apenas é um tucano indireto, que vai precisar rebolar para encaixar seu recém-descoberto “direitismo” na grossa agenda do PSDB. Quem gosta dele tem alma de capacho, é de fato um capacho, um espírito castrado não apenas de coragem, mas também de dignidade, que não vê problema em ser vítima de tentativa de empulhação por parte daquele que admira, ainda que a empulhação não funcione. E isso vale igualmente para quem reproduz termos como “direita xucra”, como se fosse uma jogada genial de xadrez 3D digna de nota no blog do Scott Adams.

Reinaldo Azevedo está acabado. Agora resta à direita cool, movida a droga e dinheiro, aderir a “conceitos” como “pós-verdade” para brincar de debate enquanto 70 mil pessoas morrem de tiro no C* todo ano.

Texto reproduzido com a autorização do autor (siga-o no twitter @zambinos)

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

WTF, Milo?

Coluna do leitor Bruno Luis:

Milo Yiannopoulos


O Que Aconteceu

Se você está lendo esse artigo, provavelmente sabe quem é Milo Yiannopoulos, então não preciso apresentá-lo.

Ontem, o grupo conservador “The Reagan Battalion” resgatou uma participação de Yiannopoulos no podcast “The Drunken Peasants”, de 2016.

No vídeo, Milo diz que jovens descobrem a si mesmos em relacionamentos com homens mais velhos; que podem fornecer segurança e amor, além de ser uma forma confiável para tratarem assuntos que não podem falar com a família.

Após o apresentador dizer que o que ele disse soava como abuso por padres católicos, Milo responde que é grato pelo padre Michael e emenda dizendo que não seria tão bom pensante se não fosse por ele.

O vídeo foi publicado como forma de protesto contra a participação de Milo na CPAC (Conservative Political Action Conference, algo como Conferência de Ações Político-Conservadoras), o evento está marcado para começar essa semana.

Após o vídeo ser divulgado, a CPAC cancelou a participação de Milo, a editora Simon & Schuster disse que irá parar a publicação se seu livro, “Dangerous”, e inúmeras pessoas têm ligado para a redação da Breitbart pedindo uma punição.

Milo Fala

Após a divulgação dos vídeos, Milo escreveu dois textos sobre isso no Facebook.

No primeiro texto, Milo usa 10 pontos para se defender. Nos primeiros pontos, reitera que é contra a pedofilia e que combate isso em seus artigos no Breitbart, inclusive chegou a denunciar três pedófilos.

Milo também diz que resolveu tratar seu abuso com humor e que a “National Review”, um dos primeiros a escrever sobre o vídeo, defendeu Salon (um site progressista) por servir de plataforma para pedófilos.

No tópico 6 de seu post, Milo confirma que disse que um relacionamento entre jovens e homens mais velhos pode sim ser benéfico para o mais novo, fornecendo suporte que não encontra em casa. E que sua fala era sobre relacionamentos ilegais e menores pré-púberes.

Seguindo, no tópico 8, Milo diz que escolheu a palavra “boy” erroneamente e que se referia a meninos com idade o suficiente para praticarem sexo consensual, dizendo que na Inglaterra é a partir dos 16 anos.

No segundo texto publicado, Milo reitera que é contra a pedofilia e que é contra o sexo com garotos de 13 anos e que só se referiu à essa idade porque foi a idade que ele perdeu a virgindade.

Ele diz que lamenta por ter achado que, por ter sofrido abuso, poderia falar o que quisesse sobre o assunto.

Minhas Considerações

Desde que o conheci, eu me identifiquei muito com Milo Yiannopoulos, não só por nossas visões políticas serem parecidas, mas pelo sarcasmo, ironia e acidez. Vou além, Milo serviu para mostrar que a direita não é contra homossexuais, como a esquerda vive pregando.

E confesso que fiquei sem palavras ao ver o vídeo ontem. E muito decepcionado.

Ao falar sobre sua experiência, Milo abriu a interpretação de que menores consentem com abusos sexuais. O que, obviamente, não é verdade.

Yiannopoulos defende e incentiva o relacionamento entre jovens e homens mais velhos dizendo que será vantajoso para os mais novos e dá a entender que pedofilia é só com menores pré-púberes.

Essa aceitação da prática de sexo com menores em fase de puberdade é um dos argumentos da esquerda na defesa de pedófilos e também sou contra criar uma idade base para que o sexo consensual seja permitido porque cada jovem tem seu tempo para se desenvolver.

E é absurdo um jovem que não pode beber e dirigir ser incentivado a transar.

Durante a época das eleições, Milo se referia ao (então) candidato Trump como “president daddy” (papai presidente) em alusão a uma “subcultura” gay (odeio esse termo) onde homens mais novos se relacionam com mais velhos, esses casais são conhecidos como “daddies and boys”.

Ele diz que não deveria ter usado a palavra “boy” porque alguns heterossexuais não entenderiam. E foi talvez uma boa desculpa.

Dentro do universo gay, “boy” não se refere à crianças, mas a jovens adultos (outro termo que odeio), a partir dos 18 anos e relacionamento entre jovens e mais velhos não são estranhos nesse universo.

Eu, particularmente, só me relaciono com caras mais velhos porque me sinto atraído sexualmente e intelectualmente.

Porém, não defendo e combato a ideia de que adolescentes devam iniciar sua vida sexual na puberdade, principalmente com pessoas mais velhas. Defender essa posição me faria defender meninas que são abusadas após a primeira menstruação. É absurdo.

Eu acredito que Milo abriu sim uma brecha para defesas de pedófilos ao incentivar o sexo entre púberes e homens mais velhos, não dá pra estipular uma idade onde a criança ou adolescente já está preparada fisicamente e com maturidade para a prática de sexo. E isso me decepcionou muito.

Além de ter dado mais uma oportunidade para os ignorantes associarem pedofilia à homossexualidade.

Enquanto homem gay, ser associado à pedófilos é constrangedor e algo que me deixa realmente mal, sendo um dos principais fatores na minha luta contra a militância.

Eu entendo o que o Milo disse e condeno o discurso, perdi um ídolo e não sei o que acontecerá com ele daqui pra frente.

Também quero dizer que, obviamente, o discurso do Milo não representa a visão dos homossexuais.

Obrigado.

Fontes

https://youtu.be/azC1nm85btY

https://twitter.com/ReaganBattalion/status/833548107241648129

http://www.nydailynews.com/news/national/video-shows-milo-yiannopoulos-speaking-fondly-pedophilia-article-1.2977071

https://mobile.nytimes.com/2017/02/20/us/politics/cpac-milo-yiannopoulos.html

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=851263248344905&id=423006854503882&refid=52&_ft_=top_level_post_id.851826321621931%3Atl_objid.851826321621931%3Athrowback_story_fbid.851826321621931&__tn__=%2As

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=851826321621931&id=423006854503882

Coluna do leitor: 8 motivos para defender a liberdade de acesso a armas de fogo

Nosso leitor Carlos Alexandre Corrêa Wengerkievicz enviou um e-mail com a mensagem que mandou aos deputados para que eles se posicionem contra o desarmamento.

Boa tarde, amigos da Reaconaria.

O e-mail encaminhado abaixo foi enviado aos nossos 511 deputados elencando 8 motivos para defender a liberdade de acesso a armas de fogo e apoiarem a Frente Parlamentar Armas pela Vida, que defenderá a aprovação do PL3722.
Os 8 motivos elencados também são um resumo de várias leituras que fiz sobre o assunto.
Caso queiram ajudar a divulgar a campanha pela adesão a esta frente parlamentar, a lista de emails dos deputados está listada aqui.

“Prezados parlamentares,

Boa tarde.
Escrevo este e-mail após tomar conhecimento da criação da frente parlamentar “Armas pela vida”, com o intuito de expressar meu apoio.
Eu costumava ter uma posição desarmamentista, inclusive chegando a pedir ao meu pai que entregasse suas armas na época da aprovação do Estatuto do Desarmamento.
Após tomar mais conhecimento sobre o assunto, lendo obras nacionais e estrangeiras sobre controle de armas como as de Bene Barbosa, John Lott, Dana Loesch e Joyce Lee Malcolm, além de diversas peças de opinião de autores diversos, alguns pontos ficaram bastante claros para mim. Gostaria de compartilhá-los rapidamente convosco:
  1. Leis de controle de armas não funcionam para combater o crime: O Estatuto do Desarmamento foi proposto com o propósito de reduzir homicídios. O que se vê hoje é uma taxa anual de homicídios de 30 por 100 mil habitantes, o triplo do limite de violência epidêmica da OMS. Isso não é novidade. Alguém disposto a matar o fará com ou sei leis de restrição a armas de fogo. Homicídios também são proibidos por lei, e mesmo assim criminosos os cometem. Por que então eles obedeceriam uma lei de controle de armas? Leis de restrição a armas apenas tornam mais vulneráveis aqueles que as obedecem.
  2. Armas são poderosos instrumentos de defesa: Segundo um ditado, “Deus criou os homens, Samuel Colt os fez iguais”. Uma arma de fogo é uma das poucas coisas que equilibra o confronto entre indivíduos de portes físicos diferentes. Uma dona de casa que se depara com um invasor ou que é abordada na rua por um “valentão” tem numa arma de fogo sua última linha de defesa a que pode recorrer. Sabemos que segurança pública é função da polícia, e apoiamos totalmente, porém sabemos que é impossível por definição que a polícia impeça todos os crimes. Nos EUA, pesquisas indicam que armas de fogo são usadas de 60 a 80 vezes mais para defesa do que para cometer crimes. (http://gunowners.org/fs0404.htm).
  3. O brasileiro tem condições de possuir armas de fogo: Muito se fala que o Brasil viraria um caos caso o porte ou a posse de armas fosse facilitada, que haveria uma avalanche de crimes passionais. Pois bem, o porte era permitido ao cidadão comum até 2003, e nem por isso nos matávamos adoidadamente no trânsito. Caos é o que há hoje. Note-se também que aqueles que citam crimes de motivo fútil como a maioria dos homicídios atuais omite que apenas 8% dos homicídios são esclarecidos.
  4. O brasileiro quer possuir armas de fogo: Seja nos canais de comunicação da câmara ou em enquetes nos meios de comunicação, o apoio à flexibilização das regras para obtenção de armas de fogo tem sido massivo, como já foi no referendo de 2005, em que DOIS TERÇOS dos eleitores rejeitaram a proibição da venda de armas de fogo. Isso por si só já deveria ser suficiente para para convencê-los, caros representantes da vontade popular.
  5. Um mundo sem armas não seria pacífico, mas tirânico: Parece ótima a ideia de um mundo totalmente sem armas, ainda que utópico, visto que criminosos sempre encontram uma maneira de obtê-las. Um mundo assim, entretanto, tenderia rapidamente à tirania do mais forte, que não encontraria resistência à altura de sua brutalidade.
  6. O direito de possuir armas garante todos os outros direitos: Os americanos defendem com unhas e dentes sua Segunda Emenda da Constituição, que diz “Sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser infringido.” Esta emenda permite que o indivíduo se proteja de ameaças internas e externas à sua liberdade. Não é de se espantar que eles nunca sofreram uma ditadura.
  7. A decisão de reagir a uma ameaça deve ser apenas do indivíduo: Muito se discute se ou quando devemos reagir a uma ameaça. No fim das contas, essa decisão cabe exclusivamente ao indivíduo. É a vida dele que está em risco, tanto pela ameaça quanto pela reação. Quantas manchetes já vimos de bandidos que matam mesmo quando a vítima não reage? Se a pessoa conclui que o melhor para sua sobrevivência é reagir, que o estado não a condene à morte. Que ela tenha os meios de proteger sua vida e dos seus.
  8. Se o controle de armas causa mais mal do que bem, porque adotá-lo? Essa é uma pergunta que eu não consigo responder. Discussões sobre restrições a armas de fogo frequentemente fogem do assunto para o tema “deve-se ou não reagir”, mas este não é o foco do controle de armas, isso quem decide é a vítima, e só ela. O foco deveria ser: “Leis de restrição funcionam para reduzir o crime?” ou ainda “Faz sentido possuir leis restritivas de controle de armas?”
São estas as reflexões que ofereço hoje aos senhores, ainda que pudesse elencar diversos outros motivos.
Que Deus os dê sabedoria, entendimento e tranquilidade para decidir sobre a questão.
Obrigado por sua atenção.
Carlos Alexandre Corrêa Wengerkievicz
Referências:
Flavio Quintela, Bene Barbosa. Mentiram para mim sobre o desarmamento. Vide Editorial, 2015.
John Lott Jr. Preconceito contra as armas. Vide Editorial, 2015.
Dana Loesch. Hands off my gun. Center Street, 2014.
Joyce Lee Malcolm. Violência e armas. Vide Editorial, 2016.
Gun Owners Foundation. Gun Control Fact-Sheet 2004. Disponível em <http://gunowners.org/fs0404.htm>, acesso em 22/11/2016.
 Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

Resumo da primeira prova do ENEM 2016

Novamente, o médico e advogado Sergio Nunes faz um comentário sobre os temas da primeira prova do ENEM.

Publicado originalmente em https://www.facebook.com/sergio.nunes.545/posts/1598101113548721.

ANÁLISE DO ENEM 2016

Para manter a tradição, fiz mais uma vez a análise do Enem, especialmente da Prova de Ciências Humanas e suas Tecnologias, na perspectiva político-ideológica. Em termos gerais a prova mantém seu viés anticapitalista, antimercado, ambientalista, antiglobalização, com menção a autores marxistas, e mantendo o grande problema de não abrir espaço para o contraditório, para autores de linhas opostas.

No entanto, houve uma discreta queda na abordagem parcial, um leve aumento de questões neutras, e uma leve melhora nos citados da linha esquerdista; um tipo de maquiagem tênue.

Assuntos:
– Contra a democracia deliberativa, contra negociação e consenso, a favor de ativismo de minorias que não faz concessão
– A favor do expansionismo chinês, contra visão ocidental
– Defende a visão trabalhista do Estado Novo
– Critica tecnologia industrial como fonte de desigualdade
– Questões sobre ambientalismo
– Questão afirmando uma coerção econômica que tolhe a liberdade
– Crítica contra expansão da fronteira agrícola
– Questão afirmando que a força de trabalho é equiparada a mercadoria
– Crítica a visão eurocêntrica
– Questão sobre feminismo
– Questão sobre “função social da cidade”, como crítica capitalista
– Fala corretamente contra as ditaduras sul-americanas, no entanto quando menciona perseguição de oposicionistas, não menciona terrorismo e guerrilha na contraparte que buscava outra ditadura
– Pontos de evolução: menciona em uma questão avanço técnico das telecomunicações, expõe graves sinais de simpatia ao nazismo e anti-sionismo no Brasil no período do Estado Novo.

Autores mencionados ou citados:
– Adorno e Horkheimer (ícones marxistas da escola de Frankfurt)
– Karl Polanyi conhecido por sua oposição ao pensamento econômico tradicional, na vertente heterodoxa
– Francisco de Oliveira, sociólogo cujas teses de seu livro famoso criticando a razão dualista, era baseada no marxismo e teses da Cepal
– Henrique Padrós integra(ou) conselho revista História & Luta de Classes, escreveu artigo sobre a esquerda tolerante do Uruguai (Frente Ampla)
– Dulce Pandolfi, ex-membro da ALN, diz sobre o discurso de Dilma no Senado: “Foi um discurso histórico, de uma estadista, que vai marcar a história desse país”. Aparece ostensivamente em foto com Lula.
– Porto-Gonçalves que tem foco em pesquisas de conflitos agrários, movimentos sociais, causas indígenas, crítico do neoliberalismo
– Rogério Haesbart, que aparentemente não se julga parte da geografia crítica, mas critica lógica capitalista, tem posições com base em autores como Marx, Gramsci, Harvey, Foucault
– Rachel Soihet, fala sobre feminismo e violência de gênero
– Marta Abreu, fala sobre “pós escravidão”

Autores de abrangência geral/universal ou então mais neutros (com aumento em relação a prova de 2015):
– Schopenhauer, Políbio, Descartes, Heráclito, Parmênides, Shakespeare, Nietzsche, Durkheim, Hans Jonas.

Em síntese, mantém-se uma visão particular estreita, sem abrir espaço ao contraditório, sem desenvolvimento de visões diferentes, no entanto com leve amenização; deixando desta forma a prova de 2015 ainda mais catastrófica.

Minha breve análise de 2015: http://reaconaria.org/colunas/colunadoleitor/resumo-da-primeira-prova-do-enem/


Sergio Nunes, 40, é formado em Direito pela USP e em Medicina pela Santa Casa de São Paulo e Mestre em Direito Econômico. Atualmente, é professor da Academia de Polícia de São Paulo e palestrante eventual da Escola Superior de Guerra.

 

Limpando pichações abortistas

foto01No dia 15 de outubro, um pequeno grupo de cidadãos de Campinas se reuniu para uma tarefa de limpeza: apagar pichações que ensinavam a fazer um aborto. Leiam o relato de Gabriel Vince, que organizou a ação. Espero que inspire outras pessoas a seguir este exemplo e agir.

Uma das coisas que mais impressionam na esquerda radical é a militância pelo aborto e sua eficiência na lavagem cerebral de seus seguidores. Conseguir que dediquem tempo, recursos e, em alguns casos, a própria vida a uma causa que desafia a própria natureza é espantoso.

Em minha cidade, Campinas, membros de coletivos feministas espalharam pelas ruas pichações que orientavam às mulheres como fazer um aborto.

Dispostos entre as receitas de como assassinar crianças no ventre, slogans evocando sororidade. Ausente nos dicionários de língua portuguesa, mas corrente entre a militância, a palavra remete a uma espécie de pacto entre mulheres baseado na empatia e no companheirismo. Empatia, pelo dicionário Aurélio, é a “tendência para sentir o que sentiria, se estivesse em situação vivida por outra pessoa”. O sentimento de empatia permite que sintamos as dores do próximo como se fossem nossas. Podemos, então, assumir atitudes para diminui-las, como faríamos se fossemos nós os sofredores. É por meio da empatia que exercemos a caridade. A caridade entre a militância feminista se expressa pelo incentivo à morte.

Sabemos dos pesares e dificuldades que podem acometer mulheres grávidas: rejeição familiar, abandono do cônjuge, falta de recursos. Diante dessas dificuldades, oferecer dinheiro, lar e apoio não são alternativas. Para acabar com os percalços por que poderiam passar as futuras mães, o conselho é simples: acabe com a vida. Um bebê morto não te acordará a noite, não precisará de fraldas, não exigirá que você desista de ir a uma festa e nem que pare seus estudos por um tempo. A solução parece simples; caso esteja sem recursos, é muito provável que as ‘manas’ te emprestem, contanto que os use para comprar medicamentos abortivos. É óbvio que ninguém vai se oferecer para pagar seu pré-natal.

Elas provavelmente não irão te informar sobre os estudos que relacionam o abortamento à depressão, observada em 60% dos casos, segundo a pesquisadora Mariana Gondim Mariutti Zeferino, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, nem alertar para o fato de que mulheres que passam por um aborto induzido têm 44% mais chances de desenvolver câncer de mama do que aquelas que nunca passaram pelo procedimento. A aliança estabelecida não tem como fim a vida das mulheres, sua saúde e bem-estar futuros. As feministas se associam em razão de uma causa, não umas pelas outras como seres humanos que sentem dores recíprocas e se oferecem ajuda. Na moralidade da revolução, oferecer a pessoas desesperadas uma solução criminosa com conseqüências inestimáveis é empatia e companheirismo.

O ato

A idéia de fazer o ato para apagar as pichações surgiu uma semana antes, enquanto passava pelo Centro da cidade. Comuniquei alguns amigos do Facebook sobre a presença de dois desenhos que ensinavam sobre o uso correto de um medicamento abortivo, um remédio tarja preta utilizado no tratamento de úlceras.

O principal componente desse medicamento é o misoprostrol, substância responsável por bloquear a ação da progesterona, hormônio produzido pelo corpo feminino que estabiliza o revestimento do útero. O enfraquecimento do tecido provoca a interrupção do suprimento de sangue para o bebê. Durante a gestação, a respiração é realizada através do sistema circulatório. É por isso que, neste caso, o bebê morre sufocado. A segunda parte consiste na remoção física da criança. Para isso, o medicamento abortivo em questão provocará contrações, cólicas e forte sangramento no útero. Esses mecanismos forçam a eliminação dos restos mortais, posto que fragmentos remanescentes podem provocar infecção e hemorragias. Algumas mulheres podem apresentar sangramento por mais de 30 dias após o abortamento.

Para esse trabalho, contei com o apoio dos amigos Luis Fernando Waib, Aldo Siqueira e Cíntia Salles, que se despuseram a ajudar com a doação de tinta, pincéis e trabalho. Sábado (15), nos encontramos na Catedral Metropolitana de Campinas e partimos para os locais determinados. A primeira pichação estava a pouco menos de 100 metros e a outra foi desenhada nas paredes de uma igreja evangélica, ao lado do prédio da prefeitura municipal da cidade.

Enquanto pintávamos as paredes, fomos interrompidos por duas mulheres, que nos agradeceram. Uma delas, inclusive, indicou a localização de outras pichações de mesma natureza. Sua atitude não contraria o esperado. Segundo o Datafolha, 87% dos brasileiros consideram a prática do aborto “moralmente errada”; entre as mulheres, esse número é ainda maior, chegando a 90% para as que possuem 41 anos ou mais. A mesma pesquisa revelou que pais de meninas adolescentes apoiariam que elas “mantivessem a gravidez em qualquer situação”; entre as mães, o número salta para 88%, enquanto 20% dos pais recomendariam que ela “tivesse o filho e se casasse com o pai da criança”. No caso das mães, esse número cai para 10%. Apenas 1% das pessoas aconselharia o aborto em qualquer situação. Os dados nos permitem concluir que, mesmo em situações consideradas socialmente indesejáveis, o brasileiro médio, tido por machista, preferiria que sua filha adolescente e solteira mantivesse a criança, porque considera o aborto imoral, rejeitando-o em proporção semelhante ao roubo e à corrupção.

O que podemos concluir?

O feminismo é um movimento restrito e político, que não defende os direitos femininos e não representa o desejo da maioria das mulheres.

Diante dessas verdades, aconselho a todos que se opõem à cultura da morte que organizem atos semelhantes. Eles têm o apoio da população e, sobretudo, das mulheres. Nós somos a maioria.


Gabriel Vince

 

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